13/01/20

JUÍZOS NA NOITE, de António MR Martins



É usual, no lançamento duma obra que acaba de nascer, os leitores estarem na expectativa de ouvir falar do livro, para os ajudarem na decisão da compra ou da compreensão da obra; é também essa a função do prefácio, do antelóquio, do exórdio, dos prolegómenos, chame-se o que se chamar àquele texto que precede a obra do autor no sentido de a apresentar ao leitor; não de a fazer compreender, porque isso é tarefa do leitor, mas de dizer ao leitor nas linhas do prefácio, do que fala o autor. Coisa que nem sempre acontece: nem nos prefácios, menos ainda nas apresentações das obras em lançamento.
Nos prefácios, há prefaciadores que escrevem tudo à volta de si com o propósito vaidoso de se mostrarem, que até se esquecem do objecto em mãos - o livro sobre o qual nada dizem no prefácio. Em muitos lançamentos de obras, fala o apresentador de si e nos dois últimos minutos apenas dá o abraço de parabéns ao amigo autor. Da obra, nada disse. Como há outros lançamentos em que, apesar da boa vontade do apresentador em falar da obra, já não vale a pena dela dizer algo, porque tudo já foi dito pelos amigos do autor nas duas horas precedentes, com leituras de trechos e de poemas e com uma multiplicidade de adjetivações sobre as amizades com o autor. Não será o caso vertente.
Falemos da obra JUÍZOS NA NOITE de António MR Martins, para que o leitor saiba que o livro que vai levar para casa não é um "barrete" mas uma obra com verdadeiro valor literário. Mas, antes, esclareço: a minha relação com o texto criativo de Martins é absolutamente isenta de afectividade. E, embora o que escrevi em nada se pareça com um trabalho crítico à obra, vou manter-me, como se o fosse, no plano restrito da relação com o texto.
Duas consideraçoes impõem-se, contudo, para justificar o conceito de coisa literária:
1. O que são obras literárias? São criações esteticamente construídas e com utilização de diversos recursos estilísticos, que transmitem intenções comunicativas do autor para com o leitor. Abro um parentese para dizer que não é preciso ir-se à faculdade de letras para aprender sobre poesia; mesmo nascendo-se sem o dom (contrariando o que muitos dizem que "não é poeta quem quer, mas quem nasce poeta"), sublinho, mesmo nascendo-se sem o dom, pode aprender-se sobre poesia... mas é preciso ler-se, ler-se muito - poesia, literatura e ensaios.
2. O que são tertúlias literárias?  São reuniões culturais com vista à discussão e troca de conhecimentos relativos à literatura e obras literárias. Outro parentese - não são, apenas, a simples leitura de textos do autor ou do amigo do autor.
Portanto, uma criação literária, seja obra ou tertúlia, não é uma forma simples de contar um facto ou escrever um poema num arrazoado de palavras inócuas, como não é a simples leitura de poemas do poeta ou de amigos seus. É muito mais do que isso.
E antes de falarmos de JUÍZOS NA NOITE, construído num tipo de verso a que os seus teorizadores no princípio do modernismo chamaram de verso livre, assim o considerando porque negava a rima, desprezava o pentâmetro jâmbico e cada poeta, segundo esse conceito, deveria inventar a sua própria forma cada vez que compunha o poema, deveria ser escrito em total liberdade desprezando a arte demonstrando desprezo pelas anteriores formas poéticas, vamos falar um pouco neste tipo de verso contemporâneo para enquadrarmos o verso de Martins.
Em todas as épocas, em todas as culturas, poeta era aquele que praticava a "arte" de submeter as palavras a uma série de convenções que as transformava em poesia - a rima, a métrica, a estrutura, o ritmo. Verso livre era, então, segundo esses teorizadores, aquele que não obedecia a este padrão métrico regular, seria então qualquer trecho de prosa dividido arbitrariamente em linhas a imitar versos, seria todo aquele trecho construído em total liberdade, sem arte, porque segundo o conceito dos teorizadores do verso livre, a arte era portadora de cadeias que impediam a liberdade poética. Porém, isso não é assim, ainda que muitos continuem a pensar que assim é. O verso livre - o verso contemporâneo - tem que ter de comum aquilo que todas as formas poéticas têm: a utilização consciente do ritmo e aqui ritmo entende-se como uma figura de periodicidade, em analogia com a harmonia musical. Mas o ritmo da poesia não tem nada a ver com a harmonia da música, nem sequer com a prosa, se bem que o ritmo não seja exclusivo da poesia porque em toda a linguagem verbal há ritmo (eu, ao ler este texto estou a imprimir ritmo à leitura). Estará, até, mais próxima da poesia a linguagem verbal que a própria prosa. O ritmo da poesia é diferente e único, é singular porque está articulado com o essencial do significado que a poesia deve ter sempre: a imagem. Porque, como nos diz Paz em El Arco e la Lyra "ritmo e imagem são inseparáveis" na construção do poema. Seja ele rimado ou branco, seja ele metrificado ou (verso) livre. A linguagem verbal tem limites; mas, quando damos à palavra o sentido que ela oculta, atribuímos-lhe o valor poético que a palavra tem: a imagem é o essencial da sua significação;  aliando-a ao ritmo, temos o poema que vai de encontro à poesia. Se não houver ritmo não há poema - há prosa poética, diz Paz. E diz ainda, o ritmo, aliado à imagem, é o pulsar do sangue que circula nas veias do poema. É movimento; é emoção; é vida; é poesia. Tal como para o artista, das mais variadas expressões de arte, o ritmo expressa movimento. Fernando Pessoa dizia que "A poesia é a emoção expressa em ritmo através do pensamento, como a música é essa mesma expressão, mas directa, sem o intermédio da ideia».
Recordo-vos que defendido por uns - os revolucionadores da poesia com o argumento da liberdade poética, mesmo sem arte - atacado por outros, os que dizem que o verso livre não existe por falta de êxito e que só existe pela negativa, como defende o poeta e crítico literário T.S. Elliot, há outros, como João Cabral Neto - e aqui vale a pena referir esta inconsistência do crítico, pela mudança radical da ideia acerca do verso livre - que antes o defendeu (em 1953) em entrevista concedida a Vinicius de Maraes com estas palavras "(o verso livre) é fabuloso, e abrir mão da aquisição da poesia moderna será banir a poesia do mundo moderno"; porém, 30 anos depois (em 1988), depois de ver o mau uso do verso livre entre os poetas que apareciam como formigas, (como lêndeas, agora neste alfobre do facebook, digo eu), afirma em entrevista dada a Mário César Carvalho: "uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre; antes, trabalhava-se o texto, agora desde o momento em que existe o verso livre todo o mundo acha que descrever a sua dor de corno é poema". O que pretendia dizer o poeta? Coisa que é válida ora e sempre - que mesmo o verso livre tem que ser trabalhado com arte retirando, dele, o inútil.
É aqui que Martins marca pontos em relação a muito pretenso verso contemporâneo ou livre, chamemos-lhe por este nome, que por aí prolifera. Martins edificou JUÍZOS NA NOITE com uma construção rítmica excelsa para que se afaste da prosa, quebrando o verso no sítio certo da cesura, para que o hemistíquio seguinte dê a feição de um novo verso, imprimindo-lhe, assim, o tal ritmo, que deve ser isto a essência do chamado verso livre. E mais: aliou-o à imagem, essa representação simbólica que dá a possibilidade de mentalmente reconstruirmos a realidade, usando o símbolo, a sublimação mais elevada do pensamento expresso em palavras. Então, olhando às características com que o autor construiu, em verso livre  esta obra, pergunto: 

