24/06/17

O MITO DAS RAÇAS

«Lutar contra o racismo, para citar uma alegoria do filósofo americano Rudolf Carnap (1891-1970), é como tentar consertar um barco que navega no oceano agitado por uma tempestade.», diz-nos Pierre-André Taguieff, filósofo e cientista político francês do Centro Nacional de Pesquisas Científicas, em entrevista concedida à revista Super Interessante, edição 66, de Março de 1993.
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- este artigo retrata, apenas, uma opinião do autor Alvaro Giesta
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Cada vez mais se me afigura de difícil resolução o combate que se trava contra o mito das raças, que alastra, quer no âmbito do conflito religioso (cada vez mais sangrento pelo fanatismo das religiões que são transversais ao mundo actual, fanatismo incompreendido para o homem que se diz civilizado e temente a Deus), quer no âmbito de políticas divisionistas e raciais que teimosamente insistem no conceito da raça - superior e inferior - que simplesmente não existe, e investem, de forma destrutiva, em formas de resolução, que não passam de hipócritas e oportunistas tentativas.
A lei dos tempos actuais, e com razão, insiste em que, se não existe o conceito de raça, maior razão há para que seja eliminado o racismo pondo termo às velhas teorias de raça. Pura ilusão! Não há nada de mais demagógico do que dizer que é possível eliminar a palavra "raça" terminando com o conceito rácico. E porquê? Porque a palavra "raça" não é apenas mero conceito. É uma realidade mais do que simbólica, porque é um termo de linguagem que identifica as várias pessoas pela sua cor da pele. E, negarmos esta evidência, é navegarmos num universo de pura hipocrisia.

Por muito que nos custe, por muito que repugne o "homem bom, não oportunista e civilizado", não nos podemos alhear de que a realidade da "cor da pele" ou do "aspecto dos cabelos", existe. E, existindo - mas não o devendo ser, acentuo -, esta realidade não deveria ser motivo de diferenciação e distinção social, de segregação e estigmatização. Mas, infelizmente, não nos podemos alhear - e, fazê-lo, seria pura hipocrisia demagógica, repito, porque ninguém se consegue abstrair e alhear desta realidade - de que a cor da pele e o aspecto dos cabelos é o grande motivo de segregação.
A noção de "raça" existe, ainda que os cientistas continuem a afirmar de que tal é um mero conceito. E ela é o grande motivo divisionista. Ainda que me force em pensar, com a tentativa de destruir a tese anterior e de me fazer crer a mim mesmo, ser pensante, que, actualmente a noção biológica de desigualdade entre os seres não se põe com a mesma acutilância como o racismo cultural ou diferencialista, neste caso, como as etnias, as culturas, as religiões. Não se hierarquizam, tanto, como até à época hitleriana, em raças superiores e inferiores, em negros e brancos ou amarelos, mas esta ideia de "raça" é imanente ao ser; ao "todo ser"! Sempre assim foi e será. Não apenas àquele que se  julga diferente quando nasce e com direito à diferença negando a igualdade - o que é um absurdo!-, mas ao "todo" ser humano. Esse pensamento de "raça" está compreendido em toda a essência de todo o humano. E negarmos tal evidência é navegarmos num mar de hipocrisia.

A nossa hipócrita sociedade actual, e não apenas a sociedade política, vangloria-se de que cria "fundações" com vista a promover a igualdade de oportunidades para todos. E debate-se com propósitos que não passam disso mesmo: meros propósitos panfletários propostos para angariarem meios e fundos com vista a ampliarem, quantas vezes, partidarismos criados com fins obscuros e indefiníveis, que passam, tão-somente, por políticas que se fundamentam na luta racial mas que, em boa verdade, não vão além de contínuas lutas de classes, que proliferam no mundo. Porque sendo o «racismo e o capitalismo duas faces da mesma moeda» (Steve Biko), o regime de guerras e pobreza, de miséria e opressão, a força da exploração humana usada pelo sistema capitalista que diz renegar a luta de classes com a criação de bolsas para os estudiosos se debruçarem sobre o problema da "luta racial", mais não serve, tantas e tantas vezes, do que os seus próprios interesses capitalistas que usam a opressão e exploração para dividir e reinar. Isto não é mito nem ficção ou telenovela. É a crua realidade encapotada, tantas vezes, com (falsos) propósitos de fins humanitários.

E aqui se reforça a alegoria do filósofo, com que se abre esta crónica: «lutar contra o racismo, é como tentar consertar um barco que navega no oceano agitado por uma tempestade». Assim se (me) afigura de difícil resolução, quiçá, impossível resolução, o combate que se trava contra o racismo.

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© Alvaro Giesta (artigo publicado na revista on-line BIRD em Novembro de 2015)

23/06/17

TODAS AS FOLHAS TÊM CHÃO


A


 indiferença mora ao pé de mim.

Fecho o caderno em que escrevo. Já nada leio nele senão a mágoa de viver neste tempo de desencanto. A indiferença mora ao pé de mim.
Tudo me pesa. Até a luz que tarda em cair desassossegada sobre os meus ossos anquilosados se me nega hoje. Pesa-me a frigidez dos dias vizinhos do inverno. Abro a janela. Lá fora o melro de bico amarelo que habitualmente me desperta cedinho, madrugada ainda noite fechada, hoje, também ele se passeia mudo no canteiro da frente meio florido, desajeitadamente florido, e vai despenteando o solo coberto de cascas de pinheiro à procura da larva distraída.

