de Eça de Queirós "contos"

de "Contos" de Eça de Queirós

"dizia Stanislau - Aquelas constelações todas são pó. Pó dos deuses mortos. O céu é um cemitério onde se deve estudar a força do homem: o homem será tanto maior quanto mais céu conquistar, quantos mais deuses expulsar. Expulsou-os do Olimpo,  expulsou Jeová... Expulsará Cristo?" (in o Réu Tadeu)

"a Terra existia desde que a luz se fizera, a 23 (de Outubro), na manhã de todas as manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas barrentas, abafada numa névoa densa (...) (in Adão e Eva no Paraíso)

Quem sou eu

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Barreiro, Setúbal, Portugal
Alvaro Giesta (Vila Nova de Foz Côa, 1950), pseudónimo de Fernando António Almeida Reis. Sócio da Associação Portuguesa de Escritores. Sócio do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD). Membro do “Movimiento Poetas del Mundo” com sede no Chile. "Cônsul de Poetas del Mundo em Barreiro - Portugal" desde Fevereiro 2008 e Membro da Academia de Letras e Artes Lusófonas (ACLAL), Portugal. Publicações Editorias poéticas: Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser; Meditações sobre a palavra, um tributo a Ramos Rosa o poeta do presente absoluto; Há o silêncio em volta - uma poética de guerra; O Retorno ao Princípio - dialéctica Vida-Morte; Um Arbusto no Olhar e o primeiro livro de contos, "entre nós, CUMPLICIDADES". Publicações dispersas em mais de duas dúzias e antologias em Portugal e no Brasil. Colaboração independente em: Jornal online ROSTOS, e nas revistas literárias, impressas, LICUNGO do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora e A CHAMA_folhas poéticas, e ainda na Revista Literária Artesanias, na Argentina, no jornal ex-Notícias do Barreiro e no jornal Balaio de Notícias, no Brasil

28/02/16

Os cadernos da Colecção Giesta

Caderno n.º 1 - Poesia "Oblíquo é o tempo" [um poema para os povos do sul]

Título: Oblíquo é o tempo [um poema para os povos dos sul]
Autor: Alvaro Giesta
Colecção: os Cadernos da Colecção Giesta

2.ª Edição: Fevereiro de 2016
(revista e aumentada)
© Alvaro Giesta - Todos os direitos reservados

Editor: Fernando António Almeida Reis
Concepção Gráfica e Paginação: Fernando António Almeida Reis

textos breves da “Colecção Giesta
N.º 1 - Oblíquo é o tempo [um poema para os povos do sul]
Tiragem: 100 exemplares

ISBN: 978-989-20-6407-9
Depósito Legal N.º: 404381/16

 CDU 821.134.3Giesta, Cadernos Colecção.01

EDIÇÕESautor
(edição e impressão)
A. José Almada Negreiros, Lt 2-3º Esq
2835-008 Vale da Amoreira

alvaro.giesta@gmail.com
fereis@netcabo.pt
http://www.tambemescrevo.com

Esta edição acabou de se imprimir em Fevereiro de 2016
e dela se fizeram 100 exemplares numerados  de 00 a 99
e assinados pelos autor.



Exemplar N.º 99

______

Outros cadernos da Colecção Giesta a publicar:

textos breves da Colecção Giesta - Ediçõesautor

Publicados:
(Série Poesia)
1. Oblíquo é o tempo [um poema para os povos do sul]

A publicar:
(Série Poesia)
·  O discurso dos pássaros

(Série Recensão, Ensaio, Monografia)
·  da Geometria das Palavras
·  Este Ofício de ser Poeta
·  A poesia do tempo desabitado (como procura e tentativa de resposta)
·  As cartas a um suposto Mestre
 

22/08/15



Prefácio ao Um Arbusto no Olhar
por Fernando António Almeida Reis, ortónimo

Prefácio


«(...) Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio (..)»
O Poeta na Rua © António Ramos Rosa

Tardou este livro em ser publicado. Com base na sua proposta final, que é o que define o valor literário da obra, a acontecer na data própria, deveria ter sido logo após a publicação do «Meditações sobre a palavra», porque o completa e complementa, sem outros que foram editados, entretanto, pelo meio. Mas, por vezes o criador tem necessidade de alargar o leque de opções, correndo o risco da criação, ao olhar de outrem, de uma obra dispersa e desconexa. Contudo, ainda que difícil seja a defesa da obra, porque dispersa, nela se pode «recolher a semente para uma futura colheita, não perdendo dessa forma o seu objectivo primordial: criar para além do limite de cada instante.» (Xavier Zarco, in Breves reflexões filosóficas sobre o conhecer, em poesia - publicado em "A Chama, folhas poéticas, n.º 9, 3.º trimestre 2014)
Na sequência daquilo que Alvaro Giesta deixou expresso em nota de autor no seu livro Meditações sobre a palavra, editado em 2011 pela Editora Temas Originais, e ao talhar agora o Um Arbusto no Olhar que seguiu de perto, na sua primeira parte, o desenho traçado para o primeiro, a completar o que se terá proposto escrever sobre o ofício do poeta no manuseio da palavra e com o qual pretenderá encerrar o motivo deste ciclo, dado que todas as suas obras poéticas se vêm desenhando com submissão, cada uma delas, a um mote próprio e específico, quererá reiterar aos leitores que tem procurado sempre o seu desempenho com base na busca da maior perfeição.

Se, no «Meditações sobre a palavra»,
«as palavras nascem / de dentro para fora (...) / (dum) / ventre virgem que se abre ao meio / (e) / recolhe o sémen / que se vai tornar vida»,
em «Um Arbusto no Olhar», desse mesmo
«ventre prenhe / da terra / (onde) / canta a árvore
e o azul / em demanda de novo sol»,
se pode concluir que:
«o ofício do poeta / é mergulhar as mãos no fogo /
no espaço / branco por escrever / é descobrir o vazio / que espera a voz / e o grito / da palavra»,

é saber ver que:
«da hercúlea sombra / que se abre ao meio / regurgita a luz»,
é descobrir que o fenómeno do acto inaugural da palavra se dá no lugar exacto, onde a luz e a obscuridade coincidem e se transformam.
O ofício do poeta é encher o nada, o vazio existente no sítio exacto onde coincidem a luz e sombra, do ardor rubro da palavra, mesmo que este verde nascimento seja um acto tardio na vida do poeta ou no tempo da criação.
É «descobrir o segredo do fogo / e da água / onde a palavra se faz carne / nesta difícil visão alquímica dos contrários».