Há ou não há arte no verso livre? Se há arte, cai então por terra o argumento dos teorizadores que dizem que o verso livre feito com arte não é livre, porque a arte agrilhoa o pensamento. Nada mais falso e os teorizadores do verso livre estavam redondamente enganados - a "arte" não agrilhoa o pensamento, não inibe de pensar, a arte obriga a pensar; "a arte é um meio para a reflexão", "a arte ensina a pensar", "a arte substitui o pensamento na tarefa da interpretação do mundo". O que esses teorizadores do verso livre queriam, era anarquismo no verso. E o anarquismo busca sempre o fim de qualquer coisa. E quanto à rima e ao esquema que não tem, efectivamente, o verso livre, diz-nos Eliot: "o verso livre não se define pela ausência de rima ou ausência de esquema, pois há formas de verso sem rima (é o caso do verso branco) e sem esquema, nem se define pela ausência de metro, visto que até o pior verso pode ser escandido". Por isso, diz-nos ele "a divisão entre Verso Conservador e verso livre não existe, porque há apenas versos de boa qualidade, versos de má qualidade e o caos".

É esta a característica do poeta Martins - fazer a coisa poética com qualidade e arte e eu testemunho-o porque o conheci na execução do soneto, a forma poética por excelência. Ele é como aquele fotógrafo profissional que, ao fotografar a modelo retira tudo o que é acessório na fotografia: o banco, o animal, o lixo, o penico com a planta a tentar embelezar a entrada da porta... assim procede o autor na poesia deste livro. A temática desta obra não é una e vou chamar-vos a   atenção apenas para dois ou três tópicos, aqueles que me prenderam mais a retina. Na obra há amor e onde há amor há sonho; há tormentos, também, e desassossego e, se há isto, há na proposta do autor o apelo ao sumo-Bem; há a preocupação do Ser pelo Outro, mas também a preocupação desassossegada do Eu, na tentativa do encontro consigo mesmo.
"Elícito ao teu olhar / (...) / me reduzi à ínfima partícula do ser" (logo no 2.º poema) - Elícito: reparem nesta palavra vernácula que significa "sentimento produzido pela alma, atraído por ela, sedução benévola direccionada para a prática incondicional do Bem ® Tomás de Aquino dizia que "o apetite é elícito quando tende para a apreensão do Bem". Mas há limites a condicionar a produção do Bem, e o poeta alerta-nos disso: as mentiras acumuladas que medram no "espaço terréu"; palavra latina muito bem aproveitada pelo autor, terréu - o espaço terrestre, a terra com estas ervas daninhas, a incompreensão da sociedade que vive arredia da palavra "amor".
Aqui é que está o valor literário da coisa literária - pelo ritmo aliado à imagem, um e outro ao encontro da poesia. Na obra, pela perícia no uso da palavra, aquilo a que eu chamo "o profano ofício das palavras", brilha a descrição das emoções pelo fogo que põe nas imagens, nos sentires, nos olhares das falas, porque as falas também veem, e os sorrisos também têm sabores... Neste conflito, nesta dualidade entre o sentimento da prática do Bem produzido pela alma e a mancha da sociedade que produz as ervas daninhas, traça o autor uma esquadria poética (nome dado a um poema seu) onde endireita e propõe o traço do caminho recto a seguir - é o sonho poético.
Na obra há a memória - a lembrança do tempo passado, a saudade e o ensejo do tempo futuro. Sim, há saudade, também - o jogo da palavra vento que promete trazer ao poeta as vivências esquecidas, não aquelas que se guardam na memória, porque essas são perenes e não esquecem nunca, não morrem nunca, mas aquelas que, pensadas esquecidas, afinal estavam apenas latentes na memória, ocultas por leve névoa. Há o passado mas, também há a esperança radiosa de que o futuro será sempre "a surpresa de cada amanhecer", diz-nos o poeta em Renascer na simplicidade de viver.
