07/05/18

A CRÍTICA LITERÁRIA E A CEGUEIRA


«A crítica útil e verdadeira será aquela que em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procura reproduzir unicamente os juízos da sua consciência.» (Rabelais)
«A crítica literária perdeu prestígio à medida que a literatura deixou de ser vista como cultura para ser considerada entretenimento, incluída pelos mídia nas actividades efêmeras que constituem a industria cultural. O entretenimento generalizado não deixa tempo para a solidão e a reflexão que a leitura literária exigem. Crítica é análise e julgamento estético, e necessita de um espaço que a mídia, salvo raras exceções, não está mais disposta a lhe conceder. A crítica literária tende a ficar fechada nos limites da academia e, por isso, aquela que se faz no jornal ou na internet, mesmo se breve, tem maior influência, como a publicidade positiva ou negativa de qualquer outro produto.» Leyla Perrone-Moisés in Mutações da Literatura no Século XXI.
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Entende-se por crítica - vem do Grego KRITIKOS, "capacidade para fazer julgamentos", de KRINEIN, "separar, decidir, julgar", relacionado a KRISIS, "julgamento, seleção", de KRINEIN, "quebrar", do Indo-Europeu KREI, "peneirar, discriminar, distinguir" (in aorigemdapalavra.com.br) - essa operação que visa "fragmentar e decapar uma obra de arte, reinserindo-a em possíveis contextos artísticos e sociais" (Lúcia Czer). Assim sendo, o que vem a ser crítica literária?

É a interpretação das obras e das suas características literárias em cada cenário de determinado período, buscando entender esse universo literário e único, como se a partir dessa interpretação se desenhasse o rosto dessa sociedade literária da época. A crítica busca a compreensão da obra literária, no tempo, com a imparcialidade exigida para que não padeça de falta de credibilidade. Para que não corra o risco da cegueira e do colapso devido ao interesse mesquinho e oportunista que muitas vezes (infelizmente, hoje, isso é prática corrente) obscurecem o bom poeta e o bom escritor contemporâneo que fica, com tais práticas, em patamares inferiores àqueles que escrevem sem criatividade, cujas obras são um legitimo emaranhado de palavras sem mensagem a passar.

Nunca se produziu tanta e tão má literatura como hoje. Ouso dizer que há maior número de poetas que leitores. Corrijo: há mais (maus) poetas que (bons) leitores. Atrevo-me a mais: são os maus leitores, a quem eu chamo pseudo-leitores, que são a fonte de energia para os pseudo-poetas proliferarem. Destes pseudismos está a literatura portuguesa cheia. À porta de muitos destes pseudo-poetas-vale-tudo estão, de atalaia, muitos críticos jornalísticos, daqueles que fazem ténues e mal fundadas investidas por certas obras literárias, aqueles a quem a crise do jornalismo em papel paga mal, ou nem paga, para fazer crítica literária... aqueles que, guiados por um certo grau de cegueira-interessada, se relacionam com a literatura contemporânea de tal modo que os levam unicamente a verem aquilo que querem ver ou, melhor dizendo, que a sua miopia literária deixa ver. Uma miopia literária que não é, de todo, inocente ao seu olhar e ao seu interesse: é a crítica parcial, é a crítica afeita e afecta às feiras de vaidades, é a crítica guiada pelo estímulo interesseiro e interessado, é a crítica que veste o fato domingueiro do "padrinho alugado" para a cerimónia do baptismo literário do afilhado - é a crítica parcial, mentirosa, incompetente e corrupta, tantas vezes. Uma falta de coerência total, uma ausência de escrúpulos sem medida. Diz-se que, devido ao curto espaço que é dado ao crítico jornalístico nos jornais, a crítica se remete, no seu "papel residual", a pouco mais do que ser um "guia de compras", muitas vezes um mau guia porque atribui o máximo de "estrelas" a quem não as devia ter. Talvez sim, talvez não... talvez falte, no crítico, a capacidade de julgar; talvez tenha perdido, o crítico, o poder da crítica que lhe dava a capacidade para fazer ou destruir a carreira de um autor literário.

«Algo ronda a nossa história: a morte da literatura». (Roland Barthes). Quando se fala do "fim da literatura" referimo-nos à da modernidade. «Os críticos literários calaram-se, perderam espaço e prestígio. A literatura tornou-se coisa do passado.» (Leyla Perron-Moisés). Mas como (?) se nunca houve tanta ficção e tantos poetas editados, tantos eventos literários, tantos prémios instituídos, tanta mediatização... simplesmente porque os livros mais lidos e mais vendidos não correspondem aos padrões literários exigidos; deixaram de ser escritos numa linguagem que interroga o homem e desvenda o seu mundo de maneira aprofundada, tendo em vista a cultura, para serem considerados mero material de entretenimento em actividades efêmeras e festivaleiras generalizadas sem critério e julgamento cultural e sério, que não deixam tempo para a reflexão que a leitura literária exige. Por aqui, por esses/essas dinamizadores/as desses eventos, devia começar a crítica e a análise. São raros/raras aqueles/as que tal fazem: a tal reflexão que a leitura literária exige, porque curto e superficial é o seu conhecimento e maior é a preguiça mental para se debruçarem, em silêncio, no estudo aprofundado que tais eventos literários exigem.

[Cabe aqui contar um episódio, que nada tem a ver com crítica literária mas com leitura (ou falta dela) por mau leitor, a que assisti quando, em tempos, fui ao lançamento de uma obra poética levada a efeito por uma daquelas pseudo-editoras cuja proprietária nada diz sobre o poeta e sobre a obra pela razão que nada sabe dizer e, pior ainda, sequer leu a obra que acaba de lançar para avaliar da sua importância no campo literário: coisa mais difícil de ela (essa entidade editora) entender é "O QUE É ESSA COISA CHAMADA LITERATURA?".
No decorrer da prelecção entediante de tão ilustre orador, julgado por si, na sua inútil e vã vaidade de ostentação do "Dr" que fez questão de lembrar à plêiade assistente, quando apresentava a obra, de cigarrilha apagada entre os dois dedos amarelecidos, dava ares de que conhecia a matéria em  profundidade, pela leitura que fez dum poema, apenas, em que o autor-poeta falava de "papoilas amarelas". E discorreu, numa longa e enfastiadora hora de púlpito, tecendo louvores à obra do autor amigo, à laia de crítica, sempre rodeado das muitas "papoilas-amarelas" que encontrou no livro poético onde, afinal, só havia uma "papoila-amarela" num único poema.]

