06/05/19

No Hálito de Afrodite (poesia erótica) de CÉLIA MOURA

Autor: Alvaro Giesta



1.       Introdução
 Assim os olhos se deleitem com os versos que compõem a obra poética; assim os olhos se extasiem no prazer da leitura e no encontro com o/a autor/a nas páginas da obra que nos dá; assim os olhos se interroguem daquilo que apreendem dos poemas de fértil obra, quando a obra é fértil; assim o tempo não se esgote no silêncio das palavras e nos faça parar, apenas, no tempo do/a poeta, para nelas meditar e entre elas respirar
                                                                                                                        ↓
                                                                                                  [assim eu escreva com o rigor possível da obra a analisar, mesmo não aspirando a púlpitos nem louvores, sequer formas remuneratórias, que o prazer da escrita é o único leit motiv por que o faço.]
         ↓
         Porque todo o rigor é resistência à (in)exactidão do que se possa escrever e do que se possa dizer, pois há sempre o receio de injustiça em cada um de nós, que analisa e critica, quando nos propomos debruçar sobre livro de poeta ou escritor com obra já formada. E porque toda a memória se nos deve reger pela seriedade imposta no princípio da isenção quando vertemos opinião sobre obra de autor conhecido, distanciemo-nos do seu nome, separando o que a obra nos merece dizer da amizade que ao mesmo nos liga.


2.       A crítica
        (...)

3.   A obra
         ¾ dos limites da literatura erótica às fronteiras do pornográfico:
Dos muitos poemas lidos na obra "No Hálito de Afrodite" concluiu-se que nela, ainda que num ou noutro poema se roce as raias do pornográfico, não se vai além do erotismo ¾ embora um erotismo ousado que eclode num "amor-paixão", mas nunca ditando uma poesia nitidamente fálica ou clitoriana. Há, contudo, versos e poemas onde a libido corre livre e solta, em avalanches e rios como "mãos, dedos, flancos, coxas, ventre, nádegas, mamilos, línguas, gemidos, gritos, sexo, púbis, beijos, sémen, seios, virilhas, infinito clitoriano, prazer, tesão..." e muitos, muitos mais, num léxico marcadamente erotizado onde a poeta-mulher é o centro do universo, o receptáculo e fonte do prazer, subordinando-se, submissa (quase sempre) ao desígnio masculino.
Vejamos dois ou três exemplos:
         "na púbis do teu pincel me devoras", "no declínio do meu ventre descansas", "que tuas mãos sejam / o lume que invade as minhas coxas", "línguas que se perdem e prendem", "se permito que te aninhes no meu néctar / e me devores / é apenas porque a sacerdotisa do tempo / urge morrer em ti" e "só assim renasço".

Mas nem sempre é passiva; ela é, também, sujeito activo no envolvimento dos corpos.
Vejamos:
         "desço pelas virilhas que já ousei morder", "quero sangue, seiva, sémen / muito mais...", "escorre-me pelas pernas / este frémito / é como um séquito / o desejo / que me invade a púbis, as coxas / e o tal infinito clitoriano", "escorrem-me pelas pernas os beijos / que me não dás / pelos abundantes seios que acaricio / faço renascerem erectos os mamilos", "no teu sémen / faz-me vir de novo".

Na obra nota-se deliberadamente, quase descaradamente, uma ânsia de dádiva total por parte do sujeito poético, quer seja passivo ou activo ¾ é próprio duma pulsão contemplativa numa entrega total do corpo e, ao mesmo tempo, uma luta pela verdade: "quero mais alva a verdade / mais veloz que o vento / e feroz", "mais verdade o amanhã / no amor que me juraste", "só as línguas (...) são verdade / e eu fico aqui nas escarpas do abismo a aguardar / a verdade do amanhã".
Destaca-se que, ao longo da obra, há certas palavras escritas a letra maiúscula, usadas no verso com um certo sentido onírico: "Alienação, Vertigem, Caminho, Verdade, Amanhã, Loucura, Ternura, Silêncio, Dor, Vida, Xadrez, Sonho, Bem, Mal, Partida...", e outras com sentido  mitológico quando cita divindades antigas, a começar pelo nome da obra: "Afrodite, Olimpo, Ísis..." indispensáveis e necessárias a uma obra de conteúdo erótico e de valor literário, como não podia deixar de ser nesta obra.