Hoje olhei-me, arrepiado, ao espelho e vi-me a impotência de ter sido jovem e explorado pelo país que, quando se é velho, deixa de se ter préstimo, qualquer préstimo, ainda que tenha tido a importância, no passado, suficiente para que o arrebatassem à terra e à família e o desterrassem para a lonjura de outro hemisfério diferente e desconhecido em defesa daquilo a que chamavam pátria, e de onde veio, depois, para o outro hemisfério de onde partiu e agora também, nele, desconhecido. Agora vejo-me abandonado, relíquia do e dum passado com um pedaço de lata em forma de escudo preso ao peito e outro, de ferro, em forma de cruz, agarrado à memória, desperdício dum tempo, me diziam, que havia de ser novo, porque renovado pelos ventos da nova história. Vento veloz, qual sirôco do deserto, que até serviu às tropas dos Comandos para dar nome às façanhas das operações de terra queimada, de combate, morte e cinza por essa Angola, além.
E no fundo de mim esta voz, em surdina, agora sarcástica, antes de aviso, a recordar-me o que então me dizia “olha que se agora te chamam herói, amanhã te esquecem, te desprezam e te enterram nu e sem orações numa vala comum sem tabuleta, sequer, a indicar os restos de ti.”
Esta persistente voz em tumultos grita-me, surda, dentro de mim, inquieta-me, pertinaz e incomodativa, tão arreliadora quanto esta aranha turbulenta que me atormenta o lóbulo parietal direito passeando-se, sempre inquieta, entre a fronte e a nuca, em tom de escárnio “...tu, agora, és um desperdício do tempo, um deserdado da pátria, um ancilosado sem remédio, corpo movido a custo e à custa das artroses reumáticas cuja semente herdaste nas inúmeras emboscadas nessas noites perdidas no silêncio a que te obrigavas para que a morte passasse a teu lado sem te ver, noites em que vivias atolado de água até à cintura para defenderes a puta da pátria que agora te mija em cima”.
Sempre esta puta desta voz a atazanar-me os ouvidos e fazer esgaravatar, cada vez mais e cada vez com mais persistência esta aranha movediça e incomodativa dentro da minha cabeça, a fazer-me reviver tempos de ira e de revolta que procuro matar, de vez, dentro de mim. Mas o raio da mordaça que uso para lhe abafar a voz, rompe-se e ela regressa em tumultos, bafarolas quentes e ácidas e com o cheiro da pólvora queimada. Depois, ainda esta dor, esta marca atroz da coronha que não sai, no ombro direito e a dormência que fica após o coice da espingarda.
Somos um bando de cobardes, meu pai; tu que me pensavas herói, que me incitavas a sê-lo, quando me vias fardado de camuflado e com aquelas divisas doiradas a enfeitar os ombros. A ser um herói... eu, tão cobarde como tu que nunca vestiste uma farda; tu, mais cobarde do que eu que sabias que tudo era uma mentira, quando me incitavam a defender uma pátria que não era minha. Somos um bando de cobardes, mesmo reconhecendo-nos que nos transformaram, a seu bel-prazer, nos espectros da amostra do ser a que nos reduziram em vida, pela defesa desta puta de pátria mal agradecida que agora nos rouba o amargo pão que colhemos.
Tu bem me dizias, meu velho, e eu não queria crer que assim fosse, que essa juventude empenhada um dia em salvar um império, não serviria senão para ser espremida e abandonada num talego fechado, que não rompesse, para que aí ficasse quieta e calada, até à morte, a fim de não incomodar aqueles que um dia nos iam transformar em desperdício, lixo e empecilhos, e nos iriam reduzir o tempo de vida ao maior percentil que pudessem, arrebanhando-nos o pouco da reforma que nos deram e por direito por nós adquirida.

© Alvaro Giesta (para) "todas as folhas têm chão"
Alvaro Giesta © imagem


CÂNTICO DESTE PAÍS INERTE



08/06/17

PASCOAES E A SAUDADE

Introdução


Das leituras feitas a várias das obras de Teixeira de Pascoaes (não tantas como desejaríamos, dada a impossibilidade de as encontrarmos no mercado livreiro nacional, mesmo correndo o risco oneroso de busca e compra nos antiquários e alfarrabistas do país ou até, onde com mais facilidade as encontrámos, no estrangeiro), algumas leituras por inteiro e noutras, apenas, de trechos julgados pela pertinência para o objectivo em causa, com dificuldade extrema estabelecemos propósito definitivo de começo - que muitos poderiam ter sido - para esta aproximação de estudo, que porventura rondará em trabalho nenhum comparável com os de vultos de grande fôlego que por aqui nos vão servindo de fonte e de guia. Porque tantas são as janelas por si deixadas abertas à aproximação para possíveis caminhos a percorrer em análise, nos assalta, assusta e quase coíbe o medo de nos perdermos e jamais nos encontrarmos nesta noite de longas sombras e de caminhos insondáveis em busca da luz. Depois de várias reflexões, a coragem nos impulsionou a, aqui, decidirmos falar do Pascoaes que a muito poucos interessa, hoje, tal como não interessou, no seu presente-passado, a muitos dos seus pares contemporâneos mas, se espera, passe a interessar no futuro - é o Pascoaes que na sua concepção do seu mundo fantástico e em delírio procurou, no sentimento-ideia da saudade, a solução filosófica para o reencontro de Portugal consigo próprio para voltar à identidade perdida.


[À frente, no enquadramento da crítica a Pascoaes dos versos da saudade, à "identidade perdida" reportar-nos-emos, em breves linhas, à situação histórica de Portugal, integrada na da Europa, nos anos pós-nascimento do poeta.]

 Ainda que, nos dias de hoje, seja impossível estar de acordo com a ideia de que o "Saudosismo" - a sua maneira genuína de ser português - é basilar para o «pertencimento pátrio», não podemos deixar de o examinar dentro do contexto da época, fora do qual o seu sentido é adulterado. E "Saudade" será a palavra que abre este trabalho, por onde navegaremos em leituras que sabemos, desde logo, de difícil acesso e obscuro entendimento; "Saudade" será a palavra com que fecharemos a obra se a coragem, entretanto, não nos abandonar nesta difícil tarefa de sondar o insondável «buraco negro, centro do vácuo proliferador[1]» da espiral dantesca do sonho, por onde o poeta de Maránus viaja, na noite das suas "Sombras" que cerzem com o som relampejante do seu mar imenso da natureza do Marão e o eco do seu caminho iniciático pagão, e místico também, o grande "romance da saudade". Sombras, «que de perto seguira Dante e Virgílio nos abismos do Mistério, a alma do Poeta, dramática e atormentada, marcada pelo fogo dos vulcões infernais e pelos relâmpagos dos espaços[2]


Teixeira de Pascoaes é um território prolífero de figuras-espectros que fluem no texto por entre personagens-quase, que desfilam em caudal ininterrupto, entre cenas e paisagens místicas carregadas de sombra e luz, de braço dado com a voz do eu-lírico, nos poemas, e a do narrador-personagem, na prosa - é o cosmos poético de Pascoaes movido pelo fantasma da "Saudade". Nenhuma das suas obras parece ter começo ou fim, porque os seus livros são como camadas de estratos sobre estratos que se dispõem entre eles em profundidade, como se numa descida aos infernos do ser para logo se tornar subida aos céus de outra vida ou da vida-outra, depois de purificado pelo fogo.

