07/02/18

PONTOS LUMINOSOS NO CÉU in Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde

[Para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente «natural»: está sempre carregada de um valor religioso. Isto compreende-se facilmente porque o Cosmos é uma criação divina: saindo das mãos dos Deuses, o Mundo fica impregnado de sacralidade. Não se trata somente de uma sacralidade comunicada pelos Deuses, (...). Os Deuses fizeram mais: manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e dos fenómenos cósmicos.]
Mircea Eliade in O Sagrado e o Profano (a essência das religiões)



                  Já não bastava a noite que era, por de mais, fria e gelada! Uma noite de breu.
          O céu longínquo, habituado a vê-lo sempre azul nas noites da sua aldeia, esquecida lá longe em terras do Moxico, era agora mais negro do que nunca. Caienda, muito a nordeste de Luena, a cidade de Luso no tempo colonial, há muito que ficara para lá da linha dos seus horizontes mas nunca fora das suas recordações. O céu, neste mar distante, era agora um negro de azeviche. Mais negro que o negro Matiê que, na calada da misteriosa noite negra metia medo, quando atravessava o terreiro da sanzala para se ir misturar com o quente da esteira da Benedita, com o luzir daqueles dois olhos que apenas se lhe viam, como pontos luminosos, iguais aos da velha e faminta onça que rondava o curral dos cabritos do tio Kandiri.
          Apenas aqueles pontos luminosos, de luz, naquela profundidade de fazer até Deus temer, quanto mais os homens, indicavam ser ali o céu.

          As estrelas.
          Habituado a ver o seu piscar cintilante, custava-lhe a crer que aqueles pontos luminosos fossem estrelas! Para ele tudo eram estrelas. Tivessem elas luz fixa ou cintilante. Todos os astros que enfeitavam o céu, eram estrelas. Diferentes daquelas que cruzavam o céu, de um lado a outro, por cima da sua aldeia coladinha a Caienda que fora vila e agora tinha pouco mais que duas ou três casas em pé, que as demais foram esburacadas e reduzidas a pó pelas morteiradas travadas entre as forças que pretendiam fixar-se à força no poder com a ajuda dos cubanos, e as outras, as do Galo Negro, que aos poucos se iam reduzindo a zero à medida que o apoio da África do Sul lhes ia faltando.
          No princípio a mãe fizera-lhe crer, na sua ingenuidade infantil, que aqueles pontos luminosos que engravidavam o céu, em movimento, eram espíritos errantes à procura, nele, dum lugar para viverem. Depois aprendeu que, afinal, aquelas luzes que se moviam cortando o espaço, de um lado a outro, por cima da sua aldeia, eram aviões, lá longe, muito alto, a cruzar destinos longínquos. Nunca chegou a saber que podiam ser outra coisa qualquer colocada pelos homens no espaço, com vista à dilatação do seu conhecimento.
          Mas, quanto às estrelas...
          A mãe dissera-lhe, tantas vezes, quando ainda não entendia o mundo, como agora, ou entendia apenas uma ínfima parte dele na sua inocente ingenuidade, tal qual ainda hoje o entende, que aquilo eram os olhos dos seus antepassados "vovô e vovó" a zelar por ele, cá em baixo na Terra e a iluminar-lhe o caminho.
          «Que são antepassados, mãe?»
          E lá lhe explicava ela, como podia e com a paciência que só uma mãe sabe ter, usando palavras que ele pudesse entender, e jamais olvidar, o que eram os "seus antepassados".
          «Mas vovô o vovó estão vivos, mãe. Como podem ser eles no Céu a dar luz ao meu caminho, se estão na aldeia?!»
          Que os antepassados, a que ela se referia, eram os avós dos avós e muitos avós de muitas mais gerações antes deles. Acomodava, assim, o espírito inquieto, por saber, daquele filho em constante interrogação. E tantas coisas mais ela lhe ensinou! Das coisas boas do Mundo, que o Mundo tem, e de algumas ruins da Vida, também. Mas não lhe ensinara da guerra que destrói e mata. Da guerra que ele viu um dia nascer e matar, e o fez fugir naquela aventura impensada por não querer ainda morrer e juntar-se, antes daquele que ele julgava ser o seu tempo, ao tempo dos seus antepassados. Da guerra que lhe levou o irmão mais velho e lhe levou, depois, a mãe, também.
          Tanta coisa mamãe lhe ensinou! E milhentas outras coisas ficaram por ensinar. Os seus pensamentos, na dificuldade desta fuga aventureira e temerária, iam para ela que tanta coisa lhe ensinara. Ela era o Deus das suas preces e súplicas, nesta aventura onde pensava morrer a cada instante, mas onde não queria por enquanto morrer.

          Agora as vagas iradas, naquele fustigar implacável e constante nos costados da traineira, faziam os mais novos gritar. E era uma trabalheira fazê-los calar... com que esforço se conseguiam mantê-los colados no fundo da embarcação. As ondas, iradas, pareciam querer parti-la, pelo meio, engoli-la para as profundezas daquele mar infernal e sem fundo que, apesar de tudo, era dele que esperava a salvação. Todos esperavam o mesmo!
          Eram dezasseis. Um grupo formado, quase por acaso, que ao longo da fuga a partir de Cazombo e em direcção a sodoeste, com destino a Namibe, o Moçâmedes do tempo colonial, onde se sentiam mais protegidos pela presença constante das forças do sudoeste africano que entretanto faziam profundas incursões no sul de Angola, foi cimentando amizades com a convicção de que, de Namibe, partiriam rumo a qualquer sítio mais seguro, ainda que dele não fosse prioritário saber o nome nem tão pouco adivinhar o destino que lhes estava reservado. Importava, sim, saber dele a segurança e a liberdade.
(...)
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Alvaro Giesta © para (Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde) obra a publicar
Direitos protegidos por lei (obra registada na IGAC)
Máscara Tschokwé (Lunda, Leste de Angola)


            


O MEDO E A MÁSCARA "Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde"

        Tremeu. Também sentia medo. Mais do escuro do que daquele mar encrespado. Sempre teve medo do escuro. Sempre teve medo do medo que nascia do escuro.
          Costumava dizer-lhe, a mãe, que a noite escura tinha Kazumbir. Que o Kazumbir andava, na noite sem dono, como alma penada, à procura das crianças da aldeia com que alimentava a sua sede de sangue e feitiço. Principalmente daquelas que se afastavam do terreiro da sanzala, para lá da orla com a mata. Por isso, à noite, ficava de cócoras junto da fogueira acesa na palhota, enquanto rabiscava na cinza, com qualquer graveto, figuras sem rosto. Eram as figuras das crianças que o Kazumbir roubava para alimentar a sede do mal. E pensava no Kazumbir...

          «Mamãe, como é a cara do Kazumbir?»
          «Não tem cara - dizia-lhe a mãe - são como os Chingange sem cara.»

          Ele desconhecia como era Kazumbir mas, sabia que Chingange, essa figura mística de interesse e respeito que aparecia nos rituais africanos, tinha rosto, apesar de aparecer sempre com a cara tapada com uma máscara pesada feita de madeira.
          Pensava sempre que cada máscara tinha um duplo efeito: um pela face externa, outro pela face interna. Como se por uma se visse nessa figura mística um deus e, pela outra, se olhasse para o homem que se transmuta e fazia crer, a si próprio, que era um deus na transfiguração do eu. Ele sabia que, por detrás daqueles buracos fundos e negros, se moviam os olhos de um homem. Um homem agora sem rosto... debaixo daquela máscara, havia uma outra máscara, ou talvez muitas máscaras num rosto sem rosto. A máscara externa, feia e fria, ainda que de pau preto fosse esculpida e o seu escultor lhe pudesse ter dado dóceis feições. Mas não, deu-lhe as feições mais horrendas que é possível dar a uma máscara sem rosto. A máscara era de feições disformes talvez para indicar, a quem a olhava, a medo, que o coração do seu utente também era sanguinário e assim o obrigava a deitar os olhos ao chão. Apenas uma boca arreganhada de lábios feios e grossos e no lugar dos olhos dois buracos profundos. Tão negros como o negro da noite em que Kazumbir se acoitava, de que Kazumbir se alimentava, tão fundos como o abismo do mar que prometia ser a sua última morada.

