05/10/17

O 5 de Outubro de 1910 - a acção dos Sargentos e do Povo


Vem de longe aquilo que se considera ser o "germe do Republicanismo" em Portugal e que deu lugar à queda da Monarquia e à implantação da República no dia 5 de Outubro de 1910.

1.     A «Revolta da Granja», conduzida pelos sargentos espanhóis em 1836 na sequência daquilo que foi a revolta liberal do país vizinho, teve repercussões inevitáveis do lado de cá da fronteira com Espanha. Estala em Portugal em 10 de Setembro do mesmo ano a Revolução Setembrista - vitória de curta duração e de resultados nada palpáveis na vida do povo, mas que serviu para mostrar que tal só foi possível porque a tropa, abandonando os oficiais superiores que comungavam das ideias das elites monárquicas, se colocou ao lado dos revoltosos populares pela mesma causa comum - livrarem-se da pata pesada da ditadura monárquica que os asfixiava e combater os males que grassavam: a fome e a miséria, a degradação social e a indiferença perante as injustiças.
A sociedade militar, aqui composta pelos oficiais inferiores desse tempo - os sargentos (a que se juntavam os cabos e soldados) - tal como os civis das classes assalariadas, ganhavam uma insignificância; aos familiares dessa mesma sociedade militar não se assegurava a mínima protecção social na doença, na morte e na invalidez. Em igual situação estavam os civis assalariados.
Nuns e noutros fervilhavam novas ideias e comungavam do mesmo ideário político - derrotar a monarquia e os seus ditadores e criar a república. Mas, se estes oficiais inferiores (sargentos ao tempo) e o proletariado das fábricas e dos arsenais do exército e marinha forneciam a massa humana para a revolta, faltou-lhes os dirigentes. Estes, pertencentes à pequena e média burguesia, perseguiam outro objectivo. Depressa essa burguesia levantou voo para os salões da nobreza e fez conluio com as filhas casadoiras que juntavam os destinos encapotados aos utentes da alta burguesia. Ínvios foram os jogos do poder desses dirigentes da pequena e média burguesia.

As "Guardas Nacionais", elemento decisivo para a defesa da causa democrática, era, para esta, a sua força mais homogénea. Os seus soldados e sargentos identificavam-se com os problemas do povo, com as suas aspirações, tinham a mesma determinação política. Oliveira Martins (historiador) diz-nos que «os chefes do movimento (setembrista) procediam à mobilização das forças militares e da Guarda Nacional. Toques a rebate atraíam aos quartéis grande número de soldados, ao mesmo tempo que muitos populares se ofereciam como voluntários e neles se armavam conduzidos e chefiados por sargentos».
Mas a vontade popular não fazia parte dos interesses da pequena e média burguesia. As lutas daqueles eram consideradas boas se interessavam e eram proveitosas para estes. Eram de reprimir se ultrapassassem os interesses dos burgueses. A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, eram palavras que só a burguesia se permitia definir, mas nunca para além dos seus interesses e da sua visão egocêntrica.
Almeida Garrett diz-nos que o povo eram aqueles que «por seu talento ou valor ou importância adquirida, ou herdada, por todos quantos pelo nascimento, por cabedais, mérito pessoal, se elevavam em consideração da massa geral a toda e qualquer proeminência social». (Vitor de Sá "A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestações das Ideias Socialistas em Portugal), Seara Nova, 1969, pag. 51 (este povo era a burguesia). O resto era a plebe. Tal e qual, era a definição que o "antigo regime" dava para definir a existência humana. Recuando no tempo, igual ao modo como Platão e Aristóteles classificavam a sociedade.

2.     A revolta da «Patuleia», também conhecida por revolta popular do «pé descalço», estala no alto Minho em 1847; vai evidenciar todas estas contradições e sofismas. Esta irritação do povo minhoto quase desemboca numa vitória de consequências previsíveis e só o não foi porque fora desencadeada fora do tempo. Só não é vitória porque a burguesia controla a situação recorrendo às armas da «Quádrupla Aliança» que se firmara em 1834 entre Portugal, Espanha, França e Inglaterra, visando impor regimes liberais nas monarquias ibéricas, expulsando os infantes D. Miguel de Bragança, de Portugal e D. Carlos de Borbón, de Espanha, mesmo que tal obrigasse à entrada de tropas estrangeiras nos respectivos territórios. A «Quádrupla Aliança» foi invocada para legitimar uma nova intervenção estrangeira que, na Primavera de 1847, pôs termo à guerra civil da «Patuleia» que havia rebentado na sequência da «Revolução da Maria da Fonte» e do golpe palaciano da «Emboscada». Mais uma vez, em evidência, os poderes ínvios da burguesia que recorre a uma aliança inválida, mas invocada, no entanto, para sufocar a insurreição popular. Termina a «Patuleia» com a deportação de 3.000 populares, então embarcados no Porto com destino a Lisboa, para suposta expedição marítima - forma encapotada de condenação.

Costa Cabral, em 1849, volta ao poder em Portugal para iniciar a sua segunda ditadura. Tão pesada quanto o pode ser a lei contra a liberdade de imprensa, a imensa fortuna angariada em pouco tempo e os abusos continuados da oligarquia dominante com o envolvimento da própria rainha nalguns escândalos.
Uma certa parte da intelectualidade, os trabalhadores tipógrafos e povo anónimo de militares de baixas patentes vão chamar a si os destinos futuros de Portugal.
A guarnição militar do Porto formada por sargentos e soldados vão iniciar o derrube de Costa Cabral com um levantamento a 26 de Abril de 1851. Reclama-se, em Lisboa, a abdicação da rainha. Propaga-se, com intensidade cada vez mais crescente, o regime republicano.

Confia-se ao marechal Saldanha, entretanto regressado do exílio, a tarefa de governar. É a rainha que faz tal solicitação, com carta de convite elaborada e escrita por Almeida Garrett. Diz-nos o historiador Vitor de Sá «o marechal colocara-se à frente da revolta iniciada em 1851 para salvar este reino de uma revolução popular cujos resultados ninguém podia prever». Mais uma vez a estratégia da política burguesa: serviram-se do movimento das massas para conseguirem os seus intentos económicos e políticos; afastaram e reprimiram as massas populares quando o perigo passou.
Termina em 1852 a época liberal com a promulgação da «Acta Adicional à Carta» Constitucional, mas ficaram de pé as estruturas básicas do seu pensamento e acção - a causa liberal era progressista e, como tal, merecera e merecia, daí para a frente, a confiança do povo. E isso compreendera-o, desde a primeira hora, a burguesia. Burguesia que era a classe social historicamente preparada para tomar o lugar da monarquia mas que tinha em mente, uma vez atingido o poder, virar as costas aos problemas do povo e integrarem-se nas hostes conservadoras. Era próprio da sua política de conveniências!