Como pode ser tão curto o saber?! Como pode ser tão grande a burrice?! Como pode custar tanto documentar-se para se mostrar saber?! Podia contar outra "estória" de quem tecendo crítica literária (?) a certa obra, quem o faz começa por escrever que "no seu vocabulário não encontra adjectivos para qualificar a obra do seu grande e bom amigo."

Ressalvo que esta "estória" aqui contada, nada tem a ver com a classificação "boa ou má" da obra apresentada - a primeira conheço-a em profundidade do manuscrito que me foi dado a ler pelo seu autor; a segunda, porque possuo o livro, que já li em profundidade também; apenas as refiro para mostrar, na primeira a falta de cuidado na leitura, que devia ter sido integral e da análise parcial e cega de quem sobre ela verteu matéria, em ambas.

Se criticar não é apenas fazer sangrias, muito menos é exercer actividade imaginativa. É uma actividade intelectual, metódica e reflexiva que procura o espírito do livro, descarnando-o, levando-o ao osso, autopsiando-o para lhe encontrar a alma, sem que o crítico esteja dependente de sujeições, sem preconceitos de amor ou ódio ao autor, sem crenças e sem mitos na imaginação.

© Alvaro Giesta (não escrevo segundo o denominado acordo ortográfico)





17/04/18

O Retorno ao Princípio, numa dialéctica Vida- Morte


Duas opiniões sobre a obra "O Retorno ao Princípio" de Alvaro Giesta
Colecção Naïf
-Editora Calçada das Letras, 2014

<< (...) O Retorno ao Princípio, “é o retorno à vida” que nos impele para fora da penumbra suspensa da árvore que “atravessa/o ciclo da vida” quando se abre a porta que deixa entrar o vento das montanhas, “o sulco de luz” que arrasta os corpos nus para um sono, agora sem retorno, devido ao cansaço e à dor, e nos faz cativos “dos lábios da terra/da espuma branca sem mar/da sede, da fome, do frio”. Os insensatos dias que sucedem ao despontar da lucidez trazem a descrença e os caminhos parecem-nos inúteis.
Que sentido ontológico tem, neste trilho poético, o ser que espreita o abismo dentro de si mesmo, não por efeito da incandescência da alma ou de um acto repousado da consciência? A resposta poderá estar na percepção daquele momento decorrido entre a vigília e o sono, do absoluto vazio, espaço de refúgio “em que coincidem/a sombra e a luz” e que nos informa que “(…) o ser é vazio de toda a determinação que não seja a da identidade consigo mesmo” (in “O Ser e o Nada” Jean Paul Sartre).
“naufraga-se num sono/eterno” e o corpo “ascende ao princípio, escreve indelevelmente o poeta na sombra do abismo, porque a abolição de todas as fronteiras ente a vida e a morte, porta aberta ao retorno do ser, projecta o espaço livre que ganha maior nitidez através do movimento, da incandescência, transmitidos pela alma ao corpo antes deste atingir o seu estado de maturação. E assim aperfeiçoa o seu tempo do ser... (...)
Organicamente O Retorno ao Princípio, revela-se ao leitor sob uma dupla face: MORTE e VIDA. Quer a Morte - invisível lucidez que apaga alguns dos sinais de uma travessia, repouso fatal, reacendimento das almas, “prenúncio de um novo dia” -; quer a Vida - sonho por desvendar, beijo de fogo no silêncio, espuma branca, grito na escuridão, medo da morte disfarçada, entrando em nós como um punhal -, concedem-nos um sentimento de amor à palavra vertida no sangue que enfrenta mistérios e ritos, e persistentemente renova o nosso destino, “caminho/à beira-lágrima/onde um deus se perdeu”, chão pisado de memórias indesejadas. Partilhamos vida e morte, num só movimento do tempo, vagueando como duas aves na palma da mão dos infinitos céus, enquanto a clarividência da palavra dos deuses não é senão uma metáfora sobre o império da fé que por milénios nos tem servido de guia e nos tem dividido. O nosso destino é o sol-infinito instalado no espaço vazio e frio da morte, onde o ser “contradiz-se e faz-se/de novo abismo”. O acto poético apresenta-se nestes versos de engenhoso compromisso de Alvaro Giesta, como mediação de sentido do inatingível, voz silenciosa entre dois mundos opacos, dois lugares tão próximos quão longínquos pontuados de muitas incandescências – da alma, do sonho, e das ausências do corpo e da divindade!
Cada uma das partes, Morte e Vida, de que se compõe a obra expande-se por “terreno alheio”, como se de terreno próprio se tratasse. Nisto reside o processo da diálectica Vida-Morte que cimenta a edificação lírica. Na realidade o que o poeta procura em cada uma das partes, é a parte correspondente à outra, enquanto resultado de uma certa complementaridade. Por isso, Morte e Vida, nem sempre se apresentam como faces antagónicas do ser, a substância perecível que incorpora o princípio e precede a ausência do corpo. “tu e eu somos duas partes / da mesma parte / deste ser”.
Fazendo, por vezes, uso de algum mimetismo de valores simbólicos, comumente aceites pela metafísica e no plano religioso, como se estivesse na iminência de se inclinar “sobre o fim/prestes a ser/princípio”, o poeta perscruta as entranhas da morte, a matéria diáfana que emana “do âmago do nada/existente/entre a penumbra e a luz”. Enquanto isto, algures, o sémen da vida vai transformando o universo desconhecido e intemporal em verbo. (...)>>

