15/03/18

às memórias de Gabriel Garcia Márquez

["Memória das minhas putas tristes" relata a história de um velho que sempre foi medíocre em tudo o que fez; viveu uma vida sem grandes realizações e, desgraçadamente, sem amor. Um professor e escritor aposentado que vive uma vida simples num casarão herdado dos pais e com uma única actividade: escrever uma crónica semanal para um jornal local e algumas eventuais resenhas de apresentações de música clássica. O personagem, ao completar 90 anos, decide pedir a uma velha conhecida, alcoviteira e proxeneta, que lhe arranje uma jovem virgem para aquela noite.

Essa ideia súbita desencadeia um processo que vai mudar a vida do velho e, nesse livro de memórias, ele relata o ano que se segue a partir dessa noite onde ele descobre duas coisas que atormentariam a maioria dos homens: a impotência e um amor.]

Uma obra que li dum fôlego sem descansar um minuto, me fez pensar e fez nascer os versos que aqui deixo em jeito de homenagem ao Prémio Nobel da Literatura, 1982, Gabriel García Márquez.

1.

Por dentro desta minha velha idade
desde as trevas à felicidade das loucuras
que vivi, guardo as pérolas delicadas
das mulheres que sempre quis e nunca amei.

Eram os néon estonteantes na minha noite
incandescentes na cidade inebriante e em fúria
por viver. Passageiras fugazes na paragem
expectantes à espera da viagem acontecer.

Todas elas passageiras clandestinas que não
souberam fazer correr o sangue em mim
que à vida dá outro sabor e outro prazer.

Subi, dessas mulheres, os degraus arrepiantes
das ondas levianas em delírios sem ternura
em furibundas formas de beleza genial. 

2. 

Difusa claridade... repetível do diferente
assim me quis e vi nessa fuga a minha sorte.
Procurei nessas mulheres dias estonteantes
de loucura vendo no precipício dessa fuga

o meu norte. Fechei o meu espaço tantas vezes
às leis severas da razão. Uivei em mil vielas
a raiva surda da ausência nesta lama arrasante
sem amor; não ouvi os ditames do bom senso.

Perdi-me tantas vezes nos corredores traiçoeiros
da ilusão. À procura dum sonho que não vivi
doutra forma queria transformar esta loucura

numa nova realidade. Embarquei nessas ondas
de insanidade do sonho sem raízes, brutalmente
de cama em cama das mulheres que nunca amei.

________
Copyright 2017-2018 Alvaro Giesta
Imagem no domínio público: Gabriel García Márquez


MATER NATURA


Mater Natura [i]

[Tendo por base a influência de Miguel Torga (no conto LADINO) - e eu digo “influência” (ou “ensinamento”, tanto faz) e não “inspiração”, porque “tal coisa”, sejam “ajudas” de deuses ou deusas, de ninfas ou Tágides, ou quaisquer outras divindades inventadas ou por inventar, ou quaisquer outros “sopros” de vivos ou mortos ou de noites de insónia, de luar ou sem lua, considero que não existe - talhei este MATER NATURA com um pardal 'irmão' do de Torga, embora sendo este sem nome de baptismo. Também neste conto - tanto o pardalito como a mãe-pardal, tal qual o “Bigodes”, gato astuto mas com coração - as características humanas necessárias, ou talvez mais que as de certos humanos, no essencial da acção e da intenção subjacente à personificação: a base do conto.]
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«Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos
separados por água, e fenómenos como as chuvas, as tempestades,
ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes,
eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.»