         ¾ da semântica:
Uma vista, ao de leve, sem me embrenhar na semântica, que isso é para técnicos, que não sou.
Nota-se na obra e com certa intensidade o pronome pessoal em adjacência verbal com a decisão intencional do pronome, no final do verbo: "desabito-te", "embriaga-me", "guarda-me", "sobrevive-me", "sacudindo-te", "faz-me (vir de novo)". Reside, no valor semântico das formas verbais (quando no modo imperativo) mais do que uma súplica ou um pedido, uma ordem, aliando-a ao movimento quando, adjacente, se emprega o gerúndio.
No modo subjuntivo (um modo de incerteza, de desejo, de possibilidade, de dúvida, hipotético, incerto, de irrealidade) há uma estrutura verbal subordinada a outro verbo no verso muito verificada ao longo da obra ¾ é uma acção subentendida ou expressa que está ligada à vontade, à imaginação, ao sentimento, estabelecendo até, muitas vezes, uma relação condicional: "fico aqui a aguardar", "se permito que te aninhes e me devores" é porque, e "que ao menos me acariciasses / e me fizesses gritar", "vou ao sémen das madrugadas / à procura de um sorriso", "quando te deitares comigo / não pises as camélias", "aguardo o teu corpo / onde me arrasto", "quisera eu ser meu próprio vinho / e voltar a ser eu".

         ¾ da exaltação do corpo:
Há um universo extravagante e fantasioso nesta obra. Quase sonhos perpétuos ¾ o amar-se, o sentir-se amada. Poemas extremamente belos como "Urge enxotar-te do meu corpo", ou como "Quisera eu ser teu âmago" onde, na exaltação ao corpo, o próprio "eu" se expurga do outro-eu ou do eu-outro, daquilo que o "outro" deixou de si em si, como se isto fosse um acto de purificação: "urge enxotar-te do meu corpo / retornar a mim / remover a paixão / deambular descalça pela estrada / e sentir-me viva".
Até poderemos considerar que o "outro" é o próprio "eu" narcisista no regresso a si, ainda que duvide ter sido algo, alguma vez: "quisera eu ser meu próprio vinho / meu regaço / minha alma à berma / do Caminho / e voltar a ser eu / aquela que fui / coisa nenhuma".
Há poemas em que neste desejo narcisista a poeta (quase) se deseja imperial, (quase) se deseja oiro e o grito que ordena e exige: "se permito que te aninhes no meu néctar / e me devores / é apenas porque a sacerdotisa do templo / sorri / e urge morrer em ti / (...) / e só assim renasço..."; ainda que se reconheça "mutilada" quiçá por acontecimentos que a marcaram anteriormente e que não deseja recordar: "meu oxigénio não passa desse umbral", "embriaga-me no frenesim / do teu corpo / e não me deixes regressar / ao porto de abrigo", "embriaga-me de lua cheia (...) / só não me deixes regressar".


(Para terminar abre-se aqui um parênteses para dizer que a mente criadora é maravilhosa quando a dúvida incendeia o ser que se interroga e se questiona na esperança de alcançar o seu próprio espaço, mas perigosa quando na mente criadora existem laivos bipolares agravados pela obsessão. Duvidar de si e amar-se, ao mesmo tempo, é um dom imanente a certos poetas e com isso sofrem e muitas vezes os levam a fins trágicos. Sempre assim foi, a literatura está cheia disso.)




25/02/19

NOS DEDOS AS PALAVRAS - a obra de Ana P de Madureira




A poesia de Ana P de Madureira é marcadamente feminina. Minimalista e contida nas expressões que enformam o verso. Torrencial pela forma com que as palavras nele agem entre si, pondo no verso todo o ênfase. Às vezes numa linguagem quase conceptual. De uma engenhosa habilidade, apurada nos signos com que ergue a obra, são convite à aprendizagem de quem a lê. Desprezo total pelos recursos prosódicos que conferem ao texto ritmo, entoação e pausa. A estrutura vérsica com que Madureira veste o poema desprezando a pontuação, vem provar que não há limites impositivos para imprimir melodia ao verso. Versos curtos mas acutilantes, como que fragmentados, são o grito do prazer, o grito de dor, também, são os seus estados nus, de alma nua, arrancados à floresta dos segredos, sem medo de dizer. Mostra-nos uma poesia virginal preenchida de sensualismo na pura clareira dos sentidos ¾ entenda-se, aqui, o "virginal" no sentido da poesia pura.