          «Quem vir a cara de Kazumbir, morrerá - continuava a dizer-lhe a mãe ­- ou acontece-lhe um mal ruim, daqueles de fazer a pessoa, que o apanha, ficar deitado, doente o resto dos dias, na esteira estendida no chão duro da escura cubata onde só os mais-velhos e sábios da aldeia podem entrar para se certificarem que o mal que Kazumbir espalhara ainda não tinha levado o doente para junto dos antepassados.»

          Por isso, Kazumbir não tinha cara; não, como Chingange que andava sempre de cara tapada mas, existia sem cara - dizia-lhe a mãe. Ninguém sabia, porque nunca alguém vira Kazumbir... Kazumbir era o presságio da morte; nunca ninguém na aldeia o tinha visto mesmo sabendo-se da sua existência. Em Chingange, no lugar dos olhos e da boca, apenas aqueles três buracos negros e sombrios que nem a luz do dia ousava espreitar para o seu interior, com medo de aí se perder. E corpo de Chingange era disforme. Lembrava-se bem disso. Muitas vezes o tinha visto dançar, naqueles saltos grotescos no largo descampado ao fundo da sanzala. Sítio que ninguém ousava atravessar, nem mesmo fora do tempo das batucadas sagradas... era terreno exclusivo de Chingange. Terreno sagrado. Ali, onde a velha mulemba guarda ninhos e segredos que incendeiam quem deles ousar saber mais que os Sekúlos sábios da aldeia, se festejavam as festas do alambamento até ao sol posto, ou se recordavam, noite dentro e manhã fora, aqueles que dos seus se partiram para o reino longínquo dos antepassados.

          Recordava-se...
          A tarde ia alta. Aproximava-se do seu fim. Num pôr-do-sol, estranho, sanguinolento, o astro arredava-se para o outro lado do mundo, rasando, na distante savana, as copas das bissapas que se erguiam do solo a partir de disformes e esqueléticos troncos; de ora em vez o sol espreitava, teimoso, por entre nuvens carregadas que o vento teimava em fracturar, e emprestava-lhe a cor sépia que deixava fugir de si. Era um pôr-do-sol diferente... mau presságio se adivinhava. Afogou-se, o sol, num céu assustador, para as bandas mais longínquas da savana.
Pressentia mau agoiro naquele adeus dum sol agónico, num céu de medo e morte. Misturavam-se-lhe, na mente, interrogações incontornáveis naquilo que lhe parecia a premunição dum desastre conjugado com a embriaguez do êxtase.

          Um Chingange rompeu, de repente, da mata que orlava as libatas e as unia num todo em redor da velha capela protestante erguida a adobe no centro da aldeia, em saltos grotescos mais parecendo um demónio, metendo medo aos mais novos por ali próximos. Depois outro, grotescamente disforme, igualmente com aquela máscara de feições macabras a cobrir-lhe invisível rosto, e outro, ainda... eram três zarapelhos em pessoas.

          Ele correu, assustado, a esconder-se debaixo do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, que depressa ela apertou, ainda mais, ao corpo com um nó, não fosse ele desprender-se e deixar-lhe à vista as sagradas íntimas partes de si, enquanto num ritmo cadenciado de pés e mãos ela acompanhava as outras anciãs da aldeia para contentar os Chinganges nas suas danças macabras. Aqueles corpos desengonçados, cobertos de lianas e zarapilheira, enfeitados com saias de sisal seco e esfarpado, faziam piruetas demoníacas no ar e rebolavam, no pó do terreiro, como animais que querem desfazer-se dos parasitas que, como lapas, se lhes colam ao corpo e os incomodam causando-lhe fatal coceira. Presas ao corpo, os Chinganges usavam mil fatias de sisal seco e, nas pernas, uma teia de pele com guizos que soltavam sons frenéticos e estridentes produzindo a própria música que dançavam. A espaços incertos erguiam-se, de entre a multidão que arredava assustada, outros homens-gnu de tamanhos disformes e homens-gunga a que se juntavam mulheres-gazela fazendo vibrar as tuelelas amarradas ao tornozelos.

          Depois daquela dança macabra de cerca de duas horas, todos se dissolveram, numa travessia secreta existente ao fundo do terreiro, para qualquer lado sem nexo entre o visível e o invisível. Como tinham aparecido, de repente, vindos não se sabia de que insondável e silencioso recanto da mata, assim, num ápice, os Chinganges se sumiram no capim alto para lá dos limites da sanzala. Era a cumplicidade dos deuses a aterrorizar as pessoas humildes, para que a sua obediência e subjugação ao desconhecido fosse total, cega e absoluta. Assim convinha à união dos poderosos esta subjugação e subserviência dos humildes.
          E a submissão continuava, por horas sem fim, naquele monocórdico tantã acompanhado pelo bater surdo de dezenas de pés descalços no chão barrento do terreiro. De ora em vez uma voz de tenor erguia-se, como se em rebeldia, e deixava escapar prolongado esgar de dor, que não se entendia bem, a que logo respondiam vozes arrastadas de lamento ao som das palmas compassadas a que se juntava o ébrio bambolear de corpos suados em simulacros de dança. Era neste fluir descendente de sangue, da cabeça aos pés, que os corpos bamboleantes se desarticulavam em arremedos de danças demoníacas, pela ausência de controlo cerebral devido à insuficiência da oxigenação do cérebro.
           De um sítio oculto pela sombra, já livre do medo e liberto da prorecção do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, ele, que nunca desfitara os Chinganges nem os seus adjuntos e malabaristas homens-gnu e homens-gunga, captava já os sinais do magma misterioso da vida.
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Alvaro Giesta © para "Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde"
Direitos protegidos por lei (manuscrito registado na IGAC)
MÁSCARA TCHIOKO (Lunda-Leste de Angola)



26/01/18

POLICROMIA PARA CEGOS - "apenas o invisível / tem a cor que tu escolhes"

Corajoso é o título desta obra: "Policromia para Cegos" - esta arrojada palavra "cegos" que a muitos dos que veem incomoda, por razões de impacto social, e a substituem pelo termo "invisual", esquecendo-se que, no verdadeiro significado, o invisual é aquele que não é visto; por ironia do destino, não é menos verdade que muitos dos que veem põem em prática o significado etimológico da palavra "invisual" ao passarem pelo cego, como se ele fosse o ser invisível e desprezível, o pesado fardo para a sociedade. Esses, sim, são cegos sem nunca terem cegado!

[Borges (Jorge Luis), o autor de "Elogio da Sombra", escreveu sobre a cegueira que o acometeu na década de 1930: «Não permiti que a cegueira me derrotasse (...). A cegueira não foi para mim uma desgraça total (...). Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas à sombra. Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será capaz de se conhecer melhor - como disse Sócrates - do que um cego?».
Insignes são os mestres - que embora idos para o eterno continuam vivos, pelas obras e, até, pela lenda, entre os mortais - a quem a cegueira em nada atormentou; antes, ela foi incentivo para tantos "Homeros", como o da antiga Grécia que, existindo ou sendo lenda, realça que a poesia é, antes de tudo, música e que a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta. John Milton, na nobre arte de escrever, não se queixava de ser cego: "Paraíso Perdido", é o seu longo poema de hendecassílabos que guardava na memória ditando-os às pessoas que vinham visitá-lo para que, por ele, o escrevessem. James Joyce, cuja parte da obra que deixou foi escrita na escuridão, para quem a insigne língua inglesa não era suficiente e se embrenhou em estudos de norueguês, latim e muitos outros idiomas, mesmo um que para si inventou com a coragem dum cego que vê o mundo por dentro de si e de outro modo dos que usam a visão para ver, escreveu: «De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira.» E Castilho (António Feliciano de), o nosso poeta sem a faculdade de ver desde os seis anos de idade: o que o impediu de, não vendo, seguir estudos regulares na universidade, fazer traduções e leccionar? O que o impediu de lutar contra o aterrador analfabetismo que assolava o povo português? Nada, nem a cegueira!] 