Ondjaki, “E se amanhã o medo”
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O pardal, pequenino, cheio de medo à beira do ninho, no beiral daquele telhado, ensaiava o seu primeiro voo. Espreitava… “ui mãe, tão alto, que medo!”.
E aquela mãe teimosa saltitava de telha em telha – a telha vã daquele casebre velho e já sem vida – espanejando as asas sob o calor forte do sol que se começava a sentir. E depois para o ramo da laranjeira mais próxima que se erguia no quintal. Todo o dia naquele fadário. “Anda filho, vem… não tenhas medo. Vê… é fácil! Não custa nada!” – encorajava a mãe. E ensaiava mais um voo animador. O centésimo, ou mais…
Mas ele, o filhote e medricas pardal, a quem também o pardalão pai não conseguia demover daquele medo incompreensível, recolhia ao aconchego do ninho e ali se deixava ficar a dormitar no quente e fofo das macias penas que o atapetavam. Os seus dois irmãos, esses, há muito haviam partido e se tinham feito à vida. Arrojados e intrépidos! – “Saíram à mãe, que não ao pai, que nestas coisas de coragem ela sempre fora mais ousada; mesmo quando se tratava de roubar algum painço que a avó Ana Proença deixava a secar nas lajes de granito do balcão da casa”. – Recordava ela.
Porém, mais forte que o medo e na ânsia de partir também na conquista de novos mundos, lá se abeirou, mais uma vez, da borda do ninho naquele dia primaveril já quase no seu fim. O pardal ainda não sabia voar. Espreitou lá para baixo… abeirou-se mais… mais um pouco e, por distracção, mais do que aventura, caiu desamparado nas lajes daquele pátio onde o velho “bigodes” – gato pardo e manhoso – há muito cansara o occipital de tanto olhar para cima enquanto, ávido, lambia os beiços e cofiava os compridos e rebeldes bigodes. Veio aos trambolhões, desajeitado, esquecendo-se de bracejar as asas para sustentar o frágil corpinho no ar.
A mãe pardal, em gritos aflitivos, bem alto, advertia: “Abre os braços, filho… bate as asas, bate…”. Mas lá acabou por se estatelar nas lajes cimentadas do pátio, que os gritos da pobre mãe, desvalida, lhe não valeram de nada. Apercebendo-se do perigo eminente que representava o velho gato que, pé ante pé ia avançando para o coitado, ainda entontecido pelo tombo, encorajou a pequena avezinha a fugir: “Anda, meu pequenino… vamos… voa, faz assim…”. E lá ensaiava o pardalinho mais uma vez, e outra, e outra ainda, mil formas desajeitadas de levantar voo. Mas nada! E o velho gato pardo parece que usou a cabeça – ou talvez o coração, coisa que já é hoje difícil os humanos fazerem – e, cabisbaixo, arredou pé dali quando já se adivinhava uma morte infausta e inglória.
Veio a noite e com ela o frio que já se torna difícil qualquer humano suportar nestas terras transmontanas, quanto mais um pobre animalzinho meio guarnecido de penas. O pardalinho, encolhido, ao pé de uma couve-galega que crescia preguiçosa no quintal, para onde se arrastou com passitos tímidos, lá ia sendo alimentado pela mãe pardal que se ausentava a espaços breves em busca de gramíneas, enquanto o lusco-fusco da noite ainda alumiava o fim do dia. Fechou-se a noite e ficou mais frio. “Mesmo na primavera, fora do ninho e do aconchego das asas da mãe, gela-se!” – pensava preocupada a mãe. Ela, toda a noite voou numa dobadoira incessante, em angústias e receios incontidos, em redor do pequenino que esperou… esperou – e tão ingenuamente... – que lhe viesse a salvação.

Morreu de madrugada, transido de frio, com a mãe a esvoaçar-lhe por cima. “Piu… piu… piu… reage, meu filho, que o dia está a chegar!” – a mãe em queixumes doloridos. “A Mãe-Natureza, pródiga, perfeita e sábia ainda sem soluções”.


Copyright 2006-2018 © Alvaro Giesta em “Conto por conto” (em compilação)
Fotografia autorizada ao tempo da publicação na 'Artesanias Literárias': Ana Maria Russo 

(http://www.1000imagens.com/autor.asp?idautor=936)




[i] conto publicado em 30/08/2006 em ARTESANIAS LITERARIAS (revista literaria del espacio planetario), Argentina e, no mesmo ano em http://www.sergipe.com/balaiodenoticias/mater.htm.



14/03/18

O valor do símbolo na poesia

Na intervenção em certo programa de rádio, falei do entendimento ou não entendimento que a poesia provoca no leitor, quando ela é feita com recurso a certas figuras de estilo que têm por finalidade melhorar, embelezar o texto. E não só - servem, também, para sugerir ideias, interpretações; são estratégias que usa o poeta, o escritor, para imprimir arte literária à sua escrita. É isto que vai provocar, no leitor, o entendimento ou não entendimento da linguagem poética - concretamente, quanto ao efeito criado pela obra de arte literária, é o que nos leva a distanciar a linguagem do senso comum, da maneira como o poeta apreende o mundo e a própria arte - o tal "estranhamento" de que falei.

Assim, somos obrigados a reconhecer que existe uma outra linguagem - a linguagem das metáforas, a que alguns chamam "a linguagem do não-obvio", a que outros chamam "a ambiguidade da palavra poética" - que não é mais do que a linguagem artística que nos permite, a nós, enquanto leitores, a entrar numa outra dimensão só visível pelo olhar estético ou artístico do poeta. É a linguagem literária - por ela, que é diferente da usual, o poeta forma um universo imaginário ou ficcional que leva o leitor a fazer a apreensão do real pela imaginação. É esta a finalidade da arte poética: "dar ao leitor a sensação do objecto como visão e não como reconhecimento" - ou seja, "obscurecer a forma, aumentar a dificuldade (de entendimento do poema) e aumentar da duração da percepção > levando o leitor a apreender o real pela imaginação. É a função da palavra poética no âmbito literário. Escrever com arte, melhor dizendo.

O poema feito com arte, deve provocar no leitor o poder de fazer sentir a mudança, ou seja: a palavra poética deve poder vir a ser "isto" mas também "aquilo" > fazer-nos sentir que há, ali, naquele poema, uma dimensão nova só visível pelo olhar estético ou artístico de quem o escreveu. Esta controvérsia de ler e entender o poema - o tal poema feito com recurso à ambiguidade, feito de molde a provocar no leitor o entendimento ou não entendimento - leva-nos às perguntas:

- o que é o poema?
- e o não-poema?
- serão estas duas questões, contraditórias, que nos levam a definir o que é um poema e um não-poema quando, afinal, é a ambiguidade poética que dita o mais profundo saber que há em poesia?

Nas interrogações "o que é o poema e o não-poema", não confundir "o poema" como sendo, apenas, aquela escrita poética certinha na métrica, na rima, e o "não-poema" como sendo aquela escrita de verso livre, porque "verso livre" (assunto a desenvolver noutro texto) não tem nada a ver com falta de rima ou de métrica, como muitos pensam, muito menos tem a ver com prosa poética - ou talvez, prosa poética, não seja mais que "verso livre" - mas isso é tema para outra ocasião.
Toda a palavra poética é ambígua - diz e não diz; afirma e não afirma - a ambiguidade é o mais profundo saber em poesia.

