15/05/17

PARA ALÉM DAS PALAVRAS

- prolegómenos ao fenómeno imagético na poética de Fernando Lobo (assim dei por título a esta especulação de leitura, do pouco que me foi facultado para ler e apenas pelo autor na obra «... no corpo do tempo»).

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Começo esta leitura crítica da poética de Fernando Lobo, com uma "espécie de recado" aos três intervenientes no processo da escrita: o autor, o leitor e o editor.

Eis o eterno dilema dum escritor ou poeta que o deseje ser numa perspectiva literária e inteira:
-       Quando escreve, seja prosa ou poesia, tem que ter em mente que o mais importante é interessar o leitor. Seja em que tempo for, sem o sujeitar a modas e sem impor ao leitor o seu gosto pessoal; seja hoje, amanhã ou daqui a cem anos.

Há por aí muitos poetas que dizem que, quando escrevem, para si próprio o fazem. Nada mais falso. Isso é utopia... às vezes vaidade encapotada com a falsa modéstia. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, ainda que temporariamente, sem o diminuir, escravizando-lhe a atenção para que lhe gabe a escrita ou, doutro modo, escrevendo à medida do leitor que pretende lisonjear, recebendo, como moeda de troca, igual galhardete. Se assim for, diminui o leitor comum que o lê, e desprestigia-se, a ele, como escritor. Se assim for, apenas ao "seu leitor", que o bajula, interessa o "produto" que lhe impinge, rejeitando-o o leitor inteligente e criativo.
Quando o leitor comum, e não aquele "seu leitor", abre o livro que tem nas suas mãos e se dispõe a lê-lo, não é a ele que compete decidir se o vai ler até final. Não. É ao escritor, ao poeta, ao autor compete levar o leitor até ao termo do livro, através da sua arte de escrita.
Aqui, na acção do autor que talha o objecto da sua arte, é que difere a boa leitura da má. Mas, os leitores também têm algo muito importante a dizer no seu acto de leitura. E é isto que faz com que haja muito mais literatura má, do que literatura boa.
O leitor tem sempre o direito de escolha e de oposição. Tem sempre o "poder" de poder dizer se aquele livro lhe serve ou não, lhe agrada ou não, o prende ou não à leitura. E compete-lhe abandoná-lo no primeiro contentor do lixo que encontra ao dobrar da esquina. É o papel ingrato do escritor que não tem como cobrar ao leitor o seu acto de rejeição. O escritor está sempre amarrado de pés e mãos ao leitor. É o escritor que é prisioneiro do leitor que deve ser bom leitor, inteligente e criativo leitor, que deve comprometer-se, com honestidade, com a sua boa leitura para não enganar aquele que escreve mal (muitas vezes que se diz seu amigo do peito) fazendo-o pensar que é um bom escritor, o que acontece em mais de 50% dos leitores.
São eles, esses maus leitores que também se dizem críticos, muitas vezes com responsabilidades académicas, acrescidas pelo "canudo" que dizem terem defendido em tese universitária e prémios que ostentam, são esses maus leitores-críticos muitas vezes empurrados pelos negociadores editoriais, que trazem enganados os maus escritores, fazendo-lhes crer que "são bons" enquanto lhes interessa aos fins que têm em vista, relegando para segundo plano outros que, esquecidos propositadamente e por incúria e culpa, também, dos editores, que deixam de os promover, poderão ficar esquecidos na cinza do tempo, por tempo sem fim, ou até que a dedicação de outros espíritos os compreendam e se lhes dediquem em estudo, porque lhes reconhecem, finalmente, valor.


