de Eça de Queirós "contos"

de "Contos" de Eça de Queirós

"dizia Stanislau - Aquelas constelações todas são pó. Pó dos deuses mortos. O céu é um cemitério onde se deve estudar a força do homem: o homem será tanto maior quanto mais céu conquistar, quantos mais deuses expulsar. Expulsou-os do Olimpo, expulsou Jeová... Expulsará Cristo?" (in o Réu Tadeu)

"a Terra existia desde que a luz se fizera, na manhã de todas as manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas barrentas, abafada numa névoa densa (...) (in Adão e Eva no Paraíso)

25/03/17

AS CONSCIÊNCIAS CRIADORAS NÃO VIVEM POR REPRODUÇÃO E ROTINA

A literatura não é apenas o texto em prosa ou poético; muito menos o é quando e se o autor escreve para si. Nada disso. Se assim fosse, qualquer um que o escrevesse seria um literato.  Mas, literato, neste sentido, só se o fosse de si mesmo: pura estagnação do "eu" pretendente a literato e ruína da literatura. Um literato assim, não o pode ser dos outros, ser de todos, ser do mundo literário. Um tal, escritor ou poeta, fechado na sua redoma, no seu ego-centrismo, escrever de si para si, não lhe permite criar para além de si. Considera-se absoluto e este absoluto, sendo-o simplesmente de si e para si, não existe.

A literatura não é apenas o texto que o escrevente debita no papel, como a matemática não é apenas o número que o professor escreve no quadro negro. A literatura é um fenómeno. É a ordem duma consciência criadora que estabelece regras para ordenar as suas relações consigo própria, com o tempo e com os homens.

O criador literário rege-se por reflexos de actos da criação, situações da vida que se descarregam sobre si e o iluminam: como se fosse o clarão de um relâmpago que em determinado momento da trovoada definisse onde vai cair o raio e provocar a ferida que vai gravar na memória esse momento que se perpectuará no tempo. Mas o homem, para criar literariamente, tem que ser livre e essa liberdade criadora só ele a pode definir e exigir de si porque está intrinsecamente ligada ao seu momento de nascer. No acto da criação literária apenas o limitam a possibilidade ilimitada de criar; isto é, o homem, ao criar, e para criar literariamente, deve ir sempre para além da possibilidade que no momento alcança; ou seja, no seu acto de criar deve continuamente germinar o seu temperamento criador em busca da ressonância para além do alcance da sua imaginação. É esse eco, reflectido no tempo e nele perpectuado, porque sai de si para além de si, que torna o texto no tal fenómeno literário.

O criador não pode ficar, apenas, no instante: deve dirigir-se, neste seu temperamento criador, neste seu modo endógeno de criar, para as etapas da escrita investigatória e inquiridora, profundos e sinuosos que sejam os seus horizontes do pensamento, e torná-las num somatório de experiências, conduzindo-se dentro delas. Isto é, viver com as experiências narradas, primeiro no seu subconsciente de insubordinação face às ideias estagnadas que prejudicam o poder e dever da escrita literária e, depois, revolucioná-las na página em branco firmando-se chão onde faça crescer a árvore com a possibilidade de mudar ao fruto o seu nome e chamar-lhe futuro. O temperamento criador sedimenta-se do equilibrio entre a procura desassossegada e ininterrupta do espírito de quem cria e da oportunidade que a liberdade confere ao criador para ir além do círculo fechado do instante na expectância do tal absoluto e do sempre longínquo.

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Alvaro Giesta © PALAVRAS QUASE in COMÉRCIO do Seixal e Sesimbra, edição 311 | 3Jun2016
Foto: na Sede da Academia, em Monte Estoril, Cascais, com o Prof. Dr. António de Sousa Lara, Mui Ilustre e Digníssimo Presidente da ALA (Academia de Letras e Artes) e a Dr.ª Celeste Cortez, a minha Mui Ilustre Madrinha no processo de entronização na referida Academia, em 30Nov2016

24/03/17

O corpo, manhã erguida (e o Ponto de Bauhüte)

Aqui
nu, branco e negro
jaz, em círculo enrolado
sobre a luminosidade luminosa
do lençol - o corpo,

circunscrito
na concha que se forma
ao centro - o nascimento

Nele o ponto negro
interacciona-se
com o quadrado luminoso do lençol

Três vértices:
a mancha negra - o triângulo
e o seu ponto interior;
no centro grita o fogo
sobre o corpo enrolado

Grita na pele
o sexo - a mancha negra
em união com a geometria
do triângulo

Na pele a febre oculta
bebe o ar no corte vertical
em concha
entre as coxas do poema

Quando os lábios
na sede de se darem
se entregam,
ergue-se o gesto que faz a poesia;

e sempre o corpo
branco e negro
na macieza luminosa do lençol,

e sempre o ponto negro a rasgar
o contínuo abstracto do corpo
liso e imaculado anunciando o sexo

Necessidade necessária:
- a ocultação (onde o mel se derrama)
e o sol, como quinta essência
- o ponto de fuga e união
(a perfeição do triângulo)
na junção dos corpos

O interior oculto
onde o mel da terra se cria - e se dá
na força do vinho e da água
e da rosa vermelho-sangue

- altíssima perfeição!

