22/08/15

Posfácio ao O Retorno ao Princípio
por Fernando António Almeida Reis (ortónimo)

Nota introdutória
Na qualidade do meu verdadeiro nome, Fernando A. Almeida Reis e na sequência das tertúlias poéticas levadas a cabo pelo Clube de Poetas KAFÉ-KAFKA/BVQ, a cujo núcleo pertenço, produzi o ensaio subordinado ao mote "Dialéctica Vida-Morte" (aqui reproduzido apenas na parte a que diz respeito a Alvaro Giesta meu pseudónimo literário e autor deste volume), tendo por base os poetas Antero de Quental (sec. XIX), Manoel de Barros, Hilda Hilst, Fernando Echavarría e o já citado Alvaro Giesta, todos do sec. XX, levando em linha de conta que os mesmos se debruçaram, na sua poética, sobre esta inquietante problemática.
Pela motivação que o mote tertuliano produziu, em mim, como poeta Alvaro Giesta, levou-me a escrever o "O Retorno ao Princípio" (numa dialéctica Vida-Morte), que ora dou por reproduzido, não sem antes deixar aqui e em nota de fim do livro, aquilo que ao último poeta em estudo diz respeito, tema tratado tão audaciosamente e com estupefação recebido pelos assistentes ao evento.

Corpo do ensaio

Um dos “papéis” da arte poética é expressar sentimentos humanos e transmitir, de forma subjectiva, aspectos da nossa realidade – medos, angústias, anseios, desgraça, pobreza...  tudo quanto seja marginal e que, a maioria dos nossos poetas de hoje fogem a retratar.
O novo, o desconhecido, é algo que nos assusta enquanto seres humanos em quem o receio está presente, em quem a expectativa é uma constante aliada ao medo da dor e da dor na morte que ela nos possa causar. E como vamos nós pensar nesse desconhecido que começa onde a vida acaba e a morte começa?
No fazer poético de alguns poetas, a Morte não é o fim de um ciclo. Ela é transmutação. É apenas o trânsito, a passagem breve para outra vida, passagem ainda que fatal, pela fatalidade que o fenómeno Morte encerra, um ponto de passagem, obrigatório para todos os seres vivos. É apenas a passagem para outra vida, com princípio no próprio fim. Ela é, não deixando apenas de ser o fim, também o princípio que começa onde esse fim termina.

Aqui falo do pensar e fazer poético de Alvaro Giesta, meu pseudónimo literário, que não tendo rigorosamente nada a ver, nem eu, na qualidade de escritor, nem o meu pseudónimo na qualidade daquilo que ele é - o poeta-, com o pensamento de certas religiões, a que sou literalmente avesso. Enquanto poeta Alvaro Giesta, a liberdade da palavra, no uso poético que lhe dou, permite-me, aqui, filosofar um pouco acerca da morte. A morte, que é a garantia da ordem no mundo dos homens, que é o que concede o diálogo, pois, no mundo humano adquire-se a vida através da morte. Só, assim, a vida tem sentido.

O filósofo Maurice Blanchot dizia que "a morte é a base de todo o alicerce humano diferentemente do que ocorre no mundo literário". No texto poético as palavras adquirem uma maior liberdade pela soma inesgotável de temas que se nos propõem à imaginação trabalhando a matéria desses temas com a arte poética que eles merecem. Daí que, considere, que não há morte em literatura. A impossibilidade da morte diz respeito ao não-fim. Ou seja, a finalidade da morte que nos surge diariamente na linguagem normal das evidências, não existe na linguagem poética. Mesmo quando poetas como Fernando Echevarría nos dizem que a morte é o fim e que, para além da morte nada mais há senão o fim; o nada; o vácuo.

Mas é exactamente esse fim poético que vai dar origem a novos olhares na poética de Alvaro Giesta, no tema Vida-Morte, à tal "espuma" de Echevarría que lhe foi princípio. Porque, no seu entendimento, é no nada e do nada que nasce a linguagem poética; é aí, no preciso lugar "onde a luz e a obscuridade coincidem e se transformam", que se dá o acto inaugural da palavra. À semelhança, e contrariando Echevarría que na sua linguagem mais filosófica que meta-poética diz que para além da morte nada mais há senão o nada, a morte, em Giesta, é o retorno ao princípio a partir do nada onde se dá o acto inaugural da vida.
A linguagem poética, neste caso na enfatização da morte pela palavra, não procura uma finalidade, uma explicação, não procura atingir algo, atingir um fim - isto, é para as religiões e seitas. Na linguagem poética a palavra não morre. A palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque "a palavra é a vida dessa morte", como nos diz o filósofo Maurice Blanchot e o poeta Alvaro Giesta, num dos poemas iniciais de "o Retorno ao Princípio".