«Aqui, no Inferno, neste sítio lúgubre,
A criatura expia o velho crime
De se ter entregado às mãos da Morte,
Havendo sido dada à luz da Vida.
(...)
Aqui, no País do Drama, o sofrimento
É eterna Primavera

(...)»T. P. Regresso ao Paraíso, Canto II



[1] Roberta Almeida Prado de Figueiredo Ferraz, tese de doutoramento em Letras, 2016, Universidade de S. Paulo, Brasil
[2] Leonardo Coimbra, Prefácio ao Regresso ao Paraíso de T.P., 2.ª edição, 1923
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Como nos diz Mário Cesariny, há na obra de Pascoaes «para além da unidade profunda, a grandeza e indivisibilidade (...) em criações tidas como plurais: a poesia em verso, a poesia sem versos, a obra ensaística, a pintura, o humanismo expresso em conferências e noutros laços de comunicação[1]». E ainda, «O Poeta, o Mago, Pascoaes, será um ser separado-ligado aos polos positivos e negativos gerais, como na aritmética o número Um[2]».
As obras de Pascoaes baralham-se numa lógica elíptica deixando, cada uma delas, antever, no seu quase-fim ou fim-quase, o princípio da outra que, onde nasce, lhe dá continuidade e vida. Funcionam, assim, as obras do poeta de Maránus como partes de um todo, de um corpo único movido pela unidade afectiva a que o poeta nomeou de "Saudade". "Saudade" que é mais que um tema - é a sua obsessão, a sua religiosidade, a sua salvação e a sua cruz, a sua visão do mundo, a sua "filosofia" ou "metafísica religiosa". É o romance único da saudade, um romance metalinguístico - em verso quando é prosa ou em prosa quando é verso - do entendimento do ser que se encarna na potência da saudade; e saudade aqui percebida como criação poética, revelada na obra lida e entendida como um todo: todas as obras de Pascoaes, sejam poesia-poesia, prosa-poesia ou poesia-prosa, numa fusão de corpo e ausência, de sombras e luz, de grito e silêncio, são partes intimamente ligadas ao todo, soltas entre si mas dialogantes, como se cada uma completasse a outra, completando-se, movidas poeticamente num encontro simultâneo do presente-futuro pela memória do passado, projectado para um futuro-outro, no qual a civilização tomasse (ou venha a tomar) consciência da sua independência - e, aqui, a consciência rege-se pelo que é «eminentemente poético» - e se tornasse superior no progresso moral sobre a riqueza material.


Teixeira de Pascoaes, o menino que aos 18 anos publica a sua primeira obra chamada "Embriões", fazendo uso do seu nome de criança - Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos -, obra rejeitada mais tarde e queimada no pátio da sua casa do Gatão, a criança tristonha que com 16 anos de idade «reprova a português no liceu de Amarante, vem provar-nos que, um poeta ou um letrado não são a mesma coisa que um gramático ou um professor»[3], como nos diz António Cândido Franco em "Prolegómenos do saudosismo de Teixeira de Pascoaes à Colectânea que integra as obras do poeta: Belo, À Minha  Alma, Sempre e Terra Proibida". Diz-nos ainda o mesmo pensador - e transcrevemos da sinopse à obra de António Cândido Franco, "A Literatura de Teixeira de Pascoaes": «Foi um moderno ao arrepio de tudo, que preferiu o vazio de um silêncio definitivo ao ruído fútil de plenitude que era só, feitas as contas cem anos depois, a aparência transitória e envernizada do seu tempo[4]». Leonardo Coimbra escreve: «Pascoaes não é dado às ciências, nem ao raciocínio analítico; é, sob a inspiração, um vidente, um condensador de recordações, em descarga...[5] ». Jorge Coutinho diz-nos que graças à «independência económica de que sempre desfrutou o autor de "Marânus", permitiu-lhe dar-se ao luxo de cedo rejeitar a única profissão que exerceu na vida, a advocacia» e, na paz e sossego da natureza, dedicar a sua vida à tarefa de escritor e pensador, quase com vocação sacerdotal, com carácter «vagamente religioso», como se em «resposta a um profundo imperativo interior»[6]. João Maia em "O Poder de Símbolo de Teixeira de Pascoaes", aquando da comemoração do 1.º centenário do nascimento do Poeta-Eremita, lembra que a obra filosófico-literária de Pascoaes «pertence, sem dúvida, às obras sagradas pela categoria de magnitude, em tamanho e valia».[7]



[1] Mário Cesariny (em nota de abertura) na antologia Poesia de Teixeira de Pascoaes, 1972
[2] Ibidem
[3] António Cândido Franco, Prolegómenos do saudosismo de Teixeira de Pascoaes, obra n.º 16 da colecção Obras de Teixeira de Pascoaes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997
[4] António Cândido Franco, A Literatura de Teixeira de Pascoaes, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2000
[5] Leonardo Coimbra, Prefácio ao Regresso ao Paraíso de Teixeira de Pascoaes, 2.ª ed. Renascença, 1923
[6] Jorge Coutinho, O Pensamento de Teixeira de Pascoaes - estudo hermenêutico e crítico (dissertação de doutoramento em Filosofia, Universidade Católica Portuguesa, Braga, 1994
[7] João Maia, O Poder do Símbolo de Teixeira de Pascoaes, nas comemorações do 1.º centenário do nascimento do poeta, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1980
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Efectivamente este poeta solitário e esquecido, conheceu uma projecção além fronteiras, inigualável para o seu tempo, mais nos seus títulos didácticos e em prosa que, propriamente a lírica[1]; infelizmente, entre nós, e até hoje, a obra de Pascoaes teve sempre este triplo estranho destino: mal compreendida por alguns contemporâneos e por eles de um golpe liquidada, que tudo fizeram para que, não apenas, caísse no esquecimento mas, também, fosse rejeitada; esquecida depois pela maioria dos intelectuais portugueses, sobrevive, a custo, pela dedicação de raros espíritos - curiosos, uns, na expectativa de o compreenderem, dedicados, outros, porque lhe reconhecem valor.