3.     1890 - O «Ultimatun» - o descontentamento lavrava no país: a crise moral e financeira do regime monárquico era a principal culpada deste descontentamento geral. Agrava-se o descontentamento com o ultimato lançado a Portugal pelo Reino Unido a 11 de Janeiro de 1890, exigindo a retirada imediata das forças portuguesas dos territórios situados na região do Lago Niassa, a pretexto de que as tropas do explorador Serpa Pinto tinham reprimido povos africanos considerados sob a tutela inglesa. O desejo de unir Angola a Moçambique na esperança da concretização do «Mapa Cor de Rosa» transforma-se em vergonha nacional da burguesia portuguesa. O governo português capitula e a opinião pública não perdoa. O povo reage, de imediato, de norte a sul do país perante esta afronta estrangeira à independência, ao contrário do governo que mantém uma atitude submissa aos ingleses. Colérico, o povo faz cair o governo do partido progressista, substituído à pressa por outro do partido regenerador que toma, como primeira iniciativa, o pedido de protecção à Grã-Bretanha, para si e para o rei. Enfurecem-se os ânimos arreigados ao sentimento patriótico da nação.

O partido republicano incapaz de conduzir as massas à revolta, ou não querendo fazê-lo por acomodação e cobardia, ficou-se por acções desordenadas, gorou expectativas e perdeu a oportunidade da revolta infligindo a morte à monarquia. Muitas foram daí para a frente, e até à Revolta do Porto em 31 de Janeiro de 1891, as manifestações republicanas: sinceras umas, duvidosas muitas outras. Intelectuais, juventude universitária, militares e povo em geral clamavam pela implantação da República.
Entretanto o governo movia-se, cada vez mais, em ditadura, restringindo a liberdade de imprensa e reunião, reorganizando as "Guardas Nacionais" de Lisboa e Porto, não para defender a constituição mas para garantir a sustentabilidade da insuportável monarquia. Diz-nos João Chagas: «dum lado fica a monarquia, com a sua aliada Inglaterra que não quis repudiar. Do outro lado fica a nação, contra a Inglaterra e contra a monarquia».
O partido republicano recebe cada vez mais aderentes de sectores não populares da sociedade. O proletariado, fora do controlo dos pensadores que porfiavam exercer sobre a massa trabalhadora as suas acções, não tinha aí lugar. Uma maré de intelectuais socialistas-idealistas vogava, à deriva, numa mistura de utopia e anarquia sem rumo nem plano ideológico; politicamente, confrontavam-se três ordens de interesses no jogo do poder: num lado a alta burguesia monárquico-capitalista, com alicerces no estado e na riqueza; no outro, a pequena e média burguesia em busca de soluções para chegar ao poder; no meio o numeroso proletariado em luta pela sua emancipação.

4.     A «Revolta do Porto» (a Revolta dos Sargentos de 31 de Janeiro de 1891
Por muito que a história teime em atribuir ao Partido Republicano a autoria da Revolta do Porto em 31 de Janeiro de 1891, ela foi um levantamento militar, de sargentos e praças, contra as cedências do governo e da Coroa ao ultimato britânico de 1890. Tão só o Partido Republicano reúne em congresso a 1 de Janeiro de 1891 de onde saiu um directório eleito constituído, entre outros, por Teófilo Braga e Manuel de Arriaga, aproveitou a situação caótica que se vivia em Portugal para mostrar os ínvios e dolorosos caminhos republicanos. Analisemos:
- A «Revolta do Porto», por muito que se diga em contrário ou em desabono, foi obra dos sargentos sedeados na capital nortenha, pela falta de resposta dos oficiais comprometidos com o regime.
- Os sargentos da revolta «agitaram o marasmo dos quartéis, levantaram Caçadores 9 e Infantaria 10 no dia da revolta, conduziram as tropas para fora dessas unidades e entregaram-nas ao três oficiais participantes logo que tiveram ensejo».
- Afinal eles «também eram povo - o tal "povo dum raio" do antes quebrar que torcer -, com a miséria latente e a fome da justiça como arma de combate».
- «Em poucas horas a derrota dos sargentos consumou-se, isolados e metralhados que foram no Campo de Santo Ovídio. (Mas) restou-lhes a consolação de terem cumprido a palavra dada». (Os Sargentos na História de Portugal, Editorial Notícias)

Veja-se, quando foram metralhados:
- Onde estavam, o que restava do partido republicano, sob a égide do tenente Homem Cristo para o apoio, para o repúdio, para defenderem a honra de quem dera o corpo ao manifesto por uma causa que todos consideravam justa?
Ninguém! Nenhum dos do partido republicano apareceu. Para estes, foi a «continuação da eloquência e do conforto». Para os revoltosos, os julgamentos em tribunal de guerra e o degredo. Eram, assim, os caminhos ínvios dos republicanos.

5.     A ditadura de João Franco e o 28 de Janeiro de 1908
João Franco chega ao poder em Maio de 1906 e, um ano depois, dissolve o parlamento. No plano militar, na sua acção governativa, que foi meritória, empenha-se em solucionar as precárias condições em que o exército vivia. A contrastar, a sua acção política foi desastrosa. A ditadura e a repressão violenta - caminho escolhido por João Franco - ainda mais enfureceu o ódio pela monarquia.
Contra estas medidas nasce mais um movimento republicano, abortado à nascença em 28 de Janeiro de 1908 - «movimento republicano esse mais uma vez animado no interior das Forças Armadas pelos sargentos da Guarnição de Lisboa» (General Ferreira Martins, História do Exército Português, Tomo XVI, pag. 494). É o próprio D. Carlos que assina o decreto que confere a João Franco mais poderes para prolongar no tempo as violências sobre as liberdades em geral e sobre os revoltosos do 28 de Janeiro em particular.
Entretanto, assassinado em 1 de Fevereiro de 1908 o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, é D. Manuel II, menino e moço, que se vê rei de um momento para o outro. Na realidade é sua mãe - D. Maria II - quem vai governar, nefastamente, com recurso a uma avalanche de frades e jesuítas e outras congregações religiosas, que infiltra em todo o aparelho do estado, nomeadamente no ensino e no meio militar. D. Maria II aceita o conluio com a Espanha e a Inglaterra para tramar Portugal. A Espanha firmara um tratado secreto com a Inglaterra onde uma cláusula secreta acordava o seguinte: «Em troca do reconhecimento espanhol da posse inglesa de Gibraltar, o governo de sua majestade comprometia-se a enviar as suas esquadras para sufocar um possível movimento revolucionário em Portugal». (Hermano Neves, Como Triunfou a Republica, pag. 30). O patriotismo da rainha não ia além das aparências.
O novo rei destitui João Franco e convoca eleições a 5 de Abril de 1909. Uma grande chacina se deu no dia do sufrágio: para desmotivar, nos espíritos mais conciliadores, qualquer simpatia pelo rei e pelo regime, a Guarda Nacional varreu à rajada, de encontro às paredes da igreja de S. Domingos, o povo que aí se concentrava com o objectivo de vigiar a contagem dos votos.

