06/11/19

REFLEXOS NO OLHAR de Natália Matos Gomes


por: Alvaro Giesta, poeta

É uma obra de interpretação nada fácil que me desperou a curiosidade, o desejo de a estudar...
          obra de certo modo arrojada, no sentido em que sendo a sua estreia nas publicações a solo se aplica em construir com certa arte e mestria poemas ecfrásticos, coisa incomum nos novos poetas quando digo novos refiro-me àqueles que bastas vezes publicam nas redes sociais.
Obra sobre a qual não posso deixar de dar um recado crítico à coordenação e a quem fez a edição, sobre como a oba foi estruturada. Olhemos para a obra: abre com esse poema que tem por título “Poema Novo “Como eu gostaria de inventar um poema novo: / Sem luar, nem sol, nem mar, / Nem epopeias, nem dias, nem mais... / Apenas um poema novo, / Onde coabitassem loucos e animais”; é esse poema que chama o leitor a seguir a autora para a leitura dos seguintes “Venham comigo / venham”, continua o poema da autora. É um poema ecfrástico em que evoca (traz à lembrança) dois grandes vultos da pintura do sec. XV e XVI, Bruegel e Bosch, respectivamente,  dos muitos que ela evoca ao longo da obra. E, ao longo da obra há mais vinte e dois ou vinte e três poemas que, acompanhados de imagem, ou não, permitiram à poeta escrever o que os sentidos lhe ditaram.