Na obra há o tempo - o tempo é como um rio, lembra-nos Gustavo Ascher: "nunca podemos tocar na mesma água do rio duas vezes"; a certeza de que, como dizia o filósofo Heráclito "a mesma água nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte". Diz-nos Martins "não mais seremos como fomos"; devemos aproveitar cada minuto da vida e, por isso, procurar boas aparências e pessoas perfeitas é tempo perdido porque elas não existem ® o poeta diz-nos isso mesmo em Renascer Impróprio - que o sentir é fugaz, quando o olhar tem a idade da diferença e o sangue não nasce com a pujança necessária, quiçá a pujança dos outros tempos. Em palavras suas: "Por ora / tudo em ti / reflecte estagnação / e o sangue / já não te nasce / com a pujança necessária."
Na obra, também há o corpo - o corpo aliado indubitavelmente ao amor e ao tempo: um corpo de raízes abre-se como o grito na vastidão do tempo. Sob o cabelo feminino o arrepio e o ventre ávido pulsam sob a pele, como a febre nos hospícios cresce no corpo à espera de novos remédios por inventar. Assim rodopia no corpo a fome do prazer reinventado; abre-se à vastidão dos dias devorados pelas garras ardentes do prazer; mas... depois é a falência do corpo: (nas palavras do poeta) "A falência das forças / apodera-se do corpo e o olhar mortiço / parece visionar // um horizonte de inexistências./ (...) // A matéria torna-se pó / na cal do contínuo infortúnio."
Há, em JUÍZOS NA NOITE, fortes juízos do Eu, sobre o Eu enquanto Ser, do Ser-Outro, do sempre aliado tempo Passado-Presente-Futuro, nesta poesia reflexiva, às vezes até metafísica, em que só o silêncio da noite ou o isolamento necessário dos ruídos do mundo, faz medrar a produção de tais juízos poéticos. E, para terminar, há outras meditações sobre a palavra - na certeza do Verbo, como o autor lhe chama: "O verbo, será sempre o verbo, / mas já não tem a soberba determinação / de outrora."
Meditando sobre esta certeza da incerteza do Verbo, para que nos chama a atenção o poeta: "O verbo, será sempre o verbo, / mas já não tem a soberba determinação / de outrora" - vem-me à memória o que, não muito longe no tempo, disse, com certo pessimismo, em entrevista  escrita no Jornal da Biblioteca Pública de Paraná e deixado exarado em livro seu de ensaios, a mui reputada e renomada professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Leyla Perrone-Moisés, autora de livros de ensaio como Inútil Poesia e Altas Literaturas, sobre a perda da relevância da literatura no meio cultural e de como grandes autores do nosso tempo lutam contra esse cancro, que é o cenário do fim da literatura. E, afirmou, à pergunta do entrevistador:

"A senhora escreve que não é possível estudar literatura sem passar pelos textos clássicos.(...)"
Responde a Mestra:
"Para estudar literatura, é necessário partir dos clássicos. O mesmo acontece no campo científico. Isaac Newton dizia: «Se vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes». Os professores de literatura podem e devem propor textos contemporâneos em suas aulas, pois sua temática é mais próxima da vivência dos alunos. Mas o bom professor, assim como o bom escritor contemporâneo, tem de conhecer os 'gigantes' da história literária, porque estes não apenas criaram as bases da literatura moderna e contemporânea, mas são sempre atuais quanto às grandes questões humanas."

Permito-me finalizar com a leitura do "Mais Belo Poema" desta obra:
"Quando te li, / a primeira vez, / foi em verso.  // Percorri teu corpo / com o sentido olhar da palavra / e com ela saboreei / os mais apaladados pretextos. // Carente do desejo de ler-te, / em definitivo, / te vislumbrei, interiorizando-te, / da cabeça aos pés. // Depois... / te beijei, / intensamente, / tocando quase todos os teus caminhos. // Então, / te senti, / finalmente, / poema!...". E regresso, em ponto final, àquilo que atrás enunciei sobre o ofício das palavras, com dois versos deixados na minha futura obra GRAVITAÇÕES-O Profano Ofício das palavras, e aqui em homenagem a Juízos na Noite: "que mistério este / o do nascimento da palavra!..."
29/Out/2019
Alvaro Giesta
Poeta e Coordenador Literário
Imagem da divulgação da obra:
In-Finita (Acessoria Literária)

22/12/19

O NATAL - das origens, Pagãs, à realidade, Bíblica.