[1] [publicações no estrangeiro]
1930 - 1.ª edição francesa de Cantos Indecisos
1931 - 1.ª edição francesa de Regresso ao Paraíso
1935 - 1.ª edição espanhola de S. Paulo (prefácio de Unamuno)
1936 - 1.ª edição checa de  Regresso ao Paraíso
1937 - 1.ª edição holandesa de São Paulo
1938 - 1.ª edição alemã de São Paulo
1938 - 2.ª edição holandesa de São Paulo
1939 - 1.ª edição holandesa de São Jerónimo
1941 - 1.ª edição alemão de São Jerónimo
1942 - 2.ª edição alemã de São Jerónimo
1943 - 3.ª edição holandesa de São Paulo
1943 - 1.ª edição húngara de São Paulo
1946 - 1.ª edição espanhola de Napoleão
1946 - 2.ª edição alemã de São Paulo
1946 - 1.ª edição alemã de Napoleão
1946 - 1.ª edição holandesa de Verbo Escuro
1949 - 1.ª edição alemã de Verbo Escuro
1949 - 4.ª edição holandesa de São Paulo
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O Poeta-Eremita teve, assim, a sorte dos profetas: estes, na sua significação mais ampla a todos os enviados por Deus, vindos à Terra com a missão de instruir os homens e de lhes revelar as coisas ocultas e os mistérios da vida espiritual; ao solitário do Gatão coube a sorte de, a sua poesia e a sua prosa só serem entendidas na distância temporal, e aceite apenas por alguns, como nos diz Jorge Coutinho «quando as mudadas condições da história, e sobretudo, o paroxismo dos seus desvios, (revelarem) que, no oculto da sua profecia e na essência da sua mensagem, afinal, o profeta tinha razão[1]».

[À frente, e em altura própria, nos debruçaremos sobre o motivo da impopularidade que nos parece ter sido responsável para que, ao tempo do poeta, e mesmo ainda hoje, lhe fosse retirado o brilho que poderia ter sido a esplendorosa luz reveladora da singela mas profunda verdade messiânica. Coube-lhe, por sorte, ter sido este o Destino do Poeta-Pensador: começar a ser compreendida, a sua obra, passado mais de um século do início da sua escrita (1895), quando, no horizonte da história, se prevê o fim da modernidade; quando, no terceiro milénio da nossa era, habitam os medos e fecundam as interrogações sobre o que vai ser este terceiro milénio da era cristã, quando se mata e se destrói, sem humanidade, em nome dum Deus. Afinal, perguntemo-nos, como faz Jorge Coutinho: «o que há de intemporal sobre a obra de Pascoaes»? Talvez, nela «possamos encontrar sugestões» com valor actual, relativamente aos problemas «que mais inquietam a humanidade em geral e o homem português em particular».[1]
Há que ler, meditar, colher e descobrir o que diz, ao tempo de ontem (e o tempo de ontem é o tempo da época e no seu contexto), o espírito da obra profética de Pascoaes - a voz que clama no deserto do esquecimento. Fazê-la sair da sombra, fazê-la brilhar à luz da verdade e da sabedoria; como nos diz José Régio, «ela merece muito ser conhecida e amada»[2]. Louvor merecido àqueles que em especial se têm destacado pelas reflexões, comentários e estudos sobre a obra de Teixeira de Pascoaes, sem desmerecer outros que, como refere o cónego Jorge Coutinho (e cito) «muito timidamente o fizeram, ainda em vida do autor, ainda que, uns e outros, com carácter de ensaio mais do que de carácter científico» (citei).]




[1] Jorge Coutinho, Ibidem
[2] José Régio, Sobre a Impopularidade de Pascoaes, "Comércio do Porto", 24 de Janeiro de 1963



[1] Jorge Coutinho, Ibidem
[2] Jorge Coutinho, Ibidem
[3] José Régio, Sobre a Impopularidade de Pascoaes, "Comércio do Porto", 24 de Janeiro de 1963
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A obra de Pascoes é imensa - estende-se de 1895, com a publicação de "Embriões", livro que acaba por rejeitar e queimar, até ao ano da sua morte, 1952, com a publicação de cerca de 75 títulos (entre poesia e prosa, com reedições retocadas e ampliadas de livros de poemas) e numerosos folhetos dispersos. Edições pequenas, é certo, mais das vezes de autor, difundidas especialmente entre amigos e locais. Na prosa são notórias as conferências doutrinárias e as biografias noveladas. Há, em toda a obra literária de Pascoaes, marcas reconhecíveis que a individualizam e tornam única, tanto no domínio da forma como no do pensamento. Toda ela dimana naquele predicativo que Pascoaes define como «experiências emotivas».. A sua obra traduz


«(...) um estado emocional espontâneo e convertível em pensamento (...). Houve um instante em que as pedras e os montes me falaram. E fiquei a ser esse instante. (...)
Na composição da minha obra, recorri sempre às minhas experiências emotivas.»

T.P. em O Homem Universal, Edições Europa-América, 1937, pp 117


 Obra imensamente variada: Poesia, com longos poemas - Maránus e Regresso ao Paraíso - de milhares de versos, Colectâneas de pequenos poemas ou aforismos poéticos, conferências, peças de teatro, romance e biografias filosóficas - estas, mais que a poesia, lhe deram renome internacional, como já visto anteriormente. Pascoaes é um "vento de lirismo desenfreado", elevando tudo ao ego cósmico, onde o cristianismo e o paganismo se harmonizam num humanismo transcendente, eivado de panteísmo naturalista - o seu Deus está no Universo de todo o seu Marão: pelas planícies e fontes se passeia, nas águas do seu Tâmega se banha e refresca, na noite enluarada, por vales e montanhas se espraia, nos campos enevoados que medram a partir das sombras em que a alma do homem medita e o poeta se inspira.