Alvaro Giesta 

MEMÓRIAS DE UM POETA OBSCURO


A noite passada, para mim, não foi muito frutuosa; escasso no que escrevi apesar de a ter passado quase em claro. Hoje, eis-me aqui sentado, novamente, à espera da meia torrada de pão de cereais e da meia de leite, nesta mesa atafulhada de chávenas de café vazias que a empregada ainda não teve tempo de retirar. Exíguo é este espaço a que alguém concedeu o favor de baptizar com o pomposo nome Estrela-do-Mar. Assim me disponho a rabiscar qualquer coisa apenas para matar o tempo, enquanto a torrada vem e não vem. Confesso que nem sei bem o quê, embora tal me não aflija - o fim é apenas fazer passar mais depressa estes sessenta minutos que me separam das obrigações que me comprometi desempenhar nestes dias pós-reforma, que parar é morrer.

Trago sempre um livro comigo: ontem, O Mendigo e Outros Contos de Pessoa, a 1.ª edição de 2012 da Assírio & Alvim, com uma nota introdutória e muito esclarecedora de Ana Maria Freitas; hoje, o que me acompanha, é Photomaton & Vox, de Herberto Helder, a 5.ª edição  de 2013, da mesma editora, revista e aumentada. Sou leitor inveterado deste poeta, que admiro, sem saber muito bem porquê. Talvez, porque não o entendo - sem medo de que me chamem ignorante, o digo. E confesso: desde a primeira publicação dos dois volumes de Poesia Toda, até à Letra Aberta (o último que adquiri em 2015, já ele não estava, em corpo, entre nós), perdi apenas o Servidões, publicado em 2013 numa edição única; mal a editora o anuncia (o anunciava, que as actuais edições não passam de repetições e perdi a vontade de as adquirir, já estou (estava) a reservar a obra na "minha" livraria habitual. É já a segunda leitura que faço ao Photomaton & Vox e persisto em lê-lo como se fosse contemplação. A propósito, escreve ele a páginas tantas «que a melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta.» (Marilyn Monroe dixit); e acrescenta, de seguida em palavras suas, que «talvez a forma eleitamente apocalíptica e luminosa de escutar a poesia seja de helicóptero.» Doce ironia - penso eu. Não! Herberto Helder não ironizava. Era sisudo, demais, para ironizar. Abria-me os olhos para a interpretação da sua obscura poesia. Da sua e dos demais, embora nenhum dos poetas obscuros, que nunca o pensaram seguir - por saberem  da incapacidade de tal -, se lhe assemelhou na sua forma de escrever poesia.

Nos versos do poema ocultava (oculta - que «O poeta nunca morre embora seja agreste / A sua inspiração e tristes os seus versos» José Duro in FEL (poema DOENTE), àqueles que o leem (ou não leem, que são mais os que se pronunciam, por uma questão de vaidade, de orgulho mal disfarçado, como lendo-o, sem o ler, sem o conhecer, sem o saber) do que aqueles que, lendo-o, em boa verdade não o conhecem, não o sabem, mesmo lendo-o, tal a dificuldade em o entender. A mim, confesso-o, difícil me é entendê-lo tal a dificuldade da interpretação dos seus versos: tão obscuros são, tão difíceis de entendimento, quanto de conhecimento do poeta e do homem que durante a maior parte da sua vida viveu longe do mundo e dos acontecimentos, quase como um asceta. Era um eremita solitário e oculto no seu altar poético e contemplativo que, quando saía da sombra para a luz, obscurecia, como se fosse divindade, todos os outros poetas. É quase certo que muitos dos "admiradores" à sua passagem ao eterno nem sequer terão lido, alguma vez, o poeta, porque a sua poesia obscura logo afastava os aventureiros leitores ao alvorecer dos primeiros versos.