Depois deste intróito, em poucas linhas sobre a obra me debruço:
Em finais de Março deste ano de 2017, o autor português Emanuel Lomelino que escreve a obra a quatro mãos com o autor galego Jesús Recio Blanco, endereçou-me o manuscrito de Policromia para Cegos para do mesmo tecer opinião, antes de o submeter à apreciação editorial. E escrevi, então, aos autores: «Obra (quase) prima. (O "quase" limitava-se a duas propostas de alterações: evitar discrepâncias na estrutura dos textos dos dois autores para uniformização da obra, como se de uma só obra se tratasse, embora escrita a quatro mãos.) E continuava: ambas as partes se completam, como se o autor fosse só um e em momentos diferentes (até aqui ainda eu não sabia que os autores eram dois).»
E agora o desafio lançado pelo autor Emanuel Lomelino para escrever o prefácio. Longe de mim o sonho de, cinco meses volvidos, me ser dada a honra, pelos autores, de prefaciar uma obra com direitos autorais atribuídos, pelos mesmos, à ACAPO - Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.
Li-o, antes, com a devida atenção, e, agora, com redobrado interesse; à medida que ia avançando na leitura, mergulhava na leveza das águas dos poemas procurando o infinito onde os horizontes da luz e da falta dela, das cores e da fantasia, corriam a nudez do pensamento e não enxergavam mais do que a beleza de ver por dentro, por aqueles que não veem, aquilo que quem vê não consegue ver por fora - tal é a profundidade da obra que, apesar de pequena em tamanho vi grande na qualidade do poema e na sua "(in)directa" significação.
- Corrijo, se me é permitido, duas coisas: a referência que faço à "qualidade do poema" e à sua "(in)directa significação"; quanto à primeira referência, isto que acabo de ler não é o mero poema tão em voga, que por aí prolifera, sem conter o mínimo laivo de poesia - isto é verdadeira poesia. É poesia que vai para além das propriedades que a definem: ritmo, melodia, beleza, conhecimento da alma, operação de alma no verso capaz de «cambiar al mundo», como nos dizia Paz. A poesia desta obra é como que um exercício espiritual da palavra poética que se polariza, que se congrega no humano, porque vem do sentir do poeta ao encontro da alma do leitor - grande é o sentir, o sentimento dos poetas que a escreveram, maior é a recepção espiritual de quem a lê, não necessitando de ser crítico da matéria. A segunda referência que corrijo, é a "(in)directa significação" porque, apesar da forte presença das imagens literárias que enxameiam a obra com as quais o visível se torna invisível ao tornar o invisível visível, ao leitor cabe descodificá-las - apesar das muitas sinestesias a inebriar-nos os sentidos e até das tantas anáforas em cadeia textual produzindo um certo efeito de harmonia, característico das aliterações (dificilmente encontrados na obra estes últimos efeitos estilísticos), os versos que a compõem são como se fossem "(n)esse olhar de ânfora e infinito // (n)esse olhar de âmbar e nudez // (n)esse olhar amplexo e de ausência", espelhos a reflectir a luz que da sombra sai; tal como se a falta da "luz" no olhar e do "brilho" da cor que esse olhar, pela força do destino, não capta, estivesse, essa falta do ver, presente na sensatez dos "teus dedos", na prudência dos "teus dedos", no movimento do tempo dos "teus dedos" que sendo "clepsidras" também são "hidriões / sem urgência / mas previdentes"; apesar de todos os apesares das metáforas que embelezam o texto, que podia ser um só e longo poema, assim visto numa gradação crescente em ambas as partes da obra, nelas se lê a intensidade expressiva do objecto poético: "os meus sentidos / são cegos como os teus olhos" (in Sinestesia) e "esse olhar amplexo e de ausência / é desconforto nas minhas palavras / e vazio da minha ignorância" (in Serendipidade) - um livro que nos fala também do silêncio onde as horas se perdem na "espessura das sombras" e onde os corações que sentem e os olhares que veem, embora não vendo, "escondem estórias" a desvendar  pelos que sabem sentir, como quando "o coração bate / como um rio" e "a criança se abraça ao cego".
Como nos versos da obra "era desnecessário descrever a chuva / suspeitar da sua verticalidade / distinguir o eixo da sua extensão", a mostrar-nos a intemporalidade do poema, porque ele é apocalíptico, é eterno, (quase) como Deus é presente, passado e futuro,  (quase) desnecessário se torna descrever a obra "onde as palavras prolongam / o vazio da humanidade // e a noite é incorruptível na sua forma (...)". E (quase) desnecessário, porque este grito poético que "(...) começou por ser sombra e água" e "escuro", nos remete a "um hemisfério oculto / do outro lado das (...) pálpebras", fechadas ou, embora abertas, sem nada ver, onde existe uma outra dimensão - o invisível - onde é dado ao leitor imaginar uma outra luminosidade do sol - doutro sol diferente daquele que nos alumia - que, mesmo no verão, sendo "cinzento" e "invernoso", nos é dado permitir imaginar no cego a "translucidez" dos "espectros vermelhos" e a "cor de fogo" da sua imaginação. São estes céus incendiados de lucidez que aquele que vê, dificilmente consegue imaginar ver com a força da escuridão com que o cego vê.
Remetem-nos os autores para a multiplicidade das cores e suas variações do sonho do cego. E é muito claro no que se pode ler para além do que deixam expressos estes versos: "apenas o invisível / tem a cor que tu escolhes". Sabemos que, mesmo naquele que vê, como, durante o sono, o sonho é lúcido, repleto de cores, de sons e imagens, baseado nas suas percepções visíveis; e que, quando acordam, apenas estão presentes no fundo da alma as sensações - quase sempre tudo o mais se perdeu da lembrança desse sonho. O cego, na sua profunda escuridão, quer seja noite ou dia, sonha o sonho sem as cores das imagens visuais nunca vistas, pela impossibilidade de as ter percepcionado - pinta a palete das cores que no invisível ele tem com a felicidade do sonho de as poder escolher para si, como suas e só suas. E aquele que vê (o poeta) se conforma em não poder falar-lhe "de todas as cores e variações" porque desconhece se as "paletas (de ambos) são feitas das mesmas tonalidades". Um misto de esperança e desesperança, de ânimo e de desânimo, contudo de fé e de amor nas palavras dos autores desta obra dirigida ao cego: "prefiro a tua noite eterna / à solidão cega das lanternas".
Admirável esta obra: todos os poemas, com a complexidade subjectiva inerente a cada um e subjectivamente entendível por cada leitor que a lê, permitem ver luz onde há luminosidade sem sol e descortinar brancura mesmo no cinzento das sombras. Mesmo quando essa falta de luz, em nós, nos conduz à solidão - que, de comum com o silêncio e a escuridão, assusta e aturde mas nos espanta ao mesmo tempo, quando damos por nós a ver que o negrume descerra em brilhantismo. Se os sentidos se alimentam com o que lhes oferece a natureza, a falta do sentido da visão conduzindo o ser à solidão, obriga-o a meditar e a criar - descerra-se das trevas a luz e, os olhos, desofuscados desses luzeiros intensos que muitas vezes incomodam, porque enganadores, exercitam-se a olhar por dentro procurando em si, e nos outros, aquilo que não podem ver por fora. E o poeta lavra, assim, o seu poema abrindo o coração, não magoado, mas, acolhedor, àquele que vê por dentro porque a sorte o impediu de ver por fora: "Quem me dera saber braille / para escrever um poema / que tu lesses e interpretasses / sem ter de ouvir da minha boca. // Se eu soubesse braille / ler-me-ias, ponto a ponto, / com a ponta dos teus dedos / e saberias, sem que te dissesse, / quais as sombras que me inibem / e que medos me afligem. // Se eu soubesse braille / poderias conhecer o que escrevo / e fazer as tuas próprias leituras / dos versos que nascem / no aconchego das minhas noites, / tão diferentes das tuas. // Quem me dera saber braille / para que me visses / tal como vês o mundo." - E eu acrescento e reforço com o verso do poeta; "com a ponta dos teus dedos".