Esta "ponte debruçada sobre o abismo do "saber" e do "não-saber" (como nos diz Melo e Castro), que frequentemente interroga sem respostas concretas, é que é o maior critério (talvez o único!) da avaliação do poético > é isto que define a maior ou menor arte poética. Trabalhar a palavra poética de ordem a que ela deixe tudo suspenso sobre o nada poético:
- vestir o nada poético de todas as miragens, vivas ou inanimadas;
- provocar com a palavra poética (construída com certo uso da razão e do saber literário) motivos visionários que façam o leitor afinar a visão pela sensibilidade e pelo rigor.

Então, depois desta ambiguidade da palavra poética, cabe perguntar: O QUE É A POESIA? Há resposta concreta a esta pergunta? Há definição exacta para a pergunta "O QUE É A POESIA"?
Vamos deixar tal pergunta à meditação dos leitores e nós vamos tecer a nossa consideração que merece, sem dúvida, oposições:
- A poesia é a expressão da alma > os poetas veem a vida de forma diferente > faz parte do mundo poético podermos raciocinar as ideias de outro modo, usando a razão para imprimir arte à poética quando nos deixamos comandar pelo coração, pela emoção, pelas vivências do dia a dia;
- porque o real é importante na poesia, porque a poesia faz parte da vida quotidiana > o extra-sensorial não pode ser olvidado > cantando-o de maneira diferente em poesia, cativados pela beleza, pelo sentimento, pelos valores, pelas coisas que não podem ser silenciadas:
- a guerra, a injustiça, a ânsia da e na procura, a inquietação, a busca existencial do próprio ser, a falta, a inquietante ausência de Deus.

Assim é a poesia - valor mais alto da literatura; equacionando estes valores, ou a ausência deles, com arte; a caneta dum poeta é arte, quando é cultura, quando é amor, beleza, música, quando é isto tudo. Quando é denúncia, quando é uma constelação de coisas naturais, que têm de ir para além do nosso umbigo; que, metaforizadas ou não, são a arte poética tal qual a música e a pintura.
O poeta, num processo catártico, numa "descida ao mundo inferior" para daí "se subir ao mundo superior", numa "descida aos infernos" para depois "subir aos céus" - ao fim e ao cabo "descida e subida ao mesmo tempo" como nos diz o poeta e filósofo António Telmo - neste processo catártico de maior ou menor profundidade encantatória, o poeta dotado faz vibrar o leitor "com simpatia" com o poema, mesmo que o poema verse tema menos agradável - e disso, ao terminar, vou aqui deixar um poema do poeta que "se outra" na voz do louco (o "outrar-se" é tema poético de que havemos falar na devida altura).

É assim que se definem os artistas do mesmo ofício em "bons" ou "menos bons" e até "maus" ou, como nos diz António Telmo: "É o que distingue o lírico superior daquele que se limita a associar automaticamente imagens umas sobre as outras. Os grandes poetas fazem-nos esquecer as imagens visuais com que nos falam. Tudo sob a sugestão encantatória do ritmo, se dissolve em sons (...) numa mesma, única e indefinível vibração".

alucinação (do livro: O Pranto dos Loucos Lúcidos de Alvaro Giesta, Temas Originais, 2017, Coimbra)

Neste estado de loucura e de reflexão em torno da vida e do eu, numa interrogação profunda em busca de respostas explicativas do Ser, do seu destino e finitude, vociferava o louco nos seus estados mais lúcidos de loucura, numa confrontação com este mundo de injustiças:

[eu sou a vida e a luz.
sou o redentor que chegou p’ra salvar.
sou o mundo; sou a estrela que alumia e que
guia; sou a luz que afugenta a noite e arreda
os medos do mar.

sou a luz que aproxima e repele quem me escuta,
sou a voz que sem medo não se cala e que acusa,
sou o dedo que aponta e não quer recuar.
sou a mão da justiça vingadora que julga
a injustiça  existente neste mundo de ladrões.
- polícias, juízes, ministros, patrões...

sou o pássaro que grita e que voa e que foge
da gaiola; sou a ave que finta o caçador
que o chumba; sou a ave que se escapa a este
chumbo e que volta e que fica para acusar.
sou o mar e sou o vento; sou a tormenta
que atordoa e rebenta no ar.

sou o rei que não se cala e que grita as injustiças.

sou o cais onde a gaivota não descansa,
sou a gaivota à procura doutro cais onde possa
descansar; sou o homem, o enganado,
sou o louco que fizeram e que hoje vive
das migalhas dos ricos que ajudei a enriquecer.

sou o barco a naufragar…

sou o livro que não abri, as páginas que não li
a caneta que não usei e os números que não fiz.
sou a prova disso tudo, duma conta sempre
certa, que alguém me rasurou.

não fui eu quem a escreveu!

sou o alvo da (in)justiça que se fez
o habitante da prisão
cujas grades ninguém fechou.

sou o anjo vingador e sou o verbo.
sou um louco que não cala as injustiças.
sou o louco a pedir céu.]