No inconstante partido republicano desenvolvem-se duas teorias sobre o modus operandi na realidade política: Uma, defensora da conciliação com as autoridades monárquicas, era liderada por Bernardino Machado e Afonso Costa; a outra optava pela revolução, que desejava.
O partido reúne em congresso em Setúbal com o fim de acertar posições. Por um voto, apenas, optam pela revolução. Elegem um Directório, que integrava também os comités civil e militar, para levar a cabo essa missão, mas tal nunca funcionou por culpa da inércia partidária.  Difícil era consegui-lo, ou quase impossível, pelo facto de se misturarem, no comité militar, civis e militares.
Verificada a ineficácia desse comité militar, o Directório republicano recorre a um outro constituído unicamente por oficiais. Também este segundo comité militar do partido republicano se viu a braços com dificuldades impossíveis de ultrapassar. O partido republicano ( versus maçonaria) debatia-se com o pouco entusiasmo dos cidadãos; o Directório do partido e os republicanos influentes, não queriam coordenar esforços com a carbonária que, entretanto, crescia nos meios militares como também votavam ao desprezo a força e a legitimidade dos sargentos agirem ao lado do povo e da revolução. Apesar destas contrariedades todas, duas datas foram marcadas pelos republicanos para o início da revolta. Ambas recusadas pelo comité militar devido à escassez de oficiais.


6.     Os ínvios e dolorosos caminhos da República
Dezanove foram os anos de lenta agonia, entre 31 de Janeiro de 1891 e 5 de Outubro de 1910, para que a árvore carunchosa da monarquia desabasse e entregasse as armas e os brasões. Ia virar-se uma página da história com séculos a mais de duração. Terminava no Campo de Santo Ovídio uma primeira fase da luta do povo, do vulgo, dos militares de baixa patente pela liberdade, mas continuar-se-ia, Santo Ovídio, numa segunda fase, em Lisboa, junto ao Marquês, de Cascais a Vila Franca de Xira, por Loures, Barreiro, Moita e Almada.

Mau grado estas contrariedades todas e sob pressão da Carbonária e o apoio da Partido Republicano, defensores do recurso às armas, os republicanos lançaram-se, finalmente, após dois anos de controvérsias e hesitações, ao assalto do poder em Lisboa. Na madrugada do dia 4 de Outubro de 1910, a revolução iniciou-se em Lisboa com o movimento revolucionário de pequenos grupos de conspiradores formados por membros do exército e da marinha (oficiais e sargentos) e alguns dirigentes civis e uma grande concentração de populares armados.  A revolução apoia-se na revolta dos quartéis e na acção de milhares de civis indispensáveis ao controlo da cidade de Lisboa que, com actos de sabotagem, cortam os acessos emboscando as tropas fiéis ao regime.
A Revolução saiu vitoriosa e na manhã de 5 de Outubro de 1910 foi proclamada a República em Portugal, a segunda na Europa e anunciado o Governo Provisório das varandas da Câmara Municipal de Lisboa pela voz de José Relvas.

A burguesia republicana argumentará valores para si, que não tem, cantará basófias e fará crer aos oficiais de baixa patente e ao povo que avançará ao sinal combinado. Pura ilusão! Recuará, e para bem longe, ao soarem as primeiras contrariedades, irá até ao suicídio e à deserção do campo de batalha.

A implantação da república não se ficou a dever, exclusivamente, às peripécias da Rotunda. Afirmar tal, não seria de todo justo. Contudo, tal foi decisivo mercê do finca pé dos sargentos e cabos em levar ao comando da fase terminal da revolta o comissário naval Machado Santos, que ingressou na Armada como sargento. Meritório, também, foi o trabalho anónimo dos civis e a resposta positiva e decisiva dos navios de guerra postados na posição de fogo para a batalha final à sombra da Bandeira Nacional da República desfraldada desde o dia 4 de Outubro de 1910 em Almada.
Se a vitória da República foi popular, e sem dúvida que o foi, os habituais apanhadores de louros e coroas alheias tomaram, para si, sofregamente, as rédeas do poder derrubado. Da varanda do Município Lisboeta, em 5 de Outubro de 1910, repetia-se a história em catadupas de palavras e promessas a desabar sem a certeza de se cumprirem.

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Alvaro Giesta © Crónica e  Recensão
(texto publicado na revista BIRD em 5 de Outubro de 2015)

Principal fonte de consulta: OS SARGENTOS NA HISTÓRIA DE PORTUGAL (Biblioteca de História) de Vaza Pinheiro, Editorial Notícias. Foi seguida, de perto, a narração dos factos históricos, aqui descritos, que contribuíram para a Implantação da República em Portugal.




08/09/17

Um olhar sobre o MAR DOS SENTIDOS (poesia)

José Luís Outono “MAR DOS SENTIDOS”
(chancela Edições VIEIRA DA SILVA, numa edição de 2012)
Opinião Literária©
(não escrevo segundo as regras do acordo ortográfico)


Da minha leitura, a análise sempre subjectiva, que fiz do livro de JOSÉ LUIS OUTONO, “Mar de Sentidos

José Luís Outono, existe, enquanto poeta, no espaço e no tempo. E existe a obra enquanto, sem invenções, nela “sonha” o poema, o faz “nascer”, o constrói, o eleva, através da palavra, ao interior da alma de quem o lê, pois, na sua, teve gestação antes de nascer. Afirma-se, o poeta, não apenas como corpo, que é, mas, também, como construtor de signos – construtor, e, não, inventor! – com que talha a sua escrita.

Descansa nas letras, que escreve, e nos versos que constrói. Tanto está “no olhar” de alguém “sem descansar”, como sulca o mar em desafios constantes da palavra. Exprime-se, no termo poético, através desses signos, tão seus, com mestria tal, que faz parar o leitor, no tempo, sem deixar o tempo do autor, para regressar ao princípio e se extasiar de novo na leitura.

Só, assim, quem lê José Luís Outono, o conseguirá ler e compreender sem perder o fio à leitura. Eu li-o, neste seu Mar de Sentidos, por quatro vezes, pausadas em tempo longo, mas o suficientemente curto para não me não perder na memória da leitura, e poder tecer, dele, este comentário, que não é crítica literária na verdadeira acepção da palavra, nem a tanto me atrevo. É nesses “rios de cristal” que Luís Outono se abraça à escrita, levando-nos consigo, para nela nos elevarmos nas suas “margens de porto seguro”. Nas “falésias sorriso” das suas palavras que manuseia com perícia ímpar, faz-nos “beber o néctar” sempre “no sentido nascente” do seu Mar de Sentidos.
 Luís Outono mostra com esta sua escrita, quase sui generis, que ele é mais do que o ser da linguagem. Ou, do que um ser na linguagem. É um ser que se auto supera, nunca se fixando nos limites do óbvio. Ele, mesmo em cantata ao vulgar amor, que não é tão vulgar quanto isso, o transforma em amor-maior, pois fá-lo em construção sábia e jamais se fica pelo simples, pelo fácil, pela obviedade. Assume-se, nas suas palavras, como eterno dever. “… as palavras emergem / na sensibilidade de um dar // … as palavras são o amar / da vida e do ser / mesmo nos silêncios agridoces / até no conjugar sem posfácio //. Não se nega, nem nega o amor que canta, num certo movimento, mais ou menos contínuo, com algumas interrupções e devaneios pela cidade de um Outono sempre em estado primaveril.