 Artigo publicado em 21 de Dezembro de 2015 na revista online BIRD MAGAZINE sujeito ao mesmo título ora e aqui expresso. Era editor e director da referida revista Ricardo Pinto.

Autor do artigo: Alvaro Giesta
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«Pensei que este Natal era para toda a gente...» - actor da novela "A Única Mulher" que desempenha o papel do personagem Kandimba.
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O texto não reflecte uma opinião do autor. Está baseado nos documentos históricos que adquiriu (a Bíblia Sagrada, edição pastoral, da PAULUS Editora, 7.ª edição 2011, com a revisão literária do Padre João Gomes Filipe), bem como outros que consultou na internet, estudando-os para poder elaborar este texto com propriedade.

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autor da foto: José Fernando Delgado Mendonça

Capturou-me a tristeza, desenhada entre traços de ansiedade, estampada no rosto do menino negro que desempenha o papel do personagem Kandimba na novela portuguesa mais badalada no momento, e levou-me a escrever sobre o Natal, de modo diferente do que habitualmente se escreve, nesta e desta data: nem conto com o Menino nas palhinhas deitado, ladeado pela vaquinha e jumento, sequer com o pinheiro ricamente ornado com enfeites de múltiplas cores, menos ainda com quanto é possível adjectivar com palavras, com prendas e presentes, unicamente para este dia, singular, que devia ser igual a todos os outros, pois Natal é sempre que o homem queira e o deve ser, e sempre, sem a hipocrisia encoberta nos votos formulados sem a vontade sincera de os fazer, simplesmente para não fugir ao que, protocolarmente, está pré-estabelecido.

Escrever sobre a mística e mítica e mais importante festa para as crianças, é coisa por demais "batida" e banal no recurso que se faz das palavras e dos gestos, tão-sempre iguais para desta data se dizer. Não me interessa saber se, do que aqui fica expresso, me acham tão mordaz ou mais ácido, nas palavras, quanto Eça o foi nos seus escritos realistas. Sou igual a mim mesmo e vertical assim serei, ora e sempre, até que passe à posição final - a horizontal. E de palavras e com palavras, secas e cruas, acredito no que a HISTÓRIA (e a BÍBLIA) me diz: JESUS NÃO NASCEU A 25 DE DEZEMBRO.

Todos os anos se chega à época final de cada ano em que todo o mundo cristão se prepara para celebrar o mais notável acto solene - o nascimento de Jesus Cristo. Para este acto, homenageando um Ser que nasceu pobre e pobre viveu durante a sua curta vida, de sandálias e túnica, tudo se cobre, nefastamente, dos mais ricos e exuberantes gestos de poder que à humildade e à pobreza repugna. «O Messias é pobre» [i] (Lu 2,21), «O Messias veio para os pobres» [ii] (Lu 2,8). «Lucas relata o momento do nascimento de Messias e... quem são as estrelas deste acontecimento? A quem aparecem os anjos a anunciar este sublime acontecimento, esta «boa nova de grande alegria para todo o povo»? Ao sumo-sacerdote? Aos ricos e senhores importantes de Jerusalém? Não. A pastores, humildes e pobres, a trabalhadores do campo, desgraçadamente pobres. A gente insignificante. Lucas, diz-nos, que aquilo que é insignificante é aquilo que Deus valoriza.
E do Natal, regressando às suas origens, falemos, para que os mais novos e os mais humildes - como o humilde actor da novela - fiquem a saber que ele nem sempre foi aquilo que se julga ter sido.


DAS ORIGENS PAGÃS:

Da Enciclopédia Católica [iii] (edição de 1912) «A festa de Natal não estava incluída entre as primeiras festividades da Igreja (...).» Na mesma enciclopédia, ensina-nos ORÍGENES [iv], um dos chamados pais da Igreja que «...não vemos nas Escrituras ninguém que haja celebrado uma festa ou celebrado um grande banquete no dia do seu natalício. Somente os pecadores ("por pecadores entende-se pagãos" como Faraó ou Herodes) celebraram com grande regozijo o dia em que nasceram neste mundo.»
Tardaram os cristãos, mais de três séculos, a celebrar o Natal adulterando, contudo, aquela que parece ter sido (a história assim nos diz) a verdadeira data do nascimento do Homem que veio para redimir o mundo. A história demonstra que, durante os primeiros três séculos da nossa era, os cristãos não celebraram o Natal. Só no século IV (ano 350) após se ter firmado aquilo a que se chamou a igreja estatal do Império Romano (o sistema que hoje é conhecido por Igreja Romana), é que a festa do Natal começou a ser introduzida. Foi o Papa Júlio I [v] que declarou o dia 25 de Dezembro - que fora o dia da festa pagã do deus-Sol - como dia festivo do nascimento do Filho de Deus; contudo, somente no século V é que foi oficialmente ordenado que o Natal fosse observado, para sempre, como festa cristã, e se realizasse no mesmo dia da secular festividade romana em honra ao nascimento do deus-Sol, já que não se conhecia a data exacta do nascimento de Cristo.

