08/09/17

Um olhar sobre o MAR DOS SENTIDOS (poesia)

José Luís Outono “MAR DOS SENTIDOS”
(chancela Edições VIEIRA DA SILVA, numa edição de 2012)
Opinião Literária©
(não escrevo segundo as regras do acordo ortográfico)


Da minha leitura, a análise sempre subjectiva, que fiz do livro de JOSÉ LUIS OUTONO, “Mar de Sentidos

José Luís Outono, existe, enquanto poeta, no espaço e no tempo. E existe a obra enquanto, sem invenções, nela “sonha” o poema, o faz “nascer”, o constrói, o eleva, através da palavra, ao interior da alma de quem o lê, pois, na sua, teve gestação antes de nascer. Afirma-se, o poeta, não apenas como corpo, que é, mas, também, como construtor de signos – construtor, e, não, inventor! – com que talha a sua escrita.

Descansa nas letras, que escreve, e nos versos que constrói. Tanto está “no olhar” de alguém “sem descansar”, como sulca o mar em desafios constantes da palavra. Exprime-se, no termo poético, através desses signos, tão seus, com mestria tal, que faz parar o leitor, no tempo, sem deixar o tempo do autor, para regressar ao princípio e se extasiar de novo na leitura.

Só, assim, quem lê José Luís Outono, o conseguirá ler e compreender sem perder o fio à leitura. Eu li-o, neste seu Mar de Sentidos, por quatro vezes, pausadas em tempo longo, mas o suficientemente curto para não me não perder na memória da leitura, e poder tecer, dele, este comentário, que não é crítica literária na verdadeira acepção da palavra, nem a tanto me atrevo. É nesses “rios de cristal” que Luís Outono se abraça à escrita, levando-nos consigo, para nela nos elevarmos nas suas “margens de porto seguro”. Nas “falésias sorriso” das suas palavras que manuseia com perícia ímpar, faz-nos “beber o néctar” sempre “no sentido nascente” do seu Mar de Sentidos.
 Luís Outono mostra com esta sua escrita, quase sui generis, que ele é mais do que o ser da linguagem. Ou, do que um ser na linguagem. É um ser que se auto supera, nunca se fixando nos limites do óbvio. Ele, mesmo em cantata ao vulgar amor, que não é tão vulgar quanto isso, o transforma em amor-maior, pois fá-lo em construção sábia e jamais se fica pelo simples, pelo fácil, pela obviedade. Assume-se, nas suas palavras, como eterno dever. “… as palavras emergem / na sensibilidade de um dar // … as palavras são o amar / da vida e do ser / mesmo nos silêncios agridoces / até no conjugar sem posfácio //. Não se nega, nem nega o amor que canta, num certo movimento, mais ou menos contínuo, com algumas interrupções e devaneios pela cidade de um Outono sempre em estado primaveril.

 Autor e texto em osmose perfeita, “fatal”, como diz o autor. Exprime-se com inquietação numa “quietação” de diálogo tal, que as “razões hercúleas” do seu sentir, o tornam único, singular, no seu Mar de Sentidos. A escrita poética de Luís Outono é uma faca de dois gumes, que escreve “azul com a cor do coração”. Porque o seu “tesouro” se encontra “no fundo do mar aberto de pleno imenso” onde as “algas (…) hospedam o borbulhar de uma lenda …”, mas se encontra, também, nesse mesmo “fundo secreto fascínio do mar toldado”, onde “há vida (…) e correntes cíclicas de atrevimentos… //”.
Dos seus poemas, faz um hino, onde prolonga o amor sentido, quando criança, nos braços do desejo de um dia só, por viver, mesmo que “sem nome e sem sorrir”. Nem mesmo os “tantos disparates” que escreveu, que nem a “memória os guarda”, deixam de ser a sua afirmação intemporal da vontade e temporal, ao mesmo tempo, porque os seus versos consistentes, ainda que na “ceia” da “tarde brilho do Outono”, eles “multiplicam-se de sabores” e ânsias de saber.

É dialógico, no campo do amor que canta. Ainda que mantenha o diálogo, em monólogo poético, define-se como alguém que se reconhece “cego de esperas”, de sorrisos que se esfumam de desafios aos quais já não pertence. Mas, não desespera. Pois, “se um dia construísse um apelo / faria um muro de palavras / (em) poema universal /”. Ao invés de classificar José Luís Outono, como poeta com rótulos de escolas, ou tendências, pois a tal me não atrevo por não ser crítico literário, em consciência o digo, plausível será reconhecê-lo como um dos melhores poetas, da língua portuguesa, da contemporaneidade.
           



© copyright 2012 Fernando A. Almeida Reis, ortónimo de Alvaro Giesta e de Miguel Faia, todos os direitos reservados para o Autor e Jornal Rostos. Não pode ser dado qualquer uso comercial ao texto, sem a devida permissão do autor.

A INTUIÇÃO E O INTELECTO

Intuição e Intelecto: dois opostos entre dois pontos, apenas à distância de um salto inalcansável


«(...) Sem olhar à profundidade dos seus sentimentos, à vastidão dos seus conhecimentos, o homem aparentemente completo não o é sem que tenha aperfeiçoado as suas tendências. Quem quiser melhorar os condicionalismos externos tem de começar por melhorar os internos. Quando as coisas não estão a correr bem há qualquer coisa em mim a dizer-mo. Às vezes tenho de pensar muito para descobrir o erro e como corrigi-lo. Depois de resolver o problema sinto-me novamente bem. Isto prova que «O seu instinto leva-o mais longe que o seu intelecto».
Alfred Montapert, in "A Suprema Filosofia do Homem"

___________
Intuir é negar à razão o direito a conhecer de imediato; seja, é conhecer directamente as coisas sem a necessidade de recorrer à razão para delas tomar conhecimento. E é por esse motivo que a razão nega também a intuição pela sua incapacidade de a encontrar. O intelecto não encontrando a intuição não a pode explicar, embora a possa sentir. E não a pode explicar porque, para explicá-la seria necessário buscar a sua causalidade - responder às perguntas: de onde ela vem, porque vem, como vem e qual a relação causa-efeito entre a intuição e a coisa conhecida.

Ora, porque a intuição não nasce do intelecto nem com o intelecto, não faz uso do recurso do raciocínio para explicar sobre o conhecimento das coisas, não precisa da razão para conhecer, porque ela é, em si mesma, um fenómeno não científico e irracional, um fenómeno não-fenómeno, podemos com firmeza dizer que a intuição não se explica. Se nascesse do intelecto ela poderia ser explicada, tinha que ser explicada porque ela seria, obrigatoriamente, racional pela razão que vinha do e com o raciocínio. Mas ela, a intuição, é um fenómeno irracional que jamais pode ser reduzido ao intelecto.