Se no «Meditações sobre a palavra», ela, a palavra exacta, porque pura alfa  e ómega (princípio e fim), é a semente que «caminhava na sombra das paredes / que se erguem envoltas / num mar duro de pedra / e cal» onde apenas «uma nesga de luz (sai) das trevas / por curto instante /(...)» em demanda de uma possível aproximação ao real e às coisas do mundo,
em «Um Arbusto no Olhar», a palavra deixa de ser semente oculta sob a dura terra antes de nela ter entrado o sémen-água, para se tornar na raiz que firma e no caule que sustenta e ergue os ramos, para se dar a conhecer, para se abrir na inquietude da página, vislumbrando-se entre as suas ramificações, o olhar sequioso por dizer, por fazer a denúncia, a busca, por sondar e descobrir o insondável mistério universal da palavra.
Com a mesma arte com que foi desenhado o «Meditações sobre a palavra», assim foi talhado o «Um Arbusto no Olhar». Sem inspiração, porque ela não existe (!) em Alvaro Giesta, mas fazendo uso do mesmo rigor construtivo no trabalho da palavra que sai da sombra, como o arquitecto ao desenho do edifício, modelando-a como o oleiro ao barro, esculpindo-a e burilando-a como o artífice à pedra, dissecando-a, levando-a ao osso, como o médico legista ao corpo para saber da causa do fim.
O poeta se afirma, mais uma vez, no rigoroso sentido de busca, de construção e emprego da palavra no todo do edifício poético em que se deve empenhar para, nesse labor, dar um verdadeiro sentido literário à obra construída.
Alvaro Giesta, no rigor do uso da palavra ao serviço da linguagem poética, norteou o labor de «Um Arbusto no Olhar» , em duas partes, correspondendo a cada uma trinta poemas:
- na Parte I, o eu-poético ausenta-se do poema para que este seja ele próprio, para que se efectue a junção entre subjectividade e objecto, para que a palavra-sujeito-poético case com o espaço sem a intervenção do eu-poético no mundo do poema;

- na Parte II, o eu-poético integra-se na palavra, vive a palavra, vai de encontro às sensações o que lhe permite vislumbrar novos horizontes, com um olhar sequioso por descobrir o longe, para lá das ramificações do arbusto que se levanta ao olhar do sol.


Fernando A. Almeida Reis, ortónimo
Barreiro, Setembro de 2014


Alguns poemas de O Retorno ao Princípio

eis o invisível monumento

da lucidez:

onde a luz acabou
reacendeu-se
a vida;

o timbre afina-se
no abrir duma janela
que antes de estar aberta
se abriu.

erguem-se do silêncio
as almas
em centrífuga abstracção.

onde
o vento
exunda a escuridão das águas
e cresce
a exumação das coisas inúteis,

a elevação das almas

ao infinito-além.

*

nesta persistência
sombria
do afastamento;

na lúcida passagem
das pulsações,

a morte
tal perfume de estrela
ausente
visita o nascimento.

eu, noutra parte
fecho as pálpebras na misteriosa
bruma,

tu
noutro céu levante
crias de novo
a partir da espuma.

*

naufraga-se num sono

eterno.

onde se ergue
a transparência da solidão
do espaço,

arde,
na fulgidez celeste,
longínqua chama
a despedir-se
da alma desavinda.

inaudível é a força
e estrépita!

emerge
depois, a alma
para fúlgida esfera.

*

desprende-se

para destino enigmático,
do âmago do corpo
extenuado,

a alma sedenta de glória
noutro céu.

a barcaça da morte
atravessa
o lago escuro da noite
onde tudo acaba
e tudo começa.

exaurido
todo o tempo anterior,
refulge
prenúncio de novo dia.

*

a substância

em maturação inclina-se
no seu propenso vagar
para a glória da morte,

e dela
em glória renasce
em novo dia.

do seu fim
acontece todo o princípio.

deslumbra-se,
do corpo que se desintegra
agora,
a alma
que se difunde no abstracto
devir.

*

eis a transparência

da morte,
na partida e obstáculo
para novo espaço:

aqui se funde
e se transforma
em movimento.

que seja coincidente
o silêncio
e a falta dele
e que ao cair se levante
e caminhe,

mesmo que aí termine
o seu andar.

onde tudo termina
se ascenda ao princípio.

Prefácio ao O Retorno ao Princípio
por Dr. José Baião dos Santos

RETORNO?
                                                                                                                       
“Com a razão apareceu, necessariamente entre os homens,
a certeza assustadora da morte”
Arthur Schopenhauer

"O que extingue a vida e os seus sinais, não é a morte,  mas
 o esquecimento. A diferença entre morte e vida é essa."
José Saramago
         