E a resposta à pergunta que não é necessário fazer, fica, para sempre, latente no espírito dos cépticos e inquietos: se fosse vontade de Deus que guardássemos e festejássemos o aniversário de seu Filho muito-amado, não nos teria ocultado a sua data, exacta, de nascimento, nem nos teria deixado, sem qualquer referência a ela, exacta, em todo o percurso da Bíblia. E, assim, foi, pelo paganismo, que nos vimos ordenados a adorar Deus, no seu Filho muito-amado no nascimento "inventado" em 25 de Dezembro. Vejamos:


DO (NÃO) NASCIMENTO DE JESUS EM 25 DE DEZEMBRO - analisando Lucas [vi], segundo o seu evangelho:

«Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendente de David. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de David, chamada Belém, na Judeia, para se registar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completavam-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogénito. (...)» (Lu 2, 1-7) [vii]

«Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores...» (e anunciou) «hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor.» (Lu 2, 8-11) [viii]
Ora, é sabido (e adiante se confirmará no capítulo A BÍBLIA MOSTRA QUANDO JESUS NASCEU) que isto jamais pôde acontecer na Judeia durante o mês de Dezembro - os pastores tiravam os rebanhos dos campos em meados de Outubro e abrigavam-se para os proteger no inverno no tempo frio e das chuvas. (Adam Clark Commentary, vol 5, pag. 370) [ix]. E mais: a Bíblia, no livro bíblico Esdras diz-nos que «No terceiro dia, todos os homens de Judá e de Benjamim estavam reunidos em Jerusalém. Era dia vinte do nono mês (logo, Setembro). Todo o povo estava na praça do Templo de Deus (...)» (Esd 10,9) [x]
Ora, nascer Jesus em Dezembro, parece impossível; porque, impossível parece ser a permanência dos pastores com seus rebanhos durante as frias noites no campo, como também parece improvável que o recenseamento fosse convocado para a época das chuvas e frio, como se vê em Lucas 2,1. Mas...


A BÍBLIA MOSTRA QUANDO JESUS NASCEU:

Jesus Cristo nasceu na festa dos Tabernáculos, [xi] a qual acontecia em cada ano no final do 7.º mês (Itenim ou Tshiri) do calendário judaico - correspondente (mais ou menos) ao mês de setembro do nosso calendário, dado que o calendário judaico é lunar-solar e o nosso é solar. E, nessa festa dos Tabernáculos, das Tendas originalmente chamada, Deus, que a instituiu, habitava com o povo de Israel para que sempre o Seu povo se lembrasse dos dias de peregrinação pelo deserto. «Desde o dia quinze do sétimo mês (...) celebrareis a festa do Senhor durante sete dias (...) Morareis em tendas durante sete dias (...) para que (...) saibam (todos os descendentes de Israel) que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas quando os tirei do Egipto.» (Lv 23, 39-43) [xii]

Vejamos, nas Escrituras, alguns detalhes, ainda que superficialmente, que nos vão ajudar a situar, cronologicamente, o nascimento de Jesus:

Os Levitas [xiii] eram divididos em 24 turnos e cada turno ministrava por 1/24 = 15 dias, 2 vezes por ano. Com os números arredondados e corrigida, a cada 3 anos, a distorção entre o calendário judaico lunar-solar e o nosso calendário solar, 24 turnos a 15 dias cada turno, ia dar o correspondente a 365,2422 dias, o equivalente ao ano. (1 Cr 23, 1-32) e (1Cr 24,1-19) [xiv]
O primeiro turno iniciava-se com o primeiro mês do ano judaico - mês de Abibe (março/abril). O quarto turno, correspondente aos meses de junho/julho (mês de Tamuz), era aquele em que o sacerdote Zacarias, pai de João Batista, ministrava no Templo. Terminado o seu turno Zacarias voltou para casa e (conforme a promessa que Deus lhe fez) sua esposa Isabel, que era estéril, concebeu João Baptista (nos finais do mês Tamuz - junho/julho ou princípios do mês Abe - julho/agosto).
«Depois de terminar os seus dias de serviço no santuário, Zacarias voltou para casa. Algum tempo depois, sua esposa Isabel ficou grávida, e escondeu-se durante cinco meses.» (Luc 1, 23-24) [xv]. Jesus foi concebido 6 meses depois, no fim do mês Tebete - dezembro/janeiro ou início de Sebate - janeiro/fevereiro.

Diz-nos S. Lucas:
«No sexto mês (fim do mês Tebete "dezembro/janeiro" ou início do mês Sebate "janeiro/fevereiro"), o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de David. E o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! (...) Não tenhas medo, Maria (...) Eis que vais ficar grávida, terás um Filho e dar-Lhe-ás o nome de Jesus."» (Lu 1, 26-30) [xvi]
Nove meses depois, no final do mês Itenim ou Tshiri (que cai em setembro e/ou outubro) - o mês em que os judeus comemoravam a Festa dos Tabernáculos, Deus veio habitar, veio "tabernacular" com os homens. Foi o mês em que nasceu Jesus, o Emanuel, o Filho do Altíssimo.
Jesus, o verdadeiro Messias, não nasceu neste mítico dia 25 de Dezembro. Nada existe que prove, cientificamente, que foi nesta data ou noutra qualquer, que Cristo nasceu - nem apóstolos o dizem nem a igreja com propriedade o pode provar, pois jamais a igreja primitiva e/ou os apóstolos celebraram o natalício de Cristo.