E aqui cabe reflectir sobre os dois domínios de existência - o (já) "conhecido" e o (por enquanto) "desconhecido" (sendo que este último é aquilo que o intelecto ainda busca) -, para podermos fazer uma destrinça entre aquilo que muito nos confunde: entre o FENÓMENO (não-fenómeno) INTUIÇÃO e o PODER DO INTELECTO. Ou seja, entre aquilo que é inacessível ao conhecimento e aquilo que a razão já conheceu ou vai conhecer; entre o "impossível de conhecer" e o  já "conhecido" que indagou o "onde", o "como" e o "porquê", ou o que, embora (ainda) "desconhecido", se vai conhecer usando o raciocínio. Portanto, um e outro fenómenos (estes dois últimos) são domínios da razão para deles conhecer.

Assim, a intuição não é um fenómeno "desconhecido",  porque este, sendo do domínio do intelecto, há de ser conhecido através da indagação, da pesquisa, da experimentação. A intuição é, sim, um fenómeno "incognoscível" - ou seja, inacessível ao conhecimento. A qualidade intrínseca do incognoscível é ser isso mesmo: INCOGNOSCÍVEL. É com o incognoscível, isto é, com aquilo que não pode ser conhecido pelo raciocínio, que a intuição labora, ao contrário da razão que trabalha com o conhecido e com aquilo que, embora sendo desconhecido pode vir a ser conhecido.
A intuição leva-nos mais longe que o intelecto - «conhece-te a ti mesmo», disse o filósofo. A intuição é a arma perfeita para,  em auto-análise seguida da acção, tornar o Homem em «escola da sabedoria».

download da imagem: net

Jamais o intelecto poderá conhecer o que nunca pode ser por ele conhecido. Esse místico incognoscível chamado intuição vem de qualquer lugar desconhecido no vazio do ser, de qualquer lacuna do ser, que nunca do intelecto - embora o intelecto a possa sentir mas nunca explicá-la dado não ser um fenómeno científico mas, outrossim, um fenómeno puramente irracional.
A intuição não acontece; surge de qualquer lugar desconhecido do ser pois, se acontecesse, tinha necessariamente que ser explicada. Podia ser explicada. Mas, porque a intuição vem de um domínio diferente do acontecer, um domínio diferente de qualquer causa intelectual e racional que forçosamente interroga e procura as causas primeiras e últimas e as suas consequências com a finalidade de, aproximando-as do intelecto, as explicar e chegar à primeira causa que moveu o primeiro motor imóvel, ela é a realidade mais elevada do ser que, assim sendo-o, jamais pode ser penetrada pela causa mais baixa, neste caso o intelecto do próprio ser, que interroga para chegar à causa primeira. A intuição é essa causa primeira e irracional do ser, é esse fenómeno não científico e inexplicável pela razão por ser o poder mais elevado do ser.
É o fenómeno incognoscível que a razão não alcança, tão semelhante à mente que penetra no corpo impossibilitando, contudo, o seu contrário; assim a intuição pode penetrar no intelecto (poder mais baixo) e nunca este pode ascender à intuição porque esta é o poder mais elevado do ser.

Recorrendo ao raciocínio de Osho sobre o que diz ser a intuição «(...) nem sequer é um fenómeno; é unicamente um pulo no nada para o ser», se pode deduzir que a intuição é uma «lacuna» que apenas o intelecto sente mas que é impotente para a explicar; embora sentindo-a como lacuna, não a pode explicar porque não sabe, o intelecto, como nasce a intuição, onde nasce a intuição e porque nasce a intuição.
Ela é um fenómeno que, na voz de Osho, não chega a ser fenómeno. Àquilo a que a razão chega é apenas "sentir" que "aconteceu qualquer coisa" que a ultrapassou. E essa qualquer coisa é o tal fenómeno inexplicável, o tal fenómeno não científico e irracional, o tal não-fenómeno.

A razão nega, sempre, poder à intuição porque esta jamais pode ser explicada e o intelecto só aceita aquilo que pode ser explicado. Tudo o que está para além da razão e a ultrapassa é a realidade mais elevada do ser, o tal fenómeno que, não sendo fenómeno, não pode ser explicado numa relação de causa-efeito, e jamais aceita, o intelecto, que a intuição lhe fale. Ele, o intelecto, na sua procura das coisas, das causas e dos seus efeitos, jamais deixa que o instinto lhe dê pareceres. Mas, mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, o intelecto estará sempre acorrentado à intuição; jamais a razão se separará da intuição como o corpo jamais se separará da mente.
A intuição, fenómeno não-fenómeno mais elevado do ser, como lacuna do pensamento, jamais pode ser reduzida ao intelecto.
E assim se justifica o título dado ao inquietante artigo: A INTUIÇÃO E O INTELECTO - dois opostos entre dois pontos, apenas à distância de um salto inalcançável.

_____________
© Alvaro Giesta
da cónica semanal de Alvaro Giesta publicada na revista BIRD de 09/12/2015
Já colocou um "gosto" nesta página? Obrigado.

01/09/17

Todas as folhas têm chão

S


into hoje no peito um nó tão apertado.
Exactamente isso. Um nó no peito.
Pé a fundo, no acelerador, imprimindo à carrinha, naquela estrada cheia de curvas apertadas e perigosas, quase o dobro da velocidade horária permitida por lei. Adivinhava que algo não corria bem. Aquele nó apertado no peito era uma campainha de advertência. Funcionava como um alarme.

Estacionei à pressa debaixo da sombra acolhedora dos plátanos, e desembaracei-me dos carreiros entre canteiros sinuosos do jardim, saltando, em correria, as sebes e atravessando a relva, com uma olhadela de respeito ao busto do Dr. Sousa Martins, sempre tão rodeado de velas e oferendas ali depositadas pelos seus crentes. Era onde, quando naquelas tuas breves paragens de vida, que te ocorriam desde que ali chegaste, eu ia pedir ao venerando médico – que dizem curar como os santos e que, enquanto em vida, se esqueceu dos seus problemas, das suas angústias, das suas frustrações, para acudir aos deserdados da saúde e do amor – que te desse, que mais não fosse, um dia a mais de vida.
Nestas alturas, as lágrimas rebentavam-me involuntariamente dos olhos e corriam-me pela face sem secarem no seu percurso. Hoje, se fosses vivo, meu pai, contava-te no estado em que te vi no meio daquela ampla e fria enfermaria, onde mais seis ou sete corpos jaziam quase sem vida.

Rodeavam-te o médico e os enfermeiros. Eu tinha livre entrada a qualquer momento, naquela enfermaria, mercê da amizade que aí granjeei com um enfermeiro, ao que parece colega de curso da minha irmã, a tua filha. Todos os profissionais de saúde me conheciam, já. Mas, naquele momento, a situação era tão crítica que me mandaram sair e esperar notícias, do teu estado, no corredor.