«Ó Tâmega baixinho e transparente
(...)
Onde, triste, flutua a sombra dos outeiros.
(...)
Ó Tâmega dos pegos tenebrosos,
Dos clamores misteriosos:
Vozes de água inundando a noite adormecida...»

(do Sempre, 3.ª edição da Renascença Portuguesa, 1915, pp 46

No poema "Meditando", dedicado a Miguel de Unamuno, seu eterno amigo, deixa-nos assim expresso acerca da sua meditação em Deus:

«Desvendar, descobrir, ir ter onde está Deus
É o verdadeiro fim do coração humano...
É uma estrada a trilhar a vastidão dos céus
Como foram outrora as ondas do oceano.»

(do Sempre, 2.ª edição do Autor, 1902)

«Meditar é subir aquela altura
Onde a gota do orvalho é um astro que alumia,
E onde a humana e terrena desventura
É divina alegria.»

(do Sempre, 3.ª edição da Renascença Portuguesa, 1915, pp 27)

Assim nos diz Pascoaes da Natureza, continuação do Homem em Deus:

«Alma, sombra de amor e névoa de tristeza
Turbando os céus...
Prolongamento ideal da Natureza,
Continuação da criatura em Deus.»

(do Sempre, 3.ª edição da Renascença Portuguesa, 1915, pp 68)

Da 1.ª edição, 1897, do Sempre, retiramos parte desse belíssimo poema "As Minhas Sombras" que abre a edição do livro "As Sombras", publicado em 1907 e dado à estampa nesse ano pela Livraria Ferreira, Rua do Ouro, Lisboa:

«Ó sombras que durante
A noite me falais,
Quando penso, e não sei
Porque a este mundo vim!
(...)
Quem sois vós, quem sois vós,
Vagas sombras perdidas
(...)
Quem sois vós, quem sois vós,
Fantasmas d´outras vidas
Que me falais, se eu ando
À noite, só comigo?
(...)
Sereis da minha dor
Um pálido luar,
Um reflexo do que arde
Em mim, sem eu saber?
(...)
Sois o infinito amor,
O puro olhar de Deus,
Ó sombras que durante
A noite me apareceis!
Vós sois a Luz que existe
Além da luz dos céus,
E d´onde todas vós,
Estrelas, descendeis...»

(do Sempre, 1.ª edição do Autor, 1897)

O que se admirava em Pascoaes, e que disso foi prestígio e renome merecidos, nessa época e que perdurou até longe no tempo e ainda hoje faça verter muita tinta - e aqui, a nosso ver, que já era o de Jorge de Sena, o maior equívoco daqueles que o endeusaram sobre tal -, era a lírica efusiva e retórica, o sentimentalismo lacrimoso da "saudade" que transformava a realidade em visões de espectros do além nascidos e erguidos nas montanhas nebulosas do Marão, que se passeavam  entre deuses exorcizantes pelos rios, arvoredos e nas fontes, nas sombras da noite dialogando com os mistérios da existência. Fascinados por este tipo de saudade, reforça-nos Jorge de Sena, que «os poetas e os críticos (desse tempo) não se davam conta de que essa saudade se voltava muito menos para o passado do que para o futuro[1]» e que o papel de tal sentimento seria (e serviria), a partir desta reminiscência platónica, «o motor de uma crescente humanização do universo[2]». Para esta (des)valorização do significado da saudade, terá contribuído o próprio poeta (adjuva-nos Jorge de Sena) pela sua afeição - com que sempre compactuou - pelas figurações grandiosas dos deuses que eivam a sua vasta obra poética, pela complexidade das belas imagens, pela dimensão exagerada dos versos que se estendem por densos e longos poemas apoiados em abstracionismos líricos, entendidos por alguns críticos "sem conexão racional".




[1] Jorge de Sena, A Poesia de Teixeira de Pascoaes (estudo prefacial), Brasília Editora, 1982
[2] Jorge de Sena, Ibidem
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E, assim, perdurou Teixeira de Pascoaes, até às décadas de 40 e 50, passada que foi a polémica febril entre o modernismo e as sobrevivências académicas e a extinção do saudosismo como escola, emergindo, no conceito das gerações mais novas, como "poeta raro e enorme da poesia portuguesa":

- admirado, até ao fim da vida, por provincianos com cuja admiração fingia o poeta comprazer-se;

- aceite, também, durante as décadas de vanguardismo literário por aqueles que viam no modernismo «um perigoso agente de "desnacionalização" do país[1]»;

- incompreendido por alguns dos seus pares que, (in)conscientemente e com escárnio, interpretavam a saudade meramente sentimentalista e a consideravam própria de qualquer animal, afastando-se, deliberadamente, da concepção da escola saudosista por si assumida, que eleva a saudade ao nível do sentimento mais nobre do ser espiritual;

- contestado pelos agentes do modernismo português, que contra ele e a sua escola «saudosista» se revoltaram, depois de um pequeno namoro com Pessoa e Sá-Carneiro.