Chegamos ao dia da reconciliação com os nossos enigmas, subimos a bordo e ocupamos o lugar que nos foi destinado na barca de Caronte, para atravessar “o lago escuro da noite”, onde “se ergue/a transparência da solidão” e se anuncia um novo dia que se separa do corpo, sombra da alma – cinza envolta na luz -, “matéria extinta” que nos redime da descrença e eterniza o silêncio da terra sem tempo, nem êxtase. Almas que se erguem do silêncio do profano, sedentas de glória, com a mesma compaixão com que admiramos o sacrifício daquele que se deixou vilipendiar e foi, por fim, vencido. Escreveu Franz Kafka que “No cais ninguém prestou atenção aos recém-chegados (…) ”. Responde-nos Alvaro Giesta: “aqueles que nunca beijaram” porque o mar emudeceu à sua volta. Também na vida nem sempre dão por nós, pela nossa passagem de revoltado animal, decididos a procurar na praia os vestígios de um olhar divino desaparecido na concavidade azul das areias; olha-se vagamente a sombra do corpo na plenitude da luz que se liberta do infinito e atravessa aquela nesga apertada entre dois ponteiros do velho relógio – é a vida! - que assinala a superfície do tempo estagnado para evocar a perene ausência, depois de ascendermos até ao alto da colina e testemunharmos o golpe letal da espada da justiça, despedaçando a nossa carne inocente, enquanto alguém chora nos braços de uma cruz.
“é o retorno à vida” que nos impele para fora da penumbra suspensa da árvore que “atravessa/o ciclo da vida” quando se abre a porta que deixa entrar o vento das montanhas, “o sulco de luz” que arrasta os corpos nus para um sono, agora sem retorno, devido ao cansaço e à dor, e nos faz cativos “dos lábios da terra/da espuma branca sem mar/da sede, da fome, do frio”. Os insensatos dias que sucedem ao despontar da lucidez trazem a descrença e os caminhos parecem-nos inúteis. O “mundo tornou-se pobre e vazio” (Sigmund Freud). Vagueia-se na noite de amargas melodias para expulsar os pesadelos e recuperar o timbre dos sonhos por sonhar que tanto pode ser a estrela fugidia, ou o princípio infinito, ou o tempo do ser, num mundo injusto, inefável, agonizando à medida que se aprofunda o afastamento dos fulgores secretos que acendem os símbolos elementares da vida.     
Que sentido ontológico tem, neste trilho poético, o ser que espreita o abismo dentro de si mesmo, não por efeito da incandescência da alma ou de um acto repousado da consciência? A resposta poderá estar na percepção daquele momento decorrido entre a vigília e o sono, do absoluto vazio, espaço de refúgio “em que coincidem/a sombra e a luz” e que nos informa que “(…) o ser é vazio de toda a determinação que não seja a da identidade consigo mesmo” (in “O Ser e o Nada” Jean Paul Sartre).
“naufraga-se num sono/eterno” e o corpo “ascende ao princípio, escreve indelevelmente o poeta na sombra do abismo, porque a abolição de todas as fronteiras ente a vida e a morte, porta aberta ao retorno do ser, projecta o espaço livre que ganha maior nitidez através do movimento, da incandescência, transmitidos pela alma ao corpo antes deste atingir o seu estado de maturação. E assim aperfeiçoa o seu tempo do ser, conforme vimos anteriormente!
Organicamente “o Retorno ao Princípio”, revela-se ao leitor sob uma dupla face: MORTE e VIDA. Quer a Morte - invisível lucidez que apaga alguns dos sinais de uma travessia, repouso fatal, reacendimento das almas, “prenúncio de um novo dia” -; quer a Vida - sonho por desvendar, beijo de fogo no silêncio, espuma branca, grito na escuridão, medo da morte disfarçada, entrando em nós como um punhal -, concedem-nos um sentimento de amor à palavra vertida no sangue que enfrenta mistérios e ritos, e persistentemente renova o nosso destino, “caminho/à beira-lágrima/onde um deus se perdeu”, chão pisado de memórias indesejadas. Partilhamos vida e morte, num só movimento do tempo, vagueando como duas aves na palma da mão dos infinitos céus, enquanto a clarividência da palavra dos deuses não é senão uma metáfora sobre o império da fé que por milénios nos tem servido de guia e nos tem dividido. O nosso destino é o sol-infinito instalado no espaço vazio e frio da morte, onde o ser “contradiz-se e faz-se/de novo abismo”. O acto poético apresenta-se nestes versos de engenhoso compromisso de Alvaro Giesta, como mediação de sentido do inatingível, voz silenciosa entre dois mundos opacos, dois lugares tão próximos quão longínquos pontuados de muitas incandescências – da alma, do sonho, e das ausências do corpo e da divindade!
Escreveu o Prof. Eduardo Lourenço, no já distante ano de 2000 sobre como falar de poesia: “Vendo bem, foi para dar voz a um excesso de sentido que a poesia nasceu: excesso de entusiasmo para nos celebrar como deuses imaginários do nosso destino ou melancolia de não ser esse mesmo deus que no fundo sabemos ser. É sempre a sós connosco que vivemos estes abismos que nos medem. Os deuses são a sombra deles. Mas não conheceríamos essa incandescência de nós mesmos sem os imaginarmos.”
Cada uma das partes, Morte e Vida, de que se compõe a obra expande-se por “terreno alheio”, como se de terreno próprio se tratasse. Nisto reside o processo da diálectica Vida-Morte que cimenta a edificação lírica. Na realidade o que o poeta procura em cada uma das partes, é a parte correspondente à outra, enquanto resultado de uma certa complementaridade. Por isso, Morte e Vida, nem sempre se apresentam como faces antagónicas do ser, a substância perecível que incorpora o princípio e precede a ausência do corpo.
tu e eu somos duas partes
da mesma parte
deste ser”
(…)
Alvaro Giesta
Fazendo, por vezes, uso de algum mimetismo de valores simbólicos, comumente aceites pela metafísica e no plano religioso, como se estivesse na iminência de se inclinar “sobre o fim/prestes a ser/princípio”, o poeta perscruta as entranhas da morte, a matéria diáfana que emana “do âmago do nada/existente/entre a penumbra e a luz”. Enquanto isto, algures, o sémen da vida vai transformando o universo desconhecido e intemporal em verbo.     
Terá dito, já lá vai tempo, o escritor Lobo Antunes que ninguém sabe o que é a morte, mas que não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.
Como última nota quero deixar-vos, caros leitores, o meu agradecimento ao poeta Alvaro Giesta por me ter convidado a integrar esta expedição “Vida-e-Morte”, o que me permitiu entrar na sua órbita poética, na qualidade de atento satélite errante. Aquele abraço fraterno!

                                                           José Baião Santos Abril 2014
Posfácio ao O Retorno ao Princípio
por Fernando António Almeida Reis (ortónimo)

Nota introdutória
Na qualidade do meu verdadeiro nome, Fernando A. Almeida Reis e na sequência das tertúlias poéticas levadas a cabo pelo Clube de Poetas KAFÉ-KAFKA/BVQ, a cujo núcleo pertenço, produzi o ensaio subordinado ao mote "Dialéctica Vida-Morte" (aqui reproduzido apenas na parte a que diz respeito a Alvaro Giesta meu pseudónimo literário e autor deste volume), tendo por base os poetas Antero de Quental (sec. XIX), Manoel de Barros, Hilda Hilst, Fernando Echavarría e o já citado Alvaro Giesta, todos do sec. XX, levando em linha de conta que os mesmos se debruçaram, na sua poética, sobre esta inquietante problemática.
Pela motivação que o mote tertuliano produziu, em mim, como poeta Alvaro Giesta, levou-me a escrever o "O Retorno ao Princípio" (numa dialéctica Vida-Morte), que ora dou por reproduzido, não sem antes deixar aqui e em nota de fim do livro, aquilo que ao último poeta em estudo diz respeito, tema tratado tão audaciosamente e com estupefação recebido pelos assistentes ao evento.

Corpo do ensaio

Um dos “papéis” da arte poética é expressar sentimentos humanos e transmitir, de forma subjectiva, aspectos da nossa realidade – medos, angústias, anseios, desgraça, pobreza...  tudo quanto seja marginal e que, a maioria dos nossos poetas de hoje fogem a retratar.
O novo, o desconhecido, é algo que nos assusta enquanto seres humanos em quem o receio está presente, em quem a expectativa é uma constante aliada ao medo da dor e da dor na morte que ela nos possa causar. E como vamos nós pensar nesse desconhecido que começa onde a vida acaba e a morte começa?
No fazer poético de alguns poetas, a Morte não é o fim de um ciclo. Ela é transmutação. É apenas o trânsito, a passagem breve para outra vida, passagem ainda que fatal, pela fatalidade que o fenómeno Morte encerra, um ponto de passagem, obrigatório para todos os seres vivos. É apenas a passagem para outra vida, com princípio no próprio fim. Ela é, não deixando apenas de ser o fim, também o princípio que começa onde esse fim termina.

Aqui falo do pensar e fazer poético de Alvaro Giesta, meu pseudónimo literário, que não tendo rigorosamente nada a ver, nem eu, na qualidade de escritor, nem o meu pseudónimo na qualidade daquilo que ele é - o poeta-, com o pensamento de certas religiões, a que sou literalmente avesso. Enquanto poeta Alvaro Giesta, a liberdade da palavra, no uso poético que lhe dou, permite-me, aqui, filosofar um pouco acerca da morte. A morte, que é a garantia da ordem no mundo dos homens, que é o que concede o diálogo, pois, no mundo humano adquire-se a vida através da morte. Só, assim, a vida tem sentido.

O filósofo Maurice Blanchot dizia que "a morte é a base de todo o alicerce humano diferentemente do que ocorre no mundo literário". No texto poético as palavras adquirem uma maior liberdade pela soma inesgotável de temas que se nos propõem à imaginação trabalhando a matéria desses temas com a arte poética que eles merecem. Daí que, considere, que não há morte em literatura. A impossibilidade da morte diz respeito ao não-fim. Ou seja, a finalidade da morte que nos surge diariamente na linguagem normal das evidências, não existe na linguagem poética. Mesmo quando poetas como Fernando Echevarría nos dizem que a morte é o fim e que, para além da morte nada mais há senão o fim; o nada; o vácuo.