 O livro é uma horta semeada de puro grão na promessa do trigo que verdejará bebendo o licor da pura seiva. Estes poemas de Policromia para Cegos têm trabalho dentro, têm substracto e húmus porque dizem do(s) poeta(s) e do poema, dizem da vontade sábia de ver para além da sombra, dizem da sabedoria de mostrar ao mundo que a sombra também é luz quando na escuridão se faz dia.

O livro POLICROMIA PARA CEGOS abraça o tempo uno do poema, mesmo quando se abre em dois: SINESTESIA e SERENDIPIDADE. Cada um deles com vinte e cinco magistrais poemas. Pequenos, no número de versos, mas grandes, na arte poética. SINESTESIA, remete-nos para esse tipo de sensações originárias dos diferentes órgãos dos sentidos - nem de outro modo poderia ser, atendendo ao significado da palavra, conjugando-o até com o seu verdadeiro significado: fenómeno neurológico que produz duas sensações de natureza diferente por um único estímulo. Assim se cruzam sensações - como uma cor pode ter um sabor, um som pode ter uma forma. Como um olhar alberga todos os horizontes, sem os ver, um pensamento fantasia todas as possibilidades sem as enxergar. SERENDIPIDADE, termo este tão pouco usual no nosso dia a dia, vem dizer-nos, no seu significado, dessa faculdade de descobrir coisas agradáveis por acaso - remete-nos, assim, para o admirável daquilo que a obra Policromia para Cegos tem dentro: a possibilidade, dada ao cego que não vê mas, também, àquele que vendo anda cego, de ver luz para além das sombras.

Copyright © 2017, Alvaro Giesta, (todos os direitos reservados para o autor, com cedência, apenas, para o Prefácio da obra POLICROMIA PARA CEGOS, dos autores Jesús Recio Blanco e Emanuel Lomelino.)

18/12/17

Prolegómenos à obra "Policromia para Cegos"

Corajoso é o título desta obra: "Policromia para Cegos" - esta arrojada palavra "cegos" que a muitos dos que veem incomoda, por razões de impacto social, e a substituem pelo termo "invisual", esquecendo-se que, no verdadeiro significado, o invisual é aquele que não é visto; por ironia do destino, não é menos verdade que muitos dos que veem põem em prática o significado etimológico da palavra "invisual" ao passarem pelo cego, como se ele fosse o ser invisível e desprezível, o pesado fardo para a sociedade. Esses, sim, são cegos sem nunca terem cegado!

[Borges (Jorge Luis), o autor de "Elogio da Sombra", escreveu sobre a cegueira que o acometeu na década de 1930: «Não permiti que a cegueira me derrotasse (...). A cegueira não foi para mim uma desgraça total (...). Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas à sombra. Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será capaz de se conhecer melhor - como disse Sócrates - do que um cego?».
Insignes são os mestres - que embora idos para o eterno continuam vivos, pelas obras e, até, pela lenda, entre os mortais - a quem a cegueira em nada atormentou; antes, ela foi incentivo para tantos "Homeros", como o da antiga Grécia que, existindo ou sendo lenda, realça que a poesia é, antes de tudo, música e que a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta. John Milton, na nobre arte de escrever, não se queixava de ser cego: "Paraíso Perdido", é o seu longo poema de hendecassílabos que guardava na memória ditando-os às pessoas que vinham visitá-lo para que, por ele, o escrevessem. James Joyce, cuja parte da obra que deixou foi escrita na escuridão, para quem a insigne língua inglesa não era suficiente e se embrenhou em estudos de norueguês, latim e muitos outros idiomas, mesmo um que para si inventou com a coragem dum cego que vê o mundo por dentro de si e de outro modo dos que usam a visão para ver, escreveu: «De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira.» E Castilho (António Feliciano de), o nosso poeta sem a faculdade de ver desde os seis anos de idade: o que o impediu de, não vendo, seguir estudos regulares na universidade, fazer traduções e leccionar? O que o impediu de lutar contra o aterrador analfabetismo que assolava o povo português? Nada, nem a cegueira!] 