“Está quase a apagar-se”, murmurou-me o enfermeiro.

Nu. Estavas completamente nu. Nunca assim vi um corpo tão esquelético. Nem quando andava pelas terras mais longínquas do leste Angolano onde as pessoas famintas, especialmente crianças, nem se conseguiam levantar da esteira, tal o estado de fraqueza e magreza em que se encontravam. Entre tu e eles duas diferenças apenas: a cor da pele e o enxame de moscas que zuniam no rosto daqueles. Tu eras só pele e osso e o enxame que rodopiava à tua volta eram o corpo clínico da enfermaria.
Tentavam reanimar-te. E tu, meu pai, preso a um ténue fio de vida, a este mundo, parece que me adivinhaste ali. Abriste os olhos. Os lábios, numa tentativa difícil mal se abriram e balbuciaste algo ininteligível. Adivinhei-te o que querias dizer. Só eu te entendia nessas alturas. Apenas eu sabia ler o que os teus lábios já não conseguiam dizer, mas o teu olhar me transmitia.

“Ainda não quero morrer, Fernando”, era o que sempre me dizias, naqueles momentos mais críticos, mas quando ainda havia alguma lucidez em ti.

Segurei, antes de sair a pedido do enfermeiro, por breves segundos, a tua mão direita na minha. Como quando te pedia a bênção e a beijava. Para a fragilidade do teu corpo, senti que agarraste com demasiada força a minha mão. Os teus dedos ósseos, demasiado magros e rudes, não me largavam, como se encontrasses, na minha mão, o fio condutor e seguro para te agarrares à vida. Naquele momento, eu era a tua vida. E lembrei-me daquelas palavras tão sábias do doutor Sousa Martins em quem até eu acreditava que fazia milagres, apesar de ignorar estas crendices: “A noção do infinito é como a luz do sol. Uma e outra, temos de aproveitá-las diluídas”. Sábias palavras as de tal Mestre!
Tive que sair. Desta vez não foram precisas palavras. Um breve arquear de sobrolho, do enfermeiro, para o compreender que tinha mesmo que sair. O médico, na tentativa de te salvar, não queria ali intrusos.
No corredor cruzei-me com o velho padre, porventura chamado à pressa para, mais uma vez, te ministrar o sacramento da extrema-unção, sempre adiada. E, às vezes, me parecia que até a contragosto dele. Naquele seu puído fato cinzento, a mesma conversa murmurada de sempre, ao passar por mim:

“Deus não se esquece dos filhos que ama, tem sempre, para os bons, um lugar reservado no céu. Está a pôr à prova a sua fé!”
Estranha forma desse deus, desse teu deus, teu e dele (!) se lembrar de quem ama! Fazê-los sofrer, para seu gáudio e prazer, para depois lhes reservar um lugar no seu céu?!

Com os olhos marejados pelas lágrimas, entendi, agora, aquele nó apertado, no peito, que me apoquentou durante o percurso de mais de cem quilómetros, desde casa, onde ficara a mãe entregue ao seu pranto e orações, até ti. Estavas em debate, duro, com a morte! Ou, talvez, com ambas – com a morte e com a vida.
Fui agarrar-me ao busto daquele médico que dizem ser santo, e conversei com ele durante longos minutos. Pedi-lhe para te não deixar partir, ainda, pelo menos sem conheceres uma neta que estava para chegar, vida da tua única filha - que afinal não chegaste a conhecer. Rodeado de velas acesas, que os crentes do médico milagreiro continuamente renovavam, tive um momento em que senti que me ouvia. O coração dizia-me, disse-me nessa altura, por breves segundos, que a vida ainda não fora desta vez que te deixara. Senti que voltavas desse poço negro para onde algo estranho te puxava, nessas alturas, como que impulsionado por uma força centrípeta no sentido inverso àquela força centrífuga que te afundava, sempre, nesse vazio.
E corri para a porta da enfermaria, saltando mais uma vez as sebes dos espaços ajardinados, agora por outro motivo – a esperança na vida – para não me demorar nos meandros dos floridos canteiros. No corredor cruzei-me, outra vez, com o apóstolo da igreja que me murmurou, como se a descontento, por se sentir mais uma vez ludibriado pela morte, ou antes, por saber que mais uma vez tu deste a volta à morte, e com um falso sorriso, referindo-se a ti:

“Enganou-me, outra vez!”
Que triste apóstolo de Pedro existe aqui na terra!

Espreitei. Lá ao fundo o enfermeiro. Vi que te amarrava os braços à cama. Por segundos ergueu o polegar direito, ao céu, em sinal de que voltavas à vida. Senti-lhe, debaixo da máscara que lhe cobria o rosto, o sorriso de vitória. Aventurei-me e avancei até aos pés da cama. “sabe, é preciso…”, justificava o gesto, de te amarrar os braços com ligaduras “…é que, quando volta a si, arranca tudo”. Referia-se às agulhas que te injectavam no corpo sopros de vida.

Abriste os olhos. “És tu, Fernando?” e, logo de seguida “Vi a morte à minha frente. Empurrava-me para um buraco negro, que depois era tão luminoso que essa luz me cegava. Não me deixes morrer meu filho…”
Alvaro Giesta (para a obra "todas as folhas têm chão")

08/07/17

PARA ALÉM DAS PALAVRAS (uma crítica à poética de Edgardo Xavier)


Estamos perante um poeta genial: dito assim, deste modo peremptório, quase a evidência nos diz podermos dispensar da leitura de qualquer prefácio de obra sua, os leitores mais incrédulos que pretendem conhecer do poeta Edgardo Xavier. Do poeta e da sua obra poética. Assim, a classificação de "genial" leva-nos a pensar não ser necessário prefaciar qualquer obra sua, muito principalmente pela subjectividade que a poética em si comporta. Também sabemos que pouca gente lê os prólogos - ironiza-nos o escritor e filósofo espanhol Gregorio Marañón - e, os que os leem, preferem guiar-se por si, com o que estamos plenamente de acordo; se bem que muitas vezes o prefácio, prólogo, prolegómenos, tenha que nome tiver o texto introdutório à obra, não faça mais do que "elogiar-se" a si próprio o prefaciador no seu acto de prefaciar, tantas e tantas vezes com palavras enredadas e enubladas que de si sequer dizem algo, quanto mais do autor, ficando no ar a dúvida se alguma vez o leram por inteiro para dele poderem dizer em prefácio.
Levará a pensar ser esta afirmação  - um poeta genial -, se não arrogante, pelo menos descabida e irresponsável da nossa parte. Mas, que o poeta é genial comparando-o com os seus tantos pares que por aí debitam a palavra naquilo a que chamam "poesia", lá isso é. E sem a necessidade de dar ênfase à afirmação.