Após este intróito, debrucemo-nos sobre a poesia do autor, em apreço:
A poética de Fernando Lobo não é coisa simples de entender, como convém, aliás, à poética que se pretende literária. É que não é poeta quem quer, mas sim aquele que nasce com a veia e sabe cultivar a palavra, usando os artifícios necessários à especulação do fenómeno poético, pela organização de imagens em associações criativas, dando o essencial significado à poesia.
A exuberância do verso e do verbo, mais que a densidade da obra, a imagética metafórica com que lavra o verso, que prolifera em mil hipóteses exploratórias e inquietas ao longo do poema que se enraíza no todo da obra - metáforas quase em excesso, dizemos nós, leitores atentos -, esta metapoética habilmente construída, este enredado urdir do verso neste fenómeno poético, às vezes num processo circular, como se fosse numa digressão ao tempo, sempre com a ideia de retorno ao princípio exploratório, é que confere o verdadeiro valor literário à obra. Mais que a nebulosidade da escrita mercê da capacidade inventiva do autor, que contribui para a dificuldade de entendimento do objecto poético, é a ânsia da descoberta do que está por detrás de cada palavra metaforizada - isto não desmerece o autor mas, sim, enaltece-o, quiçá em desfavor do leitor que, com algum ensejo de leitura de natureza crítica, receie não lhe prestar os louvores merecidos.
[Foi o que me aconteceu a mim. Devo confessar que me foi muito difícil compreender a intenção das obras, mormente o título " No Corpo do Tempo", se bem que a cada leitor é permitido especular a obra, e da obra do autor e ter a sua interpretação, especialmente quando a obra é metaforicamente poetizada. Cheguei a pensar que me começavam a faltar os atributos necessários para entender obras que falam pela subjectividade, que dizem pela liberdade poética do autor. Também não é menos verdade que cada autor e leitor tem para si, da obra, sua opinião própria e seu entendimento, e que nenhum é igual ao outro. Nasceu-me a coragem necessária para esta "opinião" que não pretende ser crítica literária.]
O poeta, em "No Corpo do Tempo", como se fora o "citadino" vulgar, "um pedaço de tecido urbano", tal malha da vestimenta do tempo e no tempo, vê-o com a inquietude própria das inquietações (passo o pleonasmo) desse tecido urbano que busca no tempo um tempo-outro, regenerador e regenerativo dos sentidos e dos sentires - é a alma do poeta em expectância pela chegada do novo tempo. Como ele diz "nasce em mim a necessidade balsâmica / de alcançar os olhos da carne / nos remanso das falésias". Este contraste evidenciado na imagem do remanso das falésias, é como se fosse o regresso ao tempo-passado, com esperança de projecção no e num tempo-futuro, que se adivinha íngreme, porque nenhuma subida é suave; talvez seja até o tempo histórico, a fonte regenerativa onde o poeta renasce (re+nasce) fortalecido pelo balsâmico som do tempo - a tal necessidade balsâmica das falésias, que sendo de difícil escalada são também o bálsamo - como se fosse "matiz litúrgica" a dar alívio à alma do poeta citadino que se sente "engolido" e aprisionado "pela monotonia / e pela consciência do tempo dos campos", o tempo da ampla liberdade sem escalas e sem fronteiras ou limites.
É a inevitabilidade do tempo do poeta como se fosse a procura do tempo primordial, que a memória teima em recordar e a vontade quer ser e ter. Sempre o inevitável tempo: o tempo actual perdido (mas presente) no "ciclo das rotinas". E o tempo passado, o tempo das horas, confundido "com a passividade (...) dos homens" a inventar o sonho - "sonhos" que sejam capazes de vencer "a fúria / das tempestades". Esse tempo que o poeta compreende e dá a conhecer na sua maneira metafórica de o contar pelo tempo das horas do relógio, mas não aceita - parece recear "que o outono venha mais cedo / quando o verão" ainda existe no corpo do poeta.
É a inevitabilidade do tempo-matéria, sem remissão, como o corpo do homem que segue inapelável o seu destino. O tempo: um itinerário de ventos, de memórias, de passos soltos na vida - vestígios de ontem, hoje e sempre, como se fossem fantasmas solitários, erguidos contra as vozes de silêncios perturbados. E o homem-poeta, exausto, cansado e obscuro mas sempre obstinado em dizer do tempo e ao tempo, que ele é fogueira acesa que revitaliza e não o deixa naufragar.
Metáforas e imagens soberbas a emoldurar o No Corpo do Tempo. Repare-se que a roupagem poética da obra nada tem de simples, dada a capacidade inventiva do poeta Lobo, que se move, habilidosamente, entre versos soltos e brancos (aquilo a que nós, os poetas, costumamos chamar, com a introdução do modernismo o "verso livre"), como se essas metáforas e imagens lhe corressem nas mãos deixando marcas no tempo, "como línguas de fogo / sagrado / num cortejo sábio / que a ferocidade do tempo / esculpiu / no marulhar incessante da vida" (de Alvaro Giesta in Oblíquo é o Tempo pp 8).
Longe de Fernando Lobo estão tantos outros poetas, que se afastam dele, pela falta de capacidade inventiva de se projectarem neste universo ideativo da escrita poética. E nós, persistimos: difícil é a transparência, para o poema, do mundo ideal - neste caso, do tempo ideal, que acaba sempre por ser circular - através deste eloquente "não-dito", a deixar a possibilidade ao leitor de se desmarcar da intenção do poeta, desnudando-lhe o corpo com a intenção de o descobrir no tesouro oculto para lá da função da metáfora e da imagem.

E, assim, regressamos à ideia exposta no princípio do texto, rematando: a literatura não é apenas o texto em prosa ou poético; muito menos o é quando e se  o autor escreve para si. Nada disso. Se assim fosse, qualquer um seria literato. Mas, literato, nesse sentido, só se fosse de si mesmo: pura estagnação do "eu" pretendente a literato, e ruína da literatura. Um literato assim, não o pode ser dos outros, ser de todos, ser do mundo literário. Um tal escritor ou poeta que escreva de si para si, não lhe permite criar para além de si. Considera-se absoluto e este absoluto, sendo-o simplesmente de si para si, não existe.
O criador literário rege-se por impulsos e reflexos de actos de criação, situações da vida que se descarregam sobre si e o iluminam - como se fosse o clarão de um relâmpago que em determinado momento da trovoada (in)definisse onde vai cair o raio e provocar a ferida, que vai gravar na memória esse momento, que se perpectuará no tempo.
Tal é o modo endógeno (que vem a partir do interior) de criar do poeta Fernando Lobo. Tal é o seu temperamento criador que verificámos possuir, através da leitura das várias etapas da sua escrita poética, investigatória e inquiridora, profunda e inquietante, sinuosa muitas vezes, nebulosa e enublada outras tantas, onde os seus difíceis horizontes a desvendar se conduzem, neste temperamento criador, entre o equilíbrio do verso e a procura desassossegada e ininterrupta do espírito em desassossego do poeta, que cria sob o signo da liberdade criadora, que o transporta além do círculo fechado do instante, na busca da miragem e na expectância do tal absoluto e do sempre longínquo.

11 de Maio de 2017
Alvaro Giesta

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