Depois deste intróito, em poucas linhas sobre a obra me debruço:
Em finais de Março deste ano de 2017, o autor português Emanuel Lomelino que escreve a obra a quatro mãos com o autor galego Jesus Recio Blanco, endereçou-me o manuscrito de Policromia para Cegos para do mesmo tecer opinião, antes de o submeter à apreciação editorial. E escrevi, então, aos autores: «Obra (quase) prima. (O "quase" limitava-se a duas propostas de alterações: evitar discrepâncias na estrutura dos textos dos dois autores para uniformização da obra, como se de uma só obra se tratasse, embora escrita a quatro mãos.) E continuava: ambas as partes se completam, como se o autor fosse só um e em momentos diferentes (até aqui ainda eu não sabia que os autores eram dois).»
E agora o desafio lançado pelo autor Emanuel Lomelino para escrever o prefácio. Longe de mim o sonho de, cinco meses volvidos, me ser dada a honra, pelos autores, de prefaciar uma obra com direitos autorais atribuídos, pelos mesmos, à ACAPO - Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.
Li-o, antes, com a devida atenção, e, agora, com redobrado interesse; à medida que ia avançando na leitura, mergulhava na leveza das águas dos poemas procurando o infinito onde os horizontes da luz e da falta dela, das cores e da fantasia, corriam a nudez do pensamento e não enxergavam mais do que a beleza de ver por dentro, por aqueles que não veem, aquilo que quem vê não consegue ver por fora - tal é a profundidade da obra que, apesar de pequena em tamanho vi grande na qualidade do poema e na sua "(in)directa" significação.
- Corrijo, se me é permitido, duas coisas: a referência que faço à "qualidade do poema" e à sua "(in)directa significação"; quanto à primeira referência, isto que acabo de ler não é o mero poema tão em voga, que por aí prolifera, sem conter o mínimo laivo de poesia - isto é verdadeira poesia. É poesia que vai para além das propriedades que a definem: ritmo, melodia, beleza, conhecimento da alma, operação de alma no verso capaz de «cambiar al mundo», como nos dizia Paz. A poesia desta obra é como que um exercício espiritual da palavra poética que se polariza, que se congrega no humano, porque vem do sentir do poeta ao encontro da alma do leitor - grande é o sentir, o sentimento dos poetas que a escreveram, maior é a recepção espiritual de quem a lê, não necessitando de ser crítico da matéria. A segunda referência que corrijo, é a "(in)directa significação" porque, apesar da forte presença das imagens literárias que enxameiam a obra com as quais o visível se torna invisível ao tornar o invisível visível, ao leitor cabe descodificá-las - apesar das muitas sinestesias a inebriar-nos os sentidos e até das tantas anáforas em cadeia textual produzindo um certo efeito de harmonia, característico das aliterações (dificilmente encontrados na obra estes últimos efeitos estilísticos), os versos que a compõem são como se fossem "(n)esse olhar de ânfora e infinito // (n)esse olhar de âmbar e nudez // (n)esse olhar amplexo e de ausência", espelhos a reflectir a luz que da sombra sai; tal como se a falta da "luz" no olhar e do "brilho" da cor que esse olhar, pela força do destino, não capta, estivesse, essa falta do ver, presente na sensatez dos "teus dedos", na prudência dos "teus dedos", no movimento do tempo dos "teus dedos" que sendo "clepsidras" também são "hidriões / sem urgência / mas previdentes"; apesar de todos os apesares das metáforas que embelezam o texto, que podia ser um só e longo poema, assim visto numa gradação crescente em ambas as partes da obra, nelas se lê a intensidade expressiva do objecto poético: "os meus sentidos / são cegos como os teus olhos" (in Sinestesia) e "esse olhar amplexo e de ausência / é desconforto nas minhas palavras / e vazio da minha ignorância" (in Serendipidade) - um livro que nos fala também do silêncio onde as horas se perdem na "espessura das sombras" e onde os corações que sentem e os olhares que veem, embora não vendo, "escondem estórias" a desvendar  pelos que sabem sentir, como quando "o coração bate / como um rio" e "a criança se abraça ao cego".
Como nos versos da obra "era desnecessário descrever a chuva / suspeitar da sua verticalidade / distinguir o eixo da sua extensão", a mostrar-nos a intemporalidade do poema, porque ele é apocalíptico, é eterno, (quase) como Deus é presente, passado e futuro,  (quase) desnecessário se torna descrever a obra "onde as palavras prolongam / o vazio da humanidade // e a noite é incorruptível na sua forma (...)". E (quase) desnecessário, porque este grito poético que "(...) começou por ser sombra e água" e "escuro", nos remete a "um hemisfério oculto / do outro lado das (...) pálpebras", fechadas ou, embora abertas, sem nada ver, onde existe uma outra dimensão - o invisível - onde é dado ao leitor imaginar uma outra luminosidade do sol - doutro sol diferente daquele que nos alumia - que, mesmo no verão, sendo "cinzento" e "invernoso", nos é dado permitir imaginar no cego a "translucidez" dos "espectros vermelhos" e a "cor de fogo" da sua imaginação. São estes céus incendiados de lucidez que aquele que vê, dificilmente consegue imaginar ver com a força da escuridão com que o cego vê.
Remetem-nos os autores para a multiplicidade das cores e suas variações do sonho do cego. E é muito claro no que se pode ler para além do que deixam expressos estes versos: "apenas o invisível / tem a cor que tu escolhes". Sabemos que, mesmo naquele que vê, como, durante o sono, o sonho é lúcido, repleto de cores, de sons e imagens, baseado nas suas percepções visíveis; e que, quando acordam, apenas estão presentes no fundo da alma as sensações - quase sempre tudo o mais se perdeu da lembrança desse sonho. O cego, na sua profunda escuridão, quer seja noite ou dia, sonha o sonho sem as cores das imagens visuais nunca vistas, pela impossibilidade de as ter percepcionado - pinta a palete das cores que no invisível ele tem com a felicidade do sonho de as poder escolher para si, como suas e só suas. E aquele que vê (o poeta) se conforma em não poder falar-lhe "de todas as cores e variações" porque desconhece se as "paletas (de ambos) são feitas das mesmas tonalidades". Um misto de esperança e desesperança, de ânimo e de desânimo, contudo de fé e de amor nas palavras dos autores desta obra dirigida ao cego: "prefiro a tua noite eterna / à solidão cega das lanternas".
Admirável esta obra: todos os poemas, com a complexidade subjectiva inerente a cada um e subjectivamente entendível por cada leitor que a lê, permitem ver luz onde há luminosidade sem sol e descortinar brancura mesmo no cinzento das sombras. Mesmo quando essa falta de luz, em nós, nos conduz à solidão - que, de comum com o silêncio e a escuridão, assusta e aturde mas nos espanta ao mesmo tempo, quando damos por nós a ver que o negrume descerra em brilhantismo. Se os sentidos se alimentam com o que lhes oferece a natureza, a falta do sentido da visão conduzindo o ser à solidão, obriga-o a meditar e a criar - descerra-se das trevas a luz e, os olhos, desofuscados desses luzeiros intensos que muitas vezes incomodam, porque enganadores, exercitam-se a olhar por dentro procurando em si, e nos outros, aquilo que não podem ver por fora. E o poeta lavra, assim, o seu poema abrindo o coração, não magoado, mas, acolhedor, àquele que vê por dentro porque a sorte o impediu de ver por fora: "Quem me dera saber braille / para escrever um poema / que tu lesses e interpretasses / sem ter de ouvir da minha boca. // Se eu soubesse braille / ler-me-ias, ponto a ponto, / com a ponta dos teus dedos / e saberias, sem que te dissesse, / quais as sombras que me inibem / e que medos me afligem. // Se eu soubesse braille / poderias conhecer o que escrevo / e fazer as tuas próprias leituras / dos versos que nascem / no aconchego das minhas noites, / tão diferentes das tuas. // Quem me dera saber braille / para que me visses / tal como vês o mundo." - E eu acrescento e reforço com o verso do poeta; "com a ponta dos teus dedos".

 O livro é uma horta semeada de puro grão na promessa do trigo que verdejará bebendo o licor da pura seiva. Estes poemas de Policromia para Cegos têm trabalho dentro, têm substracto e húmus porque dizem do(s) poeta(s) e do poema, dizem da vontade sábia de ver para além da sombra, dizem da sabedoria de mostrar ao mundo que a sombra também é luz quando na escuridão se faz dia.

O livro POLICROMIA PARA CEGOS abraça o tempo uno do poema, mesmo quando se abre em dois: SINESTESIA e SERENDIPIDADE. Cada um deles com vinte e cinco magistrais poemas. Pequenos, no número de versos, mas grandes, na arte poética. SINESTESIA, remete-nos para esse tipo de sensações originárias dos diferentes órgãos dos sentidos - nem de outro modo poderia ser, atendendo ao significado da palavra, conjugando-o até com o seu verdadeiro significado: fenómeno neurológico que produz duas sensações de natureza diferente por um único estímulo. Assim se cruzam sensações - como uma cor pode ter um sabor, um som pode ter uma forma. Como um olhar alberga todos os horizontes, sem os ver, um pensamento fantasia todas as possibilidades sem as enxergar. SERENDIPIDADE, termo este tão pouco usual no nosso dia a dia, vem dizer-nos, no seu significado, dessa faculdade de descobrir coisas agradáveis por acaso - remete-nos, assim, para o admirável daquilo que a obra Policromia para Cegos tem dentro: a possibilidade, dada ao cego que não vê mas, também, àquele que vendo anda cego, de ver luz para além das sombras. 

______
Copyright © 2017, Alvaro Giesta  (todos os direitos reservados para o autor, com cedência, apenas, para o Prefácio da obra POLICROMIA PARA CEGOS, dos autores Jesús Recio Blanco e Emanuel Lomelino.)


22/11/17

Húmus

/nove/
  
Respira-se a força magnética
das palavras
                        - nelas, a boca procura ávida
o ressurgir de argênteas madrugadas.

Há primaveras dispersas quase a despertar
no sonho do homem; revolvem-se inconformadas
no húmuis morno e fumegante
que aos pés da floresta adormecida fermenta.

- Desta quase dormência, os seres despertam.

                        - Que outra coisa enorme existe
para além do tumulto do tempo que guarda
consigo o segredo da noite?

Esta ânsia incompreendida
de procurar(-se) saber
no seu silêncio quieto e mudo
e nas palavras flutuantes do sonho,

            - porque rói inquieta esta dor
no insubmisso e inquieto e mais profundo
dentro do homem?!

Concentra-se a labareda da palavra
no peso da mão, que breve grita a boca,
esta enorme força do mistério da vida e da morte.