     do prefácio à obra por Dr. José Baião Santos

" (...) Um dos "papéis" da arte poética é expressar sentimentos humanos e transmitir, de forma subjectiva, aspectos da nossa realidade – medos, angústias, anseios, desgraça, pobreza... tudo quanto seja marginal e que, a maioria dos nossos poetas de hoje fogem a retratar.
O novo, o desconhecido, é algo que nos assusta enquanto seres humanos em quem o receio está presente, em quem a expectativa é uma constante aliada ao medo da dor e da dor na morte que ela nos possa causar. E como vamos nós pensar nesse desconhecido que começa onde a vida acaba e a morte começa?
No fazer poético de alguns poetas, a Morte não é o fim de um ciclo. Ela é transmutação. É apenas o trânsito, a passagem breve para outra vida, passagem ainda que fatal, pela fatalidade que o fenómeno Morte encerra, um ponto de passagem, obrigatório para todos os seres vivos. É apenas a passagem para outra vida, com princípio no próprio fim. Ela é, não deixando apenas de ser o fim, também o princípio que começa onde esse fim termina.
Enquanto poeta Alvaro Giesta, a liberdade da palavra, no uso poético que lhe é dada, permite-lhe, em O Retorno ao Princípio, filosofar acerca da morte. A morte, que é a garantia da ordem no mundo dos homens, que é o que concede o diálogo, pois, no mundo humano adquire-se a vida através da morte. Só, assim, a vida tem sentido.
O filósofo Maurice Blanchot dizia que "a morte é a base de todo o alicerce humano diferentemente do que ocorre no mundo literário". No texto poético as palavras adquirem uma maior liberdade pela soma inesgotável de temas que se nos propõem à imaginação trabalhando a matéria desses temas com a arte poética que eles merecem. Daí que, considere, que não há morte em literatura. A impossibilidade da morte diz respeito ao não-fim. Ou seja, a finalidade da morte que nos surge diariamente na linguagem normal das evidências, não existe na linguagem poética. Mesmo quando poetas como Fernando Echevarría nos dizem que a morte é o fim e que, para além da morte nada mais há senão o fim; o nada; o vácuo.
Mas é exactamente esse fim poético que vai dar origem a novos olhares na poética de Alvaro Giesta, no tema Vida-Morte, à tal "espuma" de Echevarría que lhe foi princípio. Porque, no seu entendimento, é no nada e do nada que nasce a linguagem poética; é aí, no preciso lugar "onde a luz e a obscuridade coincidem e se transformam", que se dá o acto inaugural da palavra. À semelhança, e contrariando Echevarría que na sua linguagem mais filosófica que meta-poética diz que para além da morte nada mais há senão o nada, a morte, em Giesta, é o retorno ao princípio a partir do nada onde se dá o acto inaugural da vida.
A linguagem poética, neste caso na enfatização da morte pela palavra, não procura uma finalidade, uma explicação, não procura atingir algo, atingir um fim - isto, é para as religiões e seitas. Na linguagem poética a palavra não morre. A palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque "a palavra é a vida dessa morte", como nos diz o filósofo Maurice Blanchot e o poeta Alvaro Giesta, num dos poemas iniciais de O Retorno ao Princípio. (...)"

do posfácio à obra por Fernando A. AlmeidaReis, ortónimo







08/04/18

A influência na invenção do humano poético

Autor: Alvaro Giesta
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Todos os poetas - e apenas a estes, e só a estes, me refiro neste texto -, sofrem da influência dos outros autores e, ao mesmo tempo, torna-se numa angústia presente e permanente naqueles que pretendem que a sua "arte", a sua forma de se dar a conhecer aos outors através da escrita, seja original. Esta "angústia da influência" será aquela de que fala o mais influente e controverso crítico do nosso tempo: Harold Bloom?
O processo da influência nota-se, quer queiramos quer não, muito mais nas artes e nas disciplinas intelectuais do que nas outras formas do saber e do conhecimento - porque enquanto estas exigem a experimentação para um "único pensamento" (Heidegger) pensando-o até ao fim em vista, para quem sofre das artes, da angústia da influência não há fim.

O humano poético inventa-se, a partir da influência que se sofre dos poetas antecessores. Vulgarmente se diz: "inspirei-me no poeta A ou B" - mas, isso, não é inspiração, porque tal, como inspiração, não existe; isso é "influência".
Ninguém, nas artes intelectuais, está isento e livre de sofrer influência e de influenciar outros, resultando de tal acontecimento uma forte inquietação, quando, o que todos os poetas pretenderiam, era terem uma forma só sua e genuína de se expressarem na escrita - seriam, neste caso, mestres de si próprios, mestres sem mestre.
E só não sofre influência quem não teve contacto, lendo ou estudando, os poetas antecessores. Mas esses - os que não sofreram de influência - ou são genuinamente superiores ou raramente passarão de vaidosamente medíocres.

Uns e outros diferentes entre si: os poetas genuinamente superiores, porque do seu pedestal não descem para ler os poetas menores pela pouca ou nenhuma atenção que lhes merecem - seria uma desconsideração para eles, considerados sábios, e uma perda do brilho da auréola, descerem ao mundo inferior dos poetas menores; os que raramente passam de vaidosamente medíocres, porque obcecados que estão com o ego, que julgam já tudo saberem e de tudo serem capazes sem necessidade de com outros aprender, desconhecem que a humildade é a maior sabedoria dos sábios.
- E, sábios, são aqueles que não têm necessidade de falar do seu próprio valor, aqueles que, sem ênfase ou asserção, são capazes de, do mesmo modo, erguer uma montanha sem esforço a partir do pó e dum oceano irado fazer flutuar um átomo. Não os tentando nunca a ostentação, o exibicionismo, a presunção, facilmente se explica o mérito e o poder do mestre e do sábio de, com o mesmo saber, tratar a farsa, a tragédia, a lírica e a narrativa.

Poucos são os autores que têm dons de imaginação poética - quase todos se repetem nos temas e, tantas vezes, na forma de os tratar. Os que têm o dom de se inventar genuinamente, criam-se como mestres de si próprios, quer na forma da sua escrita, quer na genialidade das suas distintas, porque genuínas, ficções poéticas. É um atrevimento dizer que dificilmente houve autores genuínos, únicos e inegualáveis, na forma de executar e criar. E que, no panorama literário português, nem Pessoa foi genuíno na poética - se o foi, apenas isso aconteceu na criação dos heterónimos. Porque o seu grande mestre na forma do verso livre foi Walt Whitman. Disse Harold Bloom que Pessoa era o maior herdeiro português de Whitman. O próprio Pessoa o não desmente nesta declaração poética pessoana em "Saudação a Walt Whitman"[1]: «Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado, / não sou indigno de ti (...) / (...) / Sou dos teus, tu bem sabes (...) / E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias (...) / (...) / Sei que é isso que eu sou (...) dez anos antes de eu nascer (...)». A evidência diz-nos que Pessoa nunca negou a influência de Whitman sobre si.
(...)
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Obs:
O artigo, de que aqui deixo este extracto, segue nos mesmos moldes, a narrativa aqui exposta.
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 A propósito vem o convite que vos faço a uma leitura dupla deste meu poema "da MORTE, cantata em odes mínimas" da influência sofrida daquela que eu considero ser a melhor poeta no arrojo que teve em cantar a morte - Hilda Hilst.
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da MORTE, cantata em odes mínimas

                              1.