__________
Copyright, 2017-2018 ©  Alvaro Giesta
(para o programa de rádio "A Voz de Alenquer" - direitos exclusivos do autor)






07/02/18

PONTOS LUMINOSOS NO CÉU in Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde

[Para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente «natural»: está sempre carregada de um valor religioso. Isto compreende-se facilmente porque o Cosmos é uma criação divina: saindo das mãos dos Deuses, o Mundo fica impregnado de sacralidade. Não se trata somente de uma sacralidade comunicada pelos Deuses, (...). Os Deuses fizeram mais: manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e dos fenómenos cósmicos.]
Mircea Eliade in O Sagrado e o Profano (a essência das religiões)



                  Já não bastava a noite que era, por de mais, fria e gelada! Uma noite de breu.
          O céu longínquo, habituado a vê-lo sempre azul nas noites da sua aldeia, esquecida lá longe em terras do Moxico, era agora mais negro do que nunca. Caienda, muito a nordeste de Luena, a cidade de Luso no tempo colonial, há muito que ficara para lá da linha dos seus horizontes mas nunca fora das suas recordações. O céu, neste mar distante, era agora um negro de azeviche. Mais negro que o negro Matiê que, na calada da misteriosa noite negra metia medo, quando atravessava o terreiro da sanzala para se ir misturar com o quente da esteira da Benedita, com o luzir daqueles dois olhos que apenas se lhe viam, como pontos luminosos, iguais aos da velha e faminta onça que rondava o curral dos cabritos do tio Kandiri.
          Apenas aqueles pontos luminosos, de luz, naquela profundidade de fazer até Deus temer, quanto mais os homens, indicavam ser ali o céu.

          As estrelas.
          Habituado a ver o seu piscar cintilante, custava-lhe a crer que aqueles pontos luminosos fossem estrelas! Para ele tudo eram estrelas. Tivessem elas luz fixa ou cintilante. Todos os astros que enfeitavam o céu, eram estrelas. Diferentes daquelas que cruzavam o céu, de um lado a outro, por cima da sua aldeia coladinha a Caienda que fora vila e agora tinha pouco mais que duas ou três casas em pé, que as demais foram esburacadas e reduzidas a pó pelas morteiradas travadas entre as forças que pretendiam fixar-se à força no poder com a ajuda dos cubanos, e as outras, as do Galo Negro, que aos poucos se iam reduzindo a zero à medida que o apoio da África do Sul lhes ia faltando.
          No princípio a mãe fizera-lhe crer, na sua ingenuidade infantil, que aqueles pontos luminosos que engravidavam o céu, em movimento, eram espíritos errantes à procura, nele, dum lugar para viverem. Depois aprendeu que, afinal, aquelas luzes que se moviam cortando o espaço, de um lado a outro, por cima da sua aldeia, eram aviões, lá longe, muito alto, a cruzar destinos longínquos. Nunca chegou a saber que podiam ser outra coisa qualquer colocada pelos homens no espaço, com vista à dilatação do seu conhecimento.
          Mas, quanto às estrelas...
          A mãe dissera-lhe, tantas vezes, quando ainda não entendia o mundo, como agora, ou entendia apenas uma ínfima parte dele na sua inocente ingenuidade, tal qual ainda hoje o entende, que aquilo eram os olhos dos seus antepassados "vovô e vovó" a zelar por ele, cá em baixo na Terra e a iluminar-lhe o caminho.
          «Que são antepassados, mãe?»
          E lá lhe explicava ela, como podia e com a paciência que só uma mãe sabe ter, usando palavras que ele pudesse entender, e jamais olvidar, o que eram os "seus antepassados".
          «Mas vovô o vovó estão vivos, mãe. Como podem ser eles no Céu a dar luz ao meu caminho, se estão na aldeia?!»
          Que os antepassados, a que ela se referia, eram os avós dos avós e muitos avós de muitas mais gerações antes deles. Acomodava, assim, o espírito inquieto, por saber, daquele filho em constante interrogação. E tantas coisas mais ela lhe ensinou! Das coisas boas do Mundo, que o Mundo tem, e de algumas ruins da Vida, também. Mas não lhe ensinara da guerra que destrói e mata. Da guerra que ele viu um dia nascer e matar, e o fez fugir naquela aventura impensada por não querer ainda morrer e juntar-se, antes daquele que ele julgava ser o seu tempo, ao tempo dos seus antepassados. Da guerra que lhe levou o irmão mais velho e lhe levou, depois, a mãe, também.
          Tanta coisa mamãe lhe ensinou! E milhentas outras coisas ficaram por ensinar. Os seus pensamentos, na dificuldade desta fuga aventureira e temerária, iam para ela que tanta coisa lhe ensinara. Ela era o Deus das suas preces e súplicas, nesta aventura onde pensava morrer a cada instante, mas onde não queria por enquanto morrer.

