15/05/17

PARA ALÉM DAS PALAVRAS

- prolegómenos ao fenómeno imagético na poética de Fernando Lobo (assim dei por título a esta especulação de leitura, do pouco que me foi facultado para ler e apenas pelo autor na obra «... no corpo do tempo»).

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Começo esta leitura crítica da poética de Fernando Lobo, com uma "espécie de recado" aos três intervenientes no processo da escrita: o autor, o leitor e o editor.

Eis o eterno dilema dum escritor ou poeta que o deseje ser numa perspectiva literária e inteira:
-       Quando escreve, seja prosa ou poesia, tem que ter em mente que o mais importante é interessar o leitor. Seja em que tempo for, sem o sujeitar a modas e sem impor ao leitor o seu gosto pessoal; seja hoje, amanhã ou daqui a cem anos.

Há por aí muitos poetas que dizem que, quando escrevem, para si próprio o fazem. Nada mais falso. Isso é utopia... às vezes vaidade encapotada com a falsa modéstia. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, ainda que temporariamente, sem o diminuir, escravizando-lhe a atenção para que lhe gabe a escrita ou, doutro modo, escrevendo à medida do leitor que pretende lisonjear, recebendo, como moeda de troca, igual galhardete. Se assim for, diminui o leitor comum que o lê, e desprestigia-se, a ele, como escritor. Se assim for, apenas ao "seu leitor", que o bajula, interessa o "produto" que lhe impinge, rejeitando-o o leitor inteligente e criativo.
Quando o leitor comum, e não aquele "seu leitor", abre o livro que tem nas suas mãos e se dispõe a lê-lo, não é a ele que compete decidir se o vai ler até final. Não. É ao escritor, ao poeta, ao autor compete levar o leitor até ao termo do livro, através da sua arte de escrita.
Aqui, na acção do autor que talha o objecto da sua arte, é que difere a boa leitura da má. Mas, os leitores também têm algo muito importante a dizer no seu acto de leitura. E é isto que faz com que haja muito mais literatura má, do que literatura boa.
O leitor tem sempre o direito de escolha e de oposição. Tem sempre o "poder" de poder dizer se aquele livro lhe serve ou não, lhe agrada ou não, o prende ou não à leitura. E compete-lhe abandoná-lo no primeiro contentor do lixo que encontra ao dobrar da esquina. É o papel ingrato do escritor que não tem como cobrar ao leitor o seu acto de rejeição. O escritor está sempre amarrado de pés e mãos ao leitor. É o escritor que é prisioneiro do leitor que deve ser bom leitor, inteligente e criativo leitor, que deve comprometer-se, com honestidade, com a sua boa leitura para não enganar aquele que escreve mal (muitas vezes que se diz seu amigo do peito) fazendo-o pensar que é um bom escritor, o que acontece em mais de 50% dos leitores.
São eles, esses maus leitores que também se dizem críticos, muitas vezes com responsabilidades académicas, acrescidas pelo "canudo" que dizem terem defendido em tese universitária e prémios que ostentam, são esses maus leitores-críticos muitas vezes empurrados pelos negociadores editoriais, que trazem enganados os maus escritores, fazendo-lhes crer que "são bons" enquanto lhes interessa aos fins que têm em vista, relegando para segundo plano outros que, esquecidos propositadamente e por incúria e culpa, também, dos editores, que deixam de os promover, poderão ficar esquecidos na cinza do tempo, por tempo sem fim, ou até que a dedicação de outros espíritos os compreendam e se lhes dediquem em estudo, porque lhes reconhecem, finalmente, valor.