Apoderas-te do meu ser, quando? Agora?
Quando unirás a tua boca à minha,
          -- à boca dum poeta, nesse estreito laço?

Que vontade calada de te unires a mim tens
tu, amantíssima Morte, que por mim
esperando em silêncio, vens minando o meu
corpo que junto ao teu repousará um dia
nesse longo e apertado-abraço!

Oh! como almejas o teu corpo colado ao meu
debaixo daquela pedra fria, onde
a tua fome de mim em fogo arde.

                              2.

Desafio-te:
          --vem, hoje, sereníssima e negra
antes que seja tarde; vem, sem medo,
amantíssima vem não sejas cobarde...

          desafio-te, oh Morte, antes que sejas tu,
nesse beijo frio que tanto desejas, a impores-me
a minha própria sorte -- vem, nesta hora.

 Aqui de mim, para ti, firmo a minha escritura:
          -- assim te imponho eu, agora
que venhas serena mas rudemente, assim te quero
e ao mesmo tempo austera, nesta agonia
ácida, escura e amargamente terrena.

          Assim te desafio -- vem, não esperes
pelo abraço final que nos há de selar a sepultura.

                              3.

O meu tempo agora é teu... e há muito dura!
          Ama-me com a fome que tens de mim
em fazer da minha carne -- ânsia que te consome --
o teu leite prometido, a tua carnadura
          -- o diamante puro para o teu altar.

          Já não me atormenta o teu nome!
Porque tu, Morte, és a Vida-semente da minha vida
amor que em ti se prolonga indefinidamente.

Escurecem os teus olhos que por mim brilham
por alimentar o teu ventre esfaimado,
          de mim sequioso e tardio
quando por fim descer à terra escura.

                              4.

Alimenta o teu ventre, esse amor que há tanto dura
pelo meu ser, faminto e doentio. Sim, tu, oh Morte
que tão demasiados anos da minha vida
trouxeste o teu dentro arredado e fugidio.

Hás-me urdir nesse denso e frígido amor
em tempo teu, sobre mim a tua teia.
O tempo virá em que à tua se há de unir
a minha carne -- vida da tua vida.

Como a trovoada que sobre a terra áspera
e dura, derrama o cíclico raio quando nunca chove
e o rochedo seca e abre brechas em sua cíclica
textura, assim escorra tardiamente sobre mim
e a minha vida, o teu amor pela minha sorte,

          -- e tarde o tempo
em fazer da tua vida a minha morte.»
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(da Morte, cantata em Odes Mínimas de Alvaro Giesta, in OPUS, Selecta de Poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, 2018 (31 autores)
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Toma-me

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo 
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(Da Morte, Odes Mínimas de Hilda Hilst)




[1] Saudação a Walt Whitman / Canto de Mim Mesmo, Autores Álvaro de Campos|Fernando Pessoa/Walt Whitman, © Guera e Paz, Editores, S.A. 2017, pp 12 a 13


23/03/18

A essência do fenómeno literário na poética de Herberto Helder (o valor do símbolo)


A essência do fenómeno literário na poética de Herberto Helder
(o valor do símbolo)

Alvaro Giesta (escritor e poeta)


«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeni movimentador de correntes de.»

Herberto Helder in Photomaton & Voz (a mão negra), Assírio & Alvim, 2016-5.ª edição revista e aumentada.


1.     A origem, a personalidade, a obra
              
De origem judaica, Herberto Helder nasceu no Funchal em 1930 e morreu em Cascais a 23 de Março de 2015. Estudante em cursos que não acabou, primeiro em Direito, e depois em Letras em Filologia Românica, passou por vários empregos ou, melhor dizendo, por vários modos de vida: desde angariador de publicidade para a CGD até propagandista farmacêutico, passando pela Emissora Nacional como redactor de noticiário internacional e bibliotecário ambulante nas carrinhas da Fundação Gulbenkian, desde empregado de cervejaria a operário de forja, desde cortador de legumes numa casa de sopas a empacotador de aparas de papel para reciclagem, até, na Europa por onde vagueou (ou vadiou) na clandestinidade sobreviveu, no exercício de profissões pobres e marginais, nomeadamente como guia de marinheiros nos circuitos dos prostíbulos da cidade portuária de Antuérpia.
Viveu sempre com o mínimo de recursos - é de mistério a atmosfera em seu redor pois recusa homenagens, rejeita prémios e condecorações, nega-se a dar entrevistas e a ser fotografado. É na sua obra literária que se reflecte a sua personalidade instável - aliás, em 1994, ano em que lhe foi atribuído o "Prémio Pessoa" e que recusou receber disse, numa entrevista ao "Expresso" acerca de si mesmo: «Tenho de inventar a minha vida verdadeira». De então para cá, e até à sua morte, retirou-se de todas as actividades profissionais vivendo em total e absoluto anonimato, em quase recolhimento monástico. Casou duas vezes: com Maria Ludovina Dourado Pimentel, primeiro e com Olga da Conceição Ferreira Lima, em segundas núpcias - foi pai de Gisela de Oliveira (do 1.º casamento) e do jornalista Daniel Oliveira (nascido da relação que teve com Isabel Figueiredo).
Personalidade instável, peregrino do mundo, colaborou em periódicos como "A Briosa", "Búzio", "Folhas de Poesia", "Cadernos do Meio-Dia", "Jornal de Letras e Artes" e, até, em 1969 é director literário da editorial "Estampa" e em 1971 parte para Angola onde faz uma série de reportagens para a "Revista Notícias". Envolveu-se na organização da revista "Poesia Experimental" e na publicação de duas obras que haveriam de o arrastar para processos judiciais - uma sobre o "Marquês de Sade" e a outra o seu livro "Apresentação do Rosto" que mereceria em 1968 a proibição de circular no país[1] . Em 1976 envolve-se na edição e organização da revista "Nova" cuja direcção recusou por não se identificar com a orientação revolucionária da revista.