Eu aprendi a lê-lo mas nunca a compreendê-lo, por falta de capacidade minha em conseguir entrar no emaranhado «amanhecer-anoitecer» da sua escrita, profundamente estruturada à base de metáforas que, muito provavelmente, nem ele as entenderia lidas para além do momento em que as escreveu. Este mestre de si próprio, que nos deixou - faz dentro de dias (a 23 de Março) dois anos -, na incandescência do seu verso e na exaltação do seu verbo, inventou-se a si próprio nas palavras abruptas com que erguia o verso com que fabricava o poema, nas palavras abruptas que escrevia «por clarões súbitos» (como alguém disse), em impulsos e por impulsos do tempo sem seguir regras, muito menos o ensinamento de qualquer mestre que não teve.

Difícil se me torna falar deste mestre sem Mestre, fiel à regra da obscuridade talvez para mitigar a sede da diferença, talvez para se mitificar a si próprio no eu-poético, diferente de qualquer outro que igual a si não houve nos séculos que o antecederam. Mestre de si próprio, pela diferença do saber usar os signos literários como ninguém nesta sua maneira obscura e difícil de se dar aos leitores e poetas do seu tempo, impediu, que o transformassem no seu mito, desmoralizando-se aqueles  que por aí vão fazendo tentativas de imitar o Mestre, tentando usurpar-lhe a sua maneira de escrita. Inimitável será, sempre, o Mestre do verso incandescente que vibra à sombra da obscuridade.

© Alvaro Giesta
(texto escrito a 20 de Março de 2017)


14/03/17

(...)
Recordava-se...
            A tarde ia alta. Aproximava-se do seu fim. Num pôr-do-sol, estranho, sanguinolento, o astro arredava-se para o outro lado do mundo, rasando, na distante savana, as copas das bissapas que se erguiam do solo a partir de disformes e esqueléticos troncos; de ora em vez o sol espreitava, teimoso, por entre nuvens carregadas que o vento teimava em fracturar, e emprestava-lhe a cor sépia que deixava fugir de si. Era um pôr-do-sol diferente... mau presságio se adivinhava. Afogou-se, o sol, num céu assustador, para as bandas mais longínquas da savana. Pressentia mau agoiro naquele adeus dum sol agónico, num céu de medo e morte. Misturavam-se-lhe, na mente, interrogações incontornáveis naquilo que lhe parecia a premunição dum desastre conjugado com a embriaguez do êxtase.

            Um Chingange rompeu, de repente, da mata que orlava as libatas e as unia num todo em redor da velha capela protestante erguida a adobe no centro da aldeia, em saltos grotescos mais parecendo um demónio, metendo medo aos mais novos por ali próximos. Depois outro, grotescamente disforme, igualmente com aquela máscara de feições macabras a cobrir-lhe invisível rosto, e outro, ainda... eram três zarapelhos em pessoas.

            Correu, assustado, a esconder-se debaixo do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, que depressa ela apertou, ainda mais, ao corpo com um nó, não fosse ele desprender-se e deixar-lhe à vista as sagradas íntimas partes de si, enquanto num ritmo cadenciado de pés e mãos ela acompanhava as outras anciãs da aldeia para contentar os Chingange nas suas danças macabras. Aqueles corpos desengonçados, cobertos de lianas e zarapilheira, enfeitados com saias de sisal seco e esfarpado, faziam piruetas demoníacas no ar e rebolavam, no pó do terreiro, como animais que querem desfazer-se dos parasitas que, como lapas, se lhes colam ao corpo e os incomodam causando-lhe fatal coceira. Presas ao corpo, os Chingange usavam mil fatias de sisal seco e, nas pernas, uma teia de pele com guizos que soltavam sons frenéticos e estridentes produzindo a própria música que dançavam. A espaços incertos erguiam-se, de entre a multidão que arredava assustada, outros homens-gnu de tamanhos disformes e homens-gunga a que se juntavam mulheres-gazela fazendo vibrar as tuelelas amarradas ao tornozelos.

            Depois daquela dança macabra de cerca de duas horas, todos se dissolveram, numa travessia secreta existente ao fundo do terreiro, para qualquer lado sem nexo entre o visível e o invisível. Como tinham aparecido, de repente, vindos não se sabia de que insondável e silencioso recanto da mata, assim, num ápice, os Chingange se sumiram no capim alto para lá dos limites da sanzala. Era a cumplicidade dos deuses a aterrorizar as pessoas humildes, para que a sua obediência e subjugação ao desconhecido fosse total, cega e absoluta. Assim convinha à união dos poderosos esta subjugação e subserviência dos humildes. E a submissão continuava, por horas sem fim, naquele monocórdico tantã acompanhado pelo bater surdo de dezenas de pés descalços no chão barrento do terreiro.