Alvaro Giesta © HÚMUS

20/10/17

A Alquimia do Verbo

copyright da fotografia XMAIA in Olhares.com


o corpo, manhã erguida
(como se fosse o Ponto de Bauhüte) [i]

1.
nu branco e negro
jaz
em círculo enrolado sobre
a luminosidade luminosa do lençol
- o corpo
2.
circunscrito
na concha que se forma ao centro
- o nascimento
3.
nele o ponto negro interacciona-se
com o quadrado luminoso do lençol
- assim é o corpo como ponto de bauhüte
4.
três vértices na mancha negra
- o triângulo e o seu ponto interior -
no centro grita o fogo a chamar
sobre o corpo enrolado
5.
grita na pele o sexo - a mancha negra
em união com a geometria
do triângulo
6.
na pele a febre oculta bebe o ar
no corte vertical fechado em concha
que se há-de abrir entre as coxas do poema
 7.
quando os lábios
na sede de se darem se entregam
ergue-se o gesto que faz a poesia do corpo novo
neste sempre corpo branco e negro
em círculo enrolado na macieza luminosa do lençol
8.
no corpo a rasgar-se a concha
fechada ao centro no triângulo negro
para o mistério do nascimento
o sempre mistério do corpo feminino
e imaculado anunciando a renovação
9.
o interior oculto do triângulo
onde o mel da terra se cria e se dá
no fogo do vinho e da água
e da rosa vermelho-sangue
- altíssima perfeição
10.
no oculto interior o mel se derrama e o sol
como quinta essência se dá ao ósculo
- o ponto de fuga e união perfeita do triângulo
do corpo enrolado em círculo
 ________


[i] Reconheço a dificuldade (de entendimento) do poema - até para mim que o escrevi - se não estivermos por dentro da simbologia do Ponto de Bauhüte, coisa difícil de entender mesmo quando só aplicado no ponto central do círculo que se interacciona com o triângulo equilátero e o quadrado. É a perfeição deste ponto que faz nascer o pentagrama - símbolo pagão formado por uma estrela de cinco pontas em cada uma delas presentes os elementos: AR, TERRA, ÁGUA, FOGO e mais um 5.º elemento - o da perfeição, a quinta essência, o ESPÍRITO, que coordena os outros elementos.
Se o pentagrama for perfeito, vemos o símbolo tradicional do conhecimento fundamentado no número 5 que expressa a união dos desiguais - é a união fecunda, o casamento, a realização unindo o masculino (o 3) ao feminino (o 2).
Ao longo do tempo o Pentagrama foi usado por diversos estudiosos e filósofos como Pitágoras que usou o pentagrama como símbolo da primeira faculdade no mundo dos homens, a Escola Pitagórica. Ele é, não só um símbolo aristotélico mas, sobretudo, hermético, na boa tradição da "oculta philosophia" compendiada por Agrippa (António Macedo).
Foi com base nesta filosofia alquímica, que me parece um tanto "maçónica" que eu estruturei o poema. Baseei-me em tal teoria não funcionando tal teoria ou o pentagrama como fonte inspiradora - como se fosse musa ou muso porque isso de musas e musos é coisa em que não acredito e, como tal, para mim não existe. Agarrar-se a musas e musos para escrever poesia é próprio dos fracos poetas que atribuem a divindades aquilo que fazem mal ou fazem bem feito; é desvincular-se do que foi criado por si atribuindo-o a intervenção de inexistente divindade. Antes, baseio-me, apoio-me, assistem-me ao uso da palavra para fazer o poema, certos ensinamentos colhidos de muitas leituras que entendo, pelo seu conteúdo, úteis ao conhecimento; para fazer o poema, sirvo-me também daquilo que sinto com os olhos - é com eles que penso, é através deles que busco aquilo a que chamais inspiração.
Voltando a este poema para a escrita de tão longa nota, foi depois de ter aprendido qualquer coisa (um quase nada) das leituras que fiz de Almada Negreiros e Lima de Freitas - coisa pequenina que isto do exotérico é só para crentes, coisa que eu não sou - sobre a secreta origem e o simbolismo do Ponto de Bauhüte, pensei: e por que não agarrar no corpo da mulher, enrolado em círculo sobre o quadrado alvo do lençol e procurar o referido ponto no triângulo púbico? - coisas de devaneio poético, claro, e ao poeta é permitido estes devaneios...
É evidente que tudo isto são divagações poético-filosóficas deste lunático poeta que estão a ler. Nada do que escrevi, no poema, tem a ver com o que ensina o livro "Almada e o Número" de Lima de Freitas e, menos ainda, com o "A ideia - o Ponto de Bauhüte e o mistério do Sexto Estigma" de António de Macedo. O que deixei aqui são apenas meras divagações poéticas. 
Perguntarão: então, se no poema há "ar, terra, água, fogo" onde está a quinta essência? Eu digo: poeticamente, no meu poema assim estruturado, está no interior oculto do corpo feminino - a altíssima perfeição (o nascimento), logo evidenciado na 2.ª estrofe. E, aqui, "nascimento", seja um corpo novo, significando renovação, conhecimento, sabedoria, ou seja a poesia,  evidenciada na 7.ª estrofe - o misticismo cabalístico do n.º 7 -, tão presente em nós, poetas: "quando os lábios / na sede de se darem / se entregam / ergue-se o gesto que faz a poesia". 

________ A Alquimia do Verbo (Alvaro Giesta)


A Escola Pitagórica e o Pentagrama


05/10/17

O 5 de Outubro de 1910 - a acção dos Sargentos e do Povo


Vem de longe aquilo que se considera ser o "germe do Republicanismo" em Portugal e que deu lugar à queda da Monarquia e à implantação da República no dia 5 de Outubro de 1910.

1.     A «Revolta da Granja», conduzida pelos sargentos espanhóis em 1836 na sequência daquilo que foi a revolta liberal do país vizinho, teve repercussões inevitáveis do lado de cá da fronteira com Espanha. Estala em Portugal em 10 de Setembro do mesmo ano a Revolução Setembrista - vitória de curta duração e de resultados nada palpáveis na vida do povo, mas que serviu para mostrar que tal só foi possível porque a tropa, abandonando os oficiais superiores que comungavam das ideias das elites monárquicas, se colocou ao lado dos revoltosos populares pela mesma causa comum - livrarem-se da pata pesada da ditadura monárquica que os asfixiava e combater os males que grassavam: a fome e a miséria, a degradação social e a indiferença perante as injustiças.
A sociedade militar, aqui composta pelos oficiais inferiores desse tempo - os sargentos (a que se juntavam os cabos e soldados) - tal como os civis das classes assalariadas, ganhavam uma insignificância; aos familiares dessa mesma sociedade militar não se assegurava a mínima protecção social na doença, na morte e na invalidez. Em igual situação estavam os civis assalariados.
Nuns e noutros fervilhavam novas ideias e comungavam do mesmo ideário político - derrotar a monarquia e os seus ditadores e criar a república. Mas, se estes oficiais inferiores (sargentos ao tempo) e o proletariado das fábricas e dos arsenais do exército e marinha forneciam a massa humana para a revolta, faltou-lhes os dirigentes. Estes, pertencentes à pequena e média burguesia, perseguiam outro objectivo. Depressa essa burguesia levantou voo para os salões da nobreza e fez conluio com as filhas casadoiras que juntavam os destinos encapotados aos utentes da alta burguesia. Ínvios foram os jogos do poder desses dirigentes da pequena e média burguesia.