          Agora as vagas iradas, naquele fustigar implacável e constante nos costados da traineira, faziam os mais novos gritar. E era uma trabalheira fazê-los calar... com que esforço se conseguiam mantê-los colados no fundo da embarcação. As ondas, iradas, pareciam querer parti-la, pelo meio, engoli-la para as profundezas daquele mar infernal e sem fundo que, apesar de tudo, era dele que esperava a salvação. Todos esperavam o mesmo!
          Eram dezasseis. Um grupo formado, quase por acaso, que ao longo da fuga a partir de Cazombo e em direcção a sodoeste, com destino a Namibe, o Moçâmedes do tempo colonial, onde se sentiam mais protegidos pela presença constante das forças do sudoeste africano que entretanto faziam profundas incursões no sul de Angola, foi cimentando amizades com a convicção de que, de Namibe, partiriam rumo a qualquer sítio mais seguro, ainda que dele não fosse prioritário saber o nome nem tão pouco adivinhar o destino que lhes estava reservado. Importava, sim, saber dele a segurança e a liberdade.
(...)
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Alvaro Giesta © para (Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde) obra a publicar
Direitos protegidos por lei (obra registada na IGAC)
Máscara Tschokwé (Lunda, Leste de Angola)


            


O MEDO E A MÁSCARA "Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde"

        Tremeu. Também sentia medo. Mais do escuro do que daquele mar encrespado. Sempre teve medo do escuro. Sempre teve medo do medo que nascia do escuro.
          Costumava dizer-lhe, a mãe, que a noite escura tinha Kazumbir. Que o Kazumbir andava, na noite sem dono, como alma penada, à procura das crianças da aldeia com que alimentava a sua sede de sangue e feitiço. Principalmente daquelas que se afastavam do terreiro da sanzala, para lá da orla com a mata. Por isso, à noite, ficava de cócoras junto da fogueira acesa na palhota, enquanto rabiscava na cinza, com qualquer graveto, figuras sem rosto. Eram as figuras das crianças que o Kazumbir roubava para alimentar a sede do mal. E pensava no Kazumbir...

          «Mamãe, como é a cara do Kazumbir?»
          «Não tem cara - dizia-lhe a mãe - são como os Chingange sem cara.»

          Ele desconhecia como era Kazumbir mas, sabia que Chingange, essa figura mística de interesse e respeito que aparecia nos rituais africanos, tinha rosto, apesar de aparecer sempre com a cara tapada com uma máscara pesada feita de madeira.
          Pensava sempre que cada máscara tinha um duplo efeito: um pela face externa, outro pela face interna. Como se por uma se visse nessa figura mística um deus e, pela outra, se olhasse para o homem que se transmuta e fazia crer, a si próprio, que era um deus na transfiguração do eu. Ele sabia que, por detrás daqueles buracos fundos e negros, se moviam os olhos de um homem. Um homem agora sem rosto... debaixo daquela máscara, havia uma outra máscara, ou talvez muitas máscaras num rosto sem rosto. A máscara externa, feia e fria, ainda que de pau preto fosse esculpida e o seu escultor lhe pudesse ter dado dóceis feições. Mas não, deu-lhe as feições mais horrendas que é possível dar a uma máscara sem rosto. A máscara era de feições disformes talvez para indicar, a quem a olhava, a medo, que o coração do seu utente também era sanguinário e assim o obrigava a deitar os olhos ao chão. Apenas uma boca arreganhada de lábios feios e grossos e no lugar dos olhos dois buracos profundos. Tão negros como o negro da noite em que Kazumbir se acoitava, de que Kazumbir se alimentava, tão fundos como o abismo do mar que prometia ser a sua última morada.

          «Quem vir a cara de Kazumbir, morrerá - continuava a dizer-lhe a mãe ­- ou acontece-lhe um mal ruim, daqueles de fazer a pessoa, que o apanha, ficar deitado, doente o resto dos dias, na esteira estendida no chão duro da escura cubata onde só os mais-velhos e sábios da aldeia podem entrar para se certificarem que o mal que Kazumbir espalhara ainda não tinha levado o doente para junto dos antepassados.»

          Por isso, Kazumbir não tinha cara; não, como Chingange que andava sempre de cara tapada mas, existia sem cara - dizia-lhe a mãe. Ninguém sabia, porque nunca alguém vira Kazumbir... Kazumbir era o presságio da morte; nunca ninguém na aldeia o tinha visto mesmo sabendo-se da sua existência. Em Chingange, no lugar dos olhos e da boca, apenas aqueles três buracos negros e sombrios que nem a luz do dia ousava espreitar para o seu interior, com medo de aí se perder. E corpo de Chingange era disforme. Lembrava-se bem disso. Muitas vezes o tinha visto dançar, naqueles saltos grotescos no largo descampado ao fundo da sanzala. Sítio que ninguém ousava atravessar, nem mesmo fora do tempo das batucadas sagradas... era terreno exclusivo de Chingange. Terreno sagrado. Ali, onde a velha mulemba guarda ninhos e segredos que incendeiam quem deles ousar saber mais que os Sekúlos sábios da aldeia, se festejavam as festas do alambamento até ao sol posto, ou se recordavam, noite dentro e manhã fora, aqueles que dos seus se partiram para o reino longínquo dos antepassados.

          Recordava-se...
          A tarde ia alta. Aproximava-se do seu fim. Num pôr-do-sol, estranho, sanguinolento, o astro arredava-se para o outro lado do mundo, rasando, na distante savana, as copas das bissapas que se erguiam do solo a partir de disformes e esqueléticos troncos; de ora em vez o sol espreitava, teimoso, por entre nuvens carregadas que o vento teimava em fracturar, e emprestava-lhe a cor sépia que deixava fugir de si. Era um pôr-do-sol diferente... mau presságio se adivinhava. Afogou-se, o sol, num céu assustador, para as bandas mais longínquas da savana.
Pressentia mau agoiro naquele adeus dum sol agónico, num céu de medo e morte. Misturavam-se-lhe, na mente, interrogações incontornáveis naquilo que lhe parecia a premunição dum desastre conjugado com a embriaguez do êxtase.