Nunca é fácil falar dum autor quando dele não se conhecem as obras todas: das suas sete em livro apenas duas nos fugiram do contacto e da leitura pela impossibilidade de as encontrarmos no mercado ­- AMOR DESPENTEADO, ed. Casa das Cenas, Sintra, 2007 e O CANTO DA PEDRA, ed. Papiro, 2009. Contudo, viajámos algumas vezes e em profundidade, águas abaixo águas acima, pelas outras cinco que temos em mãos: CORPO DE ABRIGO, ed. Temas Originais, 2011, AZUL COMO O SILÊNCIO, Chiado editora, 2014, LISBOA, ed. Temas Originais, 2015,   ESCRITA ROUCA, ed. Insubmisso Rumor, 2016 e ÍNTIMA IDADE, ed. Temas Originais, 2017. Da muita poesia também lida de si, por nós em "Pensador", prolífero lugar existente na magia da internet, e noutros locais do éter, nos faz pensar que Edgardo Xavier, embora começando tarde a publicar o que a juventude lhe terá ditado cedo, assim o terá decidido, por opção, depois de deixar que o pó do tempo fizesse a maturação devida do mosto para que, levado às serpentinas do pensamento, produzisse bom vinho sem a necessidade da transformação apressada como nas bodas de Canaã, e do ferro em bruto que, levado agora à forja da oficina, fez dele nascer a peça com arte.


Apenas mais por um critério pessoal que qualquer outro motivo - que de toda a poética de Edgardo Xavier somos amantes -, desta quase análise excluiremos as duas últimas obras - melhor dizendo: não nos debruçaremos sobre elas  "Lisboa" e "Íntima Idade", a primeira cantando o amor pela "sua" cidade (aqui o destaque é nosso porque não lhe sendo de nascença é, contudo, de coração) e a segunda, embora cantando o amor em serena contemplação, porque nas demais, em análise, se evidencia pela maior profundidade da lira.
Amamos o poeta quando nos faz crescer por dentro e exultar de satisfação e alegria ao lê-lo. Como ele diz, "amar é crescer por dentro" e connosco voa e com ele erguemos as asas e nos deixamos conduzir nesse voo sem destino: 

«Contigo todas as palavras
São de renda ou de cristal
Contigo vestem-se de prata as manhãs
E as horas
Suspendem-se dos teus olhos
Imóveis
Como frutos do tempo

Sou a pedra em que te apoias
Acordo ao som do teu nome
E cego para tudo o que não seja
A luz que vem de ti

Cantam em mim as tuas alegrias
Soam cá dentro as tuas mágoas
Sou toque de ave-marias
Sou som de todas as águas
Sou o arrepio das folhas
Na bebedeira do vento
Amar é ser tudo isto
Amar é crescer por dentro»

[Sintra, 4/5/2007 em Corpo de Abrigo]


Como a afirmação de certo poeta - aqui não mencionado para não distrair o leitor daquilo que pretende ser só propósito a condução através da poética do autor de "Corpo de Abrigo" - que antecedendo as suas obras com a máxima "universal é o verso sem paredes" deixando ao leitor as inúmeras respostas daqui a aduzir, também Edgardo Xavier labora algumas das suas obras com a ausência do ponto final naquilo que poderá ser considerado fim de verso e ou fim de estrofe e de outras formas gráficas definidoras da pausa no texto: dá-nos, assim, liberdade total na leitura. Em outras se verga ao saber e ao sabor gramatical do ponto final e de outras formas de pontuação.


Sábio pela humildade, que lhe reconhecemos, é o autor quando nos diz em nota que antecede o texto de "Corpo de Abrigo", que "é no olhar dos outros que me revejo e aprendo" - valoroso dom, alto e nobre, também, que nos livros não se aprende mas nasce com o ser, esse de reconhecer-se, rever-se e aprender-se "no olhar dos outros"! E que, em quem o entende, se "enquista" e "voa". Que maior sabedoria existe do que ser-se humilde por natureza?!
É na pele com que veste os seus poemas em demanda da própria voz, que se encontra "com o próprio eco", como recorda, em prefácio ao "Corpo de Abrigo" o seu editor Xavier Zarco. Há, assim, uma procura do seu próprio corpo no corpo outro, desvendando-se quando "a palavra" - aquilo que ele diz usar como sendo "a sua pele" - "descobre o seu próprio corpo" como espaço vital para viver e se dar ao outro, codificando-se em imagens nem sempre de decifração fácil, que o levam "a todos os lugares habitados da memória e à solidão". Dirá o poeta "para (assim) cumprir o caminho" - diremos nós: como o eremita, o profeta, para assim cumprir a profecia.



Na sua libertação interior através da palavra, magistralmente imagética em "Azul Como o Silêncio", o poeta revela-se ao mundo: essas imagens são como que o "exercício espiritual", de que nos fala Octávio Paz, que "revela este mundo (mas também) cria o outro"; o do sonho, diremos nós - "a certeza da manhã futura", dirá o poeta Edgardo. Sonho que se alimenta do vazio do tempo e de si; mas, em Edgardo Xavier, o vazio não é vazio - é apenas um "diálogo com a ausência" com o silêncio onde busca a palavra "fermento da rebeldia" que, alimentado por aquilo que deixa antever tédio, angústia ou desespero pela falta, mas também "raiva", se transforma em "oração, epifania, sublimação"; como ele dirá: "é prenúncio de liberdade" ­- é a sua arte no fazer poético.

«Não fora a certeza da manhã futura e todo
o peso desta escuridão seria intolerável.
Chego aqui vazio de sentido e nenhuma voz
é portadora de paz.
Tu mesma, imóvel na cinza das horas, és como
uma pedra que não sabe nem espera.

O teu silêncio traduz o medo da palavra
não vá sair-te da garganta o fermento da rebeldia
ou o som justo da guerra.

Digo-te que toda a raiva é prenúncio de liberdade
mas aceito que, por amor, hibernes até que venha
o sol ou a morte.»