 Autor e texto em osmose perfeita, “fatal”, como diz o autor. Exprime-se com inquietação numa “quietação” de diálogo tal, que as “razões hercúleas” do seu sentir, o tornam único, singular, no seu Mar de Sentidos. A escrita poética de Luís Outono é uma faca de dois gumes, que escreve “azul com a cor do coração”. Porque o seu “tesouro” se encontra “no fundo do mar aberto de pleno imenso” onde as “algas (…) hospedam o borbulhar de uma lenda …”, mas se encontra, também, nesse mesmo “fundo secreto fascínio do mar toldado”, onde “há vida (…) e correntes cíclicas de atrevimentos… //”.
Dos seus poemas, faz um hino, onde prolonga o amor sentido, quando criança, nos braços do desejo de um dia só, por viver, mesmo que “sem nome e sem sorrir”. Nem mesmo os “tantos disparates” que escreveu, que nem a “memória os guarda”, deixam de ser a sua afirmação intemporal da vontade e temporal, ao mesmo tempo, porque os seus versos consistentes, ainda que na “ceia” da “tarde brilho do Outono”, eles “multiplicam-se de sabores” e ânsias de saber.

É dialógico, no campo do amor que canta. Ainda que mantenha o diálogo, em monólogo poético, define-se como alguém que se reconhece “cego de esperas”, de sorrisos que se esfumam de desafios aos quais já não pertence. Mas, não desespera. Pois, “se um dia construísse um apelo / faria um muro de palavras / (em) poema universal /”. Ao invés de classificar José Luís Outono, como poeta com rótulos de escolas, ou tendências, pois a tal me não atrevo por não ser crítico literário, em consciência o digo, plausível será reconhecê-lo como um dos melhores poetas, da língua portuguesa, da contemporaneidade.
           



© copyright 2012 Fernando A. Almeida Reis, ortónimo de Alvaro Giesta e de Miguel Faia, todos os direitos reservados para o Autor e Jornal Rostos. Não pode ser dado qualquer uso comercial ao texto, sem a devida permissão do autor.

A INTUIÇÃO E O INTELECTO

Intuição e Intelecto: dois opostos entre dois pontos, apenas à distância de um salto inalcansável


«(...) Sem olhar à profundidade dos seus sentimentos, à vastidão dos seus conhecimentos, o homem aparentemente completo não o é sem que tenha aperfeiçoado as suas tendências. Quem quiser melhorar os condicionalismos externos tem de começar por melhorar os internos. Quando as coisas não estão a correr bem há qualquer coisa em mim a dizer-mo. Às vezes tenho de pensar muito para descobrir o erro e como corrigi-lo. Depois de resolver o problema sinto-me novamente bem. Isto prova que «O seu instinto leva-o mais longe que o seu intelecto».
Alfred Montapert, in "A Suprema Filosofia do Homem"

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Intuir é negar à razão o direito a conhecer de imediato; seja, é conhecer directamente as coisas sem a necessidade de recorrer à razão para delas tomar conhecimento. E é por esse motivo que a razão nega também a intuição pela sua incapacidade de a encontrar. O intelecto não encontrando a intuição não a pode explicar, embora a possa sentir. E não a pode explicar porque, para explicá-la seria necessário buscar a sua causalidade - responder às perguntas: de onde ela vem, porque vem, como vem e qual a relação causa-efeito entre a intuição e a coisa conhecida.

Ora, porque a intuição não nasce do intelecto nem com o intelecto, não faz uso do recurso do raciocínio para explicar sobre o conhecimento das coisas, não precisa da razão para conhecer, porque ela é, em si mesma, um fenómeno não científico e irracional, um fenómeno não-fenómeno, podemos com firmeza dizer que a intuição não se explica. Se nascesse do intelecto ela poderia ser explicada, tinha que ser explicada porque ela seria, obrigatoriamente, racional pela razão que vinha do e com o raciocínio. Mas ela, a intuição, é um fenómeno irracional que jamais pode ser reduzido ao intelecto.

E aqui cabe reflectir sobre os dois domínios de existência - o (já) "conhecido" e o (por enquanto) "desconhecido" (sendo que este último é aquilo que o intelecto ainda busca) -, para podermos fazer uma destrinça entre aquilo que muito nos confunde: entre o FENÓMENO (não-fenómeno) INTUIÇÃO e o PODER DO INTELECTO. Ou seja, entre aquilo que é inacessível ao conhecimento e aquilo que a razão já conheceu ou vai conhecer; entre o "impossível de conhecer" e o  já "conhecido" que indagou o "onde", o "como" e o "porquê", ou o que, embora (ainda) "desconhecido", se vai conhecer usando o raciocínio. Portanto, um e outro fenómenos (estes dois últimos) são domínios da razão para deles conhecer.

Assim, a intuição não é um fenómeno "desconhecido",  porque este, sendo do domínio do intelecto, há de ser conhecido através da indagação, da pesquisa, da experimentação. A intuição é, sim, um fenómeno "incognoscível" - ou seja, inacessível ao conhecimento. A qualidade intrínseca do incognoscível é ser isso mesmo: INCOGNOSCÍVEL. É com o incognoscível, isto é, com aquilo que não pode ser conhecido pelo raciocínio, que a intuição labora, ao contrário da razão que trabalha com o conhecido e com aquilo que, embora sendo desconhecido pode vir a ser conhecido.
A intuição leva-nos mais longe que o intelecto - «conhece-te a ti mesmo», disse o filósofo. A intuição é a arma perfeita para,  em auto-análise seguida da acção, tornar o Homem em «escola da sabedoria».

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Jamais o intelecto poderá conhecer o que nunca pode ser por ele conhecido. Esse místico incognoscível chamado intuição vem de qualquer lugar desconhecido no vazio do ser, de qualquer lacuna do ser, que nunca do intelecto - embora o intelecto a possa sentir mas nunca explicá-la dado não ser um fenómeno científico mas, outrossim, um fenómeno puramente irracional.
A intuição não acontece; surge de qualquer lugar desconhecido do ser pois, se acontecesse, tinha necessariamente que ser explicada. Podia ser explicada. Mas, porque a intuição vem de um domínio diferente do acontecer, um domínio diferente de qualquer causa intelectual e racional que forçosamente interroga e procura as causas primeiras e últimas e as suas consequências com a finalidade de, aproximando-as do intelecto, as explicar e chegar à primeira causa que moveu o primeiro motor imóvel, ela é a realidade mais elevada do ser que, assim sendo-o, jamais pode ser penetrada pela causa mais baixa, neste caso o intelecto do próprio ser, que interroga para chegar à causa primeira. A intuição é essa causa primeira e irracional do ser, é esse fenómeno não científico e inexplicável pela razão por ser o poder mais elevado do ser.
É o fenómeno incognoscível que a razão não alcança, tão semelhante à mente que penetra no corpo impossibilitando, contudo, o seu contrário; assim a intuição pode penetrar no intelecto (poder mais baixo) e nunca este pode ascender à intuição porque esta é o poder mais elevado do ser.