São vários os livros que publica desde 1958 até à sua morte: O Amor em visita (1958), A Colher na Boca (1961), Poemacto (1962), Lugar (1962), Os passos em volta (1963), Electronicolirica (1964), Húmus (1967), Retrato em movimento (1967), Ofício cantante (1967), O bebedor nocturno (1968), Apresentação do rosto (1968), Cinco canções lacunares (1968), Kodak (1968), Os brancos arquipélagos (1970), Produção animal (1971) Antropofagias (1971), Poesia Toda (1973), Cobra (1977), Photomaton e Vox (1979), A Cabeça entre as mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Do Mundo (1994), A Faca Não Corta o Fogo (2008), Ofício Cantante (2009), Servidões (2013), A Morte sem Mestre (2014) e Poemas canhotos (obra póstuma).

2.     O Mestre de si próprio no uso do símbolo linguístico
              
Difícil se torna falar deste Mestre sem mestre, por muitos assim considerado - poeta intemporal, inventor de palavras, com uma linguagem próxima do universo da alquimia e da mística, da mitologia edipiana e da imagem da mãe.
[A referência que é feita por certos críticos à linguagem poética de H.H. enquanto próxima da "mitologia edipiana e da imagem da mãe", leva-nos a crer que é pela invocação à mulher-mãe que H.H. faz em seus versos, numa expansão de imagem de dor, horror e morte, num vocabulário poético perturbador carregado de solidão em cenários fantasmagóricos entre o poeta e o poema. Na imagem metaforizada da mulher, o poeta dá-nos o seu universo desarrumado onde se recolhe para depois passar à construção dum novo universo. Julgamos que as relações com o mito se dão não apenas no que concerne à imagem da mulher mas também estão presentes na figura do homem que ama e do próprio fazer poético de Herberto. Talvez aqui caiba deixar uma referência à sua primeira obra AMOR EM VISITA, a que nos referiremos mais à frente, e parte do poema FONTE, da sua segunda obra A COLHER NA BOCA (pp 45 e seguintes) de Ou o Poema Contínuo.]

Voltemos ao fio da meada do nosso trabalho: Fiel à regra da obscuridade talvez para mitigar a sede da diferença, talvez para se mitificar a si próprio no eu-poético, diferente de qualquer outro que igual a si não houve nos séculos que o antecederam tão pouco na sua época. Mestre de si próprio, pela diferença do saber usar os signos literários como nenhum outro poeta da sua época nesta sua maneira obscura e difícil de se dar aos leitores, impediu que o transformassem no seu mito, desmoralizando-se aqueles  que por aí vão fazendo tentativas de imitar o Mestre. Inimitável será, sempre, nesta forma do verso incandescente que vibra à sombra da obscuridade. Pode dizer-se metaforicamente que Herberto Helder praticou uma poética "à margem de qualquer corrente"[2] mantendo-a sempre inovadora e actual relativamente à moderna poesia portuguesa. Herberto Helder não teve precursores a anunciar a sua vinda, como acontecia normalmente antes do aparecimento das escolas e movimentos literários; ele foi, também, a origem da angústia da influência para queles que se lhe seguiram na tentativa de o imitarem na forma mais ou menos obscura deste tipo de linguagem incandescente. Lê-se como se fosse contemplação. A propósito, escreve ele a páginas tantas no "Photomaton & Vox" citando Marilyn Monroe: «a melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta.», e acrescenta, de seguida em palavras suas, que «talvez a forma eleitamente apocalíptica e luminosa de escutar a poesia seja de helicóptero.»

Doce ironia - digo eu. Não! Herberto Helder não ironizava. Era sisudo, de mais, para ironizar, tão obscuro no rosto como o era na sua obscura luminosa poesia. Estranha contradição neste paradoxo "obscura luminosa" como se verdadeiro pudesse ser o seu oposto. Considerado, por alguns, como "um poeta difícil" pelas palavras opacas com que veste os seus versos, ela não é tão obscura no sentido do hermetismo e do experimentalismo. António Ramos Rosa se refere, nestas palavras, quanto à obscuridade da poética de Herberto Helder: «A sua efectiva obscuridade é luminosa e, não raro, incandescente. A sua luz, aliás enigmática, é a luz de um poeta que não cessa de acorrer ao enigma da criação poética e da matéria a que ela se liga, realizando assim uma fulgurante osmose verbal com o que é vertiginosamente incompreensível.» (Ramos Rosa, 1991:70). Nós dizemos - a obscuridade está, antes, no saber ler um texto deste assim considerado "poeta obscuro".

Em toda a linha da sua poética há uma preocupação constante com a metalinguagem e com a organização de uma teoria poética muito sua - melhor dizendo, só sua -, porque inimitável é a sua forma de fazer poesia. A sua realidade poética é acentuadamente metafórica e simbólica, como atrás se disse, muito próxima da alquimia e da mística, com recurso constante, mais que constante, repetido, aos aspectos da natureza - a terra, a flor, o fruto, o sol, a lua... - e vinculada, também, a sensações físicas e eróticas - corpo, mulher, sexo, coxa, ventre, sangue, esperma, filhos, sofrimento, silêncio, sombra, vida, morte... - que conferem à sua poesia não só um constante apelo às origens mas também à vivência real em torno do ser e para o ser. O dinamismo do sonho e da vida, a aspiração do desejo e do amor, a incógnita do caos e o mistério da morte, são preocupações constantes na poética de Herberto Helder que tem do homem e do mundo, do seu estar com e na natureza, uma ideia plurívoca - cada época é distinta da outra, cada homem, na sua forma de pensar e apreender a natureza e dar-lhe, na expressão da escrita, forma literária, tem o seu modo peculiar de o fazer; a cada tempo corresponde uma nova expressão literária, um novo expoente de comunicar a arte. Daí que não seja fácil enquadrarmos a poética de Herberto Helder em específico conceito literário. Dificilmente surrealista - surrealista, para alguns - ainda que com Mário Cesariny e Hélder Macedo tivesse coabitado em meados dos anos 50 no Grupo do Café Gelo, deles se separou, aos poucos, para construir o seu próprio percurso à margem de movimentos e escolas.