Ora, na minha análise crítica à obra (e não é preciso ser-se crítico, que não sou, para tal se concluir), há logo a seguir ao 1.º poema, que é ecfrástico, uma quebra no segundo poema que nada tem a ver com este tipo de poesia, e novamente traz outro ecfrástico onde evoca Sócrates na Alegoria da Caverna, seguindo-se-lhe novas quebras deste tipo de poesia e outras tantas quebras ao longo da obra, misturando poemas ecfrásticos com outros igualmente muito bons, dentro da lírica, mas desarticulados da écfrase.
Claramente a autora partindo da ideia inicial do “Poema Novo” com que abre a obra e que, claramente, nos está a chamar a atenção para algo que aí vem de novo ao longo da obra, era importante para a sua valorização (da obra) que os poemas ecfrásticos se destacassem dos outros vinte e tal que não são mais do poemas líricos a cantar o amor, o sonho, o tempo, etc... esses poemas ecfrásticos são absolutamente diferentes de todos os outros, pela razão de que a autora “lê nos traços das imagens observadas e exprime por palavras os sentimentos que lhe despertam as feições dessas imagens, sejam telas, sejam esculturas; dialoga com as plásticas dessas imagens que a chamam em prásticas ecfrásticas próximas da tradição grega.”
          Então, quem coordenou a obra, se o fosse verdadeiramente, porque coordenar-se uma obra não se resume apenas à função de mero “pombo correio” que recebe a obra e a remete ao editor, deveria ter proposto à autora, em primeira mão, e ao editor, depois (ou ser este a fazer o que, quem coordenou, não soube fazer) a separação dos poemas por divisão em cadernos: ou seja, o 1.º caderno (que teria subtítulo) abriria com o “Poema Novo” seguindo-se-lhe os restantes ecfrásticos e no 2.º caderno, igualmente com subtítulo, caberiam os outros poemas que nada têm a ver com a poesia ecfrástica. Não tenho dúvidas que qualquer crítico literário verteria algum azedume, mais vinagrento do que o meu, relativamente ao modo como a obra foi estruturada editorialmente. Não deve, quem coordena ou a quem edita, erguer bandeiras apoteóticas quando essas bandeiras são de vã glória.
Duas considerações (exclusivamente minhas e, por isso mesmo, de certo subjectivas)  acerca do conceito do “Novo”, relativamente ao  “Poema Novo” proposto pela autora. A primeira, mais poética, mais sonhadora, mais utópica; a segunda, mais didáctica, mais do âmbito literário.
A consideração mais poética: “Novo” é aquilo que surge de resplandecente, seja no olhar, seja na mente no momento da criação, seja na alma em suas divagações, seja como forma e meio de reformular, perpectuando, sem criticar. Como dizia o poeta Augusto Branco, nascido no coração da Amazónia: “Por que tenho no céu sempre um sol a brilhar, por que tenho a cada amanhecer um novo começo para viver, por que posso partilhar contigo as minhas dores e as minhas maiores alegrias, percebo que neste mundo tudo é de graça, tudo vale a pena!”. É “Novo”  aos olhares da poeta, aquilo que promete ser diferente, é o “Belo” sublimado, é a arte como função poética já transportada e estudada da Grécia Antiga, mas é também esse espaço de fé que temos no mais fundo de nós que nos faz viver apesar das agruras que a vida pode dar-nos, apesar das rasteiras que a vida muitas vezes  nos prega, esse espaço de fé com que a poeta recebe essas agruras da vida a seu modo e se compraz em vivê-las nas palavras com que brinda as alegrias, se são alegrias, as tristezas, se são dissabores.
Isto é utopia ou sonho? Diz Natália: “Como eu gostaria de inventar um poema novo: / Apenas um poema novo, / Onde coabitassem loucos e animais”.
Utopia, é uma ideia fantástica, uma ideia que existe, apenas, no imaginário sem pretensões a ser real; onírica, é uma pretensão com direito ao delírio, dinâmica, nunca estática porque sempre em ruptura com o presente...
          ...loucos são os/as poetas onde apenas com eles, no seu imaginário romântico de sã loucura, consideram que “tudo no mundo é de graça e vale a pena”, como dizia Vinícius de Maraes; louca, mas de sã loucura, é esta poeta que almeja que se possa criar um mundo novo, como “um poema novo, onde coabitem em paz e harmonia loucos e animais”, onde coabitem harmoniosamente todos os seres à face da terra. Utopia ou sonho, é um devaneio poético que (se) imagina como perfeito, como ideal, é o almejado mas utópico, coisa que a poeta sabe irrealizável no real, inalcansável, mas que lhe alimenta a alma onírica, por isso...
          ...advirto, aqui no imaginário poético da autora, o poema novo não é utópico: é fantasia mas, também, é desejo, é o que ambiciona alcançar, é sonho  o maná de todos os poetas. E a poeta nos diz:
“Utopia? Não! É um sonho,                    (um sonho)
Que se concretiza com as quimeras
Que, outrora em minhas manhãs,
As redimensionei no poema novo,
Que ora urge para todo o sempre.”
Os vultos que a poeta evoca no “Poema Novo” nos quais a visão utópica é evidente, são apenas isso “utopia” e não o sonho da autora que o quer ver realizado, hoje e sempre, neste poema novo. Mas não quererá a poeta, também, referindo-se ao “Poema Novo” chamar-nos a atenção para o novo modo de construir o poema que, não sendo de todo novo é, contudo, novo para ela? mais se justifica, aqui, a necessidade de a obra ter sido formatada na edição do modo atrás indicado.
A consideração de “Novo” no conceito mais literário: um dos grandes méritos da literatura moderna, foi reformular o «conceito de tradição a partir da perspectiva do “Novo”» (Octávio Paz). O imaginário clássico propunha, como termo de obrigação, a reverência à tradição como forma de perpectuar o passado sem o criticar; já os escritores modernos, no conceito de Paz, impuseram a via da negação à tradição como forma criativa de com ela se relacionar. Ou seja, esta negação não é recusa ou destruição mas, sim, crítica capaz de manter vivo o passado é uma forma “polémica” de dialogar com o passado e usá-lo de um modo criativo.