Mas é exactamente esse fim poético que vai dar origem a novos olhares na poética de Alvaro Giesta, no tema Vida-Morte, à tal "espuma" de Echevarría que lhe foi princípio. Porque, no seu entendimento, é no nada e do nada que nasce a linguagem poética; é aí, no preciso lugar "onde a luz e a obscuridade coincidem e se transformam", que se dá o acto inaugural da palavra. À semelhança, e contrariando Echevarría que na sua linguagem mais filosófica que meta-poética diz que para além da morte nada mais há senão o nada, a morte, em Giesta, é o retorno ao princípio a partir do nada onde se dá o acto inaugural da vida.
A linguagem poética, neste caso na enfatização da morte pela palavra, não procura uma finalidade, uma explicação, não procura atingir algo, atingir um fim - isto, é para as religiões e seitas. Na linguagem poética a palavra não morre. A palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque "a palavra é a vida dessa morte", como nos diz o filósofo Maurice Blanchot e o poeta Alvaro Giesta, num dos poemas iniciais de "o Retorno ao Princípio".

" eis / o invisível monumento / da lucidez: // onde a luz acabou / reacendeu-se / a vida; // o timbre  / afina-se / ao abrir duma janela / que antes de estar / aberta / se abriu // erguem-se do silêncio / as almas / em centrífuga abstracção... // onde / o vento / exunda a escuridão das águas / e cresce / a exumação das coisas inúteis, / há / a elevação das almas/ ao infinito-além "

Como se vê neste poema, há no autor Alvaro Giesta, como dialéctica existencial, um horizonte de expectativas enquanto epifania possível de um tempo novo. Não tendo nada a ver com qualquer tipo de credo religioso, é apenas a sua expressão mais alta no fazer poético em que se debruça Alvaro Giesta neste tema Vida-Morte que lhe inspirou o livro poético, ora em apreço e chamado O Retorno ao Princípio.
Aliás, esta experiência neste autor é como que uma vontade subjectiva de atenuar o sofrimento comum a todos os mortais, principalmente aos camponeses enterrados por uma vida nas serranias do nordeste transmontano, que lhe é a sua origem, para quem a morte é dor no luto com que vestem a alma e o corpo, muitas vezes para o resto da vida, mas também, esperança de que para lá do fim comece um novo princípio mais radioso.         
É como que uma praxis criadora inspirada na fé de todos os domingos nas capelas das aldeias onde enchem os bolsos aos padres com promessas que lhes vendem na expectativa de um mundo melhor e mais justo e um lugar cativo no céu, enquanto  rasgam os joelhos em penitência no culto aos seus mortos que, por detrás da mesma capela muitas vezes repousam.

A felicidade, na descrição da morte para o poeta Alvaro Giesta (felicidade nos moldes em que ele a descreve), quando "em erráticos poemas" poetisa o momento em que seu pai descansa no esquife, ainda que sendo ela, fim, este fim não deve ser equiparado ao términus, no sentir e no querer poético do poeta, enquanto Nada e Morte mas, sim, enquanto “fim no começo”. Ela, a morte, para o poeta, é o princípio, é a busca do Além, é o retorno ao princípio. E ela será felicidade, ligada à esperança no pressentimento do Bem-Supremo.

A morte é o tal "monumento invisível" onde a luz se reacende, é o tal "abrir de uma janela / que antes de estar / aberta / se abriu " e donde "se erguem /as almas" e "se elevam / ao infinito-além".
É a tal praxis criadora inspirada na fé num deus que, embora podendo não ser o seu (e seguramente o não é), é o daqueles desvalidos que n’Ele acreditam; aqueles, que o poeta canta; aqueles sobre quem ele se debruça; aqueles por quem ele, poeta, se outra. É a imaginação do poeta na busca incansável do inalcançável, na busca de vencer o fracasso, de vencer a morte. Quantas vezes o poeta até faz lindos poemas sobre a feia morte… prefaciando o poeta, "o poeta é um fingidor".

" desprende-se / para destino enigmático, / do âmago do corpo / extenuado, / a alma sedenta de glória / noutra esfera. // a barcaça da morte / atravessa /o lago escuro da noite, / onde tudo acaba / e começa / novo dia, // a substância, / em maturação inclina-se / no seu propenso vagar
para a glória da morte, // e dela / em glória renasce / em novo dia, / sendo que do seu fim / acontece todo o princípio. // deslumbra-se, / do corpo que se desintegra, / agora / a alma / que se difunde no abstracto / devir."

Vida e Morte são interdependentes. Existem simultaneamente. Uma não existe sem a outra. Ou melhor, existencialmente, Vida e Morte fundem-se uma na outra. A morte ronda continuamente a vida, é um facto contínuo na própria vida, pois “morremos ao nascer; o fim já existe desde o começo”. Já Sócrates, condenado pela cicuta à morte, quando a sua mulher correu aflita para a prisão gritando-lhe; “Sócrates, os juízes condenaram-te à morte!” ele, o filósofo, calmamente respondeu: “Eles também já estão condenados”. Filosofando, preparou-se para a morte. Porque, como dizia Santo Agostinho, “é somente em face da morte que nasce a individualidade do homem”. Afinal, Freud tinha razão quando dizia que “a morte é o final necessário e inevitável da vida”. Vida que, se a quiser suportar, me tenho que preparar para a morte.
Desde o instante em que nascemos, começamos a morrer; cada dia vivo é um dia a menos nas nossas vidas, na nossa existência. É a nossa condição existencial. Porém, sendo a morte um dos fenómenos inevitáveis, o poeta não deve deixar de reflectir na sua finitude como ser humano. Mais uma vez o entendimento do poeta Alvaro Giesta que tem da morte a ideia como causa necessária da vida:

"morte / doce irmã do sono / descanso fatal da dura vida… / liberta-se o espírito / com o som e a cor da morte. // desperto da ilusão–ideia / neste puro entender / o enigma da morte não–fantasma… / olha-se pela ideia / de que a morte é libertação."

A morte, em poesia, é um dos temas actuais muito pouco tratados mas que nos devia merecer pesquisa e preocupação. Principalmente porque, se ela nos amedronta, também é ela, porque existe, que nos dá a única e definitiva certeza da vida. E, se para uns é esperança de um novo princípio, mais radioso, ainda, para outros poetas, como Fernando Echevarría, ela também é certeza do desgaste que a idade não perdoa.
(...)
Quando me decidi a escrever sobre o tema, pensei que isto até seria uma brincadeira séria. Mas, ao mesmo tempo, até me assustei ainda que eu goste de esgrimir com a morte. Já a senti, por vezes, sob dois aspectos: quando em guerra, assustadora; quando em situações de doença de difícil entendimento clínico ou noutras situações de desespero e desilusão, convidativa. Apelativa, até! Também tive ocasiões em que vi a vida morrer-me nos braços, ensanguentada, horripilante e aí senti a morte repulsiva e indesejável. Misteriosa, quando não se sabe porquê! Porque é que ela nos bate à porta, logo a nós e nessas ocasiões.
Foram estes diversos factores que me fizeram autopsiá-la quanto à poesia. E procurei poetas que lidassem com a morte com o mesmo à vontade com que, de permeio, lidam com o amor – o elo aglutinador que estabelece pontos de confluência nesta dialéctica dizível VIDA – MORTE.