O NATAL NAS IGREJAS E OS COSTUMES NATALÍCIOS:

A Nova Enciclopédia de Conhecimento Religioso de Schaff-Herzog [xvii] diz-nos que «Não se pode determinar com precisão até que ponto a data desta festividade teve origem na pagã Brumália», nome dado às festas romanas em honra a Baco - 25 de dezembro, «a que se seguia a Saturnália», festival romano em honra ao deus Saturno que ocorria no mês de dezembro, no solstício de inverno; era celebrada no dia 17 de dezembro, mas ao longo dos tempos foi alargada à semana completa, terminando a 25 de dezembro «e que comemoravam o nascimento do deus-Sol no dia mais curto do ano.» Diz-nos ainda que, «As festividades pagãs de Saturnália e Brumália estavam demasiadamente arreigadas nos costumes populares para serem suprimidas pela influência cristã» que nascia, a quem também agradavam.

Por isso, os pagãos do mundo romano do século IV e V pseudamente «convertidos em massa» ao cristianismo que, sob a influência maniqueísta de Constantino [xviii], identificavam o Filho de Deus com o Sol, levando consigo suas antigas crenças e costumes pagãos, dissimulando-os sob nomes cristãos, «viram com simpatia uma desculpa para continuar celebrando-as sem maiores mudanças», e a adaptarem a sua festa do dia 25 de Dezembro (dia do nascimento do deus-Sol) com o título de «dia de natal do Filho de Deus». Assim foi como se introduziu no mundo ocidental o Natal.

Nesta altura se popularizou, também, a ideia de «a Madona e Seu Filho» na época do Natal. Coisa que vem da longínqua Babilónia e do poderoso caçador CONTRA Deus como se refere no Génesis [xix] «Cuch gerou Nemrod, que foi o primeiro valente da Terra. Foi um valente caçador diante do Senhor (...). As capitais do seu reino foram Babel (...).» (Gn 10,9). Nemrod era tão pervertido que, segundo os escritos, casou-se com a própria mãe, cujo nome era Semiramis. Prematuramente morto, sua mãe-esposa propagou e preservou a "reencarnação" de Nemrod em seu filho Tamuz. E declarou que em cada natal (nascimento) de seu filho, estabelecido como 25 de Dezembro, Nemerod desejaria ter presentes numa árvore. Parece ser esta a verdadeira origem da ÁRVORE DE NATAL.

Semiramis converteu-se na «rainha do céu» e Nemrode (sob diversos nomes) o «filho divino do céu». E esta veneração se propagou a todo o mundo e hoje nos aparece em imagens e estatuetas de «Madona e Seu Filho».

Mas outras leituras nos dizem que a tradição da árvore do Natal vem da Alemanha, tal qual a canção «Noite Feliz». Antes do ano 350 da era cristã, quando o Papa Júlio I, atrás referido, declarou o dia 25 de Dezembro como sendo o dia do nascimento do Messias, já o povo germânico tinha por tradição guardar ramos verdes em casa para afastar os maus espíritos. Esta prática pagã foi substituída pelo hábito cristão de manter ramos verdes em casa como símbolo da vida que Jesus trouxe a este mundo. Mais tarde os ramos foram substituídos por árvores inteiras enfeitados de velas e outros símbolos. A árvore de Natal é, hoje, o maior e principal símbolo do Natal e os ornamentos luminosos significam a luz que Jesus trouxe ao mundo. É a alegria da criançada.

Outros costumes de origem pagã se preservam na festa Natalícia:

A GUIRLANDA (coroa verde adornadas com bolas e fitas coloridas) que enfeita o exterior das portas de tantos lares, significa que ali se celebra o Natal e a demonstração de o compartilhar com os vizinhos. As VELAS, velha tradição pagã que, acesas, serviam para reanimar o deus-Sol, quando este se extinguia para dar lugar à noite.

De PAI NATAL (o Papai-Noel), estudiosos o afirmam, que a figura do bom velhinho foi inspirada no Bispo Nicolau (N. 280 na Turquia), mais tarde tornado santo por milagres relatados, por ser de bom coração, que costumava ajudar as pessoas pobres deixando saquinhos com moedas nas chaminés das casas. 

A associação da imagem do Santo ao Natal nasceu na Alemanha e espalhou-se pelo mundo - nos Estados Unidos tem o nome de Santa Claus, no Brasil Papai Noel e em Portugal Pai Natal. Representado antes (até ao final do século XIX) com uma roupa de inverno de cor marron ou verde escura, apareceu depois, pela criação do cartonista alemão Thomas Nast, em roupas de cor vermelha e branca com cinto preto, que em 1931 uma campanha publicitária da Coca-Cola, que também era da mesma cor, fez sucesso e ajudou a divulgar esta nova imagem do bom velhinho de barbas brancas e radiante pelo mundo: o mundo imaginário das crianças que, na véspera de Natal, deixa o Pólo Norte, onde habita, e, com o seu trenó, puxado por renas, traz presentes - a alegria das crianças - que foram obedientes e se comportaram bem durante o ano.

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Bibliografia consultada:




[i] Capítulo 2, versículo 21 do evangelho segundo S. Lucas

[ii] Capítulo 2, versículo 8 do evangelho segundo S. Lucas

[iii] A Enciclopédia Católica: Um trabalho de referência internacional sobre a Constituição, Doutrina, Disciplina, e História da Igreja Católica, também referida como Antiga Enciclopédia Católica e Enciclopédia Católica Original. O primeiro volume apareceu em março de 1907 e os últimos três volumes em 1912, seguindo-se um volume mestre de índices, em 1914, e mais tarde volumes suplementares. Foi projetada para "dar aos seus leitores a informação completa e autorizada sobre o ciclo de interesses católicos, sua ação e doutrina".