[Corpo de Abrigo]

Obras de leitura fácil e de entendimento acessível pela limpidez do tema magistralmente abordado pelo autor: o Amor. Mas, porque habilmente construídas com o recurso a requintada criatividade imagética, não dispensam, nunca, análises literárias - assim despertem da letargia em que hibernaram os críticos sérios deste país. Que bem se reflecte, o poeta, no corpo-outro quando o descobre - "só na tua voz se espelha a minha sede" - e nele se encontra e nele busca a perfeição - "e tu, amor, demoras / perdes tempo para a perfeição" - mesmo havendo sombra, porque não há luz sem sombra, porque é da sombra que nasce a luz - "conta-me / do que é preciso / para que vistas luar / e sombra / pele e luz". Nessa "luz doce (que) desce / pelo teu ventre até à sombra / onde vibram os medos / e a boca mergulha como ave silenciosa", em "o silêncio (que) é o melhor da nossa intimidade // em que, nua, escondes a alma", "mais que a língua / em que te amo / é o teu corpo / a minha pátria", se denuncia a presença de Eros, lendo-se o sensual, o erotizante duma forma suave e pura (jamais melindrando susceptibilidades ou ferindo os ouvidos mais sensíveis ou, melhor dizendo, ferindo-os pela harmonia da lira), marcando bem o limite do sensual mesmo quando se considera que é difícil distinguir o limite  onde começa o erótico - que, considerando, se na poética de Edgardo Xavier existe, ele é tão subtil que quase se não denuncia - e termina o simplesmente sensual. "Toco-te / vibro na promessa / de um amor pleno / e gemo a sedução / do teu corpo nu". Mesmo quando (como em "Escrita Rouca"), no amor levado ao extremo dos sentidos se denota laivos de excitação do prazer provocados pelo "sofrimento" (e aqui a palavra entre parenteses é nossa para lhe retirar qualquer significado de dor corporal) não é mais do que o tal "paradoxo entre a violência e a ternura" de que nos fala a prefaciadora. E não é, seguramente, a busca do sofrimento real que causa excitação sexual ao poeta, como era em Sade.

«Para te amar mais exijo que o sangue nos corra em beijos mordidos; que as minhas mãos marquem violáceas posses na tua carne (...); que ruidosos gritos ocupem o ar (...). Bato-te. Excita-me que a pele estale e sue, que doa, rubra a minha mão».

[Escrita Rouca]

Aqui, em Edgardo, presente no texto "Em ti o amor é um licor forte", de Escrita Rouca, "Amar é sentir o prazer e a agonia (...)" é subjugar-se para, no outro ser, se ligar com o "fogo", com o "infinito", com "o fundo de um poço no qual não paro de cair". É, inclusivamente, rejeitar a liberdade em troca da prisão do amor: "Toda a liberdade me é maldita por ser a minha alegria esta prisão".
Pensando o ser, como instrumento do discurso poético submetido ao instrumento da coisa amada, transforma o "corpo-outro" num embate de linguagem poética que se nega, por vezes, a mitigar a fome do amor sem antes haver a certeza da doacção nobre e pura do outro ser. Depois dessa doacção nobre e pura em que "uma lava ardente / (...) descobre (no outro ser o) rumo / e apaga o tempo", diz-nos o poeta, "toda a glória do mundo / cabe em minhas mãos". É no compromisso com o tempo que se circunscreve em torno do amor na sua poética, seja como um círculo num acto de acolher o corpo-outro, solidariza-se com a noite como se fosse sua conselheira: "Sei que no parado das horas / entre sombras e aromas de urze / me liberta a noite / do rigor do caminho" e que "só a noite me liberta / da solidão do destino". A solidão, irmã do silêncio, porque ambos se alimentam de si mesmo para gerarem a sorte, a viverem do vazio que em Edgardo, como já referimos, não é vazio mas, apenas "diálogo com a ausência" onde cria e alimenta a fome do "Desejo" do corpo-outro:

«De pensar te faço corpo
por te saber
acendo o sangue de infinito
e quando o grito
na solidão da minha sorte
chamo por ti
para limpar-me de silêncio»

[Azul como o silêncio]

É para lá do tempo que o poeta se quer hoje: "quero este dia livre, / sem o peso de ontem / nem a incerteza do amanhã"; a força do silêncio - o melhor que a intimidade entre dois seres, tem. Porque "o silêncio não fere a intimidade" nem o tempo "se atreve / a declarar morta a nossa juventude". Sabemos, pelos versos do poeta que volta "por caminhos imaginários à (sua) infância", que nós-outros nada sabemos da força do amor, quando aprendemos com ele ao lê-lo, nesta cantata a tão nobre sentimento, em "Azul como o Silêncio", exultação a um amor-outro,  assim cantado: "mais que a língua / em que te amo / é o teu corpo / a minha pátria". Magistral poema "O Infinito" que não precisa ser grande para ser maior. A subjectividade poética permite-nos, nas suas obras, divagações e pensamentos visionários, por onde não nos vamos perder em análise, que críticos literários não somos, que passam pelo corpo do outro ser ou, mesmo, do torreão que viu nascer o poeta e de que sabemos ausente e saudoso. Seja o que for e seja como for, são "Momentos" de magia e de "procura apetecida / de um outro mar". Que, como nos diz Edgardo Xavier, naquilo que poderemos chamar aforismo, a abrir a obra atrás referida, ele canta "Ao amor. Sem ele eu seria uma pedra."

«Sempre que posso voo nos teus sonhos.

As tuas palavras trazem-me as alturas,
os mundos e os caminhos.

Regresso, pelo teu corpo, à terra sedenta de nós
e deixo, no silêncio, as minhas asas.»

[Azul como o silêncio]

No jogo dos elementos [Água (mar/rio), Ar, Terra (chão/pedra), Fogo (luz/claridade] o autor, que é também artista plástico, compromete-se com o mundo exterior que, para o reproduzir nas suas telas e nos versos que lavra, o interioriza interiorizando-se para a procura de si, retransmitindo esse mundo exterior na construção de uma aliança com a natureza na expectativa de encontrar a harmonia entre o outro corpo e o seu próprio corpo, que finalmente se encontra no corpo-outro em que se revê: "como se fosse terra tua / ara-me" (e) "seja eu / a sede e a água"  (e) "na minha boca / a tua sede / incendeie a madrugada" como a "voz (...) / no vermelho do meu fogo", "para ser vento / voo e ave / no teu canto". O voo poético por espaços e infinitos só por si navegados, e o eterno movimento dos elementos que contribui para a descoberta e conhecimento de si, presentes em toda a poesia na obra de Edgardo Xavier. A par do jogo dos elementos, a crença, o desejo, a pureza da alma na visão do amor etéreo que quer e deseja eterno enquanto terreno, e a certeza, fora do espaço e para além do tempo, o que quer dizer sem sujeição a fronteiras, a limites impostos pelo infinito espaço e pelo indizível tempo. Sem grilhetas e sem algemas, mesmo sendo a noite mais fechada que o mistério. É a procura do corpo outro onde o poeta se reflecte "só na tua voz se espelha a minha sede", "e no verde líquido dos teus olhos lavo os meus", e se descobre e se encontra e, consequentemente, nele busca a perfeição:

«Pressiono-te com o olhar
botão de nada e roxo
mudo-te a luz
mato-te a sede
e espero
desejo
quero
que sejas já amanhã
a certeza
a cor
o aroma
a beleza.

E tu, amor, demoras
perdes tempo para a perfeição.»