A morte, para os crentes num mundo melhor, é sempre “passagem para uma vida definitiva” – assim a decifrou S. Paulo; já Eurípedes, o trágico poeta grego, reflectia que “morrer deve ser como não haver nascido / e a morte talvez seja melhor até que a vida / de dor e mágoas, (…)”; ao contrário, Fernando Pessoa considerou-a um “enigma”.
Seja como for, a realidade é que a morte é um facto – é o cessar completo e definitivo de vida de um ser vivo – que muitas vezes se deseja sem medo, bem diferente desse que se sente quando o morto-vivo permanece ligado à vida através daquelas máquinas complicadas e tubos a emoldurar a cama em que se deita, sem saber que ali está naquele estado vegetativo.

Em Alvaro Giesta é algo desafiador interrogar a morte, desafiar a morte, desafiar esse limite do homem sobre o controlo da natureza… talvez esse sentimento de inconformidade tenha a ver, não com o medo da morte propriamente dita, mas com o medo do sofrimento físico e emocional decorrente dela; medo da dor, da incapacidade física, da incompreensão dos outros homens válidos, da falta de liberdade de poder ser, por si só, medo da solidão.

(...) na penúltima peça sobre o autor Alvaro Giesta no enigma Vida-Morte,  vê-se a sua coragem ao enfrentar o fim no seu “Testamento à Morte”, que aqui, pela sua extensão, não se dá por reproduzido. Nele, patente, o desabafo–desespero final do poeta diante da irreversibilidade no curso das coisas que nos atingem em níveis muito profundos e diferentes; a descrença no divino e a vontade de não sofrer quando a doença incurável é a marca irremediável neste percurso da finitude humana.
Não é o negar da morte neste seu poema omitido, neste momento de cultura contemporânea; é, outrossim, ousar falar dela com coragem, imaginá-la, compreendê-la e aceitá-la. Mas também é um não-crer que a morte unifica e reforça os laços de amizade. Ideias da morte e dos seus rituais como aspecto da sociedade que podem unir pessoas ou separar grupos, não está na perspectiva poética de Alvaro Giesta. Mas também não é vontade do poeta que enfatize a morte com sentimentos de dor, que muitas vezes é uma dor fingida, nem com rituais de exploração do corpo, em fim de vida, que perspectivem uma busca do conhecimento que passa pela sensação da impotência científica.
(...)


Fernando A. Almeida Reis, ortónimo

26/07/14

LOCAIS DE VENDA

"O Retorno ao Princípio", uma dialéctica poético-filosófica em torno da Vida-Morte
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Sobre o "Meditações sobre a palavra", por Xavier Zarco



No início do ano de 2012, surge, sob chancela da Temas Originais, o segundo título da autoria de Alvaro Giesta, “Meditações sobre a palavra”, com o subtítulo de “um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto”.

Antes deste volume, o autor editara “Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser”, obra em que se estreara a solo, este publicado pela Corpos Editora, decorria o ano de 2011.

Posteriormente, desta feita através das Edições Vieira da Silva, também em 2012, veio a lume “Há o silêncio em volta”.

Destas três obras, onde se nota a oficina onde o poeta burila o trabalho a ser, há, na minha perspectiva, a destacar o título que menciono primeiramente e, sobre o qual, me debruçarei no presente texto.

Em “O poeta”, labor inserido anteriormente em “Cantoário (Antologia)”, datado de 2000, e que ressurgiu em “Prosas seguidas de Diálogos”, António Ramos Rosa escreve o seguinte:

“Ao contrário do que muitos pensam, o poeta não escreve a partir de imagens formadas na mente ou na imaginação. Essas imagens surgem ao nível da escrita, embora correspondam a um imaginário latente no inconsciente do poeta. Daí a primazia do poema como criação originária”. (1)

Um pouco mais à frente, refere que:

“o que determinava, essencialmente, a sua poesia, era a própria criação poética”. (2)

Alvaro Giesta, logo na abertura deste seu tomo, numa nota de autor, avisa o leitor que

“O homem, ao criar, põe no que cria engenho e arte sem estar sujeito a qualquer entidade inspiradora”. (3)

Talvez seja este, também, um dos motivos de o autor abdicar do acento agudo no nome que utiliza para assinar as suas obras, indicando-nos assim de que não é um poeta esdrúxulo, isto é, no sentido de complicar o efeito do seu acto de escritura, antes pretendendo que este surja aos olhos de quem o lê como cristalino, guardando para si, enquanto agente exclusivo do acto criador, a carga inerente de um quase estauróforo.

Por seu turno, este livro, “Meditações sobre a palavra”, recebe, tal como antes referi, como subtítulo “um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto”.

Tenho como ideia sobre a produção poética de António Ramos Rosa a de uma espécie de poeta solar, daquele que soube entender a sombra, tocar no corpo e olhar para a luz, trazendo de volta o caminho, através da palavra, da aproximação a todas as coisas.

Talvez por isso a palavra em António Ramos Rosa nos apareça como sendo única e inaugural, como produto, tal como nos sugere Alvaro Giesta, de um presente absoluto.

Esta sequência: sombra, corpo e luz; não tem que ver, no imediato, com o Mito da Caverna, de Platão, embora também se pudesse ir por essa via, dado que, no fundo, estamos a falar sobre a possível forma de alcançar o conhecimento, também este na medida do possível, de todas as coisas do mundo, antes tem que ver com o que António Ramos Rosa menciona, e cito:

“O sol é todo o espaço
e toda a vida é sol
dentro de nós
fora de nós

O sol é o único deus
visível” (4)

Mas mais do que um deus visível, mais do que o rosto, nós sabemo-lhe o nome. E sabemo-lhe porque soubemos construir uma palavra que o representasse em nós, porque o sol em si, tal como um grão de areia, ou qualquer outra coisa, não carece de palavras, simplesmente são, mas não o são, no entanto, para nós, na medida em que sentimos a necessidade de indagar sobre todas as coisas do mundo e, para que tal ocorra, precisamos das palavras.

E é exactamente isto, na minha leitura, naturalmente, o que está em causa no presente volume de Alvaro Giesta, “Meditações sobre a palavra”, o saber que a palavra em si pode e deve ser mais do que a palavra para cada um de nós, inclusive para o próprio, daí a utilização da linguagem poética, registro esse onde a palavra adquire valores diversos aos que comummente lhes são atribuídos.

A palavra é aquilo a que, colhido como sombra, urge saber-lhe do corpo, quase direi, tal como Teixeira de Pascoaes, que

“a Palavra é uma Criatura; tem, portanto, a sua anatomia e a sua psicologia, dignas do amor, do respeito e carinho que merece tudo o que vive” (5)

e, após tomarmos consciência de tal, saber que, se há sombra, se há corpo, algo lhe toca, algo permite o seu desenho, isto é, algo o afaga com luz.