Então: por que não olharmos o passado como transtemporal? Sim, porque a poesia ecfrástica mantém uma relação de temporalidade com o passado, nesse diálogo silencioso que a imagem provoca no imaginário do/da poeta! Circunscrevem-se, a partir do imaginário poético, conexões espácio-temporais capazes de inverter o tempo, colocando o passado e o presente em osmose para perspectivar o futuro: aquilo a que se pode chamar de “Novo”. É quase como uma visão cinematográfica, em que o realizador neste caso, o/a poeta faz com que o passado actualize o presente e continue no porvir. Esta imagem do presente no passado, não desconstrói a cronologia do tempo; reconfigura-o, através desta associação de causas temporais nesta relação dialogante “imagem-palavra”.
A écfrase e o pictórico clássico em Natália: evoca a autora, pela écfrase, no poema que abre a obra, como se fosse preâmbulo o seu “Poema Novo”, novo no modo de construir o poema, que não sendo de todo novo, é novo para ela , vultos geniais de indiscutível valor na pintura da Flandres e Holanda dos séculos XV (Bosch) e XVI (Bruegel). E, também alude a esse velho mito da caverna do período clássico da Grécia Antiga, o velho Platão, mas sempre tão actual pela grande verdade que encerra na forma do conhecer, presente no poema “Caverna Oblíqua”. Ao longo de “Reflexos no Olhar”, outros tantos vultos da pintura renascentista, desde Itália a Flandres e Países Baixos, como: Michelangelo, Caravaggio, Rembrandt, Nicolaes Maes, Simon Vlieger; depois, num salto quase em fim de livro não deixa de percepcionar Marc Chagall, esse pintor russo da vanguarda modernista que atravessou os séculos XIX e XX, fortemente influenciado pelo cubismo e surrealismo faz das cores da lenda de Lilith esse encantatório poema “Expulsão de Lilith”, a tal figura de lenda hebraica “in.criada por Deus”, antes de Eva, mas originada de um espírito maligno tempestuoso e que mais tarde se tornou identificada com a noite, e foi expulsa do Paraíso. Deixem-me que vos lembre apenas alguns versos deste poema:
Eram apenas bonecas de papel,
Que eu recortava de revistas,
Por vezes, até de cordel.
E furtava-me para o paraíso,
Perdida neste mundo de fantasia.
As minhas bonecas dançavam
Com os deuses e com as árvores,
E os frutos eram reluzentes
E tinham serpentes ondulantes,
Convivendo sem precedentes,
Como a Eva e o Adão,
Que caíram na tentação.
Logo desconstrui Lilith
E expulsei-a do meu jardim...
(...)
Podemos dizer, da força dos poemas aqui deixados, que Natália Matos Gomes é uma estudiosa do pictórico clássico. O estudo das obras sobre que se debruça, de artistas flamengos e do renascimento com as quais tomou contacto nas múltiplas viagens e longas estadias pela Europa, nesses olhares  sobre os lugares por onde passou e passa, transpôs para o verso aquilo que a visão lhe ditou em palavras para escrever grande parte desta obra nela viajou por Toscana, Florença e Siena, estendeu-se, depois, da Rússia à Europa Ocidental (Tchecoslováquia e Alemanha 'com Kafka', Países Baixos e França), para terminar neste recanto da Península Ibérica à beira-mar plantado, em diálogos com as aguarelas actuais do serigrafista deste século, Paulo Ossião.
Vem de longe a écfrase “ekphrasis”, substantivo grego traduzido para o termo latino “descriptio” que tem como objectivo primeiro a produção pelo método discursivo da visão detalhada de algo (objecto, pessoa, pintura, estátua, lugar ou acontecimento), a que Aristóteles chamou “a clareza, a visão clara e distinta”, e a que Cícero acrescentou com o emprego do vocábulo latino “euidentia” (evidência). Écfrase,  é a descrição pela palavra, das suas particularidades sensíveis ou inventadas pela fantasia, que o objecto observado desperta no ouvinte, no leitor, neste caso na poeta Natália que observa, que vê, que lê com os olhos da imaginação e a passa ao papel em seus versos. A poeta usa a “palavra visual” para dar voz à obra de arte, coisa nada fácil de fazer; exprime pela palavra escrita os sentimentos que lhe despertam as feições das pinturas e esculturas ou os lugares por onde passa; dialoga, pela ousadia da imaginação, com as plásticas das imagens que a chamam.
[Quando li Natália pela primeira vez, veio-me à memória Konstandinos Kavafis, poeta grego do sec. XIX, que  “constrói o poema através da imaginação de personagens que fixam a verbalidade textual” (Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, tradutores de Kavafis que lhe prefaciam a obra OS POEMAS). Sei, contudo, que a poeta Natália, de Kavafis, não sofreu influência, porque nem sequer o conhece indiquei-lhe muito recentemente a leitura desta obra.]
Estas práticas ecfrásticas da poesia moderna e contemporânea, próximas da tradição grega  numa relação íntima entre a palavra e a imagem vêm de longe. Possuem uma longa história começando na descrição do escudo de Aquiles, na Ilíada (canto 18, vv 478 a 608).
[Como curiosidade e a propósito da descrição de objectos de caracter artístico, ainda que haja diversas versões da descrição ecfrástica do escudo de Aquiles, com as quais nem sempre os críticos estão de acordo nos seus estudos, a descrição que serve para demonstrar a arte da construção do escudo, ao longo de 130 versos, é feita em cinco camadas chamemos-lhe 5 ciclos diferentes; grosso modo e mal comparado, é muito aquilo que certos poetas consagrados usam, com arte, quando querem escrever uma obra dividida em partes subordinadas ao mesmo tema, mas em termos de circularidade concêntrica.]
E para terminar: “O que há dentro de mim...” o que há de tão mais importante que a écfrase, no poema lírico de Natália? O que há dentro da poeta Natália? O que lhe sai de dentro da alma? Desse “vaso acutilante de seiva / que o tempo quis secar”? Isso nos revela ela num dos mais belos poemas da obra, de que deixo alguns traços:
O que há dentro de mim
É um vaso acutilante de seiva
Que o tempo quis secar, (...)