[Azul como o silêncio]

«Procuro-te e acho um rio.
Olho-te e já a tua água é sangue bravo
fogo que chega, derramado à minha sede.

Bebo-te.
Corres no meu deserto de dunas e pedras até que
floresço, aceso, na tua boca onde me perco e anulo.»

[Azul como o silêncio]

 O poeta Edgardo Xavier compromete-se, assim, com o tempo na escritura do poema, "Sei que no parado das horas / entre sombras e aromas de urze / me liberta a noite / do rigor do caminho", solidarizando-se com a noite como se a noite fosse sua conselheira, "Só a noite liberta / da solidão do destino". Aqui, "Da boca ao peito / do ventre à aventura / é nos meus dedos que nasces / é no meu mar que navegas / à bolina do espanto". Como pode o poeta não se abrigar na força do destino, quando o sonho e a esperança no seu processo de busca persistente em procurar no outro corpo o seu próprio corpo, só se completa quando o seu corpo, no corpo outro se torna uno?!Existe, nele, essa "Certeza":

Nas tuas palavras bebo o meu destino
e no teu corpo mato a minha sede.
Na tua ausência
perco-me em mim mesmo"

[Escrita Rouca]

"Escrita Rouca", um livro em que o editor primou pela qualidade gráfica da obra, visível, de imediato e sem grande esforço, na primorosa capa, e em que o autor, na linha do magistralmente (até aqui) cantado - o Amor - lhe dá continuidade numa forma imagética mais requintada que nas anteriores obras, continua a dar-nos a dimensão do Ser entre o EU que se consome no desejo e no prazer, e entre a solidão - em que o silêncio e o vazio  são especial adorno da esperança e do sonho - e a espera, e se sente "gozo e tormento" no TU em que se reflecte e funde.

«É no silêncio (...) / que te sinto a arder e te adivinho.
Sou o vazio. / Nem voz, nem vontade ou ideia / apenas a dádiva que emerge ou incendeia / para que te ilumines.»

«Sobrou o vazio.
o rigor em que o meu sangue preso e o frio
já eram distância e silêncio.

(...) e tenho-te quando os sonhos
me levam ao coração verde da terra.»

«A esperança
sinto-a para lá do tempo
esse muro que os olhos não veem
mas onde o coração te adivinha.»

«Preciso erguer-me e ganhar distância para voltar à solidão. Nela fico frio e nu. Vazio de sentido. (...) Espero-te ainda. Vou esperar-te até que a memória te apague de mim ou te faças realidade. Quando chegares à minha noite estarei pronto. (...)»

[Escrita Rouca]



O vazio que em Edgardo Xavier é, apenas, "um diálogo com a ausência", é a busca da palavra certa que "vem e acende em mim o fogo eterno" mas que também "mata de indiferença o meu crepúsculo"; é um paradoxo, mas é nesta inquietação de satisfação insatisfeita que o autor sente prazer absoluto. "Só em ti me sei gozo e tormento." Cromática, esta superior obra, pela magia do sonho e da esperança, pelo impulso - às vezes quase selvagem - do amor, num misto de dor pela ausência, ou melhor, pela demora da chegada nesta ânsia da procura, pela saudade - o véu protector da solidão - em que o poeta mergulha muitas vezes como se caísse no fundo "do seu poço" para logo de seguida se erguer - pois é "o tempo e a noite neste sonho que dá eternidade ao efémero" -, pelo "amor bravio" que corre em sua libertação, se pode dizer que, nesta agitação da espera, entre a partida e a chegada, o temor da não vinda se esfuma quando o poeta conclui que "a inquietação deixou de existir" e que "Tu és o meu futuro."

«Aperto os passos
e sinto-me criança como tu.
Limpo o espírito e fico leve.
Tão leve que poderia voar
se tu quisesses.

A tua mão na minha
afasta as pedras
do caminho.»

[Escrita Rouca]

Assim, dirá qualquer poeta que se sinta bafejado pelo amor: a minha mão na tua eram uma só!

08 de Julho de 2017
© Alvaro Giesta (pseudónimo)


30/06/17

O VERSO LIVRE: O TRABALHO COM A PALAVRA POÉTICA

Na sequência do meu artigo publicado nesta revista BIRD subordinado ao tema "AS FRONTEIRAS ENTRE A PROSA E A POESIA: O VERSO LIVRE", de 26 de Setembro de 2016, dou seguimento com o presente texto que, seguramente, não será o último, àquilo que pretende ser ensaio. E porque, aqui, verterei opinião sobre "prosa poética" e "poesia", na perspectiva do verso livre, abro a crónica com dois textos diferentes onde, num, temos claramente o verso livre, no outro, embora naquilo a que vulgarmente se optou chamar prosa poética, nos faz interrogar se à mesma não caberá, também, a designação de verso livre.
«Visitam-me de manhã muito cedo, os medos,
vêm devagar acordar os delírios de luz
em feixes de fogo dentro deste corpo submerso.

Alguma febre coíbe-me de pensar
nos pássaros mortos que me habitam,
nas penas caídas sobre o meu dorso
dos animais que vivem dentro de mim.

Sinto o frio dentro deste inverno de cal.
Nenhuma semente eclodirá no desespero
onde me observo no lado mais oculto da noite.

Dói-me esta nudez onde o cio se agasalha.»

Carlos Val (pseud. de Conceição Bernardino) em IDENTIDADES, Edição Lavra, 2013


«Sinto a pele das palavras e o toque dos teus lábios todos os dias. O teu cheiro, o teu sabor. Sinto o desejo, a paixão, que se fazem prazer nos nossos corpos. O tempo fica suspenso no nosso fogo, as respirações ofegantes, incompletas, os sorrisos, as pontas dos dedos. A nossa intimidade são sementes que trepam a pele e os segredos escorrem pelos nossos lábios nas noites que pernoitas em mim. O teu corpo, os pássaros que tomam o trajeto da luz e buscam o céu como limite. As tuas mãos acariciam o meu olhar que arde em silêncio. E ali é toda a nossa vida, são todos os lugares. Ali o meu corpo faz-se vontade na tua boca.»