          Um Chingange rompeu, de repente, da mata que orlava as libatas e as unia num todo em redor da velha capela protestante erguida a adobe no centro da aldeia, em saltos grotescos mais parecendo um demónio, metendo medo aos mais novos por ali próximos. Depois outro, grotescamente disforme, igualmente com aquela máscara de feições macabras a cobrir-lhe invisível rosto, e outro, ainda... eram três zarapelhos em pessoas.

          Ele correu, assustado, a esconder-se debaixo do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, que depressa ela apertou, ainda mais, ao corpo com um nó, não fosse ele desprender-se e deixar-lhe à vista as sagradas íntimas partes de si, enquanto num ritmo cadenciado de pés e mãos ela acompanhava as outras anciãs da aldeia para contentar os Chinganges nas suas danças macabras. Aqueles corpos desengonçados, cobertos de lianas e zarapilheira, enfeitados com saias de sisal seco e esfarpado, faziam piruetas demoníacas no ar e rebolavam, no pó do terreiro, como animais que querem desfazer-se dos parasitas que, como lapas, se lhes colam ao corpo e os incomodam causando-lhe fatal coceira. Presas ao corpo, os Chinganges usavam mil fatias de sisal seco e, nas pernas, uma teia de pele com guizos que soltavam sons frenéticos e estridentes produzindo a própria música que dançavam. A espaços incertos erguiam-se, de entre a multidão que arredava assustada, outros homens-gnu de tamanhos disformes e homens-gunga a que se juntavam mulheres-gazela fazendo vibrar as tuelelas amarradas ao tornozelos.

          Depois daquela dança macabra de cerca de duas horas, todos se dissolveram, numa travessia secreta existente ao fundo do terreiro, para qualquer lado sem nexo entre o visível e o invisível. Como tinham aparecido, de repente, vindos não se sabia de que insondável e silencioso recanto da mata, assim, num ápice, os Chinganges se sumiram no capim alto para lá dos limites da sanzala. Era a cumplicidade dos deuses a aterrorizar as pessoas humildes, para que a sua obediência e subjugação ao desconhecido fosse total, cega e absoluta. Assim convinha à união dos poderosos esta subjugação e subserviência dos humildes.
          E a submissão continuava, por horas sem fim, naquele monocórdico tantã acompanhado pelo bater surdo de dezenas de pés descalços no chão barrento do terreiro. De ora em vez uma voz de tenor erguia-se, como se em rebeldia, e deixava escapar prolongado esgar de dor, que não se entendia bem, a que logo respondiam vozes arrastadas de lamento ao som das palmas compassadas a que se juntava o ébrio bambolear de corpos suados em simulacros de dança. Era neste fluir descendente de sangue, da cabeça aos pés, que os corpos bamboleantes se desarticulavam em arremedos de danças demoníacas, pela ausência de controlo cerebral devido à insuficiência da oxigenação do cérebro.
           De um sítio oculto pela sombra, já livre do medo e liberto da prorecção do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, ele, que nunca desfitara os Chinganges nem os seus adjuntos e malabaristas homens-gnu e homens-gunga, captava já os sinais do magma misterioso da vida.
  __________
Alvaro Giesta © para "Contos do Infinito e os Demónios da Tia Matilde"
Direitos protegidos por lei (manuscrito registado na IGAC)
MÁSCARA TCHIOKO (Lunda-Leste de Angola)



26/01/18

POLICROMIA PARA CEGOS - "apenas o invisível / tem a cor que tu escolhes"

Corajoso é o título desta obra: "Policromia para Cegos" - esta arrojada palavra "cegos" que a muitos dos que veem incomoda, por razões de impacto social, e a substituem pelo termo "invisual", esquecendo-se que, no verdadeiro significado, o invisual é aquele que não é visto; por ironia do destino, não é menos verdade que muitos dos que veem põem em prática o significado etimológico da palavra "invisual" ao passarem pelo cego, como se ele fosse o ser invisível e desprezível, o pesado fardo para a sociedade. Esses, sim, são cegos sem nunca terem cegado!

[Borges (Jorge Luis), o autor de "Elogio da Sombra", escreveu sobre a cegueira que o acometeu na década de 1930: «Não permiti que a cegueira me derrotasse (...). A cegueira não foi para mim uma desgraça total (...). Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas à sombra. Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será capaz de se conhecer melhor - como disse Sócrates - do que um cego?».
Insignes são os mestres - que embora idos para o eterno continuam vivos, pelas obras e, até, pela lenda, entre os mortais - a quem a cegueira em nada atormentou; antes, ela foi incentivo para tantos "Homeros", como o da antiga Grécia que, existindo ou sendo lenda, realça que a poesia é, antes de tudo, música e que a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta. John Milton, na nobre arte de escrever, não se queixava de ser cego: "Paraíso Perdido", é o seu longo poema de hendecassílabos que guardava na memória ditando-os às pessoas que vinham visitá-lo para que, por ele, o escrevessem. James Joyce, cuja parte da obra que deixou foi escrita na escuridão, para quem a insigne língua inglesa não era suficiente e se embrenhou em estudos de norueguês, latim e muitos outros idiomas, mesmo um que para si inventou com a coragem dum cego que vê o mundo por dentro de si e de outro modo dos que usam a visão para ver, escreveu: «De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira.» E Castilho (António Feliciano de), o nosso poeta sem a faculdade de ver desde os seis anos de idade: o que o impediu de, não vendo, seguir estudos regulares na universidade, fazer traduções e leccionar? O que o impediu de lutar contra o aterrador analfabetismo que assolava o povo português? Nada, nem a cegueira!] 