Alvaro Giesta traça-nos o poema partindo, porque o demanda, do que radicalmente nomeia a coisa, que em sombra nos é apresentada, para o trabalhar, retirando-lhe os excessos, levando, direi, ao osso, ao mínimo, ao essencial para que o corpo, ele próprio, na palavra se possa vislumbrar para, posteriormente, saber da via, o ter consciência que o poema pode e deve ser luz, citando-o:

“e o conhecimento a iluminar
quando
do seio da terra nasce a criatura” (6)

A palavra deve ser procurada porque

“a palavra é!
está
no altar-mor que lhe é devido” (7)

para que o poema, tal como uma escultura, que nasce do ventre de uma pedra em bruto, seja o revelar do corpo que nessa mesma pedra estava oculto.

Tal efeito só é possível se o artesão dominar o uso dos artefactos e souber das próprias propriedades da matéria a trabalhar.

Creio que estamos perante um poeta que demanda, dia após dia, no recato da sua oficina, o desvelar dos segredos do seu mister e esta obra, porque medita sobre matéria e utensílios, diz-nos exactamente isso. E o seu autor, mui certamente, sempre que um dos seus objectos se descobre no seu corpo exacto, imitará a sombra quando esta se inclina

“à passagem da palavra acabada
de nascer”. (8)


NOTAS:
(1) ROSA, António Ramos – Prosas seguidas de Diálogos. 4 Águas Editora. Faro. 2011. P. 22.
(2) ROSA, António Ramos – Ob. Cit. P. 22.
(3) GIESTA, Alvaro – Meditações sobre a palavra. Temas Originais. Coimbra. 2012. P. 9.
(4) ROSA, António Ramos – in Rua Larga, Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra. Número 15. Universidade de Coimbra. Coimbra. Janeiro de 2007. P. 67.
(5) PASCOAES, Teixeira de – in “Observatório da Língua Portuguesa”.http://observatorio-lp.sapo.pt/pt/lig ... ngua/teixeira-de-pascoaes (último acesso a 01.09.2013). Com indicação bibliográfica: “Teixeira de Pascoaes, «A Fisionomia das Palavras» (1911), in A Saudade e o Saudosismo, Lisboa, 1988, p.18.
(6) GIESTA, Alvaro – Ob. Cit. P. 51.
(7) GIESTA, Alvaro – Ob. Cit. P. 31.
(8) GIESTA, Alvaro – Ob. Cit. P. 30.
Uma Poética de Guerra "Há o silêncio em volta"

"(...) Um grito de silêncio morre
impotente
no fundo da garganta (...)"

"(...) o silêncio abate-se sobre nós (...)"

"(...) o que fica depois disso?
as marcas da dor, o sangue
vertido
e o silêncio do vazio"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta
são estes os versos colhidos do livro sobre poesia de guerra "há o silêncio em volta", que me parecem apropriados para explicar a razão do silêncio no corpus do tema "Poesia de Guerra" com que o autor deu forma e vida ao livro.
Antes de entrar naquilo que será "como se fosse prefácio", deixem que vos diga que a melhor homenagem que podem fazer aos poetas e escritores, é ler as suas obras. Só assim os poetas e escritores terão razão de existir.
Deixar-se possuir pela poesia, viver a poesia, difundir e partilhar a poesia, é viver com quem a escreve. É viver, com o poeta, as suas inquietações, a sua procura, o seu tempo de ausência, a sua revolta, o seu desassossego, quantas vezes a sua descrença no mundo, mas, também, a sua tentativa de resposta.
No que me toca, em particular como ortónimo, nada me dá maior satisfação do que saber que me leem, me apreciam e levam outros a debruçarem-se sobre os meus versos. Isto não é egoísmo nem qualquer outro capricho, muito menos narcisismo. É apenas vontade desinteressada de me dar a conhecer, conhecendo-me.
E agora, debruçando-me na poética de Alvaro Giesta, naquilo que colhi desta sua leitura da guerra em que tomou parte:
Quando se anda numa guerra de guerrilha, talvez mais traiçoeira do que as guerras clássicas, onde nunca se sabe de onde vem a bala traiçoeira, nem onde está a mina prestes a pisar, onde está o arame de tropeçar com que se vai accionar a armadilha ou onde está montada a emboscada mortífera que à saída do trilho para a clareira, com o capim a rasar as alturas dos ombros, vai varrer o pelotão sem dó nem piedade, a morte é o convívio que parece impossível e quantas vezes o combatente se sere do sentir poético  para ultrapassar a barreira do medo, da dor, do luto que ficou por aqueles que tombaram.
"O silêncio sepulcral
depois de cada emboscada

Nada se sabia
por minutos longos que pareciam horas...

Dissipava-se aos poucos o cheiro
da pólvora queimada...
dissipava-se o medo,
ficava apenas o suor a sangrar
do corpo
e no peito a dor...

No ombro ainda a dormência
e a marca
do coice da espingarda

No cérebro a dúvida se vale a pena
esta carícia
da pátria agradecida

Puta de pátria que tais filhos, pares
para lhe agradeceres
aos coices!"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

"Somos pontos minúsculos
na imensidão da chana...

O sol perdeu há pouco o tom
ensanguentado...
ergue-se agora áspero
abrasivo
em toda a imensidão da terra

Apenas capim.
à nossa frente apenas um mar imenso
de capim
um mar de incerteza
sem ondas bravias mas tão traiçoeiro

Saímos do terror nocturno
e da surpresa traiçoeira da madrugada
ardilosa
para nos lançarmos na travessia
desta chana tão extensa

Sabemos que do lado de lá
nos espera
a sombra acolhedora das copas das árvores
mas também a morte traiçoeira
da emboscada"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

É nessas alturas que a poesia da ausência, que a poesia da falta, a poesia da raiva e do medo, nos nasce na alma e gravamo-la na mente, que as mãos estão ocupadas em segurar com firmeza a espingarda, e os olhos em constante observação da linha do horizonte, sempre pronta a desvendar-nos o reflexo incandescente que sai do tapa-chamas das armas do inimigo ou a tentar desvendar a surpresa no interior da mata fechada e traiçoeira, que se estende a meia dúzia de passos do trilho onde progredimos.
É nestas alturas, e voltando à força dos primeiros versos "Um grito de silêncio morre / impotente / no fundo da garganta // O silêncio abate-se sobre nós", que o "silêncio estilhaçado", ou antes, os silêncios vários, fazem  (ou fizeram) cortina no tardar em dizer o que mais tarde se conta. É este jogo da palavra silêncio na narrativa crítica que imprime à poesia de guerra - neste caso concreto, à guerra colonial - permanentes movimentos que importam não esquecer e divulgar. E haja quem os divulgue...
É por isso que, a este tempo de falta, a este tempo de ausência, a este tempo da dor, só consigamos dar corpo ao silêncio até aí existente, ao fim de algumas décadas, porque até aí faltou a coragem de o dizer, de o deixar expresso por palavras escritas para a posteridade, amordaçadas pelo receio, pelo medo do julgamento que nos possam fazer. É o mundo das mentalidades tantas vezes em julgamentos injustos, porque não passaram por lá, porque não enfrentaram a morte, porque não enfrentaram a dor de ter de matar para não morrer. É a injustiça dos homens a julgar os outros homens, a julgar aqueles que tiveram a coragem para escrever da guerra em que andaram envolvidos e de que saíram, tantas vezes, mutilados no corpo, e outras, tão graves ou mais do que aquelas, mutilados no cérebro e esmagados na alma.
As imagens da guerra e da morte ficarão tristemente indestrutíveis, como assombrações perenes, gravadas no cérebro do ex-combatente e no peito ferido, onde penduraram a cruz de guerra pelos feitos em combate, muitas vezes cobardes, mas descritos como valentes. Peito que sangrará de dor até ao juízo final.