Recorrendo ao raciocínio de Osho sobre o que diz ser a intuição «(...) nem sequer é um fenómeno; é unicamente um pulo no nada para o ser», se pode deduzir que a intuição é uma «lacuna» que apenas o intelecto sente mas que é impotente para a explicar; embora sentindo-a como lacuna, não a pode explicar porque não sabe, o intelecto, como nasce a intuição, onde nasce a intuição e porque nasce a intuição.
Ela é um fenómeno que, na voz de Osho, não chega a ser fenómeno. Àquilo a que a razão chega é apenas "sentir" que "aconteceu qualquer coisa" que a ultrapassou. E essa qualquer coisa é o tal fenómeno inexplicável, o tal fenómeno não científico e irracional, o tal não-fenómeno.

A razão nega, sempre, poder à intuição porque esta jamais pode ser explicada e o intelecto só aceita aquilo que pode ser explicado. Tudo o que está para além da razão e a ultrapassa é a realidade mais elevada do ser, o tal fenómeno que, não sendo fenómeno, não pode ser explicado numa relação de causa-efeito, e jamais aceita, o intelecto, que a intuição lhe fale. Ele, o intelecto, na sua procura das coisas, das causas e dos seus efeitos, jamais deixa que o instinto lhe dê pareceres. Mas, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, o intelecto estará sempre acorrentado à intuição; jamais a razão se separará da intuição como o corpo jamais se separará da mente.
A intuição, fenómeno não-fenómeno mais elevado do ser, como lacuna do pensamento, jamais pode ser reduzida ao intelecto.
E assim se justifica o título dado ao inquietante artigo: A INTUIÇÃO E O INTELECTO - dois opostos entre dois pontos, apenas à distância de um salto inalcançável.

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© Alvaro Giesta
da cónica semanal de Alvaro Giesta publicada na revista BIRD de 09/12/2015
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01/09/17

Todas as folhas têm chão

S


into hoje no peito um nó tão apertado.
Exactamente isso. Um nó no peito.
Pé a fundo, no acelerador, imprimindo à carrinha, naquela estrada cheia de curvas apertadas e perigosas, quase o dobro da velocidade horária permitida por lei. Adivinhava que algo não corria bem. Aquele nó apertado no peito era uma campainha de advertência. Funcionava como um alarme.

Estacionei à pressa debaixo da sombra acolhedora dos plátanos, e desembaracei-me dos carreiros entre canteiros sinuosos do jardim, saltando, em correria, as sebes e atravessando a relva, com uma olhadela de respeito ao busto do Dr. Sousa Martins, sempre tão rodeado de velas e oferendas ali depositadas pelos seus crentes. Era onde, quando naquelas tuas breves paragens de vida, que te ocorriam desde que ali chegaste, eu ia pedir ao venerando médico – que dizem curar como os santos e que, enquanto em vida, se esqueceu dos seus problemas, das suas angústias, das suas frustrações, para acudir aos deserdados da saúde e do amor – que te desse, que mais não fosse, um dia a mais de vida.
Nestas alturas, as lágrimas rebentavam-me involuntariamente dos olhos e corriam-me pela face sem secarem no seu percurso. Hoje, se fosses vivo, meu pai, contava-te no estado em que te vi no meio daquela ampla e fria enfermaria, onde mais seis ou sete corpos jaziam quase sem vida.

Rodeavam-te o médico e os enfermeiros. Eu tinha livre entrada a qualquer momento, naquela enfermaria, mercê da amizade que aí granjeei com um enfermeiro, ao que parece colega de curso da minha irmã, a tua filha. Todos os profissionais de saúde me conheciam, já. Mas, naquele momento, a situação era tão crítica que me mandaram sair e esperar notícias, do teu estado, no corredor.

“Está quase a apagar-se”, murmurou-me o enfermeiro.

Nu. Estavas completamente nu. Nunca assim vi um corpo tão esquelético. Nem quando andava pelas terras mais longínquas do leste Angolano onde as pessoas famintas, especialmente crianças, nem se conseguiam levantar da esteira, tal o estado de fraqueza e magreza em que se encontravam. Entre tu e eles duas diferenças apenas: a cor da pele e o enxame de moscas que zuniam no rosto daqueles. Tu eras só pele e osso e o enxame que rodopiava à tua volta eram o corpo clínico da enfermaria.
Tentavam reanimar-te. E tu, meu pai, preso a um ténue fio de vida, a este mundo, parece que me adivinhaste ali. Abriste os olhos. Os lábios, numa tentativa difícil mal se abriram e balbuciaste algo ininteligível. Adivinhei-te o que querias dizer. Só eu te entendia nessas alturas. Apenas eu sabia ler o que os teus lábios já não conseguiam dizer, mas o teu olhar me transmitia.

“Ainda não quero morrer, Fernando”, era o que sempre me dizias, naqueles momentos mais críticos, mas quando ainda havia alguma lucidez em ti.

Segurei, antes de sair a pedido do enfermeiro, por breves segundos, a tua mão direita na minha. Como quando te pedia a bênção e a beijava. Para a fragilidade do teu corpo, senti que agarraste com demasiada força a minha mão. Os teus dedos ósseos, demasiado magros e rudes, não me largavam, como se encontrasses, na minha mão, o fio condutor e seguro para te agarrares à vida. Naquele momento, eu era a tua vida. E lembrei-me daquelas palavras tão sábias do doutor Sousa Martins em quem até eu acreditava que fazia milagres, apesar de ignorar estas crendices: “A noção do infinito é como a luz do sol. Uma e outra, temos de aproveitá-las diluídas”. Sábias palavras as de tal Mestre!
Tive que sair. Desta vez não foram precisas palavras. Um breve arquear de sobrolho, do enfermeiro, para o compreender que tinha mesmo que sair. O médico, na tentativa de te salvar, não queria ali intrusos.
No corredor cruzei-me com o velho padre, porventura chamado à pressa para, mais uma vez, te ministrar o sacramento da extrema-unção, sempre adiada. E, às vezes, me parecia que até a contragosto dele. Naquele seu puído fato cinzento, a mesma conversa murmurada de sempre, ao passar por mim:

“Deus não se esquece dos filhos que ama, tem sempre, para os bons, um lugar reservado no céu. Está a pôr à prova a sua fé!”
Estranha forma desse deus, desse teu deus, teu e dele (!) se lembrar de quem ama! Fazê-los sofrer, para seu gáudio e prazer, para depois lhes reservar um lugar no seu céu?!

