30/06/17

O VERSO LIVRE: O TRABALHO COM A PALAVRA POÉTICA

Na sequência do meu artigo publicado nesta revista BIRD subordinado ao tema "AS FRONTEIRAS ENTRE A PROSA E A POESIA: O VERSO LIVRE", de 26 de Setembro de 2016, dou seguimento com o presente texto que, seguramente, não será o último, àquilo que pretende ser ensaio. E porque, aqui, verterei opinião sobre "prosa poética" e "poesia", na perspectiva do verso livre, abro a crónica com dois textos diferentes onde, num, temos claramente o verso livre, no outro, embora naquilo a que vulgarmente se optou chamar prosa poética, nos faz interrogar se à mesma não caberá, também, a designação de verso livre.
«Visitam-me de manhã muito cedo, os medos,
vêm devagar acordar os delírios de luz
em feixes de fogo dentro deste corpo submerso.

Alguma febre coíbe-me de pensar
nos pássaros mortos que me habitam,
nas penas caídas sobre o meu dorso
dos animais que vivem dentro de mim.

Sinto o frio dentro deste inverno de cal.
Nenhuma semente eclodirá no desespero
onde me observo no lado mais oculto da noite.

Dói-me esta nudez onde o cio se agasalha.»

Carlos Val (pseud. de Conceição Bernardino) em IDENTIDADES, Edição Lavra, 2013


«Sinto a pele das palavras e o toque dos teus lábios todos os dias. O teu cheiro, o teu sabor. Sinto o desejo, a paixão, que se fazem prazer nos nossos corpos. O tempo fica suspenso no nosso fogo, as respirações ofegantes, incompletas, os sorrisos, as pontas dos dedos. A nossa intimidade são sementes que trepam a pele e os segredos escorrem pelos nossos lábios nas noites que pernoitas em mim. O teu corpo, os pássaros que tomam o trajeto da luz e buscam o céu como limite. As tuas mãos acariciam o meu olhar que arde em silêncio. E ali é toda a nossa vida, são todos os lugares. Ali o meu corpo faz-se vontade na tua boca.»

Cecília Vilas Boas em INCONFIDÊNCIAS, Chiado editora, 2016 (pág. 19)