            De ora em vez uma voz de tenor erguia-se, como se em rebeldia, e deixava escapar prolongado esgar de dor, que não se entendia bem, a que logo respondiam vozes arrastadas de lamento ao som das palmas compassadas a que se juntava o ébrio bambolear de corpos suados em simulacros de dança. Era neste fluir descendente de sangue, da cabeça aos pés, que os corpos bamboleantes se desarticulavam em arremedos de danças demoníacas, pela ausência de controlo cerebral devido à insuficiência da oxigenação do cérebro.

            De um sítio oculto pela sombra, já livre do medo e liberto da protecção do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, ele, que nunca desfitara os Chingange nem os seus adjuntos e malabaristas homens-gnu e homens-gunga, captava já os sinais do magma misterioso da vida. E era tão jovem ainda!...

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© Alvaro Giesta (para) "Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde" (a publicar)

08/03/17

Sermão aos que preferem ser moucos

Mais uma vez, na curta hora que antecede o início do meu dia de trabalho, sentado nesta mesa atafulhada de chávenas de café vazias que a empregada se esqueceu de retirar, deste exíguo espaço a que alguém concedeu o favor de baptizar com o auspicioso nome “Estrela-do-Mar”, me predisponho a escrever-lhe. Hoje, acerca do fazer poético deixando à possibilidade de quem me lê a hipótese de interpretar o poema e descobrir nele o que permanece ainda por desvendar. 
Tome o meu amigo leitor, o conteúdo (em destaque) da terceira estrofe de três versos, e considere-o isolado do contexto do poema, que faz parte da minha obra “Meditações sobre a palavra” (pp 24 e 25): 

“o corpo faz-se
de fragmentos em união constante
(...)
prolonga-se na comunhão doutro corpo
funde-se com ele
no desejo que lhe sacia a sede

(...)
RENASCE A FORÇA QUE AGITA
O COSMOS
RENUNCIA À SOLIDÃO

penetra no centro do mundo
fecunda o fecundo
respira com o acto de criar
que lhe sorve o ar que o anima
em permanente renovação”

e, permita que deixe à sua fértil imaginação o poder de discorrer sobre a interpretação. Ou imagine, antes, que estes três versos são, exclusivamente, o poema em si, o que bem podia acontecer. No meu tempo, que é o seu, também, se o leitor for do meu tempo, qualquer professor de português veria aqui o erro imperdoável da falta de pontuação para a boa compreensão do texto. E apressar-se-ia a corrigir o poema, não lhe alterando, necessariamente, a estrutura, colocando-lhe a pontuação nos locais adequados. Ou por si julgados adequados, que as algemas da imaginação poética do seu tempo, dificilmente o deixariam ir além. 
E o poema, que esse professor entendeu escrever, passaria a ser, depois de reformulado: 
“ Renasce a força que agita
o cosmos;
Renuncia à solidão.”
Ou, talvez fosse outra, a hipótese, com o “querer” do professor desse tempo: 
“Renasce a força que agita.
O cosmos
renuncia à solidão.”
E acabava-se aqui a contenda, desse professor de português, que se geraria entre ele e o aluno, presentes, e o poeta ausente, sem hipótese de se defender e dizer da razão da sua escrita para a “sua interpretação”, que NÃO É necessariamente UNA. Poeta que escreveu o que ele apenas quis dizer, no poema, e deixar a quem o lesse o livre poder de interpretar, e não para que esse zeloso professor de português e defensor da linguagem vernácula, lhe amputasse a ideia e algemasse, com as suas próprias algemas - supostamente literárias ou, melhor ainda, literárias à sua maneira - que também o acorrentavam, literariamente. Ideia que mais não era do que deixar ao leitor a possibilidade de interpretar o poema e descobrir nele o que permanecia ainda por descobrir. 
Assim, contribuía o poeta para agitar as mentes que o lessem sobre questões várias que poderiam levantar as mentes fecundas, que também as havia nesse tempo; mas que o tal “bom professor de português” se encarregava de algemar, ao mesmo tempo que reduzia o poema à sua única, supra e sábia maneira de o interpretar. 