Com os olhos marejados pelas lágrimas, entendi, agora, aquele nó apertado, no peito, que me apoquentou durante o percurso de mais de cem quilómetros, desde casa, onde ficara a mãe entregue ao seu pranto e orações, até ti. Estavas em debate, duro, com a morte! Ou, talvez, com ambas – com a morte e com a vida.
Fui agarrar-me ao busto daquele médico que dizem ser santo, e conversei com ele durante longos minutos. Pedi-lhe para te não deixar partir, ainda, pelo menos sem conheceres uma neta que estava para chegar, vida da tua única filha - que afinal não chegaste a conhecer. Rodeado de velas acesas, que os crentes do médico milagreiro continuamente renovavam, tive um momento em que senti que me ouvia. O coração dizia-me, disse-me nessa altura, por breves segundos, que a vida ainda não fora desta vez que te deixara. Senti que voltavas desse poço negro para onde algo estranho te puxava, nessas alturas, como que impulsionado por uma força centrípeta no sentido inverso àquela força centrífuga que te afundava, sempre, nesse vazio.
E corri para a porta da enfermaria, saltando mais uma vez as sebes dos espaços ajardinados, agora por outro motivo – a esperança na vida – para não me demorar nos meandros dos floridos canteiros. No corredor cruzei-me, outra vez, com o apóstolo da igreja que me murmurou, como se a descontento, por se sentir mais uma vez ludibriado pela morte, ou antes, por saber que mais uma vez tu deste a volta à morte, e com um falso sorriso, referindo-se a ti:

“Enganou-me, outra vez!”
Que triste apóstolo de Pedro existe aqui na terra!

Espreitei. Lá ao fundo o enfermeiro. Vi que te amarrava os braços à cama. Por segundos ergueu o polegar direito, ao céu, em sinal de que voltavas à vida. Senti-lhe, debaixo da máscara que lhe cobria o rosto, o sorriso de vitória. Aventurei-me e avancei até aos pés da cama. “sabe, é preciso…”, justificava o gesto, de te amarrar os braços com ligaduras “…é que, quando volta a si, arranca tudo”. Referia-se às agulhas que te injectavam no corpo sopros de vida.

Abriste os olhos. “És tu, Fernando?” e, logo de seguida “Vi a morte à minha frente. Empurrava-me para um buraco negro, que depois era tão luminoso que essa luz me cegava. Não me deixes morrer meu filho…”
Alvaro Giesta (para a obra "todas as folhas têm chão")

08/07/17

PARA ALÉM DAS PALAVRAS (uma crítica à poética de Edgardo Xavier)


Estamos perante um poeta genial: dito assim, deste modo peremptório, quase a evidência nos diz podermos dispensar da leitura de qualquer prefácio de obra sua, os leitores mais incrédulos que pretendem conhecer do poeta Edgardo Xavier. Do poeta e da sua obra poética. Assim, a classificação de "genial" leva-nos a pensar não ser necessário prefaciar qualquer obra sua, muito principalmente pela subjectividade que a poética em si comporta. Também sabemos que pouca gente lê os prólogos - ironiza-nos o escritor e filósofo espanhol Gregorio Marañón - e, os que os leem, preferem guiar-se por si, com o que estamos plenamente de acordo; se bem que muitas vezes o prefácio, prólogo, prolegómenos, tenha que nome tiver o texto introdutório à obra, não faça mais do que "elogiar-se" a si próprio o prefaciador no seu acto de prefaciar, tantas e tantas vezes com palavras enredadas e enubladas que de si sequer dizem algo, quanto mais do autor, ficando no ar a dúvida se alguma vez o leram por inteiro para dele poderem dizer em prefácio.
Levará a pensar ser esta afirmação  - um poeta genial -, se não arrogante, pelo menos descabida e irresponsável da nossa parte. Mas, que o poeta é genial comparando-o com os seus tantos pares que por aí debitam a palavra naquilo a que chamam "poesia", lá isso é. E sem a necessidade de dar ênfase à afirmação.

Nunca é fácil falar dum autor quando dele não se conhecem as obras todas: das suas sete em livro apenas duas nos fugiram do contacto e da leitura pela impossibilidade de as encontrarmos no mercado ­- AMOR DESPENTEADO, ed. Casa das Cenas, Sintra, 2007 e O CANTO DA PEDRA, ed. Papiro, 2009. Contudo, viajámos algumas vezes e em profundidade, águas abaixo águas acima, pelas outras cinco que temos em mãos: CORPO DE ABRIGO, ed. Temas Originais, 2011, AZUL COMO O SILÊNCIO, Chiado editora, 2014, LISBOA, ed. Temas Originais, 2015,   ESCRITA ROUCA, ed. Insubmisso Rumor, 2016 e ÍNTIMA IDADE, ed. Temas Originais, 2017. Da muita poesia também lida de si, por nós em "Pensador", prolífero lugar existente na magia da internet, e noutros locais do éter, nos faz pensar que Edgardo Xavier, embora começando tarde a publicar o que a juventude lhe terá ditado cedo, assim o terá decidido, por opção, depois de deixar que o pó do tempo fizesse a maturação devida do mosto para que, levado às serpentinas do pensamento, produzisse bom vinho sem a necessidade da transformação apressada como nas bodas de Canaã, e do ferro em bruto que, levado agora à forja da oficina, fez dele nascer a peça com arte.


Apenas mais por um critério pessoal que qualquer outro motivo - que de toda a poética de Edgardo Xavier somos amantes -, desta quase análise excluiremos as duas últimas obras - melhor dizendo: não nos debruçaremos sobre elas  "Lisboa" e "Íntima Idade", a primeira cantando o amor pela "sua" cidade (aqui o destaque é nosso porque não lhe sendo de nascença é, contudo, de coração) e a segunda, embora cantando o amor em serena contemplação, porque nas demais, em análise, se evidencia pela maior profundidade da lira.
Amamos o poeta quando nos faz crescer por dentro e exultar de satisfação e alegria ao lê-lo. Como ele diz, "amar é crescer por dentro" e connosco voa e com ele erguemos as asas e nos deixamos conduzir nesse voo sem destino: 

«Contigo todas as palavras
São de renda ou de cristal
Contigo vestem-se de prata as manhãs
E as horas
Suspendem-se dos teus olhos
Imóveis
Como frutos do tempo

Sou a pedra em que te apoias
Acordo ao som do teu nome
E cego para tudo o que não seja
A luz que vem de ti

Cantam em mim as tuas alegrias
Soam cá dentro as tuas mágoas
Sou toque de ave-marias
Sou som de todas as águas
Sou o arrepio das folhas
Na bebedeira do vento
Amar é ser tudo isto
Amar é crescer por dentro»

[Sintra, 4/5/2007 em Corpo de Abrigo]


Como a afirmação de certo poeta - aqui não mencionado para não distrair o leitor daquilo que pretende ser só propósito a condução através da poética do autor de "Corpo de Abrigo" - que antecedendo as suas obras com a máxima "universal é o verso sem paredes" deixando ao leitor as inúmeras respostas daqui a aduzir, também Edgardo Xavier labora algumas das suas obras com a ausência do ponto final naquilo que poderá ser considerado fim de verso e ou fim de estrofe e de outras formas gráficas definidoras da pausa no texto: dá-nos, assim, liberdade total na leitura. Em outras se verga ao saber e ao sabor gramatical do ponto final e de outras formas de pontuação.


