22/08/15

Alguns poemas de O Retorno ao Princípio

eis o invisível monumento

da lucidez:

onde a luz acabou
reacendeu-se
a vida;

o timbre afina-se
no abrir duma janela
que antes de estar aberta
se abriu.

erguem-se do silêncio
as almas
em centrífuga abstracção.

onde
o vento
exunda a escuridão das águas
e cresce
a exumação das coisas inúteis,

a elevação das almas

ao infinito-além.

*

nesta persistência
sombria
do afastamento;

na lúcida passagem
das pulsações,

a morte
tal perfume de estrela
ausente
visita o nascimento.

eu, noutra parte
fecho as pálpebras na misteriosa
bruma,

tu
noutro céu levante
crias de novo
a partir da espuma.

*

naufraga-se num sono

eterno.

onde se ergue
a transparência da solidão
do espaço,

arde,
na fulgidez celeste,
longínqua chama
a despedir-se
da alma desavinda.

inaudível é a força
e estrépita!

emerge
depois, a alma
para fúlgida esfera.

*

desprende-se

para destino enigmático,
do âmago do corpo
extenuado,

a alma sedenta de glória
noutro céu.

a barcaça da morte
atravessa
o lago escuro da noite
onde tudo acaba
e tudo começa.

exaurido
todo o tempo anterior,
refulge
prenúncio de novo dia.

*

a substância

em maturação inclina-se
no seu propenso vagar
para a glória da morte,

e dela
em glória renasce
em novo dia.

do seu fim
acontece todo o princípio.

deslumbra-se,
do corpo que se desintegra
agora,
a alma
que se difunde no abstracto
devir.

*

eis a transparência

da morte,
na partida e obstáculo
para novo espaço:

aqui se funde
e se transforma
em movimento.

que seja coincidente
o silêncio
e a falta dele
e que ao cair se levante
e caminhe,

mesmo que aí termine
o seu andar.

onde tudo termina
se ascenda ao princípio.

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