O que é a poesia? Dificilmente a resposta a esta pergunta se traduz numa "resposta concreta". Não há, seguramente, resposta capaz de satisfazer o espírito mais inquieto que coloca a pergunta: o que é a poesia? Longínquo vai o tempo em que o poema era "aquela coisa certinha e com regras", saísse ele da inspiração ou fosse ele trabalhado com a arte com que o escultor esculpe a pedra para da sua face oculta dar à luz o busto desejado; fosse ele motivo de forte impulso do coração ou feito com a arte que a razão poética exige. Hoje, poesia, tanto pode ser aquilo que se pretende dizer com a palavra, com as múltiplas interpretações que do verso se podem ter, seja com recurso à velha métrica e desusada rima, como fugindo-se para um texto de sentido mais lato, seja ele verso branco, seja ele verso livre de longos versos quebrados no fim da frase, entremeados de outros curtos, muitas vezes uma única palavra formando um verso. Mesmo até a prosa poética, tão usual nos contemporâneos, pode ser poesia.
Nada em poesia, hoje, é simples. Acabou a tranquilidade de podermos dizer, com firmeza, se tal texto deixa de ser poético só porque não seguiu os cânones literários que à poesia se impunha. Dessa diversidade de textos, ou antes, devido a essa diversidade de textos, é um risco propor, hoje, uma definição genérica e válida para que a esses textos possa ser ou não aplicada a definição de poesia. Porque "verso livre" - esse conceito de "verso livre" que hoje qualquer um impõe a seu bel-prazer, fundado num relacionamento de palavras subitamente despropositadas no texto (naquilo que se pretende verso a formar poesia), é hoje tão frequente, tanto nos poetas conceituados como naqueles que aspiram a sê-lo - dizia: porque "verso livre" e "prosa poética" que muitas vezes de poética nada tem, há muito quem tal pratique por aí.
Mas não deixa de haver contornos, porque, falar de fronteiras, é tão difícil quão arriscado, entre o que é poesia - seja metapoética ou prosa poética - e o que é a prosa propriamente dita. Porém, uma distingue-se da outra; a poesia tem o seu território nos contornos que a sua própria natureza impõe e que a natural abordagem produz: é a sua aparência formal que marca a diferença e serve de limite. É aquilo que usa exteriormente, além da palavra, para projectar a ideia em palavras através da emoção: o ritmo, a rima, a estrofe. Aqui cabe referir outra característica, a maior da poesia: O TRABALHO COM A PALAVRA.
Como o escultor burila a pedra, com as ferramentas necessárias à matéria bruta para fazer a obra de arte, como o músico afina o instrumento para dele extrair a melodia, assim o escritor trabalha as palavras para produzir o texto literário. No que à poesia diz respeito, maior cuidado tem que haver na sua produção porque a linguagem poética é, em princípio, mais metaforizada que a prosa, mais ritmada, mais sujeita a alterações estruturais: exigência da literariedade em detrimento de textos comuns que se usam no quotidiano. É o tal efeito poético que lhe dá a rima (havendo-a, sem a obrigatoriedade de a haver no verso livre), o acento (característico do poema clássico quase caído em desuso, mais pela dificuldade de o fazer do que por outra coisa), a imagem, a figura de estilo, o ritmo, o efeito sonoro pretendido pelas ideias expressas dum modo trabalhado, recorrendo ao planeamento, à reflexão, ao conhecimento teórico. Não há fórmulas nem receitas para o fazer poético: há, sim, um trabalho apurado com o texto.
Abstraindo-nos, agora, dos artifícios "ritmo, rima, estrofe" que marcam a diferença e servem de limite entre poesia e prosa, detemo-nos na prosa: há aquela que, exprimindo directamente ideias e só ideias - a científica ou filosófica - não deixa margens para outra definição que não seja a prosa propriamente dita e que, por si só, estabelece definição bastante; a outra que, embora emotiva, não vai além da oratória e da descrição, ainda que possa haver ritmo na maneira como expõe a ideia - não serve, contudo, a verdadeira intenção poética; por fim há aquela prosa emotiva na sua amplitude total que marca diferença por possuir algumas das várias características: a quebra de linha, o ritmo (se não definido pelo menos conseguido pelo uso que se faz de imagens), uma prosa ritmada marcada, em certos pontos, com pausas maiores ou menores com finalidade rítmica, determinando essas pausas a quebra ou fim do verso. Cabe talvez aqui, nesta última "quase" definição, enquadrar a prosa poética ou verso em prosa se a sua função for realmente poética: se exprimir emoções e sentimentos, ainda que não tenha a exigência harmónica e rítmica do verso livre que determina a quebra do verso, ou fim de linha/verso.
Esse ritmo, como em Álvaro de Campos, feito com ciência e eventualmente com recurso aos vulgares sinais de pontuação, é marcado por pausas como se fosse uma linha quebrada: é aquilo a que se chama verso. «Este artifício, que consiste em criar pausas especiais e antinaturais diversas das que a pontuação define, embora às vezes coincidentes com elas, é dado pela escrita do texto em linhas separadas, chamadas verso (...). Criam-se, por este processo, dois tipos de sugeições que não existem na prosa: uma sugestão rítmica, de cada verso por si mesmo, como pessoa independente, e uma sugestão acentual, que incide sobre a última palavra do verso, onde se pausa artificialmente, ou sobre a última palavra, se há uma só, que assim fica em isolamento (...).» (Álvaro de Campos, Arquivo Pessoa). Essa quebra de linha é o que determina a separação do verso livre. A explicação dessa linha quebrada que faz a pausa e a separação do verso, é tão simples quanto isto: se no lugar dessa pausa, maior ou menor, marcada pela quebra de linha rítmica ou mesmo da introdução, no verso, do vulgar sinal gráfico, houvesse outro sinal inventado - por exemplo o traço vertical (|) com que marcamos o fim do verso quando o damos como exemplo em texto - dele ficaríamos a saber que ali se pausava com o mesmo género de pausa que obriga o fim de um verso.
Porém, nem todo o processo de quebrar a linha, faz verso, muito menos faz o poeta. O poeta (vulgar) espontaneamente projecta, à sua maneira, os versos. Mas, porque isso é insuficiente para criar poesia, é necessário reflectir sobre o verso, usar a inteligência (aqui já temos o poeta num plano superior ao vulgar) e sujeitá-lo à emoção rítmica que produz os cortes em obediência a uma regra exterior: é o uso dos artifícios - ritmo, rima (pretendendo-se o verso rimado) e a estrofe. «Um poema é a projecção de uma ideia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a ideia se serve para se reduzir a palavras.» (Ricardo Reis, Arquivo Pessoa). É o ritmo no verso livre (aquele que está sendo objecto de estudo) que determina a separação do verso. O poeta, quando no plano superior, pensa harmonicamente a ideia que vai produzir a emoção; transmite-a, depois, através do sentimento, à frase dando-lhe o ritmo e é este ritmo que impõe, com maiores ou menores pausas, a quebra do verso. Por outras palavras: quando o pensamento do poeta é formado pela ideia que produz a emoção, transmite-se sentimento à frase e ao ritmo e, dessa junção (ideia e emoção) produz-se a harmonia. É esta harmonia que determina o fim rítmico do verso livre com pausas maiores ou menores, consoante a vontade laboriosa com que o poeta criou o verso.
O fenómeno poético do poeta moderno (e agora o pós-moderno ou contemporâneo, não se sabendo bem onde acaba o primeiro e começa o segundo) expressa-se, como sabemos, nas possibilidades internas que nos fornece a linguagem: ritmo, sonoridade, ambiguidade de sentidos, organização de imagens em associações criativas e abandono das regras e modelos (clássicos) antes impostos à poética. Como cultor do verso livre que sou, nascido ele com Walt Whitman e continuado por tantos outros, entre nós, como Álvaro de Campos e outros mais próximos da actualidade, como Joaquim Pessoa (homenageado no verso livre num passado não muito longínquo numa edição russo-portuguesa pela obra "VOU-ME EMBORA DE MIM"), aqui deixo, como fim de texto, este pequeno fragmento de um longo poema que constitui um encadeamento de recordações deste poeta, meu contemporâneo.
«(...) Apanho um comboio e um barco, viajo para lá do acontecimento
que é sentir-me ser de ali. Vou-me embora de mim.
Este diálogo não acabou e não acabará nunca. Vou
com os camponeses da cidade, feliz como um animal doméstico,
por vezes como um cão vadio no inverno, cuja felicidade
é apenas atingir a primavera seguinte.
Vou com as gaivotas que procuram a vida
nas milhares de toneladas de lixo da civilização. Vou também
com a dor de todos os massacres e com os missionários confortáveis
que querem governar o mundo sem saber governar o próprio estômago.
E vou ainda com. E com. E com. E com.
E vou ainda.»

Joaquim Pessoa em VOU-ME EMBORA DE MIM




Alvaro Giesta (não escrevo segundo as regras do denominado actual AO)
Texto já publicado em Novembro de 2016 na revista online BIRD. Reservados é direitos do autor nos termos da lei.

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