Meu caro leitor, recorda-se destas palavras: «que a melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta.» (Marilyn Monroe dixit)? Ou destas, por exemplo: que «talvez a forma eleitamente apocalíptica e luminosa de escutar a poesia seja de helicóptero.» (Herberto Helder, Photomaton & Vox)? Pois bem, não se recordará, pois nunca as terá lido; mas, se as leu, talvez as não tivesse entendido, ou não entendido do que tenho escrito nos ensaios publicados nesta revista BIRD, e que lhe mostro com as palavras sábias de Octávio Paz, Nobel da Literatura em 1990, insertas na obra O Arco e a Lira: «NADA DO QUE SE AFIRMA AQUI - e, “roubando” a ideia ao poeta e ensaísta citado, o “aqui” quer dizer tudo o que até 5 de Fevereiro p.p. escrevi sobre poética na BIRD, que agradou a muitos mas desagradou a muitos mais - DEVE SER CONSIDERADO COMO TEORIA OU ESPECULAÇÃO PORQUE, NA TENTATIVA DE COMPREENDER A POESIA, QUEM A ESTUDA - e não apenas a compreende pela rama -, INTRODUZ, SEMPRE, RESÍDUOS ALHEIOS A ELA: FILOSÓFICOS, MORAIS...» sociais e até políticos. 

Meus caros leitores: acerca das minhas divagações sobre temas poéticos, nesta minha forma monocórdica de conversar e aqui sentado, sozinho, nesta mesa de café de tampo cor amarelo torrado a que a falta de largas lascas de tinta deixa ver o matizado ferruginoso que começa a corroer o metal, como o veneno e a inveja corrompe a alma dos homens (e mulheres) mal intencionados, era esta a minha última intervenção (agora com as alterações devidas e adaptações necessárias) na revista BIRD para onde escrevi, graciosamente, quase todas as segundas feiras durante mais de ano e meio, e que só não foi publicada no seu tempo porque o editor de tal revista “me castigou” (como se eu fosse propriedade sua) em 15 dias de demora para a sua publicação - publicação que não foi permitida por mim pela discordância de tal castigo -, por não lha ter fornecido na véspera (domingo) do dia em que devia ter saído, por ausência minha a mais de 500 Km do disco do meu portátil onde ela tinha ficado guardada por esquecimento. Terão a partir de agora, que se haverem, com outras águas profundas de outros oceanos. 
Por mim, aqui neste blog dum VISIONÁRIO, creiam-me, caros leitores-poetas ou poetas-leitores, um humilde pescador sem linha nem anzol. 
Alvaro Giesta

08/09/16

O DISCURSO DOS PÁSSAROS (caderno N.º 2 da Coleccção Giesta) - € 5,00 c/portes incluídos

um pequeno-grande poema em 30 fragmentos
Autor: Alvaro Giesta

voo sem asas

1.
passeia-se o ser
entre a voz da loucura e a voz do génio.

perturbam-no místicos céus,
neles há mistérios insondáveis
por descobrir.

desce a rua em hiberno sono
até ao fundo longínquo da cidade adormecida.

2.
na memória
há relâmpagos fulgurantes
que se estilhaçam como línguas
de fogo

na indecisão dos dias
frios e crua.

dizem dele que é alguma coisa
entre o génio e a loucura,

(...)

8.
voláteis são as pétalas
que sobrevoam o corpo do ser
na ausência desse mesmo corpo,

e cortam as asas do vento
rente à superfície do tempo
onde adormece.

9.
quando acorda
os músculos negam-se a ser testemunhas
destas metamorfoses desesperadas,

(...)

11.
faltam-lhe as asas,

e nelas as remiges com que lhe sustentam
e dirigem o voo
para o infinito desconhecido.

12.
se tivesse asas (absurdamente pensa)
saboreava num voo plano e pleno
os aromas da tarde
quando tórrida vertesse sobre
a couraça do ser-ave em que se quis
neste horizonte de inquietações e lágrimas;

depois à noite
mergulharia no poço sagrado da palavra
que todos os dias faz verter
o grito inquieto do voo.

o poeta em frágeis aspirações

17.
ergue o poema
quando
o eclípse se ausenta num gesto
tímido do mar...

ergue-se a voz do poeta
num movimento lento do areal,

onde
as ondas são a transumância do corpo
sedento de ser
que se move em ondas de loucura
nestes gestos da criação

18.
há metamorfoses de medo e solidão
no corpo em que se transmuda:

nele se revivem enigmas (...)
nele se transforma a voz (...)
nele se conduzem notívagas aspirações

no silêncio necessário
para o acto da criação.

28.
(...)
ergue-se a palavra

(essa namorada extraviada do silêncio)

na inesperada onde que nasce
entre a voz da loucura e a voz
do génio: a voz que cria.

29.
a voz que se ergue
da sombra...

nela se interrompe e se começa
nele se busca e se encontra,
ela se inventa num sempre novo navegar;

ela se dá conta de si
e diz que é preciso criar.

no seu silêncio nómada
descobre primaveras na face oculta da sombra
quando dela refulgem laivos de luz
como se fosse a religiosidade do sol
a anunciar o caminho.