Herberto Helder soube, mais que ninguém na sua época, apreender a natureza do objecto literário e revertê-lo numa forma poética só sua, em que a luminosidade da intenção do seu verso, que transforma o quotidiano em poesia, surge, em íntima linguagem com os sentidos, como que encoberta pelo rigor do uso dos tropos (metáforas, antíteses, sinestesias, metonímias, etc.), ora dando ao discurso poético uma linguagem oblíqua o que revela a amplitude da imaginação do poeta e o grau de originalidade do que percepciona, ora fazendo, com recurso à imagem, com que as palavras usurpem umas às outras o sentido que lhes não pertence com a intenção de dar uma linguagem mais viva e diferente da comum - aqui reside a beleza do texto poético: obrigar o leitor a "saltar o muro" nas múltiplas tentativas de compreensão da poesia, porque, sendo esta independente do poeta, ele não serve outro objectivo senão ser o veículo transmissor de estímulos e imagens que visam atingir o universo de cada leitor. A sua escrita, de poemas dircursivos e exaustivos, é como que "um caminhar na selva de temas e imagens plurais", quantas vezes inacessíveis pela utilização das mesmas palavras como se representassem "duas realidades"[3] no verso, em que umas se transformam em metáforas das outras construindo a sua realidade simbólica. Neste desfilar contínuo de palavras exaustivas e extensas o poeta perde-se e encontra-se em dois tipos de sensações: aquelas que são provocadas pelas imagens visualizadas e as que nascem da sua imaginação e marcam o mestre como mestre de si próprio - as sonhadas. Porque, sendo o homem, no dizer de André Breton, «um sonhador definitivo cuja maior liberdade é a do espírito», é da sua própria imaginação que Herberto vai extrair o que precisa para cultivá-la e, assim, cria e recria em busca da sua satisfação até a encontrar em definitivo. Em poemas de reverência, como o transcrito abaixo, o poeta sublima as imagens nascidas da sua imaginação na forma como trata os seres a quem se dirige ou de quem fala; faz reverência perante o que lhe é sensível - fome, mesa, erva virgem, vinho libertador, água, mesa, pólen, fruto - mas que não lhe aparece de forma palpável, sublimando a imagem sonhada com o tratamento na 2.ª pessoa do plural sem saber(-se) com quem fala mas sabendo-se que não fala com seres reais. Muitas vezes este surrealismo está presente em seus poemas onde o sonho é transportado pelo poeta em forma de oxímoros.[4] Façamos aqui jus às palavras de Fernando Mendonça in A Literatura Portuguesa no Século XX: «não fora o surrealismo e a sua corajosa experiência verbal, não teríamos possivelmente poetas capazes de dar às palavras as bocas pelas quais elas falam agora.»

                   « Escuto a fonte, meu misterioso desígnio
de cantar o amor.
Da tremenda alegria da carne
deve vir o espírito do canto, da vossa
deslumbrante alegria, ó intensas
criaturas solares.

Tudo o que é como sinal fecundo
da terra, tudo o que se toca
entre comoção e pensamento,
deve participar do vosso cântico, ó
corpos apoteóticos, corpos
reconstruídos sobre o frio ascético dos cadáveres.

Vosso é o vinho libertador, a erva
virgem, ó pequenas cabras rituais, a erva
junto à água, junto ao silêncio,
junto à aragem - vosso é o pólen inconspurcado,
o fruto, o dia, a delirante
lua vermelha.

Vindes na simples harmonia da fome
e da mesa,
com gestos sexuais de uma graça infantil,
o puro impudor,
a generosidade ingénua
do pecado.

Eu canto vossas coxas verdes, o antigo
turbilhonar do instinto
que transportais castamente como um depósito
no sacrário do sexo,
canto vosso ventre diurno,
a grande inocência de uma entrega
milagrosa.

Humildemente teço minhas palavras gratas
sobre a bela ferocidade
da carne, ergo minha taça,
ouço o oculto rumorejar da fonte.
Humildemente dissipo a solidão, aceito vosso apelo de esperma,
mereço a poesia.

─  Humildemente repudio a morte.»

(Ciclo, Poema I in POESIA TODA, Assírio & Alvim, 1996)

         

3.   A revisitação da própria obra - a transmutação ou transfiguração
           
Nos versos do poema se ocultava (se oculta - que o poeta nunca morre), àqueles que o leem. Porque na "sua insatisfação permanente com o objecto poético no desejo de chegar à perfeição" - coisa inacessível -, Herberto Helder está em constante revisitação da própria obra num processo de transmutação, transformando-a na procura da inovação, como ele, aliás, diz em "O Corpo O Luxo A Obra", (1977:21), quando se refere ao mundo: «A transmutação é o fundamento geral e universal do mundo. Alcança as coisas, os animais e o homem como o seu corpo e a sua linguagem. Trabalhar na transmutação, na metamorfose, é obra própria nossa. (...) o poema é o corpo da transmutação, a árvore do ouro, vida transformada: a obra.». Ou ainda:

«Quis Deus (...)
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
(...)
carne
diamantes por onde se bebe.

Em recessos, com picareta e pá, sem máscara, trabalha
na especialidade
do ouro:
(...)
- obreiro e obra são uma só forma instantânea
do verbo ouro nativo.»

(Do Mundo, III in OU O POEMA CONTÍNUO: 534/535)

Temos em Herberto a necessidade de provar as diferenças do ser e do mundo; por isso nas muitas antíteses em sua poesia no mesmo poema - silêncio e ruído, noite e dia, amor e ódio, quente e frio - revelam-se as contradições do seu mundo poético. É na procura do inexplorado, do insólito, desta diversidade de mundos que se encontra a génese do seu universo poético - presente nele a ânsia, não só da procura mas também, de recuperar o que já está (de)lapidado pela civilização:
«Que nada existe e as coisas nascem no tocar
da minha mão inundada.
(...)

E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, ao meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.»