As "Guardas Nacionais", elemento decisivo para a defesa da causa democrática, era, para esta, a sua força mais homogénea. Os seus soldados e sargentos identificavam-se com os problemas do povo, com as suas aspirações, tinham a mesma determinação política. Oliveira Martins (historiador) diz-nos que «os chefes do movimento (setembrista) procediam à mobilização das forças militares e da Guarda Nacional. Toques a rebate atraíam aos quartéis grande número de soldados, ao mesmo tempo que muitos populares se ofereciam como voluntários e neles se armavam conduzidos e chefiados por sargentos».
Mas a vontade popular não fazia parte dos interesses da pequena e média burguesia. As lutas daqueles eram consideradas boas se interessavam e eram proveitosas para estes. Eram de reprimir se ultrapassassem os interesses dos burgueses. A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, eram palavras que só a burguesia se permitia definir, mas nunca para além dos seus interesses e da sua visão egocêntrica.
Almeida Garrett diz-nos que o povo eram aqueles que «por seu talento ou valor ou importância adquirida, ou herdada, por todos quantos pelo nascimento, por cabedais, mérito pessoal, se elevavam em consideração da massa geral a toda e qualquer proeminência social». (Vitor de Sá "A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestações das Ideias Socialistas em Portugal), Seara Nova, 1969, pag. 51 (este povo era a burguesia). O resto era a plebe. Tal e qual, era a definição que o "antigo regime" dava para definir a existência humana. Recuando no tempo, igual ao modo como Platão e Aristóteles classificavam a sociedade.

2.     A revolta da «Patuleia», também conhecida por revolta popular do «pé descalço», estala no alto Minho em 1847; vai evidenciar todas estas contradições e sofismas. Esta irritação do povo minhoto quase desemboca numa vitória de consequências previsíveis e só o não foi porque fora desencadeada fora do tempo. Só não é vitória porque a burguesia controla a situação recorrendo às armas da «Quádrupla Aliança» que se firmara em 1834 entre Portugal, Espanha, França e Inglaterra, visando impor regimes liberais nas monarquias ibéricas, expulsando os infantes D. Miguel de Bragança, de Portugal e D. Carlos de Borbón, de Espanha, mesmo que tal obrigasse à entrada de tropas estrangeiras nos respectivos territórios. A «Quádrupla Aliança» foi invocada para legitimar uma nova intervenção estrangeira que, na Primavera de 1847, pôs termo à guerra civil da «Patuleia» que havia rebentado na sequência da «Revolução da Maria da Fonte» e do golpe palaciano da «Emboscada». Mais uma vez, em evidência, os poderes ínvios da burguesia que recorre a uma aliança inválida, mas invocada, no entanto, para sufocar a insurreição popular. Termina a «Patuleia» com a deportação de 3.000 populares, então embarcados no Porto com destino a Lisboa, para suposta expedição marítima - forma encapotada de condenação.

Costa Cabral, em 1849, volta ao poder em Portugal para iniciar a sua segunda ditadura. Tão pesada quanto o pode ser a lei contra a liberdade de imprensa, a imensa fortuna angariada em pouco tempo e os abusos continuados da oligarquia dominante com o envolvimento da própria rainha nalguns escândalos.
Uma certa parte da intelectualidade, os trabalhadores tipógrafos e povo anónimo de militares de baixas patentes vão chamar a si os destinos futuros de Portugal.
A guarnição militar do Porto formada por sargentos e soldados vão iniciar o derrube de Costa Cabral com um levantamento a 26 de Abril de 1851. Reclama-se, em Lisboa, a abdicação da rainha. Propaga-se, com intensidade cada vez mais crescente, o regime republicano.

Confia-se ao marechal Saldanha, entretanto regressado do exílio, a tarefa de governar. É a rainha que faz tal solicitação, com carta de convite elaborada e escrita por Almeida Garrett. Diz-nos o historiador Vitor de Sá «o marechal colocara-se à frente da revolta iniciada em 1851 para salvar este reino de uma revolução popular cujos resultados ninguém podia prever». Mais uma vez a estratégia da política burguesa: serviram-se do movimento das massas para conseguirem os seus intentos económicos e políticos; afastaram e reprimiram as massas populares quando o perigo passou.
Termina em 1852 a época liberal com a promulgação da «Acta Adicional à Carta» Constitucional, mas ficaram de pé as estruturas básicas do seu pensamento e acção - a causa liberal era progressista e, como tal, merecera e merecia, daí para a frente, a confiança do povo. E isso compreendera-o, desde a primeira hora, a burguesia. Burguesia que era a classe social historicamente preparada para tomar o lugar da monarquia mas que tinha em mente, uma vez atingido o poder, virar as costas aos problemas do povo e integrarem-se nas hostes conservadoras. Era próprio da sua política de conveniências!

3.     1890 - O «Ultimatun» - o descontentamento lavrava no país: a crise moral e financeira do regime monárquico era a principal culpada deste descontentamento geral. Agrava-se o descontentamento com o ultimato lançado a Portugal pelo Reino Unido a 11 de Janeiro de 1890, exigindo a retirada imediata das forças portuguesas dos territórios situados na região do Lago Niassa, a pretexto de que as tropas do explorador Serpa Pinto tinham reprimido povos africanos considerados sob a tutela inglesa. O desejo de unir Angola a Moçambique na esperança da concretização do «Mapa Cor de Rosa» transforma-se em vergonha nacional da burguesia portuguesa. O governo português capitula e a opinião pública não perdoa. O povo reage, de imediato, de norte a sul do país perante esta afronta estrangeira à independência, ao contrário do governo que mantém uma atitude submissa aos ingleses. Colérico, o povo faz cair o governo do partido progressista, substituído à pressa por outro do partido regenerador que toma, como primeira iniciativa, o pedido de protecção à Grã-Bretanha, para si e para o rei. Enfurecem-se os ânimos arreigados ao sentimento patriótico da nação.

O partido republicano incapaz de conduzir as massas à revolta, ou não querendo fazê-lo por acomodação e cobardia, ficou-se por acções desordenadas, gorou expectativas e perdeu a oportunidade da revolta infligindo a morte à monarquia. Muitas foram daí para a frente, e até à Revolta do Porto em 31 de Janeiro de 1891, as manifestações republicanas: sinceras umas, duvidosas muitas outras. Intelectuais, juventude universitária, militares e povo em geral clamavam pela implantação da República.
Entretanto o governo movia-se, cada vez mais, em ditadura, restringindo a liberdade de imprensa e reunião, reorganizando as "Guardas Nacionais" de Lisboa e Porto, não para defender a constituição mas para garantir a sustentabilidade da insuportável monarquia. Diz-nos João Chagas: «dum lado fica a monarquia, com a sua aliada Inglaterra que não quis repudiar. Do outro lado fica a nação, contra a Inglaterra e contra a monarquia».
O partido republicano recebe cada vez mais aderentes de sectores não populares da sociedade. O proletariado, fora do controlo dos pensadores que porfiavam exercer sobre a massa trabalhadora as suas acções, não tinha aí lugar. Uma maré de intelectuais socialistas-idealistas vogava, à deriva, numa mistura de utopia e anarquia sem rumo nem plano ideológico; politicamente, confrontavam-se três ordens de interesses no jogo do poder: num lado a alta burguesia monárquico-capitalista, com alicerces no estado e na riqueza; no outro, a pequena e média burguesia em busca de soluções para chegar ao poder; no meio o numeroso proletariado em luta pela sua emancipação.

4.     A «Revolta do Porto» (a Revolta dos Sargentos de 31 de Janeiro de 1891
Por muito que a história teime em atribuir ao Partido Republicano a autoria da Revolta do Porto em 31 de Janeiro de 1891, ela foi um levantamento militar, de sargentos e praças, contra as cedências do governo e da Coroa ao ultimato britânico de 1890. Tão só o Partido Republicano reúne em congresso a 1 de Janeiro de 1891 de onde saiu um directório eleito constituído, entre outros, por Teófilo Braga e Manuel de Arriaga, aproveitou a situação caótica que se vivia em Portugal para mostrar os ínvios e dolorosos caminhos republicanos. Analisemos:
- A «Revolta do Porto», por muito que se diga em contrário ou em desabono, foi obra dos sargentos sedeados na capital nortenha, pela falta de resposta dos oficiais comprometidos com o regime.
- Os sargentos da revolta «agitaram o marasmo dos quartéis, levantaram Caçadores 9 e Infantaria 10 no dia da revolta, conduziram as tropas para fora dessas unidades e entregaram-nas ao três oficiais participantes logo que tiveram ensejo».
- Afinal eles «também eram povo - o tal "povo dum raio" do antes quebrar que torcer -, com a miséria latente e a fome da justiça como arma de combate».
- «Em poucas horas a derrota dos sargentos consumou-se, isolados e metralhados que foram no Campo de Santo Ovídio. (Mas) restou-lhes a consolação de terem cumprido a palavra dada». (Os Sargentos na História de Portugal, Editorial Notícias)

Veja-se, quando foram metralhados:
- Onde estavam, o que restava do partido republicano, sob a égide do tenente Homem Cristo para o apoio, para o repúdio, para defenderem a honra de quem dera o corpo ao manifesto por uma causa que todos consideravam justa?
Ninguém! Nenhum dos do partido republicano apareceu. Para estes, foi a «continuação da eloquência e do conforto». Para os revoltosos, os julgamentos em tribunal de guerra e o degredo. Eram, assim, os caminhos ínvios dos republicanos.