[iv] O grande Mestre da Igreja, depois dos Apóstolos, foi um dos maiores teólogos e escritores do começo do cristianismo. Cognominado Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesareia ou, ainda, Orígenes, o Cristão, foi um teólogo e filósofo neoplatónico e é um dos Padres Gregos. (N. 185 d.C. na Alexandria, Egipto; F. 254 d.C. em Tiro, Líbano.)

[v] Fundamentos Doutrinais (Pg 1462) da Bíblia Sagrada, PAULUS Editora, 7.ª edição, 2011

[vi] Quem foi Lucas? Foi um cristão gentio que talvez tenha sido discípulo de Paulo (Cl 4,14), seja: capítulo 4, versículo 14 do livro bíblico Colossenses.

[vii] Capítulo 2, versículos 1 a 7 do evangelho segundo S. Lucas

[viii] Capítulo 2, versículos 8 a 11 do evangelho segundo S. Lucas

[ix] Adam Clarke (N. 1760 ou 1762; F.1832) foi um teólogo metodista britânico e estudioso da Bíblia. Durante 40 anos estudou a Bíblia, deixando o seu longo estudo em 6 volumes de cerca de 1.000 páginas cada um e que foi o principal recurso teológico Metodista por dois séculos.

x livro bíblico Esdras capítulo 10, versículo 9

[xi] Das três grandes festas ordenadas por Deus, a Festa dos Tabernáculos é a de  maior significado profético para os cristãos. É comemorado no décimo-quinto dia do mês de Tishri, que usualmente bate no final de Setembro ou princípio de Outubro.

[xii] Capítulo 23, versículos 39 a 43 do livro bíblico Levítico
[xiii] Levitas eram aqueles que dominavam a arte do louvor, sendo portadores dos segredos da oração. Derivado do hebraico "lewi" que significa atar ou unir. Relativo a Levi, membro da tribo de Judá, a quem foi confiado a guarda do tabernáculo de Deus quando da partida em direção à terra prometida. Na tradição judaica, um levita é um membro da tribo de Levi. Quando Josué conduziu os israelitas na terra de Canaã, os levitas foram a única tribo israelita que recebeu cidades, mas não foram autorizados a ser  proprietários de terra "porque o Senhor Deus de Israel é sua herança" (Deuteronômio 18:2)

[xiv] livros bíblicos denominados Crónicas 1 e 2

[xv] Capítulo 1, versículos 23 a 24 do evangelho segundo S. Lucas

[xvi] Capítulo 1, versículos 26 a 30 do evangelho segundo S. Lucas

[xvii] É uma enciclopédia religiosa (primeira edição: 1882-84; terceira edição: 1891 com novas edições publicadas em treze volumes 1908-1914). Versa temas relacionados com o cristianismo, essencialmente sob um ponto de vista do protestantismo.

[xviii] Foi um imperador romano, proclamado Augusto pelas suas tropas em 25 de julho de 306, que governou uma porção crescente do Império Romano até a sua morte.

[xix] Capítulo 10, versículos 9 e seguintes

16/12/19

ACERCA DE HÚMUS


(texto lido no dia do lançamento da obra, em Alcantarilha, Algarve)
Autor: Alvaro Giesta