Ana P de Madureira joga com as palavras com sábia maestria; digamos que, nesse jogo sensual, usa um flirt dinâmico, ao mesmo tempo tornado um só "corpo e verso", na narração poética intimista, sensual, às vezes quase mítica. Nesta lide sensual das palavras com as quais a poeta respira, não procura apenas o mítico corpo para se afundar nos prazeres que de si colhe e dele há-de beber mas "exige o amor"; e ela diz "quero o suor / em que o amor / é poro poço"  ¾ é "poro", o amor é aquilo que me faz respirar mas também é "poço" onde ele me faz mergulhar e afundar para o prazer ¾ "e quero a fúria terna do olhar / em que o amor / namora a vontade / nesse despir de alma / que se afunda no corpo / quero o amor até que os mares / se espumem unos / na torrência que os levita". Aqui está a natureza poética de Madureira na voz do mar do Algarve ¾ o azul da bonança que se levanta nas ondas sensuais de um espírito que se mostra rebelde pela ousadia da sua palavra poética, mas onde o sentimento e a sensualidade temperamental são sãos e racionais: "o que são as palavras / senão anjos que me tomam / alquimias de auroras / e no longo do cabelo a libido / que caminha (...) / para lá do alto das vagas"(?) A poética de Madureira é como este amor que ela nos traz nos versos ¾ "fogo / labaredas das mil palavras / silêncio das manhã escondidas / vozes não ditas / guardadas nos mistérios" do corpo. De sabor sensual é, sem dúvida, a poética de Ana P de Madureira. Mas se há erotismo nesta poética, ele não é o ousado, menos ainda a perversão.
Convém, aqui e numa palavra, dizer que erotismo é uma pulsão, definida por alguns como angustiante;  por mim, aceite como corajosa e direccionada para o desconhecido. E nesta poética, o desconhecido será a viagem pelo corpo do outro e/ou ao corpo do outro a partir do corpo da poeta; possivelmente uma viagem sem retorno como aquela em que nos lançámos, através da palavra poética, em busca do desejado, muitas vezes não experienciado ou, se experienciado, não conseguido. É a imaginação gratificante a trabalhar. Logo, e no meu entendimento da poética de Ana P de Madureira, este erotismo suave ¾ prefiro chamar-lhe assim ¾ vejo-o como a fusão com o outro e com o universo, que desemboca neste êxtase mítico-sensual, e nunca com a mera fruição da sexualidade. Mas também existe alguma sexualidade, algum desejo refreado, no texto de Madureira.
Cabe-nos aqui perguntar: até que ponto o discurso poético erótico-sensual de Madureira é real? Nós sabemos que toda a obra literária tem suporte no real. E muito do que existe em poética, também. Porque são as mundividências pessoais do/a autor/a que hão de formar a ordenação da matéria necessária para a sua produção literária. E o/a autor/a há de trabalhar a sua matéria em obediência aos signos por si criados ¾ "signos" são aquilo que confere valor literário à obra. Cabe-nos a nós, leitores atentos ¾ como se fossemos críticos ¾ decifrar esses sinais, vê-los, lê-los e interpretá-los. Porque toda a obra poética aceita, sem hesitar, novos olhares interpretativos. Toda a obra poética permite ao leitor ¾ ao bom leitor ¾ ler e tirar dessa leitura especulativa novas interpretações, interpretações até diferentes daquelas que o autor desenhou no seu acto de criar.

E chegado àquilo que deve ser o bom leitor, cito Luís Carmelo, poeta, ensaísta e crítico, nas palavras deixadas em entrevista, em 2017, a Luís Ganhão: «O leitor deve estar sempre de pé atrás, deve fazer o papel daquela pessoa que está a ser seduzida, mas que recusa a sedução.» Isto compreende-se na medida em que é esta a posição a assumir, como crítica, pelo leitor que o faz ser o tal "bom leitor". E a pergunta impõe-se ¾ quem é este bom leitor? Respondo ¾ é o melhor crítico que o poeta, que o escritor tem. É o leitor inteligente e criativo que não se quer ver diminuído enquanto bom leitor. Não será, de certeza, aquele que aceita o produto que lhe impinge o autor, porque o conhece e lho compra a troco de palmadinhas nas costas. Esse, é um leitor menos atento, menos inteligente que não se quer dar ao trabalho de pensar para criticar, ou que não critica porque receia não cair nas graças do autor. Muitas vezes nem lê a obra que compra; limita-se a elogiar sem ler; elogia pela amizade e esquece-se da função de "bom leitor" ¾ aquele que deve criticar para fazer crescer o autor.

