13/03/11

atolado e imóvel

Persegue-me uma subtil Luz
no fundo do túnel
onde me encontro
afogado.
Imóvel
nesta terrível procura,
algo em mim se recusa a sair
das areias movediças
em que me vejo atolado.

10/03/11

Não posso adiar!

Não posso adiar por mais tempo o meu grito.
Deixem-me gritar.
Deixem-me estas amarras romper.
Não me roubem o meu grito
nem a possibilidade de gritar
e dizer.

(...)

Não posso adiar por mais tempo o meu grito.
Não posso!
Não me amordacem
que eu não me deixo por ninguém amordaçar.
Deixem-me só mas com a minha liberdade…
Não me impeçam de gritar.

Não me enlouqueçam…

…nem ais, nem gritos de raiva, nem dores
nem estrondos de granada.

Deixem-me antes nas sombras
sozinho, sem nada.

Despido de tudo, de tudo, mas mesmo de tudo!
Deixem-me apenas com a palavra
e papel e caneta para gritar
o meu grito sem lágrimas nem ais.
Deixem-me apenas isto
e nada mais.

É preciso mudar as telas

as cores as letras
da vida
é preciso mudar o amanhã
é urgente mudar o amanhã
e encerrar de vez estas entranhas
que doem de revolta e cansaços.

É preciso acabar com os elogios
que não servem
de nada
é preciso continuar a gritar
é preciso percorrer e desvendar
os caminhos da verdade
com firmes passos.

Não me vendo

jamais me venderei
nem mesmo dentro do caixão.
Haja o que houver!
Sei
que é nesta perdição
pecaminosa
que me vou perder.

Busquei na vida
a luz que nunca vi
e me prometia o eterno.
Nessa busca incessante
me perdi
e tive como resposta
o regresso
às sombras deste inferno.

Inutilmente a manhã na fronte

perde-se
em rugas de sulcos fundos
que repousam seus gentis gomos
nos cílios fluviais dos trilhos das margens
duras da vida

Ao lado o rio que corre…
E inutilmente o ciclo que arrefece
(...)
chicoteado pelo esquecimento
Ali gesticulam efémeros gestos de prazer…

Ali, a dádiva emprenha o ventre virgem
no galopar do vazio do tempo
(...)
da noite que só
álgida
se cobre da ausência da luz

A noite trazia aragens

e orgias de medo
no voo frenético dos sexos

… e eu,
solitário com os ossos nus do crepúsculo
a esvair-se em rubro sangue…

Pressinto o mar à distância e os sulcos
da chuva ácida
queimam-me as veias
e estiolam-me os ossos

Prolegómenos sobre “Na Teia do Esquecimento” de Antero Jerónimo

Doem-me as mãos com que te escrevo estes versos… É do peso da espingarda, é do canto que se obrigam a escrever ...