Após este intróito, debrucemo-nos sobre a poesia do autor, em apreço:
A poética de Fernando Lobo não é coisa simples de entender, como convém, aliás, à poética que se pretende literária. É que não é poeta quem quer, mas sim aquele que nasce com a veia e sabe cultivar a palavra, usando os artifícios necessários à especulação do fenómeno poético, pela organização de imagens em associações criativas, dando o essencial significado à poesia.
A exuberância do verso e do verbo, mais que a densidade da obra, a imagética metafórica com que lavra o verso, que prolifera em mil hipóteses exploratórias e inquietas ao longo do poema que se enraíza no todo da obra - metáforas quase em excesso, dizemos nós, leitores atentos -, esta metapoética habilmente construída, este enredado urdir do verso neste fenómeno poético, às vezes num processo circular, como se fosse numa digressão ao tempo, sempre com a ideia de retorno ao princípio exploratório, é que confere o verdadeiro valor literário à obra. Mais que a nebulosidade da escrita mercê da capacidade inventiva do autor, que contribui para a dificuldade de entendimento do objecto poético, é a ânsia da descoberta do que está por detrás de cada palavra metaforizada - isto não desmerece o autor mas, sim, enaltece-o, quiçá em desfavor do leitor que, com algum ensejo de leitura de natureza crítica, receie não lhe prestar os louvores merecidos.
[Foi o que me aconteceu a mim. Devo confessar que me foi muito difícil compreender a intenção das obras, mormente o título " No Corpo do Tempo", se bem que a cada leitor é permitido especular a obra, e da obra do autor e ter a sua interpretação, especialmente quando a obra é metaforicamente poetizada. Cheguei a pensar que me começavam a faltar os atributos necessários para entender obras que falam pela subjectividade, que dizem pela liberdade poética do autor. Também não é menos verdade que cada autor e leitor tem para si, da obra, sua opinião própria e seu entendimento, e que nenhum é igual ao outro. Nasceu-me a coragem necessária para esta "opinião" que não pretende ser crítica literária.]
O poeta, em "No Corpo do Tempo", como se fora o "citadino" vulgar, "um pedaço de tecido urbano", tal malha da vestimenta do tempo e no tempo, vê-o com a inquietude própria das inquietações (passo o pleonasmo) desse tecido urbano que busca no tempo um tempo-outro, regenerador e regenerativo dos sentidos e dos sentires - é a alma do poeta em expectância pela chegada do novo tempo. Como ele diz "nasce em mim a necessidade balsâmica / de alcançar os olhos da carne / nos remanso das falésias". Este contraste evidenciado na imagem do remanso das falésias, é como se fosse o regresso ao tempo-passado, com esperança de projecção no e num tempo-futuro, que se adivinha íngreme, porque nenhuma subida é suave; talvez seja até o tempo histórico, a fonte regenerativa onde o poeta renasce (re+nasce) fortalecido pelo balsâmico som do tempo - a tal necessidade balsâmica das falésias, que sendo de difícil escalada são também o bálsamo - como se fosse "matiz litúrgica" a dar alívio à alma do poeta citadino que se sente "engolido" e aprisionado "pela monotonia / e pela consciência do tempo dos campos", o tempo da ampla liberdade sem escalas e sem fronteiras ou limites.
É a inevitabilidade do tempo do poeta como se fosse a procura do tempo primordial, que a memória teima em recordar e a vontade quer ser e ter. Sempre o inevitável tempo: o tempo actual perdido (mas presente) no "ciclo das rotinas". E o tempo passado, o tempo das horas, confundido "com a passividade (...) dos homens" a inventar o sonho - "sonhos" que sejam capazes de vencer "a fúria / das tempestades". Esse tempo que o poeta compreende e dá a conhecer na sua maneira metafórica de o contar pelo tempo das horas do relógio, mas não aceita - parece recear "que o outono venha mais cedo / quando o verão" ainda existe no corpo do poeta.
É a inevitabilidade do tempo-matéria, sem remissão, como o corpo do homem que segue inapelável o seu destino. O tempo: um itinerário de ventos, de memórias, de passos soltos na vida - vestígios de ontem, hoje e sempre, como se fossem fantasmas solitários, erguidos contra as vozes de silêncios perturbados. E o homem-poeta, exausto, cansado e obscuro mas sempre obstinado em dizer do tempo e ao tempo, que ele é fogueira acesa que revitaliza e não o deixa naufragar.
Metáforas e imagens soberbas a emoldurar o No Corpo do Tempo. Repare-se que a roupagem poética da obra nada tem de simples, dada a capacidade inventiva do poeta Lobo, que se move, habilidosamente, entre versos soltos e brancos (aquilo a que nós, os poetas, costumamos chamar, com a introdução do modernismo o "verso livre"), como se essas metáforas e imagens lhe corressem nas mãos deixando marcas no tempo, "como línguas de fogo / sagrado / num cortejo sábio / que a ferocidade do tempo / esculpiu / no marulhar incessante da vida" (de Alvaro Giesta in Oblíquo é o Tempo pp 8).
Longe de Fernando Lobo estão tantos outros poetas, que se afastam dele, pela falta de capacidade inventiva de se projectarem neste universo ideativo da escrita poética. E nós, persistimos: difícil é a transparência, para o poema, do mundo ideal - neste caso, do tempo ideal, que acaba sempre por ser circular - através deste eloquente "não-dito", a deixar a possibilidade ao leitor de se desmarcar da intenção do poeta, desnudando-lhe o corpo com a intenção de o descobrir no tesouro oculto para lá da função da metáfora e da imagem.