Antes de entrarmos na complexidade messiânica da saudade da obra pascoaesiana, antes de esmiuçarmos a polémica Sergista que levou à sua incompreensão e contribuiu, em grossa medida, para a sua quase rejeição, antes de concluirmos este longo texto com a cisão Pessoana da doutrina do saudosismo de Pascoaes - os três temas principais deste trabalho -, indicamos aqui, em fim de página e de introdução, a publicação cronológica das suas obras em verso e prosa - que conhecemos porque provavelmente outras haverá em reedições revistas e aumentadas - com a finalidade de balizarmos os dois períodos importantes da sua escrita: de 1895 a 1915, até ao Verbo Escuro (ainda que depois, e durante cerca de dez anos e até 1925, o poeta tivesse feito algumas publicações em verso dedicando o maior tempo a revê-la e a refundi-la para a publicação das obras completas que começou em 1929, tendo ficado incompleto em 1932) e de 1934, com a publicação de S. Paulo, a 1952, com a força das publicações no domínio da prosa.[3]





[1] Jorge de Sena, Ibidem 
[2] Jorge de Sena, Ibidem
[3] BIBLIOGRAFIA DE TEIXEIRA DE PASCOAES
Pascoes nasce no ano de 1877 - morre em 1952 com 75 anos
Poesia
1895 - Embriões (18 anos)
1896 - Belo, 1.ª parte (19 anos)
1897 - Belo, 2.ª parte (20 anos)
1898 -  À Minha Alma (21 anos)
1898 - Sempre (21 anos)
1899 - Profecia (22 anos)
1900 - Terra Proibida (23 anos)
1901 - À Ventura (24 anos)
1903 - Jesus e Pan (26 anos)
1904 - Para a Luz (27 anos)
1906 - Vida Etérea (29 anos)
1907 - As Sombras (30 anos)
1909 - Senhora da Noite (32 anos)
1911 - Maránus (34 anos)
1912 - Regresso ao Paraíso (35 anos)
1912 - Elegias (35 anos)
1913 - O Doido e a Morte (36 anos)
1914 - O Verbo Escuro (37 anos)
1920 - Elegia da Solidão (43 anos)
1920 - Terra Proibida (43 anos)
1921 - Cantos Indecisos (44 anos)
1921 - O Bailado (44 anos)
1924 - Elegia do Amor (47 anos)
1924 - O Pobre Tolo (47 anos)
1925 - D. Carlos (48 anos)
1925 - Cânticos (48 anos)
1925 - Sonetos (48 anos)
1929 - Pascoaes inicia a publicação de suas obras completas em 7 volumes (ed. Autor), revisadas e alteradas, processo que se estenderá até 1932 (52 anos)
1935 - Painel (58 anos)
1949 - Versos Pobres (72 anos)
1953 - Últimos Versos - obra póstuma destinada pelo autor a ser integrada na colecção "Cancioneiro Geral"

Prosa
1909 - inicia Uma Fábula - o advogado e o poeta, só publicado postumamente em 1976
1912 - O Espírito Lusitano e o Saudosismo (35 anos)
1914 - A Era Lusíada (37 anos)
1915 - A Arte de Ser Português (38 anos)
1916 - A Beira num relâmpago - relato de viagem (39 anos)
1919 - Os Poetas Lusíadas - conferências (42 anos)
1922 - A Caridade (45 anos)
1923 - A Nossa Fome (46 anos)
1925 - Londres (48 anos)
1926 - Jesus Cristo em Lisboa - teatro (49 anos)
1928 - Livro de Memórias - autobiografia (51 anos)
1934 - São Paulo - biografia novelada (57 anos)
1936 - São Jerónimo e a Trovoada - biografia novelada (59 anos)
1937 - O Homem Universal (60 anos)
1940 - Napoleão - biografia novelada (63 anos)
1942 - Duplo Passeio - relato de viagem (65 anos)
1942 - O Penitente, Camilo Castelo Branco - biografia novelada (65 anos)
1945 - Santo Agostinho - biografia novelada (68 anos)
1949 - António Carneiro - biografia (72 anos)
1950 - O Empecido - novela (73 anos)
1950 - Pro Paz - conferência (73 anos)
1951 - Dois Jornalistas - novela (74 anos)
1951 - Aos estudantes de Coimbra - conferências (74 anos)
1952 - Conclui Uma Fábula - o advogado e o poeta, só publicado postumamente em 1976 (75 anos)
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Nota:
o presente trabalho, de que aqui apenas vai ficar exposta ao público a introdução, tem em vista ser publicado em livro.
Será constituído pelos seguintes capítulos, em adiantado estado de conclusão:

Cap. I
(In)compreensão da obra pascoaesiana 

Cap. II
A polémica António Sérgio-Teixeira de Pascoaes sobre o Saudosismo
    - O Sebastianismo e o Saudosismo em Pascoaes (para o enquadramento da crítica sergiana)
    - As dissidências internas na Renascença Portuguesa e a polémica sergiana

Cap. III
A cisão Pessoana da doutrina do saudosismo de Pascoaes
   - A "Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada" de Pessoa e o Super-Poeta ou Supra-Camões
  - A importância superior da revista "A Águia" (órgão da Renascença Portuguesa) sobre a revista Orpheu de Fernando Pessoa e Sá-Carneiro, para o entendimento do moderno pensamento português
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Autor: Alvaro Giesta
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serviram-nos de base e estudo, para que o sonho deste trabalho se concretize muitas obras adquiridas - algumas delas originais em 1.ª, 2.ª e 3.ª do tempo de T.P. - "TODAS" a expensas do autor deste trabalho, além de imprescindível consulta a vários documentos soltos colhidos na internet:

- Obras de Teixeira de Pascoaes (aqui apenas registadas as consultadas com o fim em vista, apesar das 21 (vinte e uma) do autor, que fazem parte do nosso acervo literário:
Sempre / À minha Alma / Terra Proibida - Assírio & Alvim
Para a Luz / Vida Etérea / Elegias / O Doido e a Morte - Assírio & Alvim
Senhora da Noite / Verbo Escuro - Assírio & Alvim
O Homem Universal - 1937, Ed. Europa, Lisboa
Os Poetas Lusíadas - 1919, 1ª Ed. do Autor
Sempre, 3.ª ed. 1915, Ed. Renascença Portuguesa
As Sombras, 1907, 1.ª Ed. Autor
Elegia do Amor, 1927, 1.ª Ed. Dom Manuel de Castro e Guilherme de Faria
Regresso ao Paraíso, 1923, 2.ª Ed. Renascença Portuguesa
Terra Prohibida, 1900, Fac Simile da 1.ª Ed. Autor
Arte de Ser Português, texto da 2.ª Ed. de 1920, Ed, Delraux
Maránus, 1920, 2.ª Ed. Autor