O amor não morre,
É de uma doçura exausta e mansa;
É um olhar, um recado, uma aventura
Das órbitas cimentadas no corpo.

No corpo e na alma que decide
As vontades – e contraria desejos,
E raciocina sobre a justa medida do amor,
Que se constrói, (...)

O amor é o alimento do momento eterno
E vai sempre em viagem, (...)
Tão mais fascinante que o labor com que talha os poemas da obra, aqueles com recurso à écfrase, é o poder do silêncio das imagens com que afronta a brutalidade dos dramas do tempo e das paixões humanas: “O que há dentro de mim / É um vaso acutilante de seiva / Que o tempo quis secar, mas pugnei / Pelos deuses e eles vieram em socorro”. Do imaginário da poeta Natália nascem visões fantásticas transpostas para imagens catalizadoras de emoções que provocam no leitor atento de “Reflexos no Olhar”, sujestões outras que o farão despertar para a atracção pela criação do Belo.


Alvaro Giesta, poeta

20/09/19

REFLEXOS NO OLHAR de Natália Matos Gomes


falta-me ainda escrever
o poema inteiro - (...) o que sai da sombra
e cresce
inquieto e nómada nas páginas do in.sucesso.”
(AG em IDEÁRIOS)

Assim nos diz, numa outra sequência de ideias poético-filosóficas, embora na mesma mimesis, a autora Natália Matos Gomes em REFLEXOS no OLHAR, a sua obra de estreia nestas lides poéticas:
Como eu gostaria de inventar um poema novo: / Sem luar, nem sol, nem mar, / Nem epopeias, nem dias, nem mais... / Apenas um poema novo, / Onde coabitassem loucos e animais”.
Uma utopia, uma ideia fantástica, uma ideia que existe apenas no imaginário sem pretensões a ser real, onírica, uma pretensão com direito ao delírio, dinâmica, nunca estática mas sempre em ruptura com o presente...
loucos são os poetas onde apenas com eles, no seu imaginário romântico de sã loucura, coabitam harmoniosamente todos os seres à face da terra. Utopia - devaneio poético, o que se imagina como perfeito, como ideal, o almejado mas utópico, coisa que o poeta sabe irrealizável no real, inalcansável, mas que lhe alimenta a alma onírica; devaneio, ilusão...
...aqui, no imaginário poético da autora, o poema novo não é utópico: é fantasia, desejo, o que ambiciona alcançar, sonho - o maná de todos os poetas.
Para que serve a utopia? Galeano diz-nos em O Direito ao Delírio: “mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.” Pergunto: onde mora a fronteira entre a utopia e o sonho? Se a utopia se refere à realidade perfeita, não atingível ou ainda não atingida e o sonho àquilo que se almeja, se tornou realidade ou pode acontecer que não se realize e não passe do sonho. Este aspirar ao imaginário não atingível ou ainda não atingido, ou o almejar o irrealizável ou de difícil realização e muitas vezes não realizado, não são, uma e outra coisa, sonho? Ou sonho é apenas essa faculdade potenciadora do imaginário de, durante o sono, o subconsciente despertar uma sequência de imagens e vivências, como defendia Freud?
Ou é, também, esta visão profética que as figuras da Antiguidade, da Idade Média, do Renascimento, etc, despertam na imaginação do poeta para o diálogo em práticas ecfrásticas? Porque não havemos de exercer nós, poetas, o jamais proclamado direito de sonhar, nós poetas, mais que qualquer outro ser existente na terra, quando as imagens silenciosas nos provocam no imaginário visões fantásticas que nos levam ao clímax e nos fazem escrever? Porque não delirarmos, ao menos uma vez na vida, quando escrevemos poesia? Que ascese seria essa, que exercício espiritual seria esse, se renunciássemos ao direito de imaginar, sonhando, se rejeitássemos o prazer de sonhar, se nos roubassem o direito ao sonho? Jorge de Sena, o poeta que a pátria esqueceu, dizia em seus versos “podeis roubar-me tudo: / as ideias, as palavras, / as imagens e também as metáforas” e eu acrescento em intertexto no poema “Na Visão dum Céu Distante” referindo-me ao tempo e ao sonho: podeis roubar-me isso tudo... e tudo o mais; / porém, a liberdade de sonhar / não roubareis. Jamais!
É esse o direito a que assiste e defende, em seus versos, em seus poemas ecfrásticos, Natália Matos Gomes. “Utopia” - o lugar imaginário, o lugar inexistente, logo, o não-lugar, o da sociedade perfeita na criação de Thomas Morus onde todos, em equilíbrio, fossem felizes; aqui, em Reflexos no Olhar, o convite ao sonho do poema novo proposto pela poeta, onde todos os seres possam caber, não é utópico. Diz-nos Natália Matos Gomes:
“Utopia? Não! É um sonho,  (um sonho)
Que se concretiza com as quimeras
Que, outrora em minhas manhãs,
As redimensionei no poema novo,
Que ora urge para todo o sempre.”
Mas, os vultos que a poeta evoca no “Poema Novo” - Bruegel e Bosch - nos quais a visão utópica é evidente, são apenas isso “utopia” e não o sonho da autora que o quer ver realizado, hoje e sempre, neste poema novo. É, apenas, visão utópica a de Pieter Bruegel, embora desejando ser razão eterna, torre de babel, rio de águas límpidas onde as crianças, nunca adultas, deixam aos adultos o sério aviso para que não desperdicem a vida; são apenas utopias, as do imaginário de Hieronymus Bosch que há cinco séculos nos brindou com obras alucinantes em que pretendia, com os temas, despertar o interior da alma humana. Mas a autora não quer, não vive de utopias - sonhos, sim, utopias, não! Sonhos - aqueles que nascem com ela todas as manhãs, que redimensiona no poema novo para todo o sempre.
E convida o leitor a sonhar este seu sonho, a comungar, com ela, a força do seu poema novo:
“Venham comigo, venham, / Escrever um poema novo // Aqui não. Ninguém fica de fora!”
Evoca, a autora, pela écfrase, (“evoca, lembra” e não o “invocar, apelar como ajuda”) no poema que abre a obra, como se fosse preâmbulo, vultos geniais de indiscutível valor na pintura de Flandres e Holanda dos séculos XV (Bosch) e XVI (Bruegel); e, também,  numa incursão arrojada aludindo a esse velho mito da caverna do período clássico da Grécia Antiga - velho, mas sempre actual pela grande verdade que encerra - com Platão presente no poema “Caverna Oblíqua”; e outros tantos vultos da pintura renascentista desde Itália a Flandres e Países Baixos, ao longo de Reflexos no Olhar como: Michelangelo, Caravaggio, Rembrandt, Nicolaes Maes, Simon Vlieger; depois, num salto quase em fim de livro não deixa de percepcionar Marc Chagall, esse pintor russo de vanguarda modernista dos séc. XIX e XX, fortemente influenciado pelo cubismo e surrealismo, e fazer das cores da lenda de Lilith esse encantatório poema “Expulsão de Lilith”, a tal figura de lenda hebraica “in.criada por Deus”, antes de Eva, mas originada de um espírito maligno tempestuoso e que mais tarde se tornou identificada com a noite, e foi expulsa do Paraíso.
Podemos dizer, da força dos poemas aqui deixados, que Natália Matos Gomes é uma estudiosa do clássico, evidenciada nos seus versos, por aquilo que bem conhece dos representantes do Renascimento. O estudo das obras pictóricas ou escultóricas em que se debruça a poeta, ou o olhar  sobre os lugares por onde passa, transpondo para o verso aquilo que a visão lhe dita em palavras para escrever grande parte desta obra, viajou por Toscana, Florença e Siena, estendeu-se, depois, da Rússia à Europa Ocidental (Tchecoslováquia e Alemanha 'com Kafka', Países Baixos e França), para terminar neste recanto da Península Ibérica, chamado Portugal, com “Estátua”, aguarela do serigrafista deste século, Paulo Ossião.
Exímia na écfrase (“ekphrasis” substantivo grego traduzido para o termo latino “descriptio” que tem como objectivo primeiro a produção pelo método discursivo (através da palavra) da visão detalhada de algo (objecto, pessoa, pintura, estátua, lugar ou acontecimento), a que Aristóteles chamou “a clareza, a visão clara e distinta”, e a que Cícero acrescentou com o emprego do vocábulo latino “euidentia” (evidência),  é a descrição pela palavra das suas particularidades sensíveis ou inventadas pela fantasia, que o objecto observado desperta no ouvinte, no leitor, neste caso da poeta Natália que observa, que vê, que lê com os olhos da imaginação, e a passa ao papel usando a écfrase, o diálogo, em seus versos. Exímio é o/a poeta que usa a “palavra visual” para dar voz à obra de arte: saber exprimir os sentimentos que lhe despertam as feições das pinturas e esculturas ou os lugares por onde passa, saber, pela ousadia da imaginação, dialogar com as plásticas das imagens que a chamam. São práticas ecfrásticas da poesia moderna e contemporânea, próximas da tradição grega - numa relação íntima entre a palavra e a imagem. 
Fascinante esta antiga técnica - a ekphrasis - que evoca o poder da imagem silenciosa, provocando no imaginário da poeta Natália Matos Gomes uma visão fantástica, levando-a ao clímax da descrição através da palavra. A beleza dos poemas ecfrásticos que a obra tem é tal que, descrevê-los requeria mais que as duas páginas de papel A5 que o prefácio permitia, razão pela qual aqui me debrucei e em tempo oportuno e com mais profundidade nesta pequena mas grande obra poética. 