Sábio pela humildade, que lhe reconhecemos, é o autor quando nos diz em nota que antecede o texto de "Corpo de Abrigo", que "é no olhar dos outros que me revejo e aprendo" - valoroso dom, alto e nobre, também, que nos livros não se aprende mas nasce com o ser, esse de reconhecer-se, rever-se e aprender-se "no olhar dos outros"! E que, em quem o entende, se "enquista" e "voa". Que maior sabedoria existe do que ser-se humilde por natureza?!
É na pele com que veste os seus poemas em demanda da própria voz, que se encontra "com o próprio eco", como recorda, em prefácio ao "Corpo de Abrigo" o seu editor Xavier Zarco. Há, assim, uma procura do seu próprio corpo no corpo outro, desvendando-se quando "a palavra" - aquilo que ele diz usar como sendo "a sua pele" - "descobre o seu próprio corpo" como espaço vital para viver e se dar ao outro, codificando-se em imagens nem sempre de decifração fácil, que o levam "a todos os lugares habitados da memória e à solidão". Dirá o poeta "para (assim) cumprir o caminho" - diremos nós: como o eremita, o profeta, para assim cumprir a profecia.



Na sua libertação interior através da palavra, magistralmente imagética em "Azul Como o Silêncio", o poeta revela-se ao mundo: essas imagens são como que o "exercício espiritual", de que nos fala Octávio Paz, que "revela este mundo (mas também) cria o outro"; o do sonho, diremos nós - "a certeza da manhã futura", dirá o poeta Edgardo. Sonho que se alimenta do vazio do tempo e de si; mas, em Edgardo Xavier, o vazio não é vazio - é apenas um "diálogo com a ausência" com o silêncio onde busca a palavra "fermento da rebeldia" que, alimentado por aquilo que deixa antever tédio, angústia ou desespero pela falta, mas também "raiva", se transforma em "oração, epifania, sublimação"; como ele dirá: "é prenúncio de liberdade" ­- é a sua arte no fazer poético.

«Não fora a certeza da manhã futura e todo
o peso desta escuridão seria intolerável.
Chego aqui vazio de sentido e nenhuma voz
é portadora de paz.
Tu mesma, imóvel na cinza das horas, és como
uma pedra que não sabe nem espera.

O teu silêncio traduz o medo da palavra
não vá sair-te da garganta o fermento da rebeldia
ou o som justo da guerra.

Digo-te que toda a raiva é prenúncio de liberdade
mas aceito que, por amor, hibernes até que venha
o sol ou a morte.»

[Corpo de Abrigo]

Obras de leitura fácil e de entendimento acessível pela limpidez do tema magistralmente abordado pelo autor: o Amor. Mas, porque habilmente construídas com o recurso a requintada criatividade imagética, não dispensam, nunca, análises literárias - assim despertem da letargia em que hibernaram os críticos sérios deste país. Que bem se reflecte, o poeta, no corpo-outro quando o descobre - "só na tua voz se espelha a minha sede" - e nele se encontra e nele busca a perfeição - "e tu, amor, demoras / perdes tempo para a perfeição" - mesmo havendo sombra, porque não há luz sem sombra, porque é da sombra que nasce a luz - "conta-me / do que é preciso / para que vistas luar / e sombra / pele e luz". Nessa "luz doce (que) desce / pelo teu ventre até à sombra / onde vibram os medos / e a boca mergulha como ave silenciosa", em "o silêncio (que) é o melhor da nossa intimidade // em que, nua, escondes a alma", "mais que a língua / em que te amo / é o teu corpo / a minha pátria", se denuncia a presença de Eros, lendo-se o sensual, o erotizante duma forma suave e pura (jamais melindrando susceptibilidades ou ferindo os ouvidos mais sensíveis ou, melhor dizendo, ferindo-os pela harmonia da lira), marcando bem o limite do sensual mesmo quando se considera que é difícil distinguir o limite  onde começa o erótico - que, considerando, se na poética de Edgardo Xavier existe, ele é tão subtil que quase se não denuncia - e termina o simplesmente sensual. "Toco-te / vibro na promessa / de um amor pleno / e gemo a sedução / do teu corpo nu". Mesmo quando (como em "Escrita Rouca"), no amor levado ao extremo dos sentidos se denota laivos de excitação do prazer provocados pelo "sofrimento" (e aqui a palavra entre parenteses é nossa para lhe retirar qualquer significado de dor corporal) não é mais do que o tal "paradoxo entre a violência e a ternura" de que nos fala a prefaciadora. E não é, seguramente, a busca do sofrimento real que causa excitação sexual ao poeta, como era em Sade.

«Para te amar mais exijo que o sangue nos corra em beijos mordidos; que as minhas mãos marquem violáceas posses na tua carne (...); que ruidosos gritos ocupem o ar (...). Bato-te. Excita-me que a pele estale e sue, que doa, rubra a minha mão».

[Escrita Rouca]

Aqui, em Edgardo, presente no texto "Em ti o amor é um licor forte", de Escrita Rouca, "Amar é sentir o prazer e a agonia (...)" é subjugar-se para, no outro ser, se ligar com o "fogo", com o "infinito", com "o fundo de um poço no qual não paro de cair". É, inclusivamente, rejeitar a liberdade em troca da prisão do amor: "Toda a liberdade me é maldita por ser a minha alegria esta prisão".
Pensando o ser, como instrumento do discurso poético submetido ao instrumento da coisa amada, transforma o "corpo-outro" num embate de linguagem poética que se nega, por vezes, a mitigar a fome do amor sem antes haver a certeza da doacção nobre e pura do outro ser. Depois dessa doacção nobre e pura em que "uma lava ardente / (...) descobre (no outro ser o) rumo / e apaga o tempo", diz-nos o poeta, "toda a glória do mundo / cabe em minhas mãos". É no compromisso com o tempo que se circunscreve em torno do amor na sua poética, seja como um círculo num acto de acolher o corpo-outro, solidariza-se com a noite como se fosse sua conselheira: "Sei que no parado das horas / entre sombras e aromas de urze / me liberta a noite / do rigor do caminho" e que "só a noite me liberta / da solidão do destino". A solidão, irmã do silêncio, porque ambos se alimentam de si mesmo para gerarem a sorte, a viverem do vazio que em Edgardo, como já referimos, não é vazio mas, apenas "diálogo com a ausência" onde cria e alimenta a fome do "Desejo" do corpo-outro:

«De pensar te faço corpo
por te saber
acendo o sangue de infinito
e quando o grito
na solidão da minha sorte
chamo por ti
para limpar-me de silêncio»

[Azul como o silêncio]

É para lá do tempo que o poeta se quer hoje: "quero este dia livre, / sem o peso de ontem / nem a incerteza do amanhã"; a força do silêncio - o melhor que a intimidade entre dois seres, tem. Porque "o silêncio não fere a intimidade" nem o tempo "se atreve / a declarar morta a nossa juventude". Sabemos, pelos versos do poeta que volta "por caminhos imaginários à (sua) infância", que nós-outros nada sabemos da força do amor, quando aprendemos com ele ao lê-lo, nesta cantata a tão nobre sentimento, em "Azul como o Silêncio", exultação a um amor-outro,  assim cantado: "mais que a língua / em que te amo / é o teu corpo / a minha pátria". Magistral poema "O Infinito" que não precisa ser grande para ser maior. A subjectividade poética permite-nos, nas suas obras, divagações e pensamentos visionários, por onde não nos vamos perder em análise, que críticos literários não somos, que passam pelo corpo do outro ser ou, mesmo, do torreão que viu nascer o poeta e de que sabemos ausente e saudoso. Seja o que for e seja como for, são "Momentos" de magia e de "procura apetecida / de um outro mar". Que, como nos diz Edgardo Xavier, naquilo que poderemos chamar aforismo, a abrir a obra atrás referida, ele canta "Ao amor. Sem ele eu seria uma pedra."