Cecília Vilas Boas em INCONFIDÊNCIAS, Chiado editora, 2016 (pág. 19)


O que é a poesia? Dificilmente a resposta a esta pergunta se traduz numa "resposta concreta". Não há, seguramente, resposta capaz de satisfazer o espírito mais inquieto que coloca a pergunta: o que é a poesia? Longínquo vai o tempo em que o poema era "aquela coisa certinha e com regras", saísse ele da inspiração ou fosse ele trabalhado com a arte com que o escultor esculpe a pedra para da sua face oculta dar à luz o busto desejado; fosse ele motivo de forte impulso do coração ou feito com a arte que a razão poética exige. Hoje, poesia, tanto pode ser aquilo que se pretende dizer com a palavra, com as múltiplas interpretações que do verso se podem ter, seja com recurso à velha métrica e desusada rima, como fugindo-se para um texto de sentido mais lato, seja ele verso branco, seja ele verso livre de longos versos quebrados no fim da frase, entremeados de outros curtos, muitas vezes uma única palavra formando um verso. Mesmo até a prosa poética, tão usual nos contemporâneos, pode ser poesia.
Nada em poesia, hoje, é simples. Acabou a tranquilidade de podermos dizer, com firmeza, se tal texto deixa de ser poético só porque não seguiu os cânones literários que à poesia se impunha. Dessa diversidade de textos, ou antes, devido a essa diversidade de textos, é um risco propor, hoje, uma definição genérica e válida para que a esses textos possa ser ou não aplicada a definição de poesia. Porque "verso livre" - esse conceito de "verso livre" que hoje qualquer um impõe a seu bel-prazer, fundado num relacionamento de palavras subitamente despropositadas no texto (naquilo que se pretende verso a formar poesia), é hoje tão frequente, tanto nos poetas conceituados como naqueles que aspiram a sê-lo - dizia: porque "verso livre" e "prosa poética" que muitas vezes de poética nada tem, há muito quem tal pratique por aí.
Mas não deixa de haver contornos, porque, falar de fronteiras, é tão difícil quão arriscado, entre o que é poesia - seja metapoética ou prosa poética - e o que é a prosa propriamente dita. Porém, uma distingue-se da outra; a poesia tem o seu território nos contornos que a sua própria natureza impõe e que a natural abordagem produz: é a sua aparência formal que marca a diferença e serve de limite. É aquilo que usa exteriormente, além da palavra, para projectar a ideia em palavras através da emoção: o ritmo, a rima, a estrofe. Aqui cabe referir outra característica, a maior da poesia: O TRABALHO COM A PALAVRA.
Como o escultor burila a pedra, com as ferramentas necessárias à matéria bruta para fazer a obra de arte, como o músico afina o instrumento para dele extrair a melodia, assim o escritor trabalha as palavras para produzir o texto literário. No que à poesia diz respeito, maior cuidado tem que haver na sua produção porque a linguagem poética é, em princípio, mais metaforizada que a prosa, mais ritmada, mais sujeita a alterações estruturais: exigência da literariedade em detrimento de textos comuns que se usam no quotidiano. É o tal efeito poético que lhe dá a rima (havendo-a, sem a obrigatoriedade de a haver no verso livre), o acento (característico do poema clássico quase caído em desuso, mais pela dificuldade de o fazer do que por outra coisa), a imagem, a figura de estilo, o ritmo, o efeito sonoro pretendido pelas ideias expressas dum modo trabalhado, recorrendo ao planeamento, à reflexão, ao conhecimento teórico. Não há fórmulas nem receitas para o fazer poético: há, sim, um trabalho apurado com o texto.
Abstraindo-nos, agora, dos artifícios "ritmo, rima, estrofe" que marcam a diferença e servem de limite entre poesia e prosa, detemo-nos na prosa: há aquela que, exprimindo directamente ideias e só ideias - a científica ou filosófica - não deixa margens para outra definição que não seja a prosa propriamente dita e que, por si só, estabelece definição bastante; a outra que, embora emotiva, não vai além da oratória e da descrição, ainda que possa haver ritmo na maneira como expõe a ideia - não serve, contudo, a verdadeira intenção poética; por fim há aquela prosa emotiva na sua amplitude total que marca diferença por possuir algumas das várias características: a quebra de linha, o ritmo (se não definido pelo menos conseguido pelo uso que se faz de imagens), uma prosa ritmada marcada, em certos pontos, com pausas maiores ou menores com finalidade rítmica, determinando essas pausas a quebra ou fim do verso. Cabe talvez aqui, nesta última "quase" definição, enquadrar a prosa poética ou verso em prosa se a sua função for realmente poética: se exprimir emoções e sentimentos, ainda que não tenha a exigência harmónica e rítmica do verso livre que determina a quebra do verso, ou fim de linha/verso.
Esse ritmo, como em Álvaro de Campos, feito com ciência e eventualmente com recurso aos vulgares sinais de pontuação, é marcado por pausas como se fosse uma linha quebrada: é aquilo a que se chama verso. «Este artifício, que consiste em criar pausas especiais e antinaturais diversas das que a pontuação define, embora às vezes coincidentes com elas, é dado pela escrita do texto em linhas separadas, chamadas verso (...). Criam-se, por este processo, dois tipos de sugeições que não existem na prosa: uma sugestão rítmica, de cada verso por si mesmo, como pessoa independente, e uma sugestão acentual, que incide sobre a última palavra do verso, onde se pausa artificialmente, ou sobre a última palavra, se há uma só, que assim fica em isolamento (...).» (Álvaro de Campos, Arquivo Pessoa). Essa quebra de linha é o que determina a separação do verso livre. A explicação dessa linha quebrada que faz a pausa e a separação do verso, é tão simples quanto isto: se no lugar dessa pausa, maior ou menor, marcada pela quebra de linha rítmica ou mesmo da introdução, no verso, do vulgar sinal gráfico, houvesse outro sinal inventado - por exemplo o traço vertical (|) com que marcamos o fim do verso quando o damos como exemplo em texto - dele ficaríamos a saber que ali se pausava com o mesmo género de pausa que obriga o fim de um verso.
Porém, nem todo o processo de quebrar a linha, faz verso, muito menos faz o poeta. O poeta (vulgar) espontaneamente projecta, à sua maneira, os versos. Mas, porque isso é insuficiente para criar poesia, é necessário reflectir sobre o verso, usar a inteligência (aqui já temos o poeta num plano superior ao vulgar) e sujeitá-lo à emoção rítmica que produz os cortes em obediência a uma regra exterior: é o uso dos artifícios - ritmo, rima (pretendendo-se o verso rimado) e a estrofe. «Um poema é a projecção de uma ideia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a ideia se serve para se reduzir a palavras.» (Ricardo Reis, Arquivo Pessoa). É o ritmo no verso livre (aquele que está sendo objecto de estudo) que determina a separação do verso. O poeta, quando no plano superior, pensa harmonicamente a ideia que vai produzir a emoção; transmite-a, depois, através do sentimento, à frase dando-lhe o ritmo e é este ritmo que impõe, com maiores ou menores pausas, a quebra do verso. Por outras palavras: quando o pensamento do poeta é formado pela ideia que produz a emoção, transmite-se sentimento à frase e ao ritmo e, dessa junção (ideia e emoção) produz-se a harmonia. É esta harmonia que determina o fim rítmico do verso livre com pausas maiores ou menores, consoante a vontade laboriosa com que o poeta criou o verso.
O fenómeno poético do poeta moderno (e agora o pós-moderno ou contemporâneo, não se sabendo bem onde acaba o primeiro e começa o segundo) expressa-se, como sabemos, nas possibilidades internas que nos fornece a linguagem: ritmo, sonoridade, ambiguidade de sentidos, organização de imagens em associações criativas e abandono das regras e modelos (clássicos) antes impostos à poética. Como cultor do verso livre que sou, nascido ele com Walt Whitman e continuado por tantos outros, entre nós, como Álvaro de Campos e outros mais próximos da actualidade, como Joaquim Pessoa (homenageado no verso livre num passado não muito longínquo numa edição russo-portuguesa pela obra "VOU-ME EMBORA DE MIM"), aqui deixo, como fim de texto, este pequeno fragmento de um longo poema que constitui um encadeamento de recordações deste poeta, meu contemporâneo.
«(...) Apanho um comboio e um barco, viajo para lá do acontecimento
que é sentir-me ser de ali. Vou-me embora de mim.
Este diálogo não acabou e não acabará nunca. Vou
com os camponeses da cidade, feliz como um animal doméstico,
por vezes como um cão vadio no inverno, cuja felicidade
é apenas atingir a primavera seguinte.
Vou com as gaivotas que procuram a vida
nas milhares de toneladas de lixo da civilização. Vou também
com a dor de todos os massacres e com os missionários confortáveis
que querem governar o mundo sem saber governar o próprio estômago.
E vou ainda com. E com. E com. E com.
E vou ainda.»