Barreiro, 20 de Setembro de 2019
Alvaro Giesta

Poeta 


06/05/19

No Hálito de Afrodite (poesia erótica) de CÉLIA MOURA

Autor: Alvaro Giesta



1.       Introdução
 Assim os olhos se deleitem com os versos que compõem a obra poética; assim os olhos se extasiem no prazer da leitura e no encontro com o/a autor/a nas páginas da obra que nos dá; assim os olhos se interroguem daquilo que apreendem dos poemas de fértil obra, quando a obra é fértil; assim o tempo não se esgote no silêncio das palavras e nos faça parar, apenas, no tempo do/a poeta, para nelas meditar e entre elas respirar
                                                                                                                        ↓
                                                                                                  [assim eu escreva com o rigor possível da obra a analisar, mesmo não aspirando a púlpitos nem louvores, sequer formas remuneratórias, que o prazer da escrita é o único leit motiv por que o faço.]
         ↓
         Porque todo o rigor é resistência à (in)exactidão do que se possa escrever e do que se possa dizer, pois há sempre o receio de injustiça em cada um de nós, que analisa e critica, quando nos propomos debruçar sobre livro de poeta ou escritor com obra já formada. E porque toda a memória se nos deve reger pela seriedade imposta no princípio da isenção quando vertemos opinião sobre obra de autor conhecido, distanciemo-nos do seu nome, separando o que a obra nos merece dizer da amizade que ao mesmo nos liga.


2.       A crítica
        (...)

3.   A obra
         ¾ dos limites da literatura erótica às fronteiras do pornográfico:
Dos muitos poemas lidos na obra "No Hálito de Afrodite" concluiu-se que nela, ainda que num ou noutro poema se roce as raias do pornográfico, não se vai além do erotismo ¾ embora um erotismo ousado que eclode num "amor-paixão", mas nunca ditando uma poesia nitidamente fálica ou clitoriana. Há, contudo, versos e poemas onde a libido corre livre e solta, em avalanches e rios como "mãos, dedos, flancos, coxas, ventre, nádegas, mamilos, línguas, gemidos, gritos, sexo, púbis, beijos, sémen, seios, virilhas, infinito clitoriano, prazer, tesão..." e muitos, muitos mais, num léxico marcadamente erotizado onde a poeta-mulher é o centro do universo, o receptáculo e fonte do prazer, subordinando-se, submissa (quase sempre) ao desígnio masculino.
Vejamos dois ou três exemplos:
         "na púbis do teu pincel me devoras", "no declínio do meu ventre descansas", "que tuas mãos sejam / o lume que invade as minhas coxas", "línguas que se perdem e prendem", "se permito que te aninhes no meu néctar / e me devores / é apenas porque a sacerdotisa do tempo / urge morrer em ti" e "só assim renasço".