E, assim, regressamos à ideia exposta no princípio do texto, rematando: a literatura não é apenas o texto em prosa ou poético; muito menos o é quando e se  o autor escreve para si. Nada disso. Se assim fosse, qualquer um seria literato. Mas, literato, nesse sentido, só se fosse de si mesmo: pura estagnação do "eu" pretendente a literato, e ruína da literatura. Um literato assim, não o pode ser dos outros, ser de todos, ser do mundo literário. Um tal escritor ou poeta que escreva de si para si, não lhe permite criar para além de si. Considera-se absoluto e este absoluto, sendo-o simplesmente de si para si, não existe.
O criador literário rege-se por impulsos e reflexos de actos de criação, situações da vida que se descarregam sobre si e o iluminam - como se fosse o clarão de um relâmpago que em determinado momento da trovoada (in)definisse onde vai cair o raio e provocar a ferida, que vai gravar na memória esse momento, que se perpectuará no tempo.
Tal é o modo endógeno (que vem a partir do interior) de criar do poeta Fernando Lobo. Tal é o seu temperamento criador que verificámos possuir, através da leitura das várias etapas da sua escrita poética, investigatória e inquiridora, profunda e inquietante, sinuosa muitas vezes, nebulosa e enublada outras tantas, onde os seus difíceis horizontes a desvendar se conduzem, neste temperamento criador, entre o equilíbrio do verso e a procura desassossegada e ininterrupta do espírito em desassossego do poeta, que cria sob o signo da liberdade criadora, que o transporta além do círculo fechado do instante, na busca da miragem e na expectância do tal absoluto e do sempre longínquo.

11 de Maio de 2017
Alvaro Giesta

14/04/17

(In)compreensão da obra pascoaliana

A nosso ver duas problemáticas se erguem como quase inultrapassável muro para a compreensão da obra do poeta do Gatão, no tempo actual,  de reflexos vindos da não aceitação da sua obra e consequente "quase liquidação, de um só golpe", pelos seus contemporâneos.
A primeira - a problemática na compreensão da obra do poeta-pensador, porque densa, complexa e rica de significações: é um manancial de surpresas inesgotável; a quem nela se aventure em estudo, é impossível trazer respostas últimas e definitivas; as respostas que, na medida de tal estudo, forem encontradas, servem, apenas, para levantar novas perguntas, equacionar novos problemas, deixar vagas sugestões para novos caminhos exploratórios e abrir perspectivas para novas pesquisas em contínuo aprofundamento. Como nos diz António Cândido Franco «o essencial de Teixeira de Pascoaes está no seu próprio discurso, enovelado nos talentosos enredos dos seus textos»[i]. O "génio febril" e oculto de Pascoaes deixou-nos uma obra que é, como nos diz Sant´Anna Dionísio «um nunca acabar de tesouros escondidos, prontos a encher de encantamento aquele que souber desencantá-los sob a leve camada de cinza vulcânica que os cobre»[ii]. A nosso ver, e da experiência por nós colhida para elaborar este trabalho, esta problemática da difícil compreensão e interpretação da obra pascoaliana, deve-se aos extensos, profundos e densos textos, cobertos por uma forte e espessa neblina de messianismo que quase inviabilizam qualquer tentativa de interpretação; deve-se, ainda, à geral ausência dum discurso lógico e à quase total ausência de ordem na exposição dos textos.
Tornar-se-ia imperativo uma leitura e estudo sistemático da obra de Pascoaes, ocupando-nos por alguns anos, para alguma aproximação e propriedade à interpretação da sua obra, ao entendimento do seu pensamento poético-filosófico, coisa que o objecto deste pequeno ensaio (nascido em tom tertuliano) a tanto não aspira, muito principalmente pelo tempo de que não dispomos e, reporte-se mais uma vez, pela complexidade anárquica e incoerente da obra (poética) de Pascoaes. Mas, facilmente se entende este anarquismo poético, esta falta de lógica do discurso poético do autor: é que a lógica do discurso não é a da razão aristotélica ou filosófica-científica, mas a do génio intuitivo e espontâneo do Poeta que cria por impulsos, sempre alheio às leis da razão.
O próprio poeta nos adverte para essa dificuldade de entendimento e interpretação: «Seguir a ordem cronológica, é lançar na desordem, quase sempre, a obra do poeta»[iii]. E, ainda em Os Poetas Lusíadas, «Compete ao leitor e aos antologistas subordinar as criações do Poeta a uma ordem natural e compreensível, que parta do corpo para a alma e da terra para o céu; isto é, do menor para o maior».[iv]
A segunda problemática (e em nosso entender a de mais simples compreensão e entendimento) - é a razão da não compreensão da sua obra, liquidada de um só golpe, como já referimos, pelos seus contemporâneos. Vejamos, apoiando-nos em alguns traços de leituras feitas, como se instalou a polémica entre António Sérgio e Teixeira de Pascoaes: aquilo que foi, em nosso entender, a grande causa pela não aceitação, pelos seus pares contemporâneos, da poética messiânica da saudade, reflexos que, ainda em nosso entender, contribuíram, também, para o (quase) esquecimento do poeta pela maioria dos intelectuais portugueses, salvo raras e digníssimas excepções de espíritos cultos e mais dedicados.
___________
Alvaro Giesta (de leituras e interpretações)
(imagem de Teixeira de Pascoaes