3..
murmura o silêncio da noite grandezas
até aí subterrâneas;

acordam vozes submersas no poeta
que fecha os olhos e da sua enorme floresta interior
nasce a imensidão do verso.

cria, assim
da religiosidade da palavra
a força da árvore e do céu.




OBLÍQUO É O TEMPO (caderno N.º 1 da Colecção Giesta) - € 5,00 c/portes incluídos

um pequeno livro com 30 pequenos-grandes poemas
Autor: Alvaro Giesta

marcas do tempo

1.
o tempo deixa no homem marcas
gravadas como precipícios
para toda a eternidade

(...)


2.
correm nas mãos estas marcas
como línguas de fogo sagrado
num cortejo sábio
que a ferocidade do tempo
esculpiu no marulhar incessante da vida

(...)


3.
sincronicamente se ajustam
esses pedaços de tempo

(...)


4.
(...)

esses estratos-milénios
são como cassiopeias que irrompem
do lodoso-chão para a clara luz


5.
são rastros-registos marcas-memórias
cadastros que ficam para sempre
(...)

há sempre uma cidade escondida
(...)
na linha ininterrupta do tempo


(...)


14.
criei em mim a ideia de dizer
do tempo e ao tempo

(...)

que (...)
deixa nas veias o sangue da memória
e ogivas de dor
no corpo
a perpectuar o passado

15.
(...)

- sinto o rumor do tempo
pelo silêncio desta velha casa
murmurar



brado ao tempo

1.
tempo
escrevo-te hoje para te descrever
assim:
- metade do tempo como nós
outra metade bem pior
sempre igual a ti mesmo
ruim

colo o meu tempo por cima do teu
e que vejo nele?
tatuagens
sobre as mesmas tatuagens
coisas doutro tempo longínquo
que este actual esqueceu

12.
ergo este poema
nas linhas do corredor do tempo
onde habitam o fragor do mar
e a escuridão da noite

escrevo
com tinta mais negra que o breu

aqui espero pela luz suave e cândida
da devastadora beleza do mundo

repara na (im)perfeição das coisas

13.
mesmo que o teu corpo tangível
rebente de tédio
na invenção do tempo e do mundo

mesmo que o sulco deixado
pelas palavras no branco papel
nada te digam

mesmo que penses que eu deixo aqui
excessos de nada

mesmo que uma língua teimosa
tolde de penumbra o teu Sul
abre este longo poema e lê-me

14.
quero que saibas
que apesar de todos os revezes
que o tempo sem fim e a vida tem
sempre há Sul dentro de nós

ou pelo menos sempre se faz Sul
dentro de nós Sul-Sol-Calor

15.
calor também pois claro
porque não há Sol sem Sul e sem Calor

ainda que mais das vezes o sul
tenha fome
e crianças estropiadas
e órfãos
e mutilados de guerra

que sendo do sul jamais saberão
o calor e a luz que esse sul pode ter.



Os cadernos da Colecção Giesta

Título: O DISCURSO DOS PÁSSAROS
Autor: Alvaro Giesta
Colecção: os Cadernos da Colecção Giesta

1.ª Edição: Abril de 2016
© Alvaro Giesta - Todos os direitos reservados

Editor: Fernando António Almeida Reis
Concepção Gráfica e Paginação: Fernando António Almeida Reis

textos breves da “Colecção Giesta
N.º 2 - O DISCURSO DOS PÁSSAROS
Tiragem: 300 exemplares

ISBN: 978-989-20-6575-5
Depósito Legal N.º: 407992/16

 CDU 821.134.3Giesta, Cadernos Colecção.02

EDIÇÕESautor
(edição e impressão)
A. José Almada Negreiros, Lt 2-3º Esq
2835-008 Vale da Amoreira

alvaro.giesta@gmail.com
fereis@netcabo.pt
http://www.tambemescrevo.com

Esta edição acabou de se imprimir em Abril de 2016
e dela se fizeram 300 exemplares numerados  de 00 a 299
e assinados pelos autor.