1. Como nasce a obra:
Dizia Einstein «Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela».
Parece surreal esta introdução de um poeta para começar um texto de apresentação de um livro de poesia, mostrando a necessidade do silêncio que o pai da teoria da relatividade tinha para chegar à verdade que justificava as suas descobertas físicas. Pois... é que esta quietude interior e exterior, este desligarmo-nos de tudo o que nos rouba à quietude interna e externa, é condição sine qua non a quem se entrega à função de descobrir e, quem escreve poesia, quem quer «penetrar surdamente no meio das palavras» (como já dizia Drummond) para descobrir o Belo, tem que ter a brancura do silêncio em si e entre si para fazer do poema a oração necessária.  Também comigo, enquanto poeta, quando me encontro perante o pânico da página em branco tentando encontrar a palavra para erguer o poema, esse pânico consome-me e duplica-se se todos os ruídos do mundo me atormentam e me perturbam. Penso e não encontro o verbo desejado...
          ...este pânico assalta-me, aflige-me o pensar e oiço a minha própria voz a dizer-me que não sou capaz de escrever o poema desejado. E não consigo criar nesse ruído de vozes interiores que me assaltam a alma por dentro. Deixo de pensar, mergulho nesse profundo silêncio tão acolhedor e logo a palavra se me revela nesta "missão" quase messiânica de escrever o poema. E foi assim ao longo de dezasseis noites, mergulhando nessa profundidade silenciosa da noite, que eu escrevi esta obra inicialmente muito longa, de poemas densos que depois transformei, que depois compus com aquilo a que eu chamo o trabalho do oleiro; levando-os quase ao osso, com o labor necessário a moldar a obra em obediência àquele desafio que a perfeição exige..
Nasceu esta obra num dia negro o dia em que minha mulher baixou, intempestivamente, ao Hospital Nossa Senhora do Rosário, do Barreiro, com aquilo que parecia ser uma doença rara e desconhecida no sangue. Assim, no dia 2 de Novembro do ano de 2017, o poema ganhou forma, cresceu e se formou ao longo de 16 noites em que ela foi sujeita a uma multiplicidade dificilmente quantificável de exames hematológicos que os dias eram passados, quase na íntegra, à cabeceira da doente, dando-se por concluído no dia 17 de Novembro, do mesmo ano, com o poema "soltar-se-á o grito de sob a terra dura / no eco da ressurreição". E, com este poema, esta certeza nas palavras dum grande escritor que também ele escreveu uma obra em prosa chamada HÚMUS Raúl Brandão: «a grande verdade e o destino final de cada um de nós, humanos sujeitos à finitude e em nós latente, tem uma certeza, desde o Silêncio à Solidão a Morte, que a cada dia teima em nos bater à porta.»
2. A estrutura da obra:
Húmus é um termo que remonta ao tempo dos antigos romanos, quando era usado para designar o solo como um todo. Apesar do húmus ser estável, ele não é estático, é dinâmico, uma vez que é formado constantemente a partir de resíduos vegetais e animais que são continuamente decompostos por micro-organismos. A importância do húmus para o solo é múltipla. Ele fornece nutrientes para as plantas, regula as populações de micro-organismos e torna os solos férteis. Consequentemente, o Húmus fornece vida. Metaforicamente, é o sítio fértil onde a palavra dormita ainda enterrada em sonhos; a palavra vai criando raízes nesse seio da terra quente e húmida onde se alimenta até nascer para a vida vida que não é mais que um simulacro, pois caminha para esse lugar outro, concreto mas indefinido: a morte.
Este título, embora pareça ser composto de vários poemas é, na realidade, um único poema, formado por seis dezenas de fragmentos, «trabalhando cada componente do poema da obra em prol da própria obra. Como se tratando-se de uma arquitectura em que cada um dos poemas enformadores do livro deixe de o ser e se torne, mais do que fragmento, um órgão: coração, pulmão, rim, fígado, etc. para que o corpo todo adquira vida». (Xavier Zarco, in prefácio à obra A Palavra (des)Velada de AG). Poderá dar a ideia ao leitor que esta forma produzida da escrita poética, seja para facilitar a escrita ao poeta. Mas não, digo-o enquanto autor. Esta forma do poema, assim organizada por fragmentos que se encadeiam uns nos outros parecendo exigir a leitura sequencial para se entender o poema no seu todo, permite, também, que a leitura de cada fragmento possa ser entendida, por si só, como se poema fosse independente dos demais. «A produção da obra, assim pensada e executada, é o resultado de um labor levado à mais extrema das possibilidades do poeta e autor da obra». (Ibidem)


3. A razão desta trilogia com o subtítulo: o Silêncio, a Solidão, a Morte.
Dizia Mário Quintana «Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.» Foi esse encontro com o silêncio, o da noite na solidão do meu quarto vazio, o primeiro leit motiv que me impulsionou a escrever esta obra no silêncio me imaginei um ser-futuro-próximo a conviver com a solidão, aquela para a qual nos projecta o silêncio da noite, do dia, do todo tempo futuro.
Imaginei-me a viver um silêncio de bronze próximo do mármore que faz ricas esculturas mas também fúnebres tumbas. Imaginei-me, numa interminável noite negra, o tal ser-futuro-próximo a um passo tão curto da solidão. Assaltava-me aquele sibilino som que vinha do vazio inalcansável e desconhecido e começava a dar forma a um estado de alma impérvio e nublado tão próximo da solidão. Esse nó inexplicável na garganta que tolhe a voz, esse nó que aperta o peito e estrangula, já não é o silêncio necessário às palavras musicadas, mas o terrível silêncio a mostrar-nos campos de verdades que até aí fingíamos olvidar. E a solidão? Esse terrível medo de estar sozinho está intimamente ligado à nossa percepção de quem somos. Quando sentimos que não somos capazes de cuidar de nós mesmos, experienciamos angústia ao refletir sobre a solidão.
          Continua-se a estar só com a noite / e o silêncio / este silêncio que desliza / no seu inesgotável serpentear réptil / avivando memórias / más memórias / do tempo ingloriosamente perdido.
Aliado ao silêncio, àquele silêncio de estarmos sozinhos e percepcionarmos, enfim, quem somos e o que fomos, lavra sempre a solidão e,
          fio a fio / curva-se a vida à morte / como a luz / à sombra.
A solidão é a condição inevitável do homem Pessoa dizia «Quando estou só reconheço que existo entre outros que são como eu sós». E quantas vezes o homem se sente só, mesmo estando no meio da multidão (já Álvaro de Campos o sentia)!... É nesta profundidade enigmática da sombra que este chão escorregadio nos foge como o mar sem pé, que balouçamos no íngreme abismo entre o céu e o indefinido e ao lado, mesmo ali ao lado da solidão, o espectro da morte. Morte que afinal não é mais do que um caminho para o indefinido, para o lugar nenhum.
          Terrível é amar o silêncio e a tempestuosa / solidão como areia fervente do deserto / terrível é ser-se pó e ter-se por companhia / todas as estrelas pálidas / na lacuna dum céu ausente.

Prolegómenos sobre “Na Teia do Esquecimento” de Antero Jerónimo

Doem-me as mãos com que te escrevo estes versos… É do peso da espingarda, é do canto que se obrigam a escrever ...