(Lugar VII - LUGAR, in Ou o Poema Contínuo: 158)

Na totalidade poética da obra de Herberto Helder há uma simbiose entre todos os seres e o cosmos, sendo o corpo o elemento unificador onde todo o disperso se une ou se tende a unir. O texto é um corpo vivo de palavras e de carne, de objectos concretos, reais - 'o beijo', 'o êxtase', 'a mulher', 'a árvore', 'o pássaro', 'o sangue', 'o sexo', 'o corpo', 'os dentes', 'as mãos', 'as pedras', 'o orvalho', 'a água'...- contrapostas a outras palavras que remetem para o mundo subjectivo do ser - 'espírito', 'amor', 'ilusão', 'silêncio', 'Deus', 'divino', 'beleza', loucura', 'morte... - dois grupos de palavras que nos remetem para os seus dois mundos individualizados; o concreto e o abstracto, em evidente choque "mundo/ser" no plano da realidade simbólica.

«Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.

(...)
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
(...)
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.»

(Elegia Múltipla, III, de A Colher na Boca in OU O POEMA CONTÍNUO: 62/63)

Continuamente persegue a utopia através da transmutação da linguagem desse corpo, numa autêntica alquimia do verbo, em constante revisitação da sua própria obra, transmutando-a e transmutando-se numa constante reutilização de frases e vocábulos trabalhando os textos sobre os textos da sua própria obra num processo de auto-intertextualidade numa reescrita de fragmentos de textos dos seus livros mais antigos, levando-nos a concluir, e da leitura que fizemos de sua carta[5] dirigida a Eduardo do Prado Coelho em Outubro de 1977, aquando da publicação de "Cobra" e publicada na revista Abril, n.º 1 de Fevereiro de 1978, com exemplares oferecidos pelo autor aos críticos e amigos contendo diversas correcções manuscritas o que nos permite deduzir diversas versões de "Cobra", que nenhum texto ou obra é citável, ou seja, que nenhum livro pode considerar-se definitivo na medida em que um livro vai conhecendo um contínuo percurso de reformulação, um livro é «algo em suspensão e só essa suspensão é citável, o que nos remete para a afirmação de que, num livro, só o seu silêncio ou a sua morte é citável (...)» (Herberto Helder - Territórios de uma poética[1], Maria Etelvina Santos, publicado na revista Semear 4).
«O poema é um animal», diz Herberto Helder no início de "Cobra" e continua: «nenhum poema se destina ao leitor»; ora, na medida em que o poema é esse animal "cobra" que a cada verão muda de pele e assim se regenera permanentemente, o poema não indica uma leitura unívoca - logo, cada leitor elege a sua leitura dentro das inúmeras possibilidades que o texto oferece.

[Da tónica posta na simbologia mística do oroboro - figura circular de uma serpente mordendo a própria cauda - a representar a renovação da eternidade e do ciclo de vida em constante evolução, assim se entende a permanente e necessária mutação que preside a todos os elementos do universo, incluindo a própria linguagem poética.]

No caso de Herberto, a renovação do seu universo poético faz-se pela reescrita da sua escrita com a revisitação aos seus próprios textos - a chamada auto-intertextualidade. Na maioria dos seus poemas verifica-se o aspecto discursivo do verso e até mesmo uma repetição exaustiva das mesmas palavras, apenas criando novas imagens e novas sensações através da metaforização das mesmas; funcionam, assim, as mesmas palavras como metáforas umas das outras, como atrás ficou dito. Segundo Ruy Belo em 'Na Senda da Poesia', "as palavras podem funcionar como metáfora umas das outras, de qualquer maneira, serão sujeitas à acção do contexto". Assim é, de facto: quando o poeta fala de amor, da mulher ou da coisa/objecto, a sua poesia pode não ser só o amor, como a mulher pode não ser só ela mesma, como o objecto pode ser outra coisa diferente da primeira, e isto porque o poeta transforma, "transfigura" a cada instante, a emoção da experiência anterior numa emoção nova. Vejamos de "Colher na Boca" o "Tríptico I" para compreendermos, no processo de recriação, a transformação e a omnipresença do poeta no discurso e no tempo poético:

«Transforma-se o amador na coisa amada" com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
A amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.»

(Tríptico I de A Colher na Boca in OU O POEMA CONTÍNUO:13)

Neste processo de transformação dinâmica do verbo e do ser no acto do amor, neste "desmembramento e procura", neste processo de "origem e futuro, busca e encontro", «o amador transforma-se de instante para instante», é atemporal, volúvel, não pára, «corre pelas formas dentro» e, ao transformar(-se), torna-se omnipresente, sublima-se em algo, torna-se imortal com a finalidade última de ser Deus «com o assombrado silêncio da sua última vida / sente-se o espírito imortal do amor».

«Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.»

(Elegia Múltipla III de A Colher na Boca in OU O POEMA CONTÍNUO:62)

Vejamos excertos do poema 'O Amor em Visita' com que talhou o início do seu percurso literário na publicação 'Colher na Boca', donde podemos aquilatar que, na diversidade do tema e na estrutura do verso, a lira de Herberto Helder não tem amarras formais:

«Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encontrarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, como o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
(...)
Uma mulher com quem beber e morrer.
(...)
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
(...)
Seu corpo arderá para mim
sob um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração feminino.
(...)

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
(...)
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

(...)
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

(...). Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro a tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

(...)
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
(...)

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz
(...)
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
(...)
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
(...)
- Começa o tempo onde se una a vida
à nossa vida breve.
(...)
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como o sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.

(...)
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.»

(O Amor em Visita de A Colher na Boca in OU O POEMA CONTÍNUO: 19 a 24)



4.     A tarefa da leitura para a compreensão de Herberto Helder
(a função do poeta com o leitor)

É tempo de regressarmos, aqui, àquilo que atrás dissemos "a obscuridade está, antes, na dificuldade de saber ler um texto de Herberto". Porque ler um texto poético é uma tarefa ingrata apesar de todo o prazer que daí resulta; porque ler um texto poético não é apenas passar com os olhos sobre a superfície do papel; ler é estabelecer uma relação de intimidade com o próprio texto, confundindo-se numa estreita ligação o sujeito (enquanto leitor) com o objecto (o texto). Assim sendo, não existe, do texto poético uma única leitura no sentido em que, sendo o texto um espaço plural, ele permite múltiplas significações em toda a sua complexidade - pela multiplicidade das linhas de força do poema, da multiplicidade de fios entrelaçados das imagens e metáforas, das incontáveis significações várias que o emaranhado de sentidos confere ao texto. Fracassa o leitor na sua leitura da poética de Herberto Helder, se pensar que vai encontrar um espaço sem dimensões múltiplas, um texto como um campo pleno e plano, sem resistências, sem espessura, sem fios de significação a deslindar, sem "minas a desarmadilhar" - se assim fosse, se o texto poético de Herberto Helder nos obrigasse a renunciar às tentativas de compreensão, então estaria vazio de beleza e só nos restaria o silêncio após a sua leitura.