" eis / o invisível monumento / da lucidez: // onde a luz acabou / reacendeu-se / a vida; // o timbre  / afina-se / ao abrir duma janela / que antes de estar / aberta / se abriu // erguem-se do silêncio / as almas / em centrífuga abstracção... // onde / o vento / exunda a escuridão das águas / e cresce / a exumação das coisas inúteis, / há / a elevação das almas/ ao infinito-além "

Como se vê neste poema, há no autor Alvaro Giesta, como dialéctica existencial, um horizonte de expectativas enquanto epifania possível de um tempo novo. Não tendo nada a ver com qualquer tipo de credo religioso, é apenas a sua expressão mais alta no fazer poético em que se debruça Alvaro Giesta neste tema Vida-Morte que lhe inspirou o livro poético, ora em apreço e chamado O Retorno ao Princípio.
Aliás, esta experiência neste autor é como que uma vontade subjectiva de atenuar o sofrimento comum a todos os mortais, principalmente aos camponeses enterrados por uma vida nas serranias do nordeste transmontano, que lhe é a sua origem, para quem a morte é dor no luto com que vestem a alma e o corpo, muitas vezes para o resto da vida, mas também, esperança de que para lá do fim comece um novo princípio mais radioso.         
É como que uma praxis criadora inspirada na fé de todos os domingos nas capelas das aldeias onde enchem os bolsos aos padres com promessas que lhes vendem na expectativa de um mundo melhor e mais justo e um lugar cativo no céu, enquanto  rasgam os joelhos em penitência no culto aos seus mortos que, por detrás da mesma capela muitas vezes repousam.

A felicidade, na descrição da morte para o poeta Alvaro Giesta (felicidade nos moldes em que ele a descreve), quando "em erráticos poemas" poetisa o momento em que seu pai descansa no esquife, ainda que sendo ela, fim, este fim não deve ser equiparado ao términus, no sentir e no querer poético do poeta, enquanto Nada e Morte mas, sim, enquanto “fim no começo”. Ela, a morte, para o poeta, é o princípio, é a busca do Além, é o retorno ao princípio. E ela será felicidade, ligada à esperança no pressentimento do Bem-Supremo.

A morte é o tal "monumento invisível" onde a luz se reacende, é o tal "abrir de uma janela / que antes de estar / aberta / se abriu " e donde "se erguem /as almas" e "se elevam / ao infinito-além".
É a tal praxis criadora inspirada na fé num deus que, embora podendo não ser o seu (e seguramente o não é), é o daqueles desvalidos que n’Ele acreditam; aqueles, que o poeta canta; aqueles sobre quem ele se debruça; aqueles por quem ele, poeta, se outra. É a imaginação do poeta na busca incansável do inalcançável, na busca de vencer o fracasso, de vencer a morte. Quantas vezes o poeta até faz lindos poemas sobre a feia morte… prefaciando o poeta, "o poeta é um fingidor".

" desprende-se / para destino enigmático, / do âmago do corpo / extenuado, / a alma sedenta de glória / noutra esfera. // a barcaça da morte / atravessa /o lago escuro da noite, / onde tudo acaba / e começa / novo dia, // a substância, / em maturação inclina-se / no seu propenso vagar
para a glória da morte, // e dela / em glória renasce / em novo dia, / sendo que do seu fim / acontece todo o princípio. // deslumbra-se, / do corpo que se desintegra, / agora / a alma / que se difunde no abstracto / devir."

Vida e Morte são interdependentes. Existem simultaneamente. Uma não existe sem a outra. Ou melhor, existencialmente, Vida e Morte fundem-se uma na outra. A morte ronda continuamente a vida, é um facto contínuo na própria vida, pois “morremos ao nascer; o fim já existe desde o começo”. Já Sócrates, condenado pela cicuta à morte, quando a sua mulher correu aflita para a prisão gritando-lhe; “Sócrates, os juízes condenaram-te à morte!” ele, o filósofo, calmamente respondeu: “Eles também já estão condenados”. Filosofando, preparou-se para a morte. Porque, como dizia Santo Agostinho, “é somente em face da morte que nasce a individualidade do homem”. Afinal, Freud tinha razão quando dizia que “a morte é o final necessário e inevitável da vida”. Vida que, se a quiser suportar, me tenho que preparar para a morte.
Desde o instante em que nascemos, começamos a morrer; cada dia vivo é um dia a menos nas nossas vidas, na nossa existência. É a nossa condição existencial. Porém, sendo a morte um dos fenómenos inevitáveis, o poeta não deve deixar de reflectir na sua finitude como ser humano. Mais uma vez o entendimento do poeta Alvaro Giesta que tem da morte a ideia como causa necessária da vida:

"morte / doce irmã do sono / descanso fatal da dura vida… / liberta-se o espírito / com o som e a cor da morte. // desperto da ilusão–ideia / neste puro entender / o enigma da morte não–fantasma… / olha-se pela ideia / de que a morte é libertação."

A morte, em poesia, é um dos temas actuais muito pouco tratados mas que nos devia merecer pesquisa e preocupação. Principalmente porque, se ela nos amedronta, também é ela, porque existe, que nos dá a única e definitiva certeza da vida. E, se para uns é esperança de um novo princípio, mais radioso, ainda, para outros poetas, como Fernando Echevarría, ela também é certeza do desgaste que a idade não perdoa.
(...)
Quando me decidi a escrever sobre o tema, pensei que isto até seria uma brincadeira séria. Mas, ao mesmo tempo, até me assustei ainda que eu goste de esgrimir com a morte. Já a senti, por vezes, sob dois aspectos: quando em guerra, assustadora; quando em situações de doença de difícil entendimento clínico ou noutras situações de desespero e desilusão, convidativa. Apelativa, até! Também tive ocasiões em que vi a vida morrer-me nos braços, ensanguentada, horripilante e aí senti a morte repulsiva e indesejável. Misteriosa, quando não se sabe porquê! Porque é que ela nos bate à porta, logo a nós e nessas ocasiões.
Foram estes diversos factores que me fizeram autopsiá-la quanto à poesia. E procurei poetas que lidassem com a morte com o mesmo à vontade com que, de permeio, lidam com o amor – o elo aglutinador que estabelece pontos de confluência nesta dialéctica dizível VIDA – MORTE.

A morte, para os crentes num mundo melhor, é sempre “passagem para uma vida definitiva” – assim a decifrou S. Paulo; já Eurípedes, o trágico poeta grego, reflectia que “morrer deve ser como não haver nascido / e a morte talvez seja melhor até que a vida / de dor e mágoas, (…)”; ao contrário, Fernando Pessoa considerou-a um “enigma”.
Seja como for, a realidade é que a morte é um facto – é o cessar completo e definitivo de vida de um ser vivo – que muitas vezes se deseja sem medo, bem diferente desse que se sente quando o morto-vivo permanece ligado à vida através daquelas máquinas complicadas e tubos a emoldurar a cama em que se deita, sem saber que ali está naquele estado vegetativo.

Em Alvaro Giesta é algo desafiador interrogar a morte, desafiar a morte, desafiar esse limite do homem sobre o controlo da natureza… talvez esse sentimento de inconformidade tenha a ver, não com o medo da morte propriamente dita, mas com o medo do sofrimento físico e emocional decorrente dela; medo da dor, da incapacidade física, da incompreensão dos outros homens válidos, da falta de liberdade de poder ser, por si só, medo da solidão.

(...) na penúltima peça sobre o autor Alvaro Giesta no enigma Vida-Morte,  vê-se a sua coragem ao enfrentar o fim no seu “Testamento à Morte”, que aqui, pela sua extensão, não se dá por reproduzido. Nele, patente, o desabafo–desespero final do poeta diante da irreversibilidade no curso das coisas que nos atingem em níveis muito profundos e diferentes; a descrença no divino e a vontade de não sofrer quando a doença incurável é a marca irremediável neste percurso da finitude humana.
Não é o negar da morte neste seu poema omitido, neste momento de cultura contemporânea; é, outrossim, ousar falar dela com coragem, imaginá-la, compreendê-la e aceitá-la. Mas também é um não-crer que a morte unifica e reforça os laços de amizade. Ideias da morte e dos seus rituais como aspecto da sociedade que podem unir pessoas ou separar grupos, não está na perspectiva poética de Alvaro Giesta. Mas também não é vontade do poeta que enfatize a morte com sentimentos de dor, que muitas vezes é uma dor fingida, nem com rituais de exploração do corpo, em fim de vida, que perspectivem uma busca do conhecimento que passa pela sensação da impotência científica.
(...)


Fernando A. Almeida Reis, ortónimo

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