08/09/16

O DISCURSO DOS PÁSSAROS (caderno N.º 2 da Coleccção Giesta) - € 5,00 c/portes incluídos

um pequeno-grande poema em 30 fragmentos
Autor: Alvaro Giesta

voo sem asas

1.
passeia-se o ser
entre a voz da loucura e a voz do génio.

perturbam-no místicos céus,
neles há mistérios insondáveis
por descobrir.

desce a rua em hiberno sono
até ao fundo longínquo da cidade adormecida.

2.
na memória
há relâmpagos fulgurantes
que se estilhaçam como línguas
de fogo

na indecisão dos dias
frios e crua.

dizem dele que é alguma coisa
entre o génio e a loucura,

(...)

8.
voláteis são as pétalas
que sobrevoam o corpo do ser
na ausência desse mesmo corpo,

e cortam as asas do vento
rente à superfície do tempo
onde adormece.

9.
quando acorda
os músculos negam-se a ser testemunhas
destas metamorfoses desesperadas,

(...)

11.
faltam-lhe as asas,

e nelas as remiges com que lhe sustentam
e dirigem o voo
para o infinito desconhecido.

12.
se tivesse asas (absurdamente pensa)
saboreava num voo plano e pleno
os aromas da tarde
quando tórrida vertesse sobre
a couraça do ser-ave em que se quis
neste horizonte de inquietações e lágrimas;

depois à noite
mergulharia no poço sagrado da palavra
que todos os dias faz verter
o grito inquieto do voo.

o poeta em frágeis aspirações

17.
ergue o poema
quando
o eclípse se ausenta num gesto
tímido do mar...

ergue-se a voz do poeta
num movimento lento do areal,

onde
as ondas são a transumância do corpo
sedento de ser
que se move em ondas de loucura
nestes gestos da criação

18.
há metamorfoses de medo e solidão
no corpo em que se transmuda:

nele se revivem enigmas (...)
nele se transforma a voz (...)
nele se conduzem notívagas aspirações

no silêncio necessário
para o acto da criação.

28.
(...)
ergue-se a palavra

(essa namorada extraviada do silêncio)

na inesperada onde que nasce
entre a voz da loucura e a voz
do génio: a voz que cria.

29.
a voz que se ergue
da sombra...

nela se interrompe e se começa
nele se busca e se encontra,
ela se inventa num sempre novo navegar;

ela se dá conta de si
e diz que é preciso criar.

no seu silêncio nómada
descobre primaveras na face oculta da sombra
quando dela refulgem laivos de luz
como se fosse a religiosidade do sol
a anunciar o caminho.

3..
murmura o silêncio da noite grandezas
até aí subterrâneas;

acordam vozes submersas no poeta
que fecha os olhos e da sua enorme floresta interior
nasce a imensidão do verso.

cria, assim
da religiosidade da palavra
a força da árvore e do céu.




OBLÍQUO É O TEMPO (caderno N.º 1 da Colecção Giesta) - € 5,00 c/portes incluídos

um pequeno livro com 30 pequenos-grandes poemas
Autor: Alvaro Giesta

marcas do tempo

1.
o tempo deixa no homem marcas
gravadas como precipícios
para toda a eternidade

(...)


2.
correm nas mãos estas marcas
como línguas de fogo sagrado
num cortejo sábio
que a ferocidade do tempo
esculpiu no marulhar incessante da vida

(...)


3.
sincronicamente se ajustam
esses pedaços de tempo

(...)


4.
(...)

esses estratos-milénios
são como cassiopeias que irrompem
do lodoso-chão para a clara luz


5.
são rastros-registos marcas-memórias
cadastros que ficam para sempre
(...)

há sempre uma cidade escondida
(...)
na linha ininterrupta do tempo


(...)


14.
criei em mim a ideia de dizer
do tempo e ao tempo

(...)

que (...)
deixa nas veias o sangue da memória
e ogivas de dor
no corpo
a perpectuar o passado

15.
(...)

- sinto o rumor do tempo
pelo silêncio desta velha casa
murmurar



brado ao tempo

1.
tempo
escrevo-te hoje para te descrever
assim:
- metade do tempo como nós
outra metade bem pior
sempre igual a ti mesmo
ruim

colo o meu tempo por cima do teu
e que vejo nele?
tatuagens
sobre as mesmas tatuagens
coisas doutro tempo longínquo
que este actual esqueceu

12.
ergo este poema
nas linhas do corredor do tempo
onde habitam o fragor do mar
e a escuridão da noite

escrevo
com tinta mais negra que o breu

aqui espero pela luz suave e cândida
da devastadora beleza do mundo

repara na (im)perfeição das coisas

13.
mesmo que o teu corpo tangível
rebente de tédio
na invenção do tempo e do mundo

mesmo que o sulco deixado
pelas palavras no branco papel
nada te digam

mesmo que penses que eu deixo aqui
excessos de nada

mesmo que uma língua teimosa
tolde de penumbra o teu Sul
abre este longo poema e lê-me

14.
quero que saibas
que apesar de todos os revezes
que o tempo sem fim e a vida tem
sempre há Sul dentro de nós

ou pelo menos sempre se faz Sul
dentro de nós Sul-Sol-Calor

15.
calor também pois claro
porque não há Sol sem Sul e sem Calor

ainda que mais das vezes o sul
tenha fome
e crianças estropiadas
e órfãos
e mutilados de guerra

que sendo do sul jamais saberão
o calor e a luz que esse sul pode ter.



Os cadernos da Colecção Giesta

Título: O DISCURSO DOS PÁSSAROS
Autor: Alvaro Giesta
Colecção: os Cadernos da Colecção Giesta

1.ª Edição: Abril de 2016
© Alvaro Giesta - Todos os direitos reservados

Editor: Fernando António Almeida Reis
Concepção Gráfica e Paginação: Fernando António Almeida Reis

textos breves da “Colecção Giesta
N.º 2 - O DISCURSO DOS PÁSSAROS
Tiragem: 300 exemplares

ISBN: 978-989-20-6575-5
Depósito Legal N.º: 407992/16

 CDU 821.134.3Giesta, Cadernos Colecção.02

EDIÇÕESautor
(edição e impressão)
A. José Almada Negreiros, Lt 2-3º Esq
2835-008 Vale da Amoreira

alvaro.giesta@gmail.com
fereis@netcabo.pt
http://www.tambemescrevo.com

Esta edição acabou de se imprimir em Abril de 2016
e dela se fizeram 300 exemplares numerados  de 00 a 299
e assinados pelos autor.


Exemplar N.º 00

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(Série Poesia)
1. Oblíquo é o tempo [um poema para os povos do sul]
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