"Rastros de sangue vermelho
nos braços decepados
do capim...

O matraquear da kalashnicov
trouxe o susto
e o medo misturado na raiva
e na dor

Os heróis em mortalha repousam
os ossos desfeitos
no silêncio da capela
sobranceira à morte
e ao medo

Ouve-se o rastejar traiçoeiro
do inimigo
e quase em cima de nós
o bafo quente da morte

Tortura-nos a noite...

O som das rajadas
vindas sabe-se lá de onde
esfrangalha-nos os nervos,
e a mina traiçoeira
destrói
o desgraçado que a pisou"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

São estados de alma difíceis de escrever no verso; são ambiências duras de roer, revoltas interiores que provocam depressões, trazem raiva e traumas para toda a vida, pela perda impossível de remediar; são isso tudo numa amálgama de sentimentos difíceis de descrever e de esquecer. São isso tudo, que nunca são um sentimento único, que provocam torrentes de versos difíceis de entender.
Em guerra, a morte é o mote neste convívio que parece impossível. E, não fosse o sentir poético do combatente, que não tem que ser, necessariamente, poeta, não fossem até, muitas vezes apenas ténues lembranças de amor e de sonho, que nunca o abandonam, ou dificilmente o abandonam, talvez até as únicas que o mantiveram sóbrio e mentalmente saudável, nesta terrível travessia que lhe foi imposta, teria o combatente ensandecido, desertado ou, até mesmo, muito simplesmente apontado à cabeça a sua arma de combate.
"Aqui onde me encontro
com a morte
todos os dias por companhia...

...oiço o chamar dos rios
e das rosas em botão
que te ofereci tanta vez

Vejo o riso das avenidas floridas
que nos olhavam embevecidas
aos domingos
nos nossos passeios de mãos dadas

Promessas que receio não cumprir...

Aqui no sobressalto da mata traiçoeira
onde espreita o medo de morrer,
onde a emboscada está
sempre
prestes a eclodir...

...rezo
sem saber orar sequer
no palco medonho da guerra

Invento orações
nas palavras que ficam por dizer
e nos poemas que ficam
por escrever"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

Esse tempo de ausência, esse tempo de raiva e desespero nesta guerra absurda, esse tempo do vazio e da interrogação ao mesmo tempo, e da desilusão, também, de inquietação e desassossego numa mistura de medo e até de respeito pelo inimigo que está à nossa frente, ainda que oculto, sabe-se lá onde, esse tempo quase nunca é de ódio porque, se ódio houver, é contra aqueles que nos põem na mão a arma e nos empurram para a frente de combate sem sabermos bem para onde vamos e porque vamos, ainda que nos tenham incutido na mente o sentimento de pátria. Quantas vezes o arrependimento, sem saber como nem quando desistir...

"Desperto...
minhas mãos frias
crispam os dedos inertes
no gatilho da espingarda

Debaixo da mira
numa linha que dificilmente erro,
o alvo
Um corpo negro,
meio nu...

Apenas o cobrem os restos daquilo que foi
um camuflado zambiano
Veste no rosto,
encimado por um chapéu também camuflado,
uma raiva sombria
Para ele nós somos o invasor,
o inimigo a abater que importa liquidar
ainda que connosco tenha aprendido
rimas de civilização

Nós somos o invasor que (ele) quer
expulsar
destruir
aniquilar

E ele, para mim, o inimigo de ontem
será o amigo de amanhã
a quem eu quero abraçar"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

Essa inquietação surda, esse desassossego e descrença, essa falta do motor da busca como resposta à nossa inquietude, essa falta de apoio de um porto de abrigo que seja o lenitivo para os nossos momentos aflitivos em combate, que seja o local onde, no fim de cada combate, nos pudéssemos recolher e meditar, ainda que se transforme, às vezes, numa quase tentativa de resposta, molda-se-nos numa simbiose de revolta e vazio. Num nada existencial nas nossas vidas e para as nossas vidas... num indizível lamento de quase falta de fé.
"À volta de mim o terror e a morte...
olhares de medo
fixos na imensidão do vácuo
interrogam-se mudos
inquietos...

Dolorosamente pensam na razão
de tal sofrer

Mas não choram porque o pranto
se esgotou há muito
neste inquieto viver

Ah! se eu soubesse ao menos rezar...

Rezaria por ti
ó homem verme, tirano e sádico
que por prazer destróis;

Rezaria por ti
ó governante ganancioso e brutal
que o mais fraco aniquilas

Rezaria por ti
ó deus, que já nem sei se existes,
pela geração que criaste
e abandonaste"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

Essa raiva e dor que sentimos quando vivenciamos a guerra numa mistura de sentimentos de difícil compreensão, esta raiva silenciosa amordaçada na garganta, compartilhamo-la também, e quantas vezes em primeira instância, com quem já cá não está entre nós; porque sabemos de daí não haverá a crítica mordaz e injusta; porque esse alguém também lá andou anos a fio na guerra, não fazendo, contudo, a guerra; ou, então, fica no segredo das gavetas, anos a fio, até que se perca o medo do tal julgamento injusto e saia para a rua no formato de livro.
Essa angústia, esse medo de dizer pelo tal julgamento, muitas vezes injusto, que nos possam fazer essas mentalidades tacanhas, cobardes e conservadoras, que possam fazer, neste caso, a um ex-combatente  da guerra colonial, que é sempre um ex-combatente sem nome, mas com rosto, deixam ficar essas memórias no papel escondidas bem no fundo duma gaveta, que não no esquecimento.

"Este silêncio inquieta-me.
Há horas que aqui estamos, deitados, com a arma a nosso lado, à espera que o grupo de guerrilheiros, anunciado ontem à noite numa Top Secret, como infiltrado a partir da Zâmbia, aqui passe. Lá ao fundo, corre o Kwango. Rio rico em diamantes, que já vem das terras altas do Alto Chicapa. E penso em ti, pai. Naquele teu conselho. Mais aviso do que conselho:- “não te deixes matar; ficas proibido de morrer!”. “Sim, pai.”- Prometi-te que não me ia deixar matar e vou cumprir o prometido.