Mas, tratando particularmente da nossa poetisa... a sua poesia é brilhante, às vezes, quase visionária; mostra-nos que o corpo animal e a sensualidade poética são o mesmo grito ¾ comungam o mesmo pão e bebem, da mesma taça, o mesmo vinho.
Torrencial é esta "alquimia das auroras" onde Nos Dedos as Palavras o "sol ardente / chama o mar" e no "fervilhar do sangue" e na "força dos vendavais" os corpos "peregrinos de mistérios" se unem "na intimidade do tempo" como a força das tempestades ¾ é como se tsunami fosse cada verso num torrencial de ondas controláveis, E, "controláveis", porque há ternura e veemência nas suas palavras ¾ são como brasa que perene arde com a fúria do querer e da vontade de ter e possuir.
Nua e "NUA", sempre na clareza do verso que se ergue curto e expande forte como a abertura, para o rumo, na clareira da floresta. Podem chamar-lhe poesia complexa, poesia sinestética, ou mesmo poesia visionária nesta combinação de campos semânticos em jogos de palavras ¾ eu chamo-lhe, sobretudo, poesia sensual diferente do que comumente nos mostram a maioria dos poetas portugueses que ao tema se entregam.
O corpo feminino está em comunhão afável com a natureza, aquela que lhe é mais próxima: o mar do Algarve. O suor, a "língua silenciosa", a pele quente "na inquietude do dentro", a "carne fogo" parece enxertada do "frémito das águas" azuis cristalinas do mar. A poética de Madureira é aquilo a que podemos chamar uma poesia corporal ¾ o corpo domina a palavra e esta subjuga-se-lhe com doçura mas firmeza, intimista, mística e profunda, num jogo de batalhas e flirtes entre sinfonias, quase celestiais, e cataratas florescentes, como que iluminadas por mágicos e multicolores arco-íris.
Ana P de Madureira é o nascimento e a erupção da e na palavra que habita o espaço em branco entre o céu e a terra, como se fosse a "placenta das palavras proibidas" e "a ternura de quem deu à luz um filho", ou vinda das profundidades da terra se expande em lava antes de ao seio da terra retornar: "filmarei / cada milímetro da morte / com a força sinestésica / que o corpo comporta" para depois "caminhar o caminho / por onde nada dorme" porque "se o cansaço partiu / e as pálpebras já não tombam // agora é a terra / que me viaja e sonha / enquanto com ela / vou".

O que há a dizer da poética deste livro de Ana P de Madureira, não se reduz a duas magras folhas de papel preenchidas a um espaço ¾ ela é, no espaço e no tempo, não apenas pele no antes e carne no depois da palavra expressa, mas, no durante, é um repetir de ondas que se refrescam na braveza do mar alto da imaginação da poeta e regressam, depois, reproduzindo-se no vaivém das marés de imagens que lhe florescem na mente, para frutificarem a cada chegada à praia, num sempre verso novo para um sempre refulgente poema, a farejar o vento num crescendo febril a desvendar mistérios em cada palavra e onde cada palavra se interroga no desvendar dum tempo novo.

© Alvaro Giesta, Dezembro de 2018

13/01/19

LADO a LADO


Lado a lado, sem pretensões a coisa nenhuma ___apenas, "LADO a LADO"___
T. S. Eliot e Adriana Mayrinck (em In-Finita)


V. O QUE DISSE O TROVÃO

Uma nascente
Uma poça entre as pedras
Se ao menos houvesse o som da água
Não o canto da cigarra
E da erva seca
Mas o som da água numa pedra
Onde o tordo-eremita canta nos pinheiros
Drip drop drip drop drop drop drop
Mas não há água

Quem é o terceiro que sempre caminha a teu lado?
Quando conto, só estamos tu e eu
Mas quando olho pela estrada branca acima
Há sempre alguém a caminhar junto de ti
Envolto em manto castanho, e embuçado
Não sei se será homem ou mulher
¾ Mas quem é esse do outro lado de ti?

·         T. S. Eliot, 1888-1965 (in A Terra Devastada, Relógio D´Água)
_____________

RELÍQUIA

Dizes que não posso ser ziguezagueante, em seu ir e
vir.
Como posso viver às cegas, dentro do teu espaço,
se por aí sou volátil.
Amo fincada às tuas raízes, ainda que o amanhã
seja substância e efemeridade.
E a tua mão não mais está.

Há uma sombra oculta nas entrelinhas das intuições.
Armadilhas em areia movediça, distancia-me do
ontem.
E sigo em linha reta no caleidoscópio mutante
de que aprendi a viver.
O tempo consome em pó, guilhotina, grito.
Quando chegavas do teu deserto
com um brilho diferente no olhar,
toda a inquietação levava ao êxtase, flor e mel.
E ao fundo do mar. Guardo relíquias.

O tempo consome em distância, certezas abstratas
e silêncio.
Mas hoje amanheceu com um sol fulgurante
e ofuscou a tua lembrança.
Caminho sem tocar o chão, des-acompanhada.
E levo o incomensurável da palavra amor.
Carrego no olhar, pedra, fogo e mar.

·         Adriana Mayrinck, 1970 (in In-Finita, Dowslley Editora)

20/12/18

da POÉTICA de ISABEL BASTOS NUNES

Autor: Alvaro Giesta
30 de Novembro de 2018


[...]

Difícil é (...) escrever um longo poema em que não é apenas o tamanho que lhe confere grandeza, mas o valor ontológico que em si está contido, em que o poeta consegue dizer ao longo dele, o que julga ser tudo, sem se perder nem desviar do pensamento que pretende transmitir. É aqui que se enquadra a poética de Isabel Bastos Nunes.