- Obras sobre Teixeira de Pascoaes:
   . A literatura de Teixeira de Pascoaes de António Cândido Franco
   . 30 anos de dispersos sobre Teixeira de Pascoaes, de António Cândido Franco
   . Teixeira de Pascoaes, saudade física e metafísica, de Maria Celeste Natário
   . Teixeira de Pascoaes revisitado, de Roberta Almeida Prado de Figueiredo Ferraz
   . O Pensamento de Teixeira de Pascoaes, de Jorge Coutinho
   . A poesia de Teixeira de Pascoaes, de Jorge de Sena
   . A Grande Antologia de Teixeira de Pascoaes, de Mário Cesariny
   . Teixeira de Pascoaes das Origens e da Saudade, de Mário Marinho
   . Nova interpretação do Sebastianismo, de José Marinho
   . Estética da Saudade em Teixeira de Pascoaes, de Maria das Graças Moreira de Sá
   . Cartas a Teixeira de Pascoaes, de Albert Thelen
   . Epistolário Ibérico: cartas de Unamuno e Pascoaes
   . Teixeira de Pascoaes - contribuição p/estudo da sua personalidade e para a leitura crítica da sua obra, de Mário Garcia
   . Teixeira de Pascoaes na Revista "A Águia"



15/05/17

PARA ALÉM DAS PALAVRAS

- prolegómenos ao fenómeno imagético na poética de Fernando Lobo (assim dei por título a esta especulação de leitura, do pouco que me foi facultado para ler e apenas pelo autor na obra «... no corpo do tempo»).

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Começo esta leitura crítica da poética de Fernando Lobo, com uma "espécie de recado" aos três intervenientes no processo da escrita: o autor, o leitor e o editor.

Eis o eterno dilema dum escritor ou poeta que o deseje ser numa perspectiva literária e inteira:
-       Quando escreve, seja prosa ou poesia, tem que ter em mente que o mais importante é interessar o leitor. Seja em que tempo for, sem o sujeitar a modas e sem impor ao leitor o seu gosto pessoal; seja hoje, amanhã ou daqui a cem anos.

Há por aí muitos poetas que dizem que, quando escrevem, para si próprio o fazem. Nada mais falso. Isso é utopia... às vezes vaidade encapotada com a falsa modéstia. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, ainda que temporariamente, sem o diminuir, escravizando-lhe a atenção para que lhe gabe a escrita ou, doutro modo, escrevendo à medida do leitor que pretende lisonjear, recebendo, como moeda de troca, igual galhardete. Se assim for, diminui o leitor comum que o lê, e desprestigia-se, a ele, como escritor. Se assim for, apenas ao "seu leitor", que o bajula, interessa o "produto" que lhe impinge, rejeitando-o o leitor inteligente e criativo.
Quando o leitor comum, e não aquele "seu leitor", abre o livro que tem nas suas mãos e se dispõe a lê-lo, não é a ele que compete decidir se o vai ler até final. Não. É ao escritor, ao poeta, ao autor compete levar o leitor até ao termo do livro, através da sua arte de escrita.
Aqui, na acção do autor que talha o objecto da sua arte, é que difere a boa leitura da má. Mas, os leitores também têm algo muito importante a dizer no seu acto de leitura. E é isto que faz com que haja muito mais literatura má, do que literatura boa.
O leitor tem sempre o direito de escolha e de oposição. Tem sempre o "poder" de poder dizer se aquele livro lhe serve ou não, lhe agrada ou não, o prende ou não à leitura. E compete-lhe abandoná-lo no primeiro contentor do lixo que encontra ao dobrar da esquina. É o papel ingrato do escritor que não tem como cobrar ao leitor o seu acto de rejeição. O escritor está sempre amarrado de pés e mãos ao leitor. É o escritor que é prisioneiro do leitor que deve ser bom leitor, inteligente e criativo leitor, que deve comprometer-se, com honestidade, com a sua boa leitura para não enganar aquele que escreve mal (muitas vezes que se diz seu amigo do peito) fazendo-o pensar que é um bom escritor, o que acontece em mais de 50% dos leitores.
São eles, esses maus leitores que também se dizem críticos, muitas vezes com responsabilidades académicas, acrescidas pelo "canudo" que dizem terem defendido em tese universitária e prémios que ostentam, são esses maus leitores-críticos muitas vezes empurrados pelos negociadores editoriais, que trazem enganados os maus escritores, fazendo-lhes crer que "são bons" enquanto lhes interessa aos fins que têm em vista, relegando para segundo plano outros que, esquecidos propositadamente e por incúria e culpa, também, dos editores, que deixam de os promover, poderão ficar esquecidos na cinza do tempo, por tempo sem fim, ou até que a dedicação de outros espíritos os compreendam e se lhes dediquem em estudo, porque lhes reconhecem, finalmente, valor.