Doloroso é este silêncio aterrador.
É manhã cedo. Ou, melhor dizendo, é o dia ainda longe, à espera de sair da noite. Estas noites africanas são quentes na época das chuvas, e frias na altura do cacimbo. Hoje está uma noite quente. Abafada. Não sopra lufada de ar. No céu da madrugada, ainda os restos de sangue do incendiado vermelho que encerrou a noite. Sinto os pelos, pelo corpo, arrepiados, eriçados. É o medo e uma premonição maldita a inquietar-me.

Fomos lançados de madrugada, mais pela noite dentro do que, propriamente, pela madrugada. Agora esta espera desesperante. Tal como o comandante do grupo de combate planeou, mal fomos largados, instalámos uns metros para dentro da mata como se por automatismo. Tudo sincronizado. À retaguarda fiquei eu instalado, pai, com a minha secção de proteção à retaguarda. O cabo Dias, lembras-te? Aquele de quem te falei tanta vez quando eu dava instrução no RI 21, o tal filho do teu amigo do colonato da Cela… sempre tão eficiente e tão operacional! O perfil, exacto, que deve ter um combatente. Ele é que devia comandar o pelotão e não este alferes(zito) emproado, recém saído do seminário. É um medricas… e a guerra não se compadece de medricas, sabes bem disso! O “meu cabo Dias”, esse, sim, sempre tão operacional…. nem era necessário precisar-lhe onde instalar o morteiro.

“Furriel fico aqui… por detrás desta máscara é o ideal.”
Dizia-me, ele, por sinais, batendo no ombro a designar-me pelo posto e levando a mão ao rosto, mascarando-o, para depois levantar o polegar em riste, a que eu correspondia com o mesmo gesto.

Era assim, pai, o filho do teu amigo. Um herói. Mas os heróis também morrem e dalguns, nem sequer fala a história. Apenas, na lembrança dos amigos, a sua imagem. E do valor, se algum lhe reconheceram, somente fala a cruz de guerra entregue ao pai ou ao filho que o pai não conheceu. Esse teu amigo, pai, esse pai do meu maior amigo que tive na guerra e a quem numa ocasião fiquei a dever a vida, recordará hoje, o filho, nesse pedaço de ferro em forma de cruz, sem valor e já sem préstimo. Era assim, meu pai, foi assim o filho do teu amigo. Um herói!

Começa a doer-me o corpo da posição tão incómoda imposta pelas regras de segurança. Doe-me o corpo, mas fervilha-me o cérebro. Nasce-me, aos poucos, uma poesia. Prometo dizer-ta, meu pai, quando nos encontrarmos. Após esta guerra acabar. Mesmo que um de nós já cá não esteja, ou se ambos já cá não estivermos, fica prometido, aqui, sem a necessidade de testemunho notarial, que hei de ter um herdeiro que a há-de dar à luz. E nós, ambos, onde quer que estejamos, vamos ter conhecimento dela. Disso podes ter a certeza. Prometo-te. E o prometido é devido e cumpre-se. Este cumprir-se-á! Estejamos onde estivermos…

Está a amanhecer. Este silêncio dá cabo de mim. Tento lembrar-me das coisas que me contavas no início desta guerra. Nos meus onze anos, ouvia-te, quando regressavas a casa no final de cada campanha de seis meses de ausência nas matas, do norte e do leste de Angola ao serviço do instituto de cartografia, a chamada Missão Geográfica de Angola. Longe de nós; da mãe e dos meus dois irmãos. Estavas um perito em mapas, dizias por brincadeira. Tu, que andavas esse tempo todo agarrado ao volante de uma Hanomag ou de um Unimog, o chamado “burro do mato”, a conduzir um engenheiro geográfico. Contavas-me (que)

"Havia árvores caídas
pontes abatidas
e mortos na picada

Havia corpos inchados
do calor,
esventrados...
órgãos retirados e braços decepados

Havia o cheiro a morte
e a traição

Ali apenas as moscas varejeiras
tinham vida
e apressadas teimavam em tomar conta
de cada cadáver

Sob os corpos armadilhados,
a mina antipessoal
paciente
à espera de fazer mais mortos

Havia a raiva e a dor
e a sementeira
de corpos pelo chão"

- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

Corpos decepados, esventrados…
Viste verter muito sangue nos primeiros anos de guerra colonial. Contavas-me... ruas completamente cheias de cadáveres dos colonos e seus serviçais; daqueles que contribuíam, verdadeiramente, para o progresso de Angola. Estes, não eram os outros…
Corpos decepados, esventrados. Os homens, tantas vezes sem os órgãos sexuais, que os guerrilheiros da UPA se divertiam a colocá-los, depois de brutalmente arrancados, nas bocas das mulheres também mortas e esventradas e com os seios arrancados à catana. Era a guerra inglória por teimosia de um financeiro seminarista e lunático, que teimava em sacrificar um povo por sadismo, apenas, argumentando a defesa e a integridade de um território nacional.
Puta de pátria que teus filhos desprezaste um dia…

"Dói-me o poema. Dói-me a guerra.
Sinto no ar, o medo e o silêncio sepulcral
a invadir os primeiros raios da manhã.

Corações sobressaltados em prece e oração…
muitos sem saberem sequer rezar.

No trilho traiçoeiro
espreita a morte a cada passo
que se dê em falso na picada.

Sem perder de vista o combatente à minha frente
enquanto progrido no trilho,
ou a meu lado quando monto em emboscada,
perscruto no lusco-fusco do alvorecer
as sombras que se dissipam
por entre as silhuetas das bissapas.

Nas mãos, doridas por matar
sinto o peso da G3 engatilhada.
Sempre engatilhada à espera de matar
para não morrer.

Foi assim, meu pai…
De repente o grito e a dor; que tu conheceste bem sem nunca teres vestido uma farda.

Depois
as lágrimas que nos morrem afogadas
antes de nascerem,
pela raiva e pelo ódio surdo
dos corpos que ficam amputados."
- in "há o silêncio em volta" de Alvaro Giesta

Espera. Espera aqui por mim enquanto faço uma pausa, para dizer-te (para dizer-vos), que
"Guardo, fielmente, comigo
um emaranhado de papéis
tão velhos como o tempo...
têm as pontas dobradas de tanto os manusear
em revisões constantes
em visitas sempre novas para os não deixar
morrer

São folhas soltas amarelecidas
onde a tinta que antes usava de caneta
permanente
começa a esmaecer

Como se o luar secasse e se afundasse
no sonoro abraço com que as suas ondas
se abraçam à praia
onde vêm beber saudade
e morrer
ao fim do dia

São restos do "eu" estilhaçado

São o grito...
são um grito de silêncio
impotente, imposto
no fundo da garganta
duma boca amordaçada

São o silêncio desta guerra
que se abate sobre nós

São o silêncio do vazio
mas são também
o não às palavras que ficam por dizer"
desta guerra que vos conto.

- in "todas as folhas têm chão" de Alvaro Giesta

© Alvaro Giesta em 14/Out/2013, Cais do Sodré, Lisboa.

Poetas intervenientes no evento poético-musical "Poetas do Povo", sob a égide do anfitrião José Anjos, em Cais do Sodré-Lisboa dia 14/Outubro/2013 pelas 22H00, com os poetas convidados e interventores Miguel Borges, Jaime Rocha e José Candeias com acompanhamento musical por Alex Cortez