A sua poesia é o lugar, não da probabilidade mas, da afirmação, da capacidade de dizer aquilo que a palavra quer dizer sem necessidade de recurso às metáforas obscuras e a outros símbolos que têm a função imagética de ocultar o óbvio para tornar o texto poético mais apetecível, porque alindado e ornamentado pela capacidade que as figuras estilísticas têm, de tornar o texto mais belo ainda; tornam-no, contudo, a essas figuras de estilo afeito, confuso e preso a um certo grau de dificuldade para o seu entendimento. E eu, que não sou o leitor do momento que se limita às palavras de circunstância, quando falo da obra de um autor não me cinjo, apenas, àquilo que as estreitas paredes do livro me permitem ¾ assim sendo, falo aqui da poesia que da Isabel Bastos Nunes conheço por leituras feitas não apenas ao título À Procura de Mim mas, também, ao que deixa nas redes sociais, porque falar somente do conteúdo da obra, é afirmar por defeito; mas não posso deixar de dizer que À Procura de Mim é, talvez, a melhor obra que eu li até hoje sobre este mistério: O ENIGMA DO SER, onde é presença constante, lado a lado com o Sujeito-poético e o Objecto-poético (o Eu e o Outro), o Corpo, a Vida, as Palavras, o Tempo, o Silêncio, a Solidão, o Sonho, os Medos e até a voz da Ilusão.

O enigma do ser presente em força no 1.º caderno poético (se assim lhe  podemos chamar) Procuro o Teu Olhar, repete-se ao longo de toda a obra. O mistério do corpo, neste enigma do ser, amanhece no tempo com o silêncio e a vontade de não-ser "E tu e eu não queremos acordar" porque "Somos dois instantes" numa fuga à realidade para o refúgio da eternidade, somos "feitos de eternidade / e a essência dos nossos sonhos / não se prende no impossível" ¾ é a busca do impalpável, do inconcreto, dum mundo realizável no irrealizável: onde o nada-ser sequer é impossível  para a concretização do sonho.

A poesia do corpo onde os sentidos se fundem, numa visão inquieta de versos escritos que se projectam no infinito do sonho ¾ é a essência da vida: "Toco-te quase furtivamente com as mãos / com medo de quebrar esse encanto, tão frágil do teu corpo, / e vagueio por ele mansamente, / avançando com medo que num instante / te voltes e me acordes deste sonho". O corpo ¾ península, continente, selva ardente, sol, sede - sede de ser: "És quente como a África quando, ardente e sequiosa / vibrante e sinuosa, nos desperta os sentimentos". O corpo ¾ onde e de onde "os mistérios da noite revivem", e "os pássaros cantam" e "os violinos das cigarras" se erguem em sons de cadência vaga "enchendo o ar de branda melodia" capazes de construir os melhores prelúdios e sonatas de Chopin ou o musical mais virtuoso de Mozart.

A poética de Isabel Bastos Nunes não tem as sombras transgressoras ornamentadas pelo símbolo opaco a ocultar-nos a luz. Quando o símbolo existe, é suave tornando, claramente, a sua poética luz e tempo, paz e silêncio, sonho, mistério, enigma e lugar também. É, afinal, a natureza pura das coisas que os olhos veem e o coração sente ¾ como dizia o Mestre Caeiro para quem a «natureza» abrangia «todas as coisas do mundo natural» e aqui, plagiando-o nestes dois versos de 1915, «a espantosa realidade das coisas» era a sua «descoberta de todos os dias». Nisto, descobri eu Isabel Bastos Nunes, que a li por noites longas, nas palavras que nos deixa quer em verso, quer em prosa com sabor a poesia, quando vagueia dentro de si em comunhão com o tempo, com o silêncio,  com a solidão e com o mundo ¾ como para Ovídio, poeta latino nascido a 20 de Março do ano 43 aC, também para IBN "a poesia é remédio da alma".

Agora, vagueando o olhar por campos mais latos da sua poética: as palavras de Isabel Bastos Nunes revelam profundidade partindo da superfície das coisas ¾ como, quando No Silêncio do Amor ela pede aos passos vagarosos da noite que a abracem como se fosse "pétala de flor" suave, e ao silêncio solicita o murmurar dos dedos... e aos dedos, a subtileza para desenharem em cada curva do seu rosto as linhas precisas dum poema de amor, um dia escrito. E sempre o tempo sem limites, sequer tempo contado, nunca de horas contadas, nem minutos, porque só assim, sem tempo definido se faz renascer o amor.