Mas nem sempre é passiva; ela é, também, sujeito activo no envolvimento dos corpos.
Vejamos:
         "desço pelas virilhas que já ousei morder", "quero sangue, seiva, sémen / muito mais...", "escorre-me pelas pernas / este frémito / é como um séquito / o desejo / que me invade a púbis, as coxas / e o tal infinito clitoriano", "escorrem-me pelas pernas os beijos / que me não dás / pelos abundantes seios que acaricio / faço renascerem erectos os mamilos", "no teu sémen / faz-me vir de novo".

Na obra nota-se deliberadamente, quase descaradamente, uma ânsia de dádiva total por parte do sujeito poético, quer seja passivo ou activo ¾ é próprio duma pulsão contemplativa numa entrega total do corpo e, ao mesmo tempo, uma luta pela verdade: "quero mais alva a verdade / mais veloz que o vento / e feroz", "mais verdade o amanhã / no amor que me juraste", "só as línguas (...) são verdade / e eu fico aqui nas escarpas do abismo a aguardar / a verdade do amanhã".
Destaca-se que, ao longo da obra, há certas palavras escritas a letra maiúscula, usadas no verso com um certo sentido onírico: "Alienação, Vertigem, Caminho, Verdade, Amanhã, Loucura, Ternura, Silêncio, Dor, Vida, Xadrez, Sonho, Bem, Mal, Partida...", e outras com sentido  mitológico quando cita divindades antigas, a começar pelo nome da obra: "Afrodite, Olimpo, Ísis..." indispensáveis e necessárias a uma obra de conteúdo erótico e de valor literário, como não podia deixar de ser nesta obra.

         ¾ da semântica:
Uma vista, ao de leve, sem me embrenhar na semântica, que isso é para técnicos, que não sou.
Nota-se na obra e com certa intensidade o pronome pessoal em adjacência verbal com a decisão intencional do pronome, no final do verbo: "desabito-te", "embriaga-me", "guarda-me", "sobrevive-me", "sacudindo-te", "faz-me (vir de novo)". Reside, no valor semântico das formas verbais (quando no modo imperativo) mais do que uma súplica ou um pedido, uma ordem, aliando-a ao movimento quando, adjacente, se emprega o gerúndio.
No modo subjuntivo (um modo de incerteza, de desejo, de possibilidade, de dúvida, hipotético, incerto, de irrealidade) há uma estrutura verbal subordinada a outro verbo no verso muito verificada ao longo da obra ¾ é uma acção subentendida ou expressa que está ligada à vontade, à imaginação, ao sentimento, estabelecendo até, muitas vezes, uma relação condicional: "fico aqui a aguardar", "se permito que te aninhes e me devores" é porque, e "que ao menos me acariciasses / e me fizesses gritar", "vou ao sémen das madrugadas / à procura de um sorriso", "quando te deitares comigo / não pises as camélias", "aguardo o teu corpo / onde me arrasto", "quisera eu ser meu próprio vinho / e voltar a ser eu".

         ¾ da exaltação do corpo:
Há um universo extravagante e fantasioso nesta obra. Quase sonhos perpétuos ¾ o amar-se, o sentir-se amada. Poemas extremamente belos como "Urge enxotar-te do meu corpo", ou como "Quisera eu ser teu âmago" onde, na exaltação ao corpo, o próprio "eu" se expurga do outro-eu ou do eu-outro, daquilo que o "outro" deixou de si em si, como se isto fosse um acto de purificação: "urge enxotar-te do meu corpo / retornar a mim / remover a paixão / deambular descalça pela estrada / e sentir-me viva".
Até poderemos considerar que o "outro" é o próprio "eu" narcisista no regresso a si, ainda que duvide ter sido algo, alguma vez: "quisera eu ser meu próprio vinho / meu regaço / minha alma à berma / do Caminho / e voltar a ser eu / aquela que fui / coisa nenhuma".
Há poemas em que neste desejo narcisista a poeta (quase) se deseja imperial, (quase) se deseja oiro e o grito que ordena e exige: "se permito que te aninhes no meu néctar / e me devores / é apenas porque a sacerdotisa do templo / sorri / e urge morrer em ti / (...) / e só assim renasço..."; ainda que se reconheça "mutilada" quiçá por acontecimentos que a marcaram anteriormente e que não deseja recordar: "meu oxigénio não passa desse umbral", "embriaga-me no frenesim / do teu corpo / e não me deixes regressar / ao porto de abrigo", "embriaga-me de lua cheia (...) / só não me deixes regressar".


(Para terminar abre-se aqui um parênteses para dizer que a mente criadora é maravilhosa quando a dúvida incendeia o ser que se interroga e se questiona na esperança de alcançar o seu próprio espaço, mas perigosa quando na mente criadora existem laivos bipolares agravados pela obsessão. Duvidar de si e amar-se, ao mesmo tempo, é um dom imanente a certos poetas e com isso sofrem e muitas vezes os levam a fins trágicos. Sempre assim foi, a literatura está cheia disso.)