Joaquim Pessoa em VOU-ME EMBORA DE MIM




Alvaro Giesta (não escrevo segundo as regras do denominado actual AO)
Texto já publicado em Novembro de 2016 na revista online BIRD. Reservados é direitos do autor nos termos da lei.

24/06/17

O MITO DAS RAÇAS

«Lutar contra o racismo, para citar uma alegoria do filósofo americano Rudolf Carnap (1891-1970), é como tentar consertar um barco que navega no oceano agitado por uma tempestade.», diz-nos Pierre-André Taguieff, filósofo e cientista político francês do Centro Nacional de Pesquisas Científicas, em entrevista concedida à revista Super Interessante, edição 66, de Março de 1993.
______
- este artigo retrata, apenas, uma opinião do autor Alvaro Giesta
______

Cada vez mais se me afigura de difícil resolução o combate que se trava contra o mito das raças, que alastra, quer no âmbito do conflito religioso (cada vez mais sangrento pelo fanatismo das religiões que são transversais ao mundo actual, fanatismo incompreendido para o homem que se diz civilizado e temente a Deus), quer no âmbito de políticas divisionistas e raciais que teimosamente insistem no conceito da raça - superior e inferior - que simplesmente não existe, e investem, de forma destrutiva, em formas de resolução, que não passam de hipócritas e oportunistas tentativas.
A lei dos tempos actuais, e com razão, insiste em que, se não existe o conceito de raça, maior razão há para que seja eliminado o racismo pondo termo às velhas teorias de raça. Pura ilusão! Não há nada de mais demagógico do que dizer que é possível eliminar a palavra "raça" terminando com o conceito rácico. E porquê? Porque a palavra "raça" não é apenas mero conceito. É uma realidade mais do que simbólica, porque é um termo de linguagem que identifica as várias pessoas pela sua cor da pele. E, negarmos esta evidência, é navegarmos num universo de pura hipocrisia.

Por muito que nos custe, por muito que repugne o "homem bom, não oportunista e civilizado", não nos podemos alhear de que a realidade da "cor da pele" ou do "aspecto dos cabelos", existe. E, existindo - mas não o devendo ser, acentuo -, esta realidade não deveria ser motivo de diferenciação e distinção social, de segregação e estigmatização. Mas, infelizmente, não nos podemos alhear - e, fazê-lo, seria pura hipocrisia demagógica, repito, porque ninguém se consegue abstrair e alhear desta realidade - de que a cor da pele e o aspecto dos cabelos é o grande motivo de segregação.
A noção de "raça" existe, ainda que os cientistas continuem a afirmar de que tal é um mero conceito. E ela é o grande motivo divisionista. Ainda que me force em pensar, com a tentativa de destruir a tese anterior e de me fazer crer a mim mesmo, ser pensante, que, actualmente a noção biológica de desigualdade entre os seres não se põe com a mesma acutilância como o racismo cultural ou diferencialista, neste caso, como as etnias, as culturas, as religiões. Não se hierarquizam, tanto, como até à época hitleriana, em raças superiores e inferiores, em negros e brancos ou amarelos, mas esta ideia de "raça" é imanente ao ser; ao "todo ser"! Sempre assim foi e será. Não apenas àquele que se  julga diferente quando nasce e com direito à diferença negando a igualdade - o que é um absurdo!-, mas ao "todo" ser humano. Esse pensamento de "raça" está compreendido em toda a essência de todo o humano. E negarmos tal evidência é navegarmos num mar de hipocrisia.

A nossa hipócrita sociedade actual, e não apenas a sociedade política, vangloria-se de que cria "fundações" com vista a promover a igualdade de oportunidades para todos. E debate-se com propósitos que não passam disso mesmo: meros propósitos panfletários propostos para angariarem meios e fundos com vista a ampliarem, quantas vezes, partidarismos criados com fins obscuros e indefiníveis, que passam, tão-somente, por políticas que se fundamentam na luta racial mas que, em boa verdade, não vão além de contínuas lutas de classes, que proliferam no mundo. Porque sendo o «racismo e o capitalismo duas faces da mesma moeda» (Steve Biko), o regime de guerras e pobreza, de miséria e opressão, a força da exploração humana usada pelo sistema capitalista que diz renegar a luta de classes com a criação de bolsas para os estudiosos se debruçarem sobre o problema da "luta racial", mais não serve, tantas e tantas vezes, do que os seus próprios interesses capitalistas que usam a opressão e exploração para dividir e reinar. Isto não é mito nem ficção ou telenovela. É a crua realidade encapotada, tantas vezes, com (falsos) propósitos de fins humanitários.

E aqui se reforça a alegoria do filósofo, com que se abre esta crónica: «lutar contra o racismo, é como tentar consertar um barco que navega no oceano agitado por uma tempestade». Assim se (me) afigura de difícil resolução, quiçá, impossível resolução, o combate que se trava contra o racismo.

_____________

© Alvaro Giesta (artigo publicado na revista on-line BIRD em Novembro de 2015)

Um olhar sobre o MAR DOS SENTIDOS (poesia)

José Luís Outono “MAR DOS SENTIDOS” (chancela Edições VIEIRA DA SILVA, numa edição de 2012) – Opinião Literária © (não escrevo segun...