Depois deste intróito, em poucas linhas sobre a obra me debruço:
Em finais de Março deste ano de 2017, o autor português Emanuel Lomelino que escreve a obra a quatro mãos com o autor galego Jesús Recio Blanco, endereçou-me o manuscrito de Policromia para Cegos para do mesmo tecer opinião, antes de o submeter à apreciação editorial. E escrevi, então, aos autores: «Obra (quase) prima. (O "quase" limitava-se a duas propostas de alterações: evitar discrepâncias na estrutura dos textos dos dois autores para uniformização da obra, como se de uma só obra se tratasse, embora escrita a quatro mãos.) E continuava: ambas as partes se completam, como se o autor fosse só um e em momentos diferentes (até aqui ainda eu não sabia que os autores eram dois).»
E agora o desafio lançado pelo autor Emanuel Lomelino para escrever o prefácio. Longe de mim o sonho de, cinco meses volvidos, me ser dada a honra, pelos autores, de prefaciar uma obra com direitos autorais atribuídos, pelos mesmos, à ACAPO - Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.
Li-o, antes, com a devida atenção, e, agora, com redobrado interesse; à medida que ia avançando na leitura, mergulhava na leveza das águas dos poemas procurando o infinito onde os horizontes da luz e da falta dela, das cores e da fantasia, corriam a nudez do pensamento e não enxergavam mais do que a beleza de ver por dentro, por aqueles que não veem, aquilo que quem vê não consegue ver por fora - tal é a profundidade da obra que, apesar de pequena em tamanho vi grande na qualidade do poema e na sua "(in)directa" significação.
- Corrijo, se me é permitido, duas coisas: a referência que faço à "qualidade do poema" e à sua "(in)directa significação"; quanto à primeira referência, isto que acabo de ler não é o mero poema tão em voga, que por aí prolifera, sem conter o mínimo laivo de poesia - isto é verdadeira poesia. É poesia que vai para além das propriedades que a definem: ritmo, melodia, beleza, conhecimento da alma, operação de alma no verso capaz de «cambiar al mundo», como nos dizia Paz. A poesia desta obra é como que um exercício espiritual da palavra poética que se polariza, que se congrega no humano, porque vem do sentir do poeta ao encontro da alma do leitor - grande é o sentir, o sentimento dos poetas que a escreveram, maior é a recepção espiritual de quem a lê, não necessitando de ser crítico da matéria. A segunda referência que corrijo, é a "(in)directa significação" porque, apesar da forte presença das imagens literárias que enxameiam a obra com as quais o visível se torna invisível ao tornar o invisível visível, ao leitor cabe descodificá-las - apesar das muitas sinestesias a inebriar-nos os sentidos e até das tantas anáforas em cadeia textual produzindo um certo efeito de harmonia, característico das aliterações (dificilmente encontrados na obra estes últimos efeitos estilísticos), os versos que a compõem são como se fossem "(n)esse olhar de ânfora e infinito // (n)esse olhar de âmbar e nudez // (n)esse olhar amplexo e de ausência", espelhos a reflectir a luz que da sombra sai; tal como se a falta da "luz" no olhar e do "brilho" da cor que esse olhar, pela força do destino, não capta, estivesse, essa falta do ver, presente na sensatez dos "teus dedos", na prudência dos "teus dedos", no movimento do tempo dos "teus dedos" que sendo "clepsidras" também são "hidriões / sem urgência / mas previdentes"; apesar de todos os apesares das metáforas que embelezam o texto, que podia ser um só e longo poema, assim visto numa gradação crescente em ambas as partes da obra, nelas se lê a intensidade expressiva do objecto poético: "os meus sentidos / são cegos como os teus olhos" (in Sinestesia) e "esse olhar amplexo e de ausência / é desconforto nas minhas palavras / e vazio da minha ignorância" (in Serendipidade) - um livro que nos fala também do silêncio onde as horas se perdem na "espessura das sombras" e onde os corações que sentem e os olhares que veem, embora não vendo, "escondem estórias" a desvendar  pelos que sabem sentir, como quando "o coração bate / como um rio" e "a criança se abraça ao cego".
Como nos versos da obra "era desnecessário descrever a chuva / suspeitar da sua verticalidade / distinguir o eixo da sua extensão", a mostrar-nos a intemporalidade do poema, porque ele é apocalíptico, é eterno, (quase) como Deus é presente, passado e futuro,  (quase) desnecessário se torna descrever a obra "onde as palavras prolongam / o vazio da humanidade // e a noite é incorruptível na sua forma (...)". E (quase) desnecessário, porque este grito poético que "(...) começou por ser sombra e água" e "escuro", nos remete a "um hemisfério oculto / do outro lado das (...) pálpebras", fechadas ou, embora abertas, sem nada ver, onde existe uma outra dimensão - o invisível - onde é dado ao leitor imaginar uma outra luminosidade do sol - doutro sol diferente daquele que nos alumia - que, mesmo no verão, sendo "cinzento" e "invernoso", nos é dado permitir imaginar no cego a "translucidez" dos "espectros vermelhos" e a "cor de fogo" da sua imaginação. São estes céus incendiados de lucidez que aquele que vê, dificilmente consegue imaginar ver com a força da escuridão com que o cego vê.
Remetem-nos os autores para a multiplicidade das cores e suas variações do sonho do cego. E é muito claro no que se pode ler para além do que deixam expressos estes versos: "apenas o invisível / tem a cor que tu escolhes". Sabemos que, mesmo naquele que vê, como, durante o sono, o sonho é lúcido, repleto de cores, de sons e imagens, baseado nas suas percepções visíveis; e que, quando acordam, apenas estão presentes no fundo da alma as sensações - quase sempre tudo o mais se perdeu da lembrança desse sonho. O cego, na sua profunda escuridão, quer seja noite ou dia, sonha o sonho sem as cores das imagens visuais nunca vistas, pela impossibilidade de as ter percepcionado - pinta a palete das cores que no invisível ele tem com a felicidade do sonho de as poder escolher para si, como suas e só suas. E aquele que vê (o poeta) se conforma em não poder falar-lhe "de todas as cores e variações" porque desconhece se as "paletas (de ambos) são feitas das mesmas tonalidades". Um misto de esperança e desesperança, de ânimo e de desânimo, contudo de fé e de amor nas palavras dos autores desta obra dirigida ao cego: "prefiro a tua noite eterna / à solidão cega das lanternas".
Admirável esta obra: todos os poemas, com a complexidade subjectiva inerente a cada um e subjectivamente entendível por cada leitor que a lê, permitem ver luz onde há luminosidade sem sol e descortinar brancura mesmo no cinzento das sombras. Mesmo quando essa falta de luz, em nós, nos conduz à solidão - que, de comum com o silêncio e a escuridão, assusta e aturde mas nos espanta ao mesmo tempo, quando damos por nós a ver que o negrume descerra em brilhantismo. Se os sentidos se alimentam com o que lhes oferece a natureza, a falta do sentido da visão conduzindo o ser à solidão, obriga-o a meditar e a criar - descerra-se das trevas a luz e, os olhos, desofuscados desses luzeiros intensos que muitas vezes incomodam, porque enganadores, exercitam-se a olhar por dentro procurando em si, e nos outros, aquilo que não podem ver por fora. E o poeta lavra, assim, o seu poema abrindo o coração, não magoado, mas, acolhedor, àquele que vê por dentro porque a sorte o impediu de ver por fora: "Quem me dera saber braille / para escrever um poema / que tu lesses e interpretasses / sem ter de ouvir da minha boca. // Se eu soubesse braille / ler-me-ias, ponto a ponto, / com a ponta dos teus dedos / e saberias, sem que te dissesse, / quais as sombras que me inibem / e que medos me afligem. // Se eu soubesse braille / poderias conhecer o que escrevo / e fazer as tuas próprias leituras / dos versos que nascem / no aconchego das minhas noites, / tão diferentes das tuas. // Quem me dera saber braille / para que me visses / tal como vês o mundo." - E eu acrescento e reforço com o verso do poeta; "com a ponta dos teus dedos".