25/02/19

NOS DEDOS AS PALAVRAS - a obra de Ana P de Madureira




A poesia de Ana P de Madureira é marcadamente feminina. Minimalista e contida nas expressões que enformam o verso. Torrencial pela forma com que as palavras nele agem entre si, pondo no verso todo o ênfase. Às vezes numa linguagem quase conceptual. De uma engenhosa habilidade, apurada nos signos com que ergue a obra, são convite à aprendizagem de quem a lê. Desprezo total pelos recursos prosódicos que conferem ao texto ritmo, entoação e pausa. A estrutura vérsica com que Madureira veste o poema desprezando a pontuação, vem provar que não há limites impositivos para imprimir melodia ao verso. Versos curtos mas acutilantes, como que fragmentados, são o grito do prazer, o grito de dor, também, são os seus estados nus, de alma nua, arrancados à floresta dos segredos, sem medo de dizer. Mostra-nos uma poesia virginal preenchida de sensualismo na pura clareira dos sentidos ¾ entenda-se, aqui, o "virginal" no sentido da poesia pura.

Ana P de Madureira joga com as palavras com sábia maestria; digamos que, nesse jogo sensual, usa um flirt dinâmico, ao mesmo tempo tornado um só "corpo e verso", na narração poética intimista, sensual, às vezes quase mítica. Nesta lide sensual das palavras com as quais a poeta respira, não procura apenas o mítico corpo para se afundar nos prazeres que de si colhe e dele há-de beber mas "exige o amor"; e ela diz "quero o suor / em que o amor / é poro poço"  ¾ é "poro", o amor é aquilo que me faz respirar mas também é "poço" onde ele me faz mergulhar e afundar para o prazer ¾ "e quero a fúria terna do olhar / em que o amor / namora a vontade / nesse despir de alma / que se afunda no corpo / quero o amor até que os mares / se espumem unos / na torrência que os levita". Aqui está a natureza poética de Madureira na voz do mar do Algarve ¾ o azul da bonança que se levanta nas ondas sensuais de um espírito que se mostra rebelde pela ousadia da sua palavra poética, mas onde o sentimento e a sensualidade temperamental são sãos e racionais: "o que são as palavras / senão anjos que me tomam / alquimias de auroras / e no longo do cabelo a libido / que caminha (...) / para lá do alto das vagas"(?) A poética de Madureira é como este amor que ela nos traz nos versos ¾ "fogo / labaredas das mil palavras / silêncio das manhã escondidas / vozes não ditas / guardadas nos mistérios" do corpo. De sabor sensual é, sem dúvida, a poética de Ana P de Madureira. Mas se há erotismo nesta poética, ele não é o ousado, menos ainda a perversão.
Convém, aqui e numa palavra, dizer que erotismo é uma pulsão, definida por alguns como angustiante;  por mim, aceite como corajosa e direccionada para o desconhecido. E nesta poética, o desconhecido será a viagem pelo corpo do outro e/ou ao corpo do outro a partir do corpo da poeta; possivelmente uma viagem sem retorno como aquela em que nos lançámos, através da palavra poética, em busca do desejado, muitas vezes não experienciado ou, se experienciado, não conseguido. É a imaginação gratificante a trabalhar. Logo, e no meu entendimento da poética de Ana P de Madureira, este erotismo suave ¾ prefiro chamar-lhe assim ¾ vejo-o como a fusão com o outro e com o universo, que desemboca neste êxtase mítico-sensual, e nunca com a mera fruição da sexualidade. Mas também existe alguma sexualidade, algum desejo refreado, no texto de Madureira.
Cabe-nos aqui perguntar: até que ponto o discurso poético erótico-sensual de Madureira é real? Nós sabemos que toda a obra literária tem suporte no real. E muito do que existe em poética, também. Porque são as mundividências pessoais do/a autor/a que hão de formar a ordenação da matéria necessária para a sua produção literária. E o/a autor/a há de trabalhar a sua matéria em obediência aos signos por si criados ¾ "signos" são aquilo que confere valor literário à obra. Cabe-nos a nós, leitores atentos ¾ como se fossemos críticos ¾ decifrar esses sinais, vê-los, lê-los e interpretá-los. Porque toda a obra poética aceita, sem hesitar, novos olhares interpretativos. Toda a obra poética permite ao leitor ¾ ao bom leitor ¾ ler e tirar dessa leitura especulativa novas interpretações, interpretações até diferentes daquelas que o autor desenhou no seu acto de criar.

E chegado àquilo que deve ser o bom leitor, cito Luís Carmelo, poeta, ensaísta e crítico, nas palavras deixadas em entrevista, em 2017, a Luís Ganhão: «O leitor deve estar sempre de pé atrás, deve fazer o papel daquela pessoa que está a ser seduzida, mas que recusa a sedução.» Isto compreende-se na medida em que é esta a posição a assumir, como crítica, pelo leitor que o faz ser o tal "bom leitor". E a pergunta impõe-se ¾ quem é este bom leitor? Respondo ¾ é o melhor crítico que o poeta, que o escritor tem. É o leitor inteligente e criativo que não se quer ver diminuído enquanto bom leitor. Não será, de certeza, aquele que aceita o produto que lhe impinge o autor, porque o conhece e lho compra a troco de palmadinhas nas costas. Esse, é um leitor menos atento, menos inteligente que não se quer dar ao trabalho de pensar para criticar, ou que não critica porque receia não cair nas graças do autor. Muitas vezes nem lê a obra que compra; limita-se a elogiar sem ler; elogia pela amizade e esquece-se da função de "bom leitor" ¾ aquele que deve criticar para fazer crescer o autor.

