29/07/11

Nesta farsa perfeita à volta de mim

Estou já desperto mas durmo ainda.
Sinto meu corpo dorido desta dor que não finda.
Estou febril de pensar. Febril por viver e não saber viver
de não saber sair deste torpor que me entorpece
e adormece a alma.

Nada me acalma já! Vivo assim…
Tudo está onde não está, tudo é incorpóreo, estagnado
e parado dentro de mim. Quero acordar deste meu sono
e continuar eternamente em vigília neste meu sonho
de não saber sonhar. Sempre o mesmo querer
entre estes meus dois mundos de mim perdido,
entre as profundezas de um céu ausente
e a lonjura turbulenta de um mar ferido.

Um e outro dentro de mim interpenetram-se
e numa mistura de sonhos em luta constante
completam-se sem qualquer sentido.
Sopra um vento de cinzas perdidas no ar mil propósitos
mortos sobre o que sou e o que não sou quando de mim
desperto meio absorto. Chego a pensar que é coisa ruim
vinda dum céu sem remédio, porque neste meu sonho
mórbido, quase morto, já nem sei gerir este tédio.

Inerte, uma angústia manuseia-me a alma
por dentro. Entorpeço-me.
Deixo-me boiar num oceano distante e dormir.
Nem sei se sinto como toda a gente sente,
muito menos se quero sentir. Já nada me acalma!...
De tudo me minto. Aborreço-me do que faço
e não faço, já nem me levanto se me sinto a cair.

Nesta espécie de realidade que surge neste sonho
acordado, perco-me de mim, ausento-me de tudo
e de tudo me sinto algemado.
Canso-me num fogo que arde e me consome,
invisível, na bruma da tarde;
Canso-me de ser como sou de dar-me como me dou
sinto-me vencível.

Perco-me nos passos do chão que piso…
Sonho e perco-me neste enredo de sonhos
que sonho nesta ânsia passiva. Nada me renova.
Abomino-me, até, ao cansar-me dos sonhos que sonho
na vida e não realizo. Sinto esta farsa perfeita
à volta de mim que me envolve e estreita
e aos poucos me empurra p’ra cova.
Alvaro Giesta

Enviado por Alvaro Giesta em 29/07/2011 para www.alvarogiesta.com
Código do texto: T3127104

03/04/11

sono tranquilo

ao meu Pai, no seu leito de morte
02/Set/2002

Impávido e sereno. Dormia.
Um sono profundo e tranquilo.
Imponente, entre finas e brancas sedas,
no seu fato cinzento, quase imaculado,
que só em épocas festivas vestia.

Um rosto magro, ossudo, quase sem vincos,
tranquilo, repousava.
Como se o seu último desejo por cumprir
fosse aquele sono eterno
que em vida mais desejava.

Em seu redor nem sussurros se ouviam
com medo de o acordar.
Vigiavam-lhe, os amigos, aquele sono tranquilo
feito de silêncio de respeito
e dor. Sofriam.

De rosto magro bem barbeado,
afagado por alvo lençol,
tinha a brancura da morte….
Tão diferente do que fora antes
tisnado pelo sol.

Dormia sem sobressaltos nem stress.
As suas mãos, sobre o peito, ambas cruzadas
uma sobre a outra, seguravam
com firmeza e fé, mesmo na morte,
o terço das suas preces.

Debruçada à cabeceira, por dois círios iluminada,
em oração surda a minha mãe.
Parecia alheada do mundo e ausente.
Com certeza rogava ao deus das suas preces
que se voltassem abrir aqueles olhos
teimosamente fechados, para sempre.

No rosto do meu pai, já sem sofrer,
os seus olhos fixavam, porventura,
sob as pálpebras fechadas um mundo novo
que se abria feito de ventura
às portas do Além.

devolução à Luz


Eterna elegia à Mulher

Deixa-me dar-te uma flor de silêncios
e ternura
Uma flor de paz aureolada de Luz
como a serenidade do teu peito
inocente sofredor e fecundo

Deixa-me dar-te o minuto que tenho a mais
de vida
e devolver-te à Luz
Deixa que este desejo terno e puro
parta um dia em glória contigo,
e beber na intimidade do teu néctar
o sumo do devir

Deixa-me beber a tua intimidade
onde me acolho
e escondo
martirizado e vivo
junto ao teu peito de silêncio e paz

Deixa-me cantar-te o tempo
viver-te o tempo
de imortal esperança e infinito espaço
de Luz de vida
Deixa-me acolher na serenidade
do teu peito
e semear sementes de silêncio e paz
para aí nasceram
silêncios de amor e ternura

16/03/11

entre a sombra e a claridade

Estou cansado
e morto por parar nesta subida…
Dura é a vida
em que tanto naufraguei
colado ao chão!
Fartei-me de percorrer as veredas
entre a sombra e a claridade
em busca da razão
e da verdade.

E que encontrei no fim da linha
do horizonte
onde este se funde com os Céus?
Falta de tudo! Vede:
Sempre a falta de Deus
como água fresca da fonte
onde pudesse mitigar a falta disso tudo
e a minha sede.

13/03/11

13.ª edição do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama


Organizado pelas Juntas de Freguesia de Azeitão (S. Lourenço e S. Simão), tem a parceria da Câmara Municipal de Setúbal, da Associação Cultural Sebastião da Gama e da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense.

A 13.ª edição do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama está em curso, podendo os trabalhos ser entregues até 31 de Março.

O trabalho que venha a ser premiado (em sessão que decorrerá em 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente), além do valor pecuniário, terá também incluída a sua publicação a cargo da organização do Prémio.

O Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama foi certame criado em 1988, em Azeitão, pelas Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão.

Prolegómenos sobre “Na Teia do Esquecimento” de Antero Jerónimo

Doem-me as mãos com que te escrevo estes versos… É do peso da espingarda, é do canto que se obrigam a escrever ...