 O livro é uma horta semeada de puro grão na promessa do trigo que verdejará bebendo o licor da pura seiva. Estes poemas de Policromia para Cegos têm trabalho dentro, têm substracto e húmus porque dizem do(s) poeta(s) e do poema, dizem da vontade sábia de ver para além da sombra, dizem da sabedoria de mostrar ao mundo que a sombra também é luz quando na escuridão se faz dia.

O livro POLICROMIA PARA CEGOS abraça o tempo uno do poema, mesmo quando se abre em dois: SINESTESIA e SERENDIPIDADE. Cada um deles com vinte e cinco magistrais poemas. Pequenos, no número de versos, mas grandes, na arte poética. SINESTESIA, remete-nos para esse tipo de sensações originárias dos diferentes órgãos dos sentidos - nem de outro modo poderia ser, atendendo ao significado da palavra, conjugando-o até com o seu verdadeiro significado: fenómeno neurológico que produz duas sensações de natureza diferente por um único estímulo. Assim se cruzam sensações - como uma cor pode ter um sabor, um som pode ter uma forma. Como um olhar alberga todos os horizontes, sem os ver, um pensamento fantasia todas as possibilidades sem as enxergar. SERENDIPIDADE, termo este tão pouco usual no nosso dia a dia, vem dizer-nos, no seu significado, dessa faculdade de descobrir coisas agradáveis por acaso - remete-nos, assim, para o admirável daquilo que a obra Policromia para Cegos tem dentro: a possibilidade, dada ao cego que não vê mas, também, àquele que vendo anda cego, de ver luz para além das sombras.

Copyright © 2017, Alvaro Giesta, (todos os direitos reservados para o autor, com cedência, apenas, para o Prefácio da obra POLICROMIA PARA CEGOS, dos autores Jesús Recio Blanco e Emanuel Lomelino.)

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