[i] António Cândido Franco, A Literatura de Teixeira de Pascoaes, Imprensa Nacional -  Casa da Moeda, Lisboa, 2000
[ii] Sant´Anna Dionísio, Génio Febril e nocturno de Pascoaes, nas comemorações do 1.º centenário do nascimento do Poeta, Imprensa Nacional -  Casa da Moeda, Lisboa, 1980.
[iii] Teixeira de Pascoaes, Os Poetas Lusíadas, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987
[iv] Ibidem

02/04/17




OU PURAS ALUCINAÇÕES POÉTICAS

Uma obra não pode ser destituída de valor poético, se nela houver valor poético, ainda que pareça ser uma divagação; também uma obra poética que pareça não ter valor literário, não deixa de ser poética.
(...)
Na obra poética, a "descida aos infernos", metaforicamente, não é mais do que um processo de depuração do poeta para a "subida ao céu". Bergson falava em «estados de concentração superior» e, comparativamente, esta "descida" poética é um processo de conhecimento, de actividade constante do espírito do poeta no tal "processo de depuração". Enquanto descida, neste processo de purificação a que o poeta recorre neste «acto de solidariedade entre espírito e o seu objecto», é subida ao mesmo tempo enquanto passagem a um estádio de concentração superior. Será isto uma "pura fantasia" dos poetas ou corresponderá, efectivamente, ao mundo real do seu pensamento poético-filosófico? Hipótese naturalmente aceite pelos poetas que abraçam a poesia com e como um fim; hipótese olhada com desdém por aqueles que não vão além de fingidores. «Voar é uma dádiva do pensamento» mas, é também no pensamento que esse voo poético se manifesta e se forma e dá recado.
Talvez a "pura fantasia" poética se dissolva nos espíritos duvidosos, se pensarmos que o poeta enquanto «homem ainda vivo» por um acto livre da vontade escolhe aperfeiçoar-se, ou não, na aprendizagem do poema;  "desce aos infernos" - um estádio inferior do saber - para depois de regenerado - atingido que foi o conhecimento - subir ao estádio superior onde só os iluminados chegam. Estas «viagens ao invisível», próprias dos clássicos, não são mais do que a «descoberta do subconsciente» que, levadas para a fantasia dos poetas, se transformam na "descida aos infernos" - o seu método de conhecer para aperfeiçoar o conhecimento que, uma vez alcançado, os torna portadores do Belo. Ganha agora novo fôlego o universo imagético, e ergue-se a palavra poética, e «o verso voa» adquirindo lugar primacial na visibilidade da imagem conduzindo à plena consciência do gesto criativo.
A ilustrar este pensamento, este poema de minha autoria; ou, antes, foi com o poema que me nasceu o pensamento.