O processo criativo deste poeta não rima com simplismo. É um processo hermético, demasiado denso, por muitos considerado obscuro porque recheado de obstáculos, de muros difíceis de ultrapassar, de palavras muito repetidas ao longo do poema e da obra em que umas são metáforas das outras, de poemas sucessivamente alterados, de poemas com irregularidade estrófica e estrutural abissal e extremamente longos que muitas vezes arreda o leitor logo às primeiras tentativas de compreensão do texto. A poética de Herberto obriga-nos a encarar este espaço atemporal sempre na perspectiva de um duplo sentido da palavra: porque, se em cada leitura há uma forma diferente de dizer o texto - e muitas vezes fracassamos se ambicionamos uma leitura bem sucedida e compreensão única e total logo à primeira - em múltiplas leituras de vários leitores, múltiplos são os sentires e os sentidos extraídos das palavras que contribuem para esta pluralidade ambígua que, diga-se em favor das boas leituras críticas, as mesmas exigem coerência face a esta espessura e resistência do texto Helderiano. Na obra deste poeta o ser poético é atemporal e não se coloca num espaço só - tem várias dimensões. Há um ciclo constante e crescente nessas várias dimensões cujo equilíbrio se não perde neste acto da criação e da recriação. O poeta, no seu poema discursivo facilmente se desenvencilha tanto da estrutura como da coordenação emotiva. Ele nos diz em 'Antropofagias':

«Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
à sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria «um esforço» não coordenador (de modo algum)
mas de «moldagem» perguntavam «estão a criar moldes?»
não senhores para isso teria de preexistir um «modelo»
uma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como «imagem de respiração»
«(...)»
«com as palavras» perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa uma alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor pelas palavras»

(Texto I - Antropofagias, in OU O POEMA CONTÍNUO: 273)

Confesso-vos, aqui, o seguinte: mais fácil é ler poemas de Herberto carregados de beleza mágica, do que entrar na especulação da sua obra, porque difícil me é entender Herberto Helder tal a dificuldade da interpretação dos seus versos - tão obscuros são, tão difíceis de entendimento, quanto de conhecimento do poeta e do homem que durante a maior parte da sua vida viveu longe do mundo e dos acontecimentos, quase como um asceta. Era um eremita solitário e oculto no seu altar poético e contemplativo que, quando saía da sombra para a luz, obscurecia, como se fosse divindade, todos os outros poetas. É quase certo que muitos dos "admiradores" à sua passagem ao eterno nem sequer terão lido, alguma vez, o poeta, porque a sua poesia obscura logo afastava os aventureiros leitores ao alvorecer dos primeiros versos.
Eu aprendi a lê-lo mas, dificilmente, a compreendê-lo, pela dificuldade de entrar no emaranhado "amanhecer anoitecer" da sua escrita, profundamente estruturada à base de metáforas que, muito provavelmente, nem ele as entenderia lidas para além do momento em que as escreveu. Este mestre de si próprio, que nos deixou na incandescência do seu verso e na exaltação do seu verbo, inventou-se a ele mesmo nas palavras abruptas com que erguia o verso com que fabricava o poema, nas palavras abruptas que escrevia "por clarões súbitos" (como alguém disse), em impulsos e por impulsos do tempo sem seguir regras, muito menos o ensinamento de qualquer mestre que não teve.
E aqui chegados, nesta considerações finais vamos deixar o metapoema "O Poema" - que na realidade são sete textos - numa leitura que não é, seguramente, a única, descrevendo o próprio acto da criação poética, em que o eu-poético se ausenta e deixa o poema falar por si mesmo como se ele fosse um corpo activo onde corre o sangue e bate o coração à procura da palavra - se não a exacta, pelo menos a mais adequada à expressão do corpo do poema:

O POEMA - I

« Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.»

(O Poema de A Colher na Boca in OU O POEMA CONTÍNUO:28)




  
BIBLIOGRAFIA
1)     HELDER, Herberto - Ou o Poema Contínuo, Assírio & Alvim, Ed. 0291, Setembro 2004
2)     HELDER, Herberto - Photomaton & Vox, Assírio e Alvim, 5.ª ed, 2013
3)     HELDER, Herberto - Apresentação do Rosto: Relatório de Proibição de Circular no País da P.I.D.E n.º 8.243, 17/7/1968, com Despacho de 22/7/1968
4)     BELO, Ruy - Na Senda da Poesia - Poesia e Arte Poética em Herberto Helder
5)     ROSA, António Ramos - Poesia e Significado, in Estrada Larga 3, Porto Editora s/d
6)     MENDONÇA, Fernando - A Literatura Portuguesa no Século XX, Hicitec, São Paulo, 1978
7)     DÉCIO, João - Para um Estudo da Realidade Simbólica na Poesia de Herberto Helder
8)     LEAL, Izabela - O Poema de Herberto Helder: um convite à leitura
9)     SANTOS, Maria Etelvina - Herberto Helder: Territórios de uma poética, Revista Semear 4
  



[1] Relatório N.º 8.243 de 22/7/968 da P.I.D.E
[2] Maria Etelvina Santos  - Herberto Helder: Territórios de uma poética, Revista Semear 4
[3] Fernando Mendonça - A Literatura Portuguesa do séc. XX
[4] Figuras de linguagem que coloca lada a lado palavras de significados oposto; Ex: bela ferocidade; coxas verdes...
[5] «As versões têm variado de destinatário para destinatário (...) porque o livro, em si mesmo, digamos, flutua. É um livro em suspensão, talvez só essa suspensão seja citável. Não é excitante que um livro não se cristalize, não seja «definitivo»? (...) Gostei da sua pergunta sobre o que será citável. Sim, o que é citável de um livro, de um autor? Decerto a sua morte pode ser citável. E, sobretudo, o seu silêncio.» (texto/carta publicada no primeiro número da revista Abril , dirigida por Eduardo do Prado Coelho, revista da qual saíram apenas nove números)

A CRÍTICA LITERÁRIA E A CEGUEIRA

«A crítica útil e verdadeira será aquela que em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o...