Após este intróito, debrucemo-nos sobre a poesia do autor, em apreço:
A poética de Fernando Lobo não é coisa simples de entender, como convém, aliás, à poética que se pretende literária. É que não é poeta quem quer, mas sim aquele que nasce com a veia e sabe cultivar a palavra, usando os artifícios necessários à especulação do fenómeno poético, pela organização de imagens em associações criativas, dando o essencial significado à poesia.
A exuberância do verso e do verbo, mais que a densidade da obra, a imagética metafórica com que lavra o verso, que prolifera em mil hipóteses exploratórias e inquietas ao longo do poema que se enraíza no todo da obra - metáforas quase em excesso, dizemos nós, leitores atentos -, esta metapoética habilmente construída, este enredado urdir do verso neste fenómeno poético, às vezes num processo circular, como se fosse numa digressão ao tempo, sempre com a ideia de retorno ao princípio exploratório, é que confere o verdadeiro valor literário à obra. Mais que a nebulosidade da escrita mercê da capacidade inventiva do autor, que contribui para a dificuldade de entendimento do objecto poético, é a ânsia da descoberta do que está por detrás de cada palavra metaforizada - isto não desmerece o autor mas, sim, enaltece-o, quiçá em desfavor do leitor que, com algum ensejo de leitura de natureza crítica, receie não lhe prestar os louvores merecidos.
[Foi o que me aconteceu a mim. Devo confessar que me foi muito difícil compreender a intenção das obras, mormente o título " No Corpo do Tempo", se bem que a cada leitor é permitido especular a obra, e da obra do autor e ter a sua interpretação, especialmente quando a obra é metaforicamente poetizada. Cheguei a pensar que me começavam a faltar os atributos necessários para entender obras que falam pela subjectividade, que dizem pela liberdade poética do autor. Também não é menos verdade que cada autor e leitor tem para si, da obra, sua opinião própria e seu entendimento, e que nenhum é igual ao outro. Nasceu-me a coragem necessária para esta "opinião" que não pretende ser crítica literária.]
O poeta, em "No Corpo do Tempo", como se fora o "citadino" vulgar, "um pedaço de tecido urbano", tal malha da vestimenta do tempo e no tempo, vê-o com a inquietude própria das inquietações (passo o pleonasmo) desse tecido urbano que busca no tempo um tempo-outro, regenerador e regenerativo dos sentidos e dos sentires - é a alma do poeta em expectância pela chegada do novo tempo. Como ele diz "nasce em mim a necessidade balsâmica / de alcançar os olhos da carne / nos remanso das falésias". Este contraste evidenciado na imagem do remanso das falésias, é como se fosse o regresso ao tempo-passado, com esperança de projecção no e num tempo-futuro, que se adivinha íngreme, porque nenhuma subida é suave; talvez seja até o tempo histórico, a fonte regenerativa onde o poeta renasce (re+nasce) fortalecido pelo balsâmico som do tempo - a tal necessidade balsâmica das falésias, que sendo de difícil escalada são também o bálsamo - como se fosse "matiz litúrgica" a dar alívio à alma do poeta citadino que se sente "engolido" e aprisionado "pela monotonia / e pela consciência do tempo dos campos", o tempo da ampla liberdade sem escalas e sem fronteiras ou limites.
É a inevitabilidade do tempo do poeta como se fosse a procura do tempo primordial, que a memória teima em recordar e a vontade quer ser e ter. Sempre o inevitável tempo: o tempo actual perdido (mas presente) no "ciclo das rotinas". E o tempo passado, o tempo das horas, confundido "com a passividade (...) dos homens" a inventar o sonho - "sonhos" que sejam capazes de vencer "a fúria / das tempestades". Esse tempo que o poeta compreende e dá a conhecer na sua maneira metafórica de o contar pelo tempo das horas do relógio, mas não aceita - parece recear "que o outono venha mais cedo / quando o verão" ainda existe no corpo do poeta.
É a inevitabilidade do tempo-matéria, sem remissão, como o corpo do homem que segue inapelável o seu destino. O tempo: um itinerário de ventos, de memórias, de passos soltos na vida - vestígios de ontem, hoje e sempre, como se fossem fantasmas solitários, erguidos contra as vozes de silêncios perturbados. E o homem-poeta, exausto, cansado e obscuro mas sempre obstinado em dizer do tempo e ao tempo, que ele é fogueira acesa que revitaliza e não o deixa naufragar.
Metáforas e imagens soberbas a emoldurar o No Corpo do Tempo. Repare-se que a roupagem poética da obra nada tem de simples, dada a capacidade inventiva do poeta Lobo, que se move, habilidosamente, entre versos soltos e brancos (aquilo a que nós, os poetas, costumamos chamar, com a introdução do modernismo o "verso livre"), como se essas metáforas e imagens lhe corressem nas mãos deixando marcas no tempo, "como línguas de fogo / sagrado / num cortejo sábio / que a ferocidade do tempo / esculpiu / no marulhar incessante da vida" (de Alvaro Giesta in Oblíquo é o Tempo pp 8).
Longe de Fernando Lobo estão tantos outros poetas, que se afastam dele, pela falta de capacidade inventiva de se projectarem neste universo ideativo da escrita poética. E nós, persistimos: difícil é a transparência, para o poema, do mundo ideal - neste caso, do tempo ideal, que acaba sempre por ser circular - através deste eloquente "não-dito", a deixar a possibilidade ao leitor de se desmarcar da intenção do poeta, desnudando-lhe o corpo com a intenção de o descobrir no tesouro oculto para lá da função da metáfora e da imagem.

E, assim, regressamos à ideia exposta no princípio do texto, rematando: a literatura não é apenas o texto em prosa ou poético; muito menos o é quando e se  o autor escreve para si. Nada disso. Se assim fosse, qualquer um seria literato. Mas, literato, nesse sentido, só se fosse de si mesmo: pura estagnação do "eu" pretendente a literato, e ruína da literatura. Um literato assim, não o pode ser dos outros, ser de todos, ser do mundo literário. Um tal escritor ou poeta que escreva de si para si, não lhe permite criar para além de si. Considera-se absoluto e este absoluto, sendo-o simplesmente de si para si, não existe.
O criador literário rege-se por impulsos e reflexos de actos de criação, situações da vida que se descarregam sobre si e o iluminam - como se fosse o clarão de um relâmpago que em determinado momento da trovoada (in)definisse onde vai cair o raio e provocar a ferida, que vai gravar na memória esse momento, que se perpectuará no tempo.
Tal é o modo endógeno (que vem a partir do interior) de criar do poeta Fernando Lobo. Tal é o seu temperamento criador que verificámos possuir, através da leitura das várias etapas da sua escrita poética, investigatória e inquiridora, profunda e inquietante, sinuosa muitas vezes, nebulosa e enublada outras tantas, onde os seus difíceis horizontes a desvendar se conduzem, neste temperamento criador, entre o equilíbrio do verso e a procura desassossegada e ininterrupta do espírito em desassossego do poeta, que cria sob o signo da liberdade criadora, que o transporta além do círculo fechado do instante, na busca da miragem e na expectância do tal absoluto e do sempre longínquo.

11 de Maio de 2017
Alvaro Giesta

O MITO DAS RAÇAS

«Lutar contra o racismo, para citar uma alegoria do filósofo americano Rudolf Carnap (1891-1970), é como tentar consertar um barco que nav...