[quando o descer é subir]

a coisa escura, completamente
escura
ergue-se, sem desiquilibrio
em quase objecto:
- tal é o corpo
que já não é,

amálgama de ossos
sem significado.

a alma, ainda sem fé
na incomensurável dor de não ter
desceu da vertigem
à vertigem,

- do tempo ao verbo
nele se fará.

da superfície, a alma
inerme
desce
até ao limiar da sombra
onde penetra
em busca da libertação.

do negro absoluto
a que desceu
- como se fosse ao vazio -
para nele meditar
e se recompor para a luz,

converge ao centro, como se fosse
o conceptáculo:
- nele se concentra para
a libertação.


indemne
assim há de subir
até ao vértice,
o cimo erguido
invectivo
do uniforme abstracto e absoluto.

a alma
assim se vai
«da lei da morte libertando» (L.V.Camões)



© Alvaro Giesta

PARA ALÉM DAS PALAVRAS - prolegómenos do fenómeno imagético na poética de José Baião Santos

Introdução:
Sei que há por aí poetas que não gostam que se fale e que se diga poesia e sobre poesia de poetas outros, ainda vivos entre nós ou já passados ao eterno, e preferem que seja a sua poesia a dominar o panorama poético presente e futuro. Puro egoísmo ou absoluta ignorância?
O que leva a interrogar (-me): como é que eu posso saber, como é que eu posso demonstrar saber, se nunca li nada - ou muito pouco - para além de mim, para além daquilo que eu próprio escrevo? Como é que eu posso dizer que o que escrevo é bom, isto é, tem valor - para além do restrito valor que os amigos atribuem às minhas obras, que muitas vezes nem leem e apenas conhecem pela rama nesse alfobre de poetas facebokeanos que me classificam apenas com curtos adjectivos de cortesia - como é que eu me posso afirmar literariamente apenas com base nos elogios do momento, como é que eu me posso avaliar pelo que sou ou deixo de ser, se eu não tenho, como suporte, em termos comparativos, o conhecimento da escrita dos meus pares? Isto para não falar na crítica literária... assunto melindroso pela falta de honestidade e objectividade dos críticos actuais que funcionam em compadrio com editoras, com certos autores e com certas campanhas de atribuição de prémios literários. Puro mercantilismo. "Salvo raras e honrosas excepções, não se faz crítica, aquela que disseca, analisa, pormenoriza, caracteriza, entende, estabelece paradigmas e destila ensinamentos".
Quanto à poética em questão - aquela aqui em análise -, atrevo-me a perguntar(-me) a mim mesmo: Como poderia eu falar do Poeta José Baião Santos se não me tivesse interessado por ler de si - ainda que muito pouco -, para dele dizer com a propriedade que me confere o meu ponto de vista?!
  
Sobre o poeta:
Eis a razão da pequena nota de abertura àquilo que vou dizer da poesia do poeta em apreço. Falemos agora de poesia, no geral (apenas um ou dois minutos) para depois enquadrarmos este autor. Nos estudos essenciais para a Poesia e Poema dizia-nos Octávio Paz (e lá voltamos nós aos poetas que já passaram ao eterno para indisposição daqueles que só conhecem, e nalguns casos mal, poetas vivos,  mas que, no dizer do Poeta José Duro - outro que há muito nos deixou - nos dois últimos versos do seu último poema inserto no livro FEL «o poeta nunca morre embora seja agreste / a sua inspiração e tristes os seus versos», sublinho, dizia-nos o poeta chileno Paz, no seu longo ensaio que lhe valeu o Nobel da Literatura em 1990 «A poesia é conhecimento, é um exercício espiritual, é um método de libertação interior; a poesia revela este mundo; cria outro. A poesia é pão dos eleitos; é inspiração e transpiração. É súplica ao vazio, é diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e desespero. É oração, é epifania, é sublimação... é arte de falar.» E eu acrescento: "é arte de escrever em forma superior." Muitas outras qualificações poderiam aqui ser referidas, repetindo Paz ou outros poetas a quem a fama aureolou com palma sobre a cabeça, para definir a indefinível forma superior da escrita - a poesia.
Com muita dificuldade, não de entendimento dos poemas lidos do poeta José Baião em "Poema Sobrevivente", "As casas", "A Linha de Fronteira", "Dança Ritual" e muitos outros das pesquisas feitas - que, diga-se em abono da verdade, não são poemas simples de entender, pela exuberância do verso e do verbo no uso que faz de sábias palavras - mas dificuldade, sim, da escolha, deixo aqui pequenos excertos em obediência ao tempo que me é dado para a prelação.
O "Poema Sobrevivente", como diz o autor «sobressai nos antípodas da retórica corrente o mito da liberdade». Eu digo mais: neste fenómeno da escrita de José Baião Santos, onde provavelmente o poeta nunca quis mais do que fazer acontecer a palavra poética, sem resistência e sob a forma do texto arbitrariamente designado por "Verso Livre", facilmente se depreende - sem a necessidade de ser grande especialista na matéria - de que este projecto (aliás, toda a poesia do poeta que me foi dado conhecer) tem absoluto substracto literário, ainda que o poeta, pela sua humildade e simples modéstia, sem vaidade, nos possa dizer que está longe de si essa intenção. Deliciemo-nos com este poema em que o fenómeno poético, criado pela organização de imagens em associações criativas, dão o essencial significado àquilo que a poesia precisa para tal ser: ritmo e imagem - inseparáveis no articulado dos poemas de José Baião.

