24/03/17

MEMÓRIAS DE UM POETA OBSCURO


A noite passada, para mim, não foi muito frutuosa; escasso no que escrevi apesar de a ter passado quase em claro. Hoje, eis-me aqui sentado, novamente, à espera da meia torrada de pão de cereais e da meia de leite, nesta mesa atafulhada de chávenas de café vazias que a empregada ainda não teve tempo de retirar. Exíguo é este espaço a que alguém concedeu o favor de baptizar com o pomposo nome Estrela-do-Mar. Assim me disponho a rabiscar qualquer coisa apenas para matar o tempo, enquanto a torrada vem e não vem. Confesso que nem sei bem o quê, embora tal me não aflija - o fim é apenas fazer passar mais depressa estes sessenta minutos que me separam das obrigações que me comprometi desempenhar nestes dias pós-reforma, que parar é morrer.

Trago sempre um livro comigo: ontem, O Mendigo e Outros Contos de Pessoa, a 1.ª edição de 2012 da Assírio & Alvim, com uma nota introdutória e muito esclarecedora de Ana Maria Freitas; hoje, o que me acompanha, é Photomaton & Vox, de Herberto Helder, a 5.ª edição  de 2013, da mesma editora, revista e aumentada. Sou leitor inveterado deste poeta, que admiro, sem saber muito bem porquê. Talvez, porque não o entendo - sem medo de que me chamem ignorante, o digo. E confesso: desde a primeira publicação dos dois volumes de Poesia Toda, até à Letra Aberta (o último que adquiri em 2015, já ele não estava, em corpo, entre nós), perdi apenas o Servidões, publicado em 2013 numa edição única; mal a editora o anuncia (o anunciava, que as actuais edições não passam de repetições e perdi a vontade de as adquirir, já estou (estava) a reservar a obra na "minha" livraria habitual. É já a segunda leitura que faço ao Photomaton & Vox e persisto em lê-lo como se fosse contemplação. A propósito, escreve ele a páginas tantas «que a melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta.» (Marilyn Monroe dixit); e acrescenta, de seguida em palavras suas, que «talvez a forma eleitamente apocalíptica e luminosa de escutar a poesia seja de helicóptero.» Doce ironia - penso eu. Não! Herberto Helder não ironizava. Era sisudo, demais, para ironizar. Abria-me os olhos para a interpretação da sua obscura poesia. Da sua e dos demais, embora nenhum dos poetas obscuros, que nunca o pensaram seguir - por saberem  da incapacidade de tal -, se lhe assemelhou na sua forma de escrever poesia.

Nos versos do poema ocultava (oculta - que «O poeta nunca morre embora seja agreste / A sua inspiração e tristes os seus versos» José Duro in FEL (poema DOENTE), àqueles que o leem (ou não leem, que são mais os que se pronunciam, por uma questão de vaidade, de orgulho mal disfarçado, como lendo-o, sem o ler, sem o conhecer, sem o saber) do que aqueles que, lendo-o, em boa verdade não o conhecem, não o sabem, mesmo lendo-o, tal a dificuldade em o entender. A mim, confesso-o, difícil me é entendê-lo tal a dificuldade da interpretação dos seus versos: tão obscuros são, tão difíceis de entendimento, quanto de conhecimento do poeta e do homem que durante a maior parte da sua vida viveu longe do mundo e dos acontecimentos, quase como um asceta. Era um eremita solitário e oculto no seu altar poético e contemplativo que, quando saía da sombra para a luz, obscurecia, como se fosse divindade, todos os outros poetas. É quase certo que muitos dos "admiradores" à sua passagem ao eterno nem sequer terão lido, alguma vez, o poeta, porque a sua poesia obscura logo afastava os aventureiros leitores ao alvorecer dos primeiros versos.

Eu aprendi a lê-lo mas nunca a compreendê-lo, por falta de capacidade minha em conseguir entrar no emaranhado «amanhecer-anoitecer» da sua escrita, profundamente estruturada à base de metáforas que, muito provavelmente, nem ele as entenderia lidas para além do momento em que as escreveu. Este mestre de si próprio, que nos deixou - faz dentro de dias (a 23 de Março) dois anos -, na incandescência do seu verso e na exaltação do seu verbo, inventou-se a si próprio nas palavras abruptas com que erguia o verso com que fabricava o poema, nas palavras abruptas que escrevia «por clarões súbitos» (como alguém disse), em impulsos e por impulsos do tempo sem seguir regras, muito menos o ensinamento de qualquer mestre que não teve.

Difícil se me torna falar deste mestre sem Mestre, fiel à regra da obscuridade talvez para mitigar a sede da diferença, talvez para se mitificar a si próprio no eu-poético, diferente de qualquer outro que igual a si não houve nos séculos que o antecederam. Mestre de si próprio, pela diferença do saber usar os signos literários como ninguém nesta sua maneira obscura e difícil de se dar aos leitores e poetas do seu tempo, impediu, que o transformassem no seu mito, desmoralizando-se aqueles  que por aí vão fazendo tentativas de imitar o Mestre, tentando usurpar-lhe a sua maneira de escrita. Inimitável será, sempre, o Mestre do verso incandescente que vibra à sombra da obscuridade.

© Alvaro Giesta
(texto escrito a 20 de Março de 2017)


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