Ainda vagueando por outros poemas da autora, além do livro em apreço, há um Ponto de Encontro no tempo que às vezes o torna "trágico e maléfico" ¾ são "os medos" da poetisa que "cúmplices" a "tornam" ao passado, a levam de regresso ao passado, "apagando-lhe o presente como um sonho inacabado". É, depois disso, a dor e frustração pela espera quando o desejado é negado. As memórias do tempo num saudoso adeus, que não houve; as horas mortas do tempo, às vezes sombras, desgostos, alegrias também, e sentimentos já gastos como os corpos usados mas que as palavras perpectuam aqui no papel, porque ainda estão vivas na memória para as recordar ¾ renascem "das cinzas queimadas / em lareiras ardidas no carvão da solidão", diz-nos a poeta.

As reflexões poéticas nos cadernos Lágrimas da Alma e Entre as Palavras e o Silêncio, levam-nos a perguntar: depois da partida para outro rumo, outro caminho, o que fica? ¾ o silêncio, o esquecimento pela ausência, às vezes, nem saudades, nem lembranças, nem memória, nem história, porque não houve nem princípio, nem fim: "Agora os nossos gestos já não precisam ser estudados / vão-se esvaindo no longe do que fomos, / traduzidos em ausências", são "Restos tão gastos do nosso passado", já "Não há voz de saudade, nem lembranças de memórias" "porque nunca se apaga, o que não teve princípio nem fim".

No silêncio a desesperança e a voz da ilusão ¾ que florestas são essas partes de mim? Sim, que florestas são? Pergunta-nos e responde-nos, ao mesmo tempo, a poetisa. ¾ São silêncios onde "vou caminhando (...) / onde não há horizontes definidos / onde não se ouvem promessas / onde os corpos se entregam / e eu me sinto liberta", onde "os sentimentos são galhos" "secos e áridos" caídos no chão. Mas... que entrega dos corpos é esta, que libertação é esta sem horizontes definidos e sem promessas a cumprir? É a entrega cega (dizemos nós) "quando me segredam mistérios" que "quase me enchem de ilusão" ¾ diz-nos a autora.

E depois da ilusão? ¾ perguntamos e a autora responde-nos: "o peso das noites eternas / o desespero de todos os recomeços", o saber que "posso estar morta por dentro / mas (que) sei sobreviver no espaço e no tempo". Mas, e se... e as condicionantes repetem-se num questionar de medos à poetisa: ¾ e se o tempo não for favorável, e se a razão se sobrepõe à existência, e se houver dependência? Assustador este final poético e tão real do ENIGMA DO SER ¾ a solidão: "Posso a tudo isto sobreviver / posso não sobreviver ao peso enorme das noites eternas".

17/12/18

O POEMA E O POETA -- um abismo de palavras por escrever ( e um poema)


Autor: Alvaro Giesta


¾ Difícil é escrever um longo poema em que não é apenas o número de versos que lhe confere grandeza, mas o valor ontológico que em si está contido, em que o poeta consegue dizer ao longo dele, o que ele julga ser tudo, sem se perder nem desviar do pensamento que pretende transmitir.
¾ Difícil é também, com poucas palavras, escrever-se um grande poema do qual se possa intuir sobre a verdade ontológica da poesia - isto é, se dela se pode conhecer quando ela se limita ao questionamento directo do óbvio, ou nada se pode conhecer de todo o abismo que envolve a palavra poética, interrogando-a e interrogando-se, questionando-a e questionando-se numa tentativa de resposta, pondo em causa a sua obscura natureza quando o não-óbvio está presente no texto poético.
¾ Muito mais «difícil é escrever uma obra em livro por fragmentos, em que cada um dos fragmentos por si só se constitui poema mas, também, em que cada fragmento-poema é um componente - muitas vezes decomposto em unidades mais ínfimas e delicadas que conduzem à ideia errada de facilidade da escrita - que trabalha em prol da própria obra. Isto é, confere à obra uma arquitectura tal que faz com que cada um dos poemas enformadores do livro deixe de o ser, se torne fragmento como se fosse um órgão - coração, rim, pulmão, fígado, cérebro, etc., - para que o livro, tornado corpo, adquira vida.» Xavier Zarco transmite esta ideia de concepção de obra por fragmentos no prefácio a projecto de obra minha subordinada ao título "da Palavra (Des)Velada" que reune Meditações sobre a Palavra e Um Arbusto no Olhar.

¾ Face a tais considerações, cabe perguntar-nos, então: o que é este abismo que envolve a palavra poética?
¾ É o projecto poético que cada poeta reformula com tendência a outra realização diferente do poeta anterior; é a busca interminável composta de avanços e recuos, descobertas e ocultações, obscuridades e luminosidades, certezas e dúvidas, numa espiral de sentimentos que reciprocamente se descobrem e encobrem numa linguagem complexa onde a palavra poética diz e não diz, é e não é, nesta rede de atalhos do caminho do tempo desabitado e a percorrer.
Porque nada em poesia é definitivo, é aqui que o homem, em permanente angústia, porque órfão da verdade definitiva, coloca a cada resposta possível uma nova questão.