«Tu és a água
 Eu sou o ventre das algas
 Enquanto estivermos a sorrir a máquina eólica vai pulverizando o linho fiado
nas espadas de ébano
Os líquenes        e a dor
Beijam a terra com subterrâneos de casas        e pele envelhecida pelo fogo
Os insectos sobrevoam navios
Dizias-me tu, ontem
Que a guerra só destrói os crânios das árvores,
Deixando intactos os diospiros da morte
Enforcados nos ramos do vento

Esplêndida ideia para os homens:
- Um dilúvio, em vez da deflagração de um violino num casulo de comédia
(...)

O peso e o lume das palavras
Repartem entre si
O espaço sideral        Sulcado de moinhos de chuva
Que se eleva acima
Do ódio e da verdade

Aquele corpo ali
Que foge entre as ameias do mar
Esconde no sexo
Anos de morte e solidão

As aves que voam na sua direcção
São os anjos do pudor
Capazes de ferir um coração sentado nas pétalas do deserto

Pedem-me que me cale
Que ignore a fúria da lealdade
(...)

Querem-me inerte, anémona em vez de livro
Para que se oiça o véu da cobardia
A crisálida azul onde guardavas as joias e os troféus
(...)

O que vocês ambicionam
- confessem lá, ó gigantes do nada! ­
É a perpétua rendição dos desejos
Onde eu me refazia das anestesias da solidão há muitos milhões de anos
Deitado a olhar os segredos
Da neblina»

Parece um poema imprevisto, não é?! Pois a poesia de José Baião não deriva, nem do assunto tratado, nem da forma adoptada - aliás, ele é mestre do verso longo e do extenso poema do verso livre a lembrar Walt Whitman, que o introduziu, e continuado por Pessoa e outros que só interessaria aqui referir com mais profundidade se isto fosse ensaio ou aula de literatura para que não estou habilitado. Mas não é: é apenas uma breve homenagem ao poeta José Baião Santos e, por isso, dele falo.
O poema atrás referido é um pequeno extracto do longo "Poema Sobrevivente" escrito por fragmentos - vinte e um longos fragmentos - de longos versos. Parece ser coisa simples de fazer: escrever um poema que muitas vezes forma uma só obra, por fragmentos e sem sujeição às cadeias da pontuação, especialmente ao ponto final, mas não é. É coisa bastante difícil de fazer pela complexidade e encadeamento da ideia poética que se pretende transmitir a quem lê - é como se cada fragmento do poema fosse, por si só, um órgão: coração, rim, pulmão, membros a dar consistência e força ao poema, a formar o corpo.
O seu poema - e aqui "poema" cabe àquilo que conheço da sua poesia - é a projecção de uma ideia através da emoção. Ele serve-se da emoção - aquilo que faz o encanto na leitura dos seus poemas - não como base da sua poesia mas como ideia para dar às suas palavras a forma de poesia como se fosse epifania (sem conotação religiosa, claro). São encontros casuais de palavras que ele extirpa do sentido comum, são palavras em fricção, em choque entre vocábulos que dão à sua poesia um "jorro enorme de faúlhas sábias".

«Cada palavra
Lançada aos esporos do silêncio  
               abre-se como um fruto
(...)