5.     A ditadura de João Franco e o 28 de Janeiro de 1908
João Franco chega ao poder em Maio de 1906 e, um ano depois, dissolve o parlamento. No plano militar, na sua acção governativa, que foi meritória, empenha-se em solucionar as precárias condições em que o exército vivia. A contrastar, a sua acção política foi desastrosa. A ditadura e a repressão violenta - caminho escolhido por João Franco - ainda mais enfureceu o ódio pela monarquia.
Contra estas medidas nasce mais um movimento republicano, abortado à nascença em 28 de Janeiro de 1908 - «movimento republicano esse mais uma vez animado no interior das Forças Armadas pelos sargentos da Guarnição de Lisboa» (General Ferreira Martins, História do Exército Português, Tomo XVI, pag. 494). É o próprio D. Carlos que assina o decreto que confere a João Franco mais poderes para prolongar no tempo as violências sobre as liberdades em geral e sobre os revoltosos do 28 de Janeiro em particular.
Entretanto, assassinado em 1 de Fevereiro de 1908 o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, é D. Manuel II, menino e moço, que se vê rei de um momento para o outro. Na realidade é sua mãe - D. Maria II - quem vai governar, nefastamente, com recurso a uma avalanche de frades e jesuítas e outras congregações religiosas, que infiltra em todo o aparelho do estado, nomeadamente no ensino e no meio militar. D. Maria II aceita o conluio com a Espanha e a Inglaterra para tramar Portugal. A Espanha firmara um tratado secreto com a Inglaterra onde uma cláusula secreta acordava o seguinte: «Em troca do reconhecimento espanhol da posse inglesa de Gibraltar, o governo de sua majestade comprometia-se a enviar as suas esquadras para sufocar um possível movimento revolucionário em Portugal». (Hermano Neves, Como Triunfou a Republica, pag. 30). O patriotismo da rainha não ia além das aparências.
O novo rei destitui João Franco e convoca eleições a 5 de Abril de 1909. Uma grande chacina se deu no dia do sufrágio: para desmotivar, nos espíritos mais conciliadores, qualquer simpatia pelo rei e pelo regime, a Guarda Nacional varreu à rajada, de encontro às paredes da igreja de S. Domingos, o povo que aí se concentrava com o objectivo de vigiar a contagem dos votos.

No inconstante partido republicano desenvolvem-se duas teorias sobre o modus operandi na realidade política: Uma, defensora da conciliação com as autoridades monárquicas, era liderada por Bernardino Machado e Afonso Costa; a outra optava pela revolução, que desejava.
O partido reúne em congresso em Setúbal com o fim de acertar posições. Por um voto, apenas, optam pela revolução. Elegem um Directório, que integrava também os comités civil e militar, para levar a cabo essa missão, mas tal nunca funcionou por culpa da inércia partidária.  Difícil era consegui-lo, ou quase impossível, pelo facto de se misturarem, no comité militar, civis e militares.
Verificada a ineficácia desse comité militar, o Directório republicano recorre a um outro constituído unicamente por oficiais. Também este segundo comité militar do partido republicano se viu a braços com dificuldades impossíveis de ultrapassar. O partido republicano ( versus maçonaria) debatia-se com o pouco entusiasmo dos cidadãos; o Directório do partido e os republicanos influentes, não queriam coordenar esforços com a carbonária que, entretanto, crescia nos meios militares como também votavam ao desprezo a força e a legitimidade dos sargentos agirem ao lado do povo e da revolução. Apesar destas contrariedades todas, duas datas foram marcadas pelos republicanos para o início da revolta. Ambas recusadas pelo comité militar devido à escassez de oficiais.


6.     Os ínvios e dolorosos caminhos da República
Dezanove foram os anos de lenta agonia, entre 31 de Janeiro de 1891 e 5 de Outubro de 1910, para que a árvore carunchosa da monarquia desabasse e entregasse as armas e os brasões. Ia virar-se uma página da história com séculos a mais de duração. Terminava no Campo de Santo Ovídio uma primeira fase da luta do povo, do vulgo, dos militares de baixa patente pela liberdade, mas continuar-se-ia, Santo Ovídio, numa segunda fase, em Lisboa, junto ao Marquês, de Cascais a Vila Franca de Xira, por Loures, Barreiro, Moita e Almada.

Mau grado estas contrariedades todas e sob pressão da Carbonária e o apoio da Partido Republicano, defensores do recurso às armas, os republicanos lançaram-se, finalmente, após dois anos de controvérsias e hesitações, ao assalto do poder em Lisboa. Na madrugada do dia 4 de Outubro de 1910, a revolução iniciou-se em Lisboa com o movimento revolucionário de pequenos grupos de conspiradores formados por membros do exército e da marinha (oficiais e sargentos) e alguns dirigentes civis e uma grande concentração de populares armados.  A revolução apoia-se na revolta dos quartéis e na acção de milhares de civis indispensáveis ao controlo da cidade de Lisboa que, com actos de sabotagem, cortam os acessos emboscando as tropas fiéis ao regime.
A Revolução saiu vitoriosa e na manhã de 5 de Outubro de 1910 foi proclamada a República em Portugal, a segunda na Europa e anunciado o Governo Provisório das varandas da Câmara Municipal de Lisboa pela voz de José Relvas.

A burguesia republicana argumentará valores para si, que não tem, cantará basófias e fará crer aos oficiais de baixa patente e ao povo que avançará ao sinal combinado. Pura ilusão! Recuará, e para bem longe, ao soarem as primeiras contrariedades, irá até ao suicídio e à deserção do campo de batalha.

A implantação da república não se ficou a dever, exclusivamente, às peripécias da Rotunda. Afirmar tal, não seria de todo justo. Contudo, tal foi decisivo mercê do finca pé dos sargentos e cabos em levar ao comando da fase terminal da revolta o comissário naval Machado Santos, que ingressou na Armada como sargento. Meritório, também, foi o trabalho anónimo dos civis e a resposta positiva e decisiva dos navios de guerra postados na posição de fogo para a batalha final à sombra da Bandeira Nacional da República desfraldada desde o dia 4 de Outubro de 1910 em Almada.
Se a vitória da República foi popular, e sem dúvida que o foi, os habituais apanhadores de louros e coroas alheias tomaram, para si, sofregamente, as rédeas do poder derrubado. Da varanda do Município Lisboeta, em 5 de Outubro de 1910, repetia-se a história em catadupas de palavras e promessas a desabar sem a certeza de se cumprirem.

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Alvaro Giesta © Crónica e  Recensão
(texto publicado na revista BIRD em 5 de Outubro de 2015)

Principal fonte de consulta: OS SARGENTOS NA HISTÓRIA DE PORTUGAL (Biblioteca de História) de Vaza Pinheiro, Editorial Notícias. Foi seguida, de perto, a narração dos factos históricos, aqui descritos, que contribuíram para a Implantação da República em Portugal.



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