Mas, tratando particularmente da nossa poetisa... a sua poesia é brilhante, às vezes, quase visionária; mostra-nos que o corpo animal e a sensualidade poética são o mesmo grito ¾ comungam o mesmo pão e bebem, da mesma taça, o mesmo vinho.
Torrencial é esta "alquimia das auroras" onde Nos Dedos as Palavras o "sol ardente / chama o mar" e no "fervilhar do sangue" e na "força dos vendavais" os corpos "peregrinos de mistérios" se unem "na intimidade do tempo" como a força das tempestades ¾ é como se tsunami fosse cada verso num torrencial de ondas controláveis, E, "controláveis", porque há ternura e veemência nas suas palavras ¾ são como brasa que perene arde com a fúria do querer e da vontade de ter e possuir.
Nua e "NUA", sempre na clareza do verso que se ergue curto e expande forte como a abertura, para o rumo, na clareira da floresta. Podem chamar-lhe poesia complexa, poesia sinestética, ou mesmo poesia visionária nesta combinação de campos semânticos em jogos de palavras ¾ eu chamo-lhe, sobretudo, poesia sensual diferente do que comumente nos mostram a maioria dos poetas portugueses que ao tema se entregam.
O corpo feminino está em comunhão afável com a natureza, aquela que lhe é mais próxima: o mar do Algarve. O suor, a "língua silenciosa", a pele quente "na inquietude do dentro", a "carne fogo" parece enxertada do "frémito das águas" azuis cristalinas do mar. A poética de Madureira é aquilo a que podemos chamar uma poesia corporal ¾ o corpo domina a palavra e esta subjuga-se-lhe com doçura mas firmeza, intimista, mística e profunda, num jogo de batalhas e flirtes entre sinfonias, quase celestiais, e cataratas florescentes, como que iluminadas por mágicos e multicolores arco-íris.
Ana P de Madureira é o nascimento e a erupção da e na palavra que habita o espaço em branco entre o céu e a terra, como se fosse a "placenta das palavras proibidas" e "a ternura de quem deu à luz um filho", ou vinda das profundidades da terra se expande em lava antes de ao seio da terra retornar: "filmarei / cada milímetro da morte / com a força sinestésica / que o corpo comporta" para depois "caminhar o caminho / por onde nada dorme" porque "se o cansaço partiu / e as pálpebras já não tombam // agora é a terra / que me viaja e sonha / enquanto com ela / vou".

O que há a dizer da poética deste livro de Ana P de Madureira, não se reduz a duas magras folhas de papel preenchidas a um espaço ¾ ela é, no espaço e no tempo, não apenas pele no antes e carne no depois da palavra expressa, mas, no durante, é um repetir de ondas que se refrescam na braveza do mar alto da imaginação da poeta e regressam, depois, reproduzindo-se no vaivém das marés de imagens que lhe florescem na mente, para frutificarem a cada chegada à praia, num sempre verso novo para um sempre refulgente poema, a farejar o vento num crescendo febril a desvendar mistérios em cada palavra e onde cada palavra se interroga no desvendar dum tempo novo.

© Alvaro Giesta, Dezembro de 2018

13/01/19

LADO a LADO


Lado a lado, sem pretensões a coisa nenhuma ___apenas, "LADO a LADO"___
T. S. Eliot e Adriana Mayrinck (em In-Finita)


V. O QUE DISSE O TROVÃO

Uma nascente
Uma poça entre as pedras
Se ao menos houvesse o som da água
Não o canto da cigarra
E da erva seca
Mas o som da água numa pedra
Onde o tordo-eremita canta nos pinheiros
Drip drop drip drop drop drop drop
Mas não há água

Quem é o terceiro que sempre caminha a teu lado?
Quando conto, só estamos tu e eu
Mas quando olho pela estrada branca acima
Há sempre alguém a caminhar junto de ti
Envolto em manto castanho, e embuçado
Não sei se será homem ou mulher
¾ Mas quem é esse do outro lado de ti?

·         T. S. Eliot, 1888-1965 (in A Terra Devastada, Relógio D´Água)
_____________

RELÍQUIA

Dizes que não posso ser ziguezagueante, em seu ir e
vir.
Como posso viver às cegas, dentro do teu espaço,
se por aí sou volátil.
Amo fincada às tuas raízes, ainda que o amanhã
seja substância e efemeridade.
E a tua mão não mais está.

Há uma sombra oculta nas entrelinhas das intuições.
Armadilhas em areia movediça, distancia-me do
ontem.
E sigo em linha reta no caleidoscópio mutante
de que aprendi a viver.
O tempo consome em pó, guilhotina, grito.
Quando chegavas do teu deserto
com um brilho diferente no olhar,
toda a inquietação levava ao êxtase, flor e mel.
E ao fundo do mar. Guardo relíquias.

O tempo consome em distância, certezas abstratas
e silêncio.
Mas hoje amanheceu com um sol fulgurante
e ofuscou a tua lembrança.
Caminho sem tocar o chão, des-acompanhada.
E levo o incomensurável da palavra amor.
Carrego no olhar, pedra, fogo e mar.

·         Adriana Mayrinck, 1970 (in In-Finita, Dowslley Editora)

Prolegómenos sobre “Na Teia do Esquecimento” de Antero Jerónimo

Doem-me as mãos com que te escrevo estes versos… É do peso da espingarda, é do canto que se obrigam a escrever ...