 A luz das palavras
Devolve a magia dos dedos
Até se refazer da coragem
Dispersa com pedaços de um vento frio
Como toda a agonia da tarde»

A poesia de José Baião vem de longe - vem do âmago, do interior, do fundo da alma, mas toda ela de cariz estético: é nisto que reside a arte da poesia. De verso longo, não hesita em entranhar-se nos sentidos florestais do poeta ­- como se numa passagem de "poesia impura" a "poesia pura" (não aquela que não procura senão a harmonia, o ritmo, a melodia - que não seria mais do que música - mas aquela que se considera ser no poeta Baião, poesia intelectual, embora nunca se expurgando dos vestígios de vida; se assim fosse "expurgada de vida" estaríamos perante uma poesia fria, calculista, uma poesia traçada a compasso e a esquadro como no tempo dos concretistas. Esta, do José Baião, é poesia com a alma do poeta dentro e a existência do real por companhia. Como o poeta diz: «Demos as mãos / eu e a evidência // Acredite-se ou não / recebi como recompensa das mãos da bondade / o veneno do sal». E ainda, dele «(...) pergunto ao camponês que dorme nas esteiras de colmo qual o melhor caminho para alcançar a água dos deuses (mas) nunca ninguém ouviu falar de um tal caminho (...)».
Mesmo quando em "Linha de Fronteira" - um longo poema - ele nos oferece a poesia sob uma crosta áspera, austera, com reservas de eloquente "não-dito", repare-se que a roupagem poética é simples, mas interessa desnudar o corpo, descobri-lo, porque lá dentro há um tesouro escondido como se fosse a cavidade oca de uma rocha com o interior revestido de cristais.

«De um lado estamos nós, feridos no caule
Do outro lado a plenitude das aves que sobrevoam os corpos de linho
Transpomos os continentes, com uma única excepção ­- O CONTINENTE DISPERSO
  
Vejo os dias empurrar os navios
Para a linha de fronteira, de lá para cá, com os seus ventres
De sargaço rastejante
Até que o sol denuncie a presença de uma melodia contaminada pelo óxido
Das estradas
Viajo entre dois mundos sem sentir
(...)

A fronteira que divide a paisagem do ódio em dois astros
Reparte as angústias
Acende velas de inconciliável egoísmo
(...)»

É como diz Fernando Lobo em "Elogio Breve" dedicado a José Baião, poeta convidado da Revista Literária A Chama, de que fui fundador e editor, na sua edição n.º 8 do 2.º trimestre de 2014 - os versos do poeta e amigo Baião são (e cito) «enlaces de metáforas que o afasta, categoricamente, da falácia doutros poetas para nos projectar no universo ideativo da fala, de modo a descobrirmos uma reentrância no espaço poético e ideológico da palavra.» E eu acrescento: nesta conjugação de palavras poéticas, na ideia de interacção entre elas, o poeta José Baião - que tão arredio anda de edições de novas obras que tardam em chegar - transfere para o poema o mundo sob a forma de eco, e não do eco do mundo. Ele não altera o mundo com as suas palavras porque permite ao outro - a quem o lê e interpreta - a perceção do mundo. Do seu poético e ideal mundo.
Estas «águas fecundas», que alastram «ao ritmo da dissolução da memória»,  servem para resgatar a palavra ao nível da interpretação poética e do conhecimento. Assim, diremos como Gil Jouanard que «a poesia, vem sempre de mais longe do que aonde as palavras são capazes de nos conduzir». E como o poeta chileno Paz - lá voltamos nós ao grande mestre, eixo e ponto de referência: «A poesia polariza-se, congrega-se e isola-se num ponto humano: quadro, canção, tragédia - o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente».
Vejam, a terminar em Baião, no "Silêncio da Dor" em EGODISTONIA esta tríade atrás referida - poesia que se ergue e forma o corpo:

«(...) o corpo esconde-se na palavra
para poder sofrer
sem que ninguém o ouça
Tudo lhe fere as veias - os ossos
o sémen - penetrando a raiz do medo
Sem dúvida inventaste o grito da terra
para nos aproximar do passado
esse lugar onde desvendamos a fórmula
do silêncio incolor
como o beijo dos felinos»

Plagiando de algum modo palavras do poeta simbolista Gomes Leal, vejo em José Baião um trabalho laborioso da ideia, um lapidar da palavra poética com os versos encatenados entre si formando um rosário luminoso conduzindo-nos sem dificuldade ao objectivo final do poema - parece-me um «laboratório intelectual num processo semelhante ao da natureza transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola».


Autor do texto: Alvaro Giesta


25/03/17

AS CONSCIÊNCIAS CRIADORAS NÃO VIVEM POR REPRODUÇÃO E ROTINA

A literatura não é apenas o texto em prosa ou poético; muito menos o é quando e se o autor escreve para si. Nada disso. Se assim fosse, qualquer um que o escrevesse seria um literato.  Mas, literato, neste sentido, só se o fosse de si mesmo: pura estagnação do "eu" pretendente a literato e ruína da literatura. Um literato assim, não o pode ser dos outros, ser de todos, ser do mundo literário. Um tal, escritor ou poeta, fechado na sua redoma, no seu ego-centrismo, escrever de si para si, não lhe permite criar para além de si. Considera-se absoluto e este absoluto, sendo-o simplesmente de si e para si, não existe.