¾ O que é a poesia, afinal?
¾ É o lugar incómodo das perguntas, porque nenhuma verdade o é em absoluto. É o lugar onde o Novo - o que ainda não existe - se manifesta. Não há respostas concretas em poesia nem para definir a poesia, porque se a palavra poética é e não é, diz e não diz, então o que o homem escreve merece pesquisa e resiste.
Não há definição de poesia. É um fenómeno especial de linguagem inventiva - é a imaginação e a sensibilidade unidas num abraço comum e fraterno, contudo, divorciadas do raciocínio. É o pensar poético, o pensar com a alma, é o alarme necessário e encantatório que despoleta os sentidos e dá claridade à verdade simbólica.

¾ Quem é, então, o poeta, esse dinossauro da palavra que nada afirma, mas que tudo diz? ­Quem é "essa Ave Metafísica" como perguntava Sant´Anna Dionísio do Poeta do Marânus?
¾ É o moscardo que pica, que incomoda e que resiste. Mas, é também aquele ser que está para além do telúrico, aquele espírito ávido para a propensão de "ver formas ilusórias onde o vulgo vê realidades"; aquele ser que é capaz de, nas suas divagações "alucinadas", alcançar a linha incorpórea observada nos astros a partir da terra e ver, com a alma, que o autêntico está no plano invisível e não, decerto, no plano visível. Nesta perspectiva, o poeta vê percepções e não verdades - aliás, algures certo filósofo escreveu com alguma ironia séria, que "quem não possuir propensaão para a mentira não está fadado para a poesia".
Assim sendo, o poeta é aquele que nesta fome de crer, ser e ver, insiste e resiste.

¾ Mas resiste a quê?
¾ Ao nada das palavras, às palavras gastas, confusas e poluídas que invadem o nosso espaço, o nosso tempo quotidiano, palavras já incapazes de formular questões e até de dar respostas neste tempo da interrogação, neste tempo desabitado, neste tempo da ausência e do desassossego, neste tempo do vazio de Deus e dos Homens sempre na ânsia de alcançar algo.


I
«Penso para além de mim
com um pensamento destruidor, fulminante
mas contemplativo
como o sabor amanhecente da montanha
ou o incêndio que destrói.

Terrível é esta audácia de pensar assim:
 ¾ terminante e elíptica, esta fúria de pensar
sossega-me no rescaldo do relâmpago que
abre uma clareira na noite incendiada
de sombras e mistérios.

II.
Quando esta fúria de ao pensamento dar luz
parece sossegar,
quando este fogo que (me) atormenta a alma
e a acalma ao mesmo tempo
entra no rescaldo,
logo outro novo relâmpago a incendeia
e a clareira da floresta da imaginação
se abre em labareda a alumiar(-me) o caminho.

III.
O silêncio deixa de ter o sossego
calmo e mudo do silêncio que tudo diz
e abre-se devagar ao tumulto, neste ascender
arrebatador, das minhas entranhas.

Insólito é este pensamento de mim
com sabor oracular ¾ repentinamente
se afastam os que se dizem poetas
e se aproximam os poetas de nascença:

¾ os primeiros, pela cegueira se repelem
e eles próprios em tal cegueira se castigam;
¾ os segundos, pelo saber se consomem
e à palavra se entregam.

17/12/2018

23/11/18

E fez-lhe sinal para que avançasse


2.ª parte do conto in "entre nós, CUMPLICIDADADES", Calçada das Letras, 2015
autor: Alvaro Giesta
(Esta, de quem se conta, era a guardiã daquela porta, onde diariamente pedia o pão para mitigar a fome. Esta que há muito estava enterrada no mais fundo das suas memórias, agora repentinamente avivadas por um reflexo de instantânea luz.) 