«Sempre que posso voo nos teus sonhos.

As tuas palavras trazem-me as alturas,
os mundos e os caminhos.

Regresso, pelo teu corpo, à terra sedenta de nós
e deixo, no silêncio, as minhas asas.»

[Azul como o silêncio]

No jogo dos elementos [Água (mar/rio), Ar, Terra (chão/pedra), Fogo (luz/claridade] o autor, que é também artista plástico, compromete-se com o mundo exterior que, para o reproduzir nas suas telas e nos versos que lavra, o interioriza interiorizando-se para a procura de si, retransmitindo esse mundo exterior na construção de uma aliança com a natureza na expectativa de encontrar a harmonia entre o outro corpo e o seu próprio corpo, que finalmente se encontra no corpo-outro em que se revê: "como se fosse terra tua / ara-me" (e) "seja eu / a sede e a água"  (e) "na minha boca / a tua sede / incendeie a madrugada" como a "voz (...) / no vermelho do meu fogo", "para ser vento / voo e ave / no teu canto". O voo poético por espaços e infinitos só por si navegados, e o eterno movimento dos elementos que contribui para a descoberta e conhecimento de si, presentes em toda a poesia na obra de Edgardo Xavier. A par do jogo dos elementos, a crença, o desejo, a pureza da alma na visão do amor etéreo que quer e deseja eterno enquanto terreno, e a certeza, fora do espaço e para além do tempo, o que quer dizer sem sujeição a fronteiras, a limites impostos pelo infinito espaço e pelo indizível tempo. Sem grilhetas e sem algemas, mesmo sendo a noite mais fechada que o mistério. É a procura do corpo outro onde o poeta se reflecte "só na tua voz se espelha a minha sede", "e no verde líquido dos teus olhos lavo os meus", e se descobre e se encontra e, consequentemente, nele busca a perfeição:

«Pressiono-te com o olhar
botão de nada e roxo
mudo-te a luz
mato-te a sede
e espero
desejo
quero
que sejas já amanhã
a certeza
a cor
o aroma
a beleza.

E tu, amor, demoras
perdes tempo para a perfeição.»

[Azul como o silêncio]

«Procuro-te e acho um rio.
Olho-te e já a tua água é sangue bravo
fogo que chega, derramado à minha sede.

Bebo-te.
Corres no meu deserto de dunas e pedras até que
floresço, aceso, na tua boca onde me perco e anulo.»

[Azul como o silêncio]

 O poeta Edgardo Xavier compromete-se, assim, com o tempo na escritura do poema, "Sei que no parado das horas / entre sombras e aromas de urze / me liberta a noite / do rigor do caminho", solidarizando-se com a noite como se a noite fosse sua conselheira, "Só a noite liberta / da solidão do destino". Aqui, "Da boca ao peito / do ventre à aventura / é nos meus dedos que nasces / é no meu mar que navegas / à bolina do espanto". Como pode o poeta não se abrigar na força do destino, quando o sonho e a esperança no seu processo de busca persistente em procurar no outro corpo o seu próprio corpo, só se completa quando o seu corpo, no corpo outro se torna uno?!Existe, nele, essa "Certeza":

Nas tuas palavras bebo o meu destino
e no teu corpo mato a minha sede.
Na tua ausência
perco-me em mim mesmo"

[Escrita Rouca]

"Escrita Rouca", um livro em que o editor primou pela qualidade gráfica da obra, visível, de imediato e sem grande esforço, na primorosa capa, e em que o autor, na linha do magistralmente (até aqui) cantado - o Amor - lhe dá continuidade numa forma imagética mais requintada que nas anteriores obras, continua a dar-nos a dimensão do Ser entre o EU que se consome no desejo e no prazer, e entre a solidão - em que o silêncio e o vazio  são especial adorno da esperança e do sonho - e a espera, e se sente "gozo e tormento" no TU em que se reflecte e funde.

«É no silêncio (...) / que te sinto a arder e te adivinho.
Sou o vazio. / Nem voz, nem vontade ou ideia / apenas a dádiva que emerge ou incendeia / para que te ilumines.»

«Sobrou o vazio.
o rigor em que o meu sangue preso e o frio
já eram distância e silêncio.

(...) e tenho-te quando os sonhos
me levam ao coração verde da terra.»

«A esperança
sinto-a para lá do tempo
esse muro que os olhos não veem
mas onde o coração te adivinha.»

«Preciso erguer-me e ganhar distância para voltar à solidão. Nela fico frio e nu. Vazio de sentido. (...) Espero-te ainda. Vou esperar-te até que a memória te apague de mim ou te faças realidade. Quando chegares à minha noite estarei pronto. (...)»

[Escrita Rouca]



O vazio que em Edgardo Xavier é, apenas, "um diálogo com a ausência", é a busca da palavra certa que "vem e acende em mim o fogo eterno" mas que também "mata de indiferença o meu crepúsculo"; é um paradoxo, mas é nesta inquietação de satisfação insatisfeita que o autor sente prazer absoluto. "Só em ti me sei gozo e tormento." Cromática, esta superior obra, pela magia do sonho e da esperança, pelo impulso - às vezes quase selvagem - do amor, num misto de dor pela ausência, ou melhor, pela demora da chegada nesta ânsia da procura, pela saudade - o véu protector da solidão - em que o poeta mergulha muitas vezes como se caísse no fundo "do seu poço" para logo de seguida se erguer - pois é "o tempo e a noite neste sonho que dá eternidade ao efémero" -, pelo "amor bravio" que corre em sua libertação, se pode dizer que, nesta agitação da espera, entre a partida e a chegada, o temor da não vinda se esfuma quando o poeta conclui que "a inquietação deixou de existir" e que "Tu és o meu futuro."

«Aperto os passos
e sinto-me criança como tu.
Limpo o espírito e fico leve.
Tão leve que poderia voar
se tu quisesses.

A tua mão na minha
afasta as pedras
do caminho.»

[Escrita Rouca]

Assim, dirá qualquer poeta que se sinta bafejado pelo amor: a minha mão na tua eram uma só!

08 de Julho de 2017
© Alvaro Giesta (pseudónimo)


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