A literatura não é apenas o texto que o escrevente debita no papel, como a matemática não é apenas o número que o professor escreve no quadro negro. A literatura é um fenómeno. É a ordem duma consciência criadora que estabelece regras para ordenar as suas relações consigo própria, com o tempo e com os homens.

O criador literário rege-se por reflexos de actos da criação, situações da vida que se descarregam sobre si e o iluminam: como se fosse o clarão de um relâmpago que em determinado momento da trovoada definisse onde vai cair o raio e provocar a ferida que vai gravar na memória esse momento que se perpectuará no tempo. Mas o homem, para criar literariamente, tem que ser livre e essa liberdade criadora só ele a pode definir e exigir de si porque está intrinsecamente ligada ao seu momento de nascer. No acto da criação literária apenas o limitam a possibilidade ilimitada de criar; isto é, o homem, ao criar, e para criar literariamente, deve ir sempre para além da possibilidade que no momento alcança; ou seja, no seu acto de criar deve continuamente germinar o seu temperamento criador em busca da ressonância para além do alcance da sua imaginação. É esse eco, reflectido no tempo e nele perpectuado, porque sai de si para além de si, que torna o texto no tal fenómeno literário.

O criador não pode ficar, apenas, no instante: deve dirigir-se, neste seu temperamento criador, neste seu modo endógeno de criar, para as etapas da escrita investigatória e inquiridora, profundos e sinuosos que sejam os seus horizontes do pensamento, e torná-las num somatório de experiências, conduzindo-se dentro delas. Isto é, viver com as experiências narradas, primeiro no seu subconsciente de insubordinação face às ideias estagnadas que prejudicam o poder e dever da escrita literária e, depois, revolucioná-las na página em branco firmando-se chão onde faça crescer a árvore com a possibilidade de mudar ao fruto o seu nome e chamar-lhe futuro. O temperamento criador sedimenta-se do equilibrio entre a procura desassossegada e ininterrupta do espírito de quem cria e da oportunidade que a liberdade confere ao criador para ir além do círculo fechado do instante na expectância do tal absoluto e do sempre longínquo.

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Alvaro Giesta © PALAVRAS QUASE in COMÉRCIO do Seixal e Sesimbra, edição 311 | 3Jun2016
Foto: na Sede da Academia, em Monte Estoril, Cascais, com o Prof. Dr. António de Sousa Lara, Mui Ilustre e Digníssimo Presidente da ALA (Academia de Letras e Artes) e a Dr.ª Celeste Cortez, a minha Mui Ilustre Madrinha no processo de entronização na referida Academia, em 30Nov2016

24/03/17

O corpo, manhã erguida (e o Ponto de Bauhüte)

Aqui
nu, branco e negro
jaz, em círculo enrolado
sobre a luminosidade luminosa
do lençol - o corpo,

circunscrito
na concha que se forma
ao centro - o nascimento

Nele o ponto negro
interacciona-se
com o quadrado luminoso do lençol

Três vértices:
a mancha negra - o triângulo
e o seu ponto interior;
no centro grita o fogo
sobre o corpo enrolado

Grita na pele
o sexo - a mancha negra
em união com a geometria
do triângulo

Na pele a febre oculta
bebe o ar no corte vertical
em concha
entre as coxas do poema

Quando os lábios
na sede de se darem
se entregam,
ergue-se o gesto que faz a poesia;

e sempre o corpo
branco e negro
na macieza luminosa do lençol,

e sempre o ponto negro a rasgar
o contínuo abstracto do corpo
liso e imaculado anunciando o sexo

Necessidade necessária:
- a ocultação (onde o mel se derrama)
e o sol, como quinta essência
- o ponto de fuga e união
(a perfeição do triângulo)
na junção dos corpos

O interior oculto
onde o mel da terra se cria - e se dá
na força do vinho e da água
e da rosa vermelho-sangue

- altíssima perfeição!

Alvaro Giesta 

PARA ALÉM DAS PALAVRAS

- prolegómenos ao fenómeno imagético na poética de Fernando Lobo (assim dei por título a esta especulação de leitura, do pouco que me foi...