Exemplar N.º 00

______

Outros cadernos da Colecção Giesta a publicar:

textos breves da Colecção Giesta - Ediçõesautor

Publicados:
(Série Poesia)
1. Oblíquo é o tempo [um poema para os povos do sul]
2. O Discurso dos Pássaros

A publicar:
(Série Prosa)
·  da Geometria das Palavras

(Série Recensão, Ensaio, Monografia)
·  da Geometria das Palavras
·  Este Ofício de ser Poeta
·  A poesia do tempo desabitado (como procura e tentativa de resposta)
·  As cartas a um suposto Mestre

28/02/16

Os cadernos da Colecção Giesta

Caderno n.º 1 - Poesia "Oblíquo é o tempo" [um poema para os povos do sul]

Título: Oblíquo é o tempo [um poema para os povos dos sul]
Autor: Alvaro Giesta
Colecção: os Cadernos da Colecção Giesta

2.ª Edição: Fevereiro de 2016
(revista e aumentada)
© Alvaro Giesta - Todos os direitos reservados

Editor: Fernando António Almeida Reis
Concepção Gráfica e Paginação: Fernando António Almeida Reis

textos breves da “Colecção Giesta
N.º 1 - Oblíquo é o tempo [um poema para os povos do sul]
Tiragem: 100 exemplares

ISBN: 978-989-20-6407-9
Depósito Legal N.º: 404381/16

 CDU 821.134.3Giesta, Cadernos Colecção.01

EDIÇÕESautor
(edição e impressão)
A. José Almada Negreiros, Lt 2-3º Esq
2835-008 Vale da Amoreira

alvaro.giesta@gmail.com
fereis@netcabo.pt
http://www.tambemescrevo.com

Esta edição acabou de se imprimir em Fevereiro de 2016
e dela se fizeram 100 exemplares numerados  de 00 a 99
e assinados pelos autor.



Exemplar N.º 99

______

Outros cadernos da Colecção Giesta a publicar:

textos breves da Colecção Giesta - Ediçõesautor

Publicados:
(Série Poesia)
1. Oblíquo é o tempo [um poema para os povos do sul]

A publicar:
(Série Poesia)
·  O discurso dos pássaros

(Série Recensão, Ensaio, Monografia)
·  da Geometria das Palavras
·  Este Ofício de ser Poeta
·  A poesia do tempo desabitado (como procura e tentativa de resposta)
·  As cartas a um suposto Mestre
 

22/08/15



Prefácio ao Um Arbusto no Olhar
por Fernando António Almeida Reis, ortónimo

Prefácio


«(...) Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio (..)»
O Poeta na Rua © António Ramos Rosa

Tardou este livro em ser publicado. Com base na sua proposta final, que é o que define o valor literário da obra, a acontecer na data própria, deveria ter sido logo após a publicação do «Meditações sobre a palavra», porque o completa e complementa, sem outros que foram editados, entretanto, pelo meio. Mas, por vezes o criador tem necessidade de alargar o leque de opções, correndo o risco da criação, ao olhar de outrem, de uma obra dispersa e desconexa. Contudo, ainda que difícil seja a defesa da obra, porque dispersa, nela se pode «recolher a semente para uma futura colheita, não perdendo dessa forma o seu objectivo primordial: criar para além do limite de cada instante.» (Xavier Zarco, in Breves reflexões filosóficas sobre o conhecer, em poesia - publicado em "A Chama, folhas poéticas, n.º 9, 3.º trimestre 2014)
Na sequência daquilo que Alvaro Giesta deixou expresso em nota de autor no seu livro Meditações sobre a palavra, editado em 2011 pela Editora Temas Originais, e ao talhar agora o Um Arbusto no Olhar que seguiu de perto, na sua primeira parte, o desenho traçado para o primeiro, a completar o que se terá proposto escrever sobre o ofício do poeta no manuseio da palavra e com o qual pretenderá encerrar o motivo deste ciclo, dado que todas as suas obras poéticas se vêm desenhando com submissão, cada uma delas, a um mote próprio e específico, quererá reiterar aos leitores que tem procurado sempre o seu desempenho com base na busca da maior perfeição.

Se, no «Meditações sobre a palavra»,
«as palavras nascem / de dentro para fora (...) / (dum) / ventre virgem que se abre ao meio / (e) / recolhe o sémen / que se vai tornar vida»,
em «Um Arbusto no Olhar», desse mesmo
«ventre prenhe / da terra / (onde) / canta a árvore
e o azul / em demanda de novo sol»,
se pode concluir que:
«o ofício do poeta / é mergulhar as mãos no fogo /
no espaço / branco por escrever / é descobrir o vazio / que espera a voz / e o grito / da palavra»,

é saber ver que:
«da hercúlea sombra / que se abre ao meio / regurgita a luz»,
é descobrir que o fenómeno do acto inaugural da palavra se dá no lugar exacto, onde a luz e a obscuridade coincidem e se transformam.
O ofício do poeta é encher o nada, o vazio existente no sítio exacto onde coincidem a luz e sombra, do ardor rubro da palavra, mesmo que este verde nascimento seja um acto tardio na vida do poeta ou no tempo da criação.
É «descobrir o segredo do fogo / e da água / onde a palavra se faz carne / nesta difícil visão alquímica dos contrários».