- Espera.
Levantou-se de um salto do sofá que naquelas horas transviadas e de loucura servia de cama, também. Dirigiu-se à janela, subiu a persiana de guilhotina cerca de um palmo e certificou-se que lá fora estava tudo bem com a filha de sete anos que brincava com a amiga, da mesma idade, enteada da vizinha do andar de cima. Aquele corpo nu, curvado na janela situada ao nível da rua possibilitando apenas vislumbrar parte da cabeça se alguém do lado de fora se desse ao trabalho de espreitar, despertou nele, ainda que rendido da anterior refrega, ânsias desmedidas. Por instantes saiu da janela. De cócoras, agora, procurava nos múltiplos álbuns musicais, de vinil, espalhados numa desordem total pelo chão da sala, um que não tardou em encontrar.
- Achei… ¾ disse ela, esbaforida, naquela voz da gaiata alegre e despreocupada que acaba por descobrir o brinquedo, que um dia teve valor, há muito perdido no desarrumado daquelas mil coisas já sem interesse e deixadas esquecidas no fundo mais recôndito do armário e da memória.
Pô-lo a rodar no prato do gira-discos de alta-fidelidade, coisa boa e única que conseguiu salvar dum casamento esfrangalhado e desfeito. Pink Floyd em Signs of Life. Os acordes nostálgicos das cordas à mistura com o marulhar das vagas batendo nos costados duma embarcação, pareciam gotas de orvalho que se desprendiam do éter e vinham mergulhar nas profundezas daquele abismo paradisíaco chamado monumento de mulher, que punha o mais exigente mortal, mesmo que frio como o mais gelado glaciar, com a cabeça atordoada.
- Vem… (e fez-lhe sinal para que avançasse) Anda, vem… ¾ pedia ela enquanto massajava numa carícia demorada e de veludo, que aturdia, o interior daquelas nádegas firmes e perfeitamente modeladas, uniformemente bronzeadas no último verão na Ericeira.
O seu corpo debruçou-se, mais uma vez, para a janela que mantinha subida a persiana no seu curto palmo de abertura. O suficiente para espreitar a filha que continuava a brincar no passeio oposto, ou para ver as pernas dos passantes apressados. Veio ele a saber, mais tarde, quando ela extravasava nas suas confidências, que era hábito aquele desafio ao ex-marido e, também, a um amante velho ¾ quase o triplo da sua idade ¾ que tivera no fulgor dos seus ávidos vinte e seis anos.
- Vem... ¾ pediu ela novamente. Foi uma súplica, desta vez uma súplica rouca mais parecendo o gemer ferido das cordas do violoncelo. Oferecia as firmes, espetadas e morenas nádegas ao desejo. Entreabertas, as pernas, deixavam à vista a vulva meticulosamente aparada.
- Vem… oh, vem… ¾ gemia agora. Aquele vem era apenas um sussurro.
E olhava-o com olhar lânguido numa oferta de prazer incomensurável. Um leve toque de cabeça (não o vulgar tique, mas aquele trejeito já gasto de tão estudado e repetido) fez-lhe cair sobre o rosto a farta franja, em leque, de uma cabeleira negra, exageradamente negra. Aquele olhar provocante, de mulher tropical, e de características acentuadamente tropicais, desafiava-o para o inventar de uma nova origem, qualquer outra maneira linda de fazer amor.  Ele, estirado nu naquele sofá-cama, gozava em silêncio aquele vulcão que brotava lavas incandescentes de desejos.  Um vulcão prestes a explodir. Um vulcão em erupção constante. Na semiobscuridade daquela sala, transformada em antro de luxúria, quase depravação, flutuava no ar, misturado com as notas musicais de Pink Floyd que continuava a rodar no prato do gira-discos, um agridoce odor a suor e a esperma por lavar, que aquele corpo plúmbeo ainda exalava.
- Esta música é capaz de me fazer cavalgar nua no dorso duro e sem sela dum cavalo selvagem, pelas longínquas estepes africanas… noite e dia, sem parar. Não sentes o mesmo?
Perguntava ela, fazendo alusão à sua terra natal: Moçambique. E as suas mãos começavam agora uma dança louca, que já lhe era conhecida de outras horas, percorrendo as intimidades do seu corpo nu à mistura com suspiros de prazer, que não tardariam (porque já lhe conhecia a intensidade)  a serem ouvidos do lado de fora da janela.
- Fecha essa porra... ¾ ordenou-lhe ele, referindo-se à janela.
- Não. Quero que na rua, quem passa, oiça os meus gemidos enquanto tu aí os sentes. ¾ Retorquiu, enquanto se certificava, pelo palmo da persiana aberta, se a filha se encontrava segura no exterior onde continuava a brincar.
Começou-o a incomodar aquela atitude depravada que sempre tinha. Uma atitude que ela levaria até aos limites da sua intenção. Extravasava, mesmo, esses limites. Sabia-o bem. Daquilo que dela conheceu, nestes longos nove meses de relacionamento a que decidiu por fim, jamais deixou de consumar um acto a que ela se propusesse. Começou a dar voltas à cabeça imaginando como sair daquela situação. Sabia o quão iria ficar embaraçado, porque daí a poucos minutos ela estaria a fazer solicitações entre gemidos e gritos de luxúria que se ouviriam na rua. Até era capaz de abrir ainda mais a persiana, pois, maníaca como era, gostava de ser observada enquanto gozava com o seu corpo. «Se viesse ao menos alguém interromper a sessão…» (pensou), «…tocar a campainha, por exemplo…» (quase o implorou, em pensamento, à divina providência).



Prolegómenos sobre “Na Teia do Esquecimento” de Antero Jerónimo

Doem-me as mãos com que te escrevo estes versos… É do peso da espingarda, é do canto que se obrigam a escrever ...