Se no «Meditações sobre a palavra», ela, a palavra exacta, porque pura alfa  e ómega (princípio e fim), é a semente que «caminhava na sombra das paredes / que se erguem envoltas / num mar duro de pedra / e cal» onde apenas «uma nesga de luz (sai) das trevas / por curto instante /(...)» em demanda de uma possível aproximação ao real e às coisas do mundo,
em «Um Arbusto no Olhar», a palavra deixa de ser semente oculta sob a dura terra antes de nela ter entrado o sémen-água, para se tornar na raiz que firma e no caule que sustenta e ergue os ramos, para se dar a conhecer, para se abrir na inquietude da página, vislumbrando-se entre as suas ramificações, o olhar sequioso por dizer, por fazer a denúncia, a busca, por sondar e descobrir o insondável mistério universal da palavra.
Com a mesma arte com que foi desenhado o «Meditações sobre a palavra», assim foi talhado o «Um Arbusto no Olhar». Sem inspiração, porque ela não existe (!) em Alvaro Giesta, mas fazendo uso do mesmo rigor construtivo no trabalho da palavra que sai da sombra, como o arquitecto ao desenho do edifício, modelando-a como o oleiro ao barro, esculpindo-a e burilando-a como o artífice à pedra, dissecando-a, levando-a ao osso, como o médico legista ao corpo para saber da causa do fim.
O poeta se afirma, mais uma vez, no rigoroso sentido de busca, de construção e emprego da palavra no todo do edifício poético em que se deve empenhar para, nesse labor, dar um verdadeiro sentido literário à obra construída.
Alvaro Giesta, no rigor do uso da palavra ao serviço da linguagem poética, norteou o labor de «Um Arbusto no Olhar» , em duas partes, correspondendo a cada uma trinta poemas:
- na Parte I, o eu-poético ausenta-se do poema para que este seja ele próprio, para que se efectue a junção entre subjectividade e objecto, para que a palavra-sujeito-poético case com o espaço sem a intervenção do eu-poético no mundo do poema;

- na Parte II, o eu-poético integra-se na palavra, vive a palavra, vai de encontro às sensações o que lhe permite vislumbrar novos horizontes, com um olhar sequioso por descobrir o longe, para lá das ramificações do arbusto que se levanta ao olhar do sol.


Fernando A. Almeida Reis, ortónimo
Barreiro, Setembro de 2014


Alguns poemas de O Retorno ao Princípio

eis o invisível monumento

da lucidez:

onde a luz acabou
reacendeu-se
a vida;

o timbre afina-se
no abrir duma janela
que antes de estar aberta
se abriu.

erguem-se do silêncio
as almas
em centrífuga abstracção.

onde
o vento
exunda a escuridão das águas
e cresce
a exumação das coisas inúteis,

a elevação das almas

ao infinito-além.

*

nesta persistência
sombria
do afastamento;

na lúcida passagem
das pulsações,

a morte
tal perfume de estrela
ausente
visita o nascimento.

eu, noutra parte
fecho as pálpebras na misteriosa
bruma,

tu
noutro céu levante
crias de novo
a partir da espuma.

*

naufraga-se num sono

eterno.

onde se ergue
a transparência da solidão
do espaço,

arde,
na fulgidez celeste,
longínqua chama
a despedir-se
da alma desavinda.

inaudível é a força
e estrépita!

emerge
depois, a alma
para fúlgida esfera.

*

desprende-se

para destino enigmático,
do âmago do corpo
extenuado,

a alma sedenta de glória
noutro céu.

a barcaça da morte
atravessa
o lago escuro da noite
onde tudo acaba
e tudo começa.

exaurido
todo o tempo anterior,
refulge
prenúncio de novo dia.

*

a substância

em maturação inclina-se
no seu propenso vagar
para a glória da morte,

e dela
em glória renasce
em novo dia.

do seu fim
acontece todo o princípio.

deslumbra-se,
do corpo que se desintegra
agora,
a alma
que se difunde no abstracto
devir.

*

eis a transparência

da morte,
na partida e obstáculo
para novo espaço:

aqui se funde
e se transforma
em movimento.

que seja coincidente
o silêncio
e a falta dele
e que ao cair se levante
e caminhe,

mesmo que aí termine
o seu andar.

onde tudo termina
se ascenda ao princípio.