23/11/18

E fez-lhe sinal para que avançasse


2.ª parte do conto in "entre nós, CUMPLICIDADADES", Calçada das Letras, 2015
autor: Alvaro Giesta
(Esta, de quem se conta, era a guardiã daquela porta, onde diariamente pedia o pão para mitigar a fome. Esta que há muito estava enterrada no mais fundo das suas memórias, agora repentinamente avivadas por um reflexo de instantânea luz.) 

- Espera.
Levantou-se de um salto do sofá que naquelas horas transviadas e de loucura servia de cama, também. Dirigiu-se à janela, subiu a persiana de guilhotina cerca de um palmo e certificou-se que lá fora estava tudo bem com a filha de sete anos que brincava com a amiga, da mesma idade, enteada da vizinha do andar de cima. Aquele corpo nu, curvado na janela situada ao nível da rua possibilitando apenas vislumbrar parte da cabeça se alguém do lado de fora se desse ao trabalho de espreitar, despertou nele, ainda que rendido da anterior refrega, ânsias desmedidas. Por instantes saiu da janela. De cócoras, agora, procurava nos múltiplos álbuns musicais, de vinil, espalhados numa desordem total pelo chão da sala, um que não tardou em encontrar.
- Achei… ¾ disse ela, esbaforida, naquela voz da gaiata alegre e despreocupada que acaba por descobrir o brinquedo, que um dia teve valor, há muito perdido no desarrumado daquelas mil coisas já sem interesse e deixadas esquecidas no fundo mais recôndito do armário e da memória.
Pô-lo a rodar no prato do gira-discos de alta-fidelidade, coisa boa e única que conseguiu salvar dum casamento esfrangalhado e desfeito. Pink Floyd em Signs of Life. Os acordes nostálgicos das cordas à mistura com o marulhar das vagas batendo nos costados duma embarcação, pareciam gotas de orvalho que se desprendiam do éter e vinham mergulhar nas profundezas daquele abismo paradisíaco chamado monumento de mulher, que punha o mais exigente mortal, mesmo que frio como o mais gelado glaciar, com a cabeça atordoada.
- Vem… (e fez-lhe sinal para que avançasse) Anda, vem… ¾ pedia ela enquanto massajava numa carícia demorada e de veludo, que aturdia, o interior daquelas nádegas firmes e perfeitamente modeladas, uniformemente bronzeadas no último verão na Ericeira.
O seu corpo debruçou-se, mais uma vez, para a janela que mantinha subida a persiana no seu curto palmo de abertura. O suficiente para espreitar a filha que continuava a brincar no passeio oposto, ou para ver as pernas dos passantes apressados. Veio ele a saber, mais tarde, quando ela extravasava nas suas confidências, que era hábito aquele desafio ao ex-marido e, também, a um amante velho ¾ quase o triplo da sua idade ¾ que tivera no fulgor dos seus ávidos vinte e seis anos.
- Vem... ¾ pediu ela novamente. Foi uma súplica, desta vez uma súplica rouca mais parecendo o gemer ferido das cordas do violoncelo. Oferecia as firmes, espetadas e morenas nádegas ao desejo. Entreabertas, as pernas, deixavam à vista a vulva meticulosamente aparada.
- Vem… oh, vem… ¾ gemia agora. Aquele vem era apenas um sussurro.
E olhava-o com olhar lânguido numa oferta de prazer incomensurável. Um leve toque de cabeça (não o vulgar tique, mas aquele trejeito já gasto de tão estudado e repetido) fez-lhe cair sobre o rosto a farta franja, em leque, de uma cabeleira negra, exageradamente negra. Aquele olhar provocante, de mulher tropical, e de características acentuadamente tropicais, desafiava-o para o inventar de uma nova origem, qualquer outra maneira linda de fazer amor.  Ele, estirado nu naquele sofá-cama, gozava em silêncio aquele vulcão que brotava lavas incandescentes de desejos.  Um vulcão prestes a explodir. Um vulcão em erupção constante. Na semiobscuridade daquela sala, transformada em antro de luxúria, quase depravação, flutuava no ar, misturado com as notas musicais de Pink Floyd que continuava a rodar no prato do gira-discos, um agridoce odor a suor e a esperma por lavar, que aquele corpo plúmbeo ainda exalava.
- Esta música é capaz de me fazer cavalgar nua no dorso duro e sem sela dum cavalo selvagem, pelas longínquas estepes africanas… noite e dia, sem parar. Não sentes o mesmo?
Perguntava ela, fazendo alusão à sua terra natal: Moçambique. E as suas mãos começavam agora uma dança louca, que já lhe era conhecida de outras horas, percorrendo as intimidades do seu corpo nu à mistura com suspiros de prazer, que não tardariam (porque já lhe conhecia a intensidade)  a serem ouvidos do lado de fora da janela.
- Fecha essa porra... ¾ ordenou-lhe ele, referindo-se à janela.
- Não. Quero que na rua, quem passa, oiça os meus gemidos enquanto tu aí os sentes. ¾ Retorquiu, enquanto se certificava, pelo palmo da persiana aberta, se a filha se encontrava segura no exterior onde continuava a brincar.
Começou-o a incomodar aquela atitude depravada que sempre tinha. Uma atitude que ela levaria até aos limites da sua intenção. Extravasava, mesmo, esses limites. Sabia-o bem. Daquilo que dela conheceu, nestes longos nove meses de relacionamento a que decidiu por fim, jamais deixou de consumar um acto a que ela se propusesse. Começou a dar voltas à cabeça imaginando como sair daquela situação. Sabia o quão iria ficar embaraçado, porque daí a poucos minutos ela estaria a fazer solicitações entre gemidos e gritos de luxúria que se ouviriam na rua. Até era capaz de abrir ainda mais a persiana, pois, maníaca como era, gostava de ser observada enquanto gozava com o seu corpo. «Se viesse ao menos alguém interromper a sessão…» (pensou), «…tocar a campainha, por exemplo…» (quase o implorou, em pensamento, à divina providência).



19/11/18

das PALAVRAS INCONFORMADAS, de Isabel Bastos Nunes em "À PROCURA DE MIM"


das palavras inconformadas, de Isabel Bastos Nunes em "À PROCURA DE MIM"
Alvaro Giesta, autor

[(...). É difícil, em poucas palavras, escrever-se um grande poema do qual se possa intuir sobre a verdade ontológica da poesia ¾ isto é, se dela se pode conhecer "tudo" quando ela se limita ao questionamento directo do óbvio, ou se "nada" se pode conhecer de todo o abismo que envolve a palavra poética, interrogando-a e interrogando-se, questionando-a e questionando-se numa tentativa de resposta, pondo em causa a sua obscura natureza quando o não-óbvio está presente no texto poético.
(...)
          Difícil é também escrever um longo poema em que não é apenas o tamanho que lhe confere grandeza,  mas o valor ontológico que em si está contido, em que o poeta consegue dizer ao longo dele, o que ele julga ser tudo, sem se perder nem desviar do pensamento que pretende transmitir. É aqui que se enquadra a poética de IBN.

          A sua poesia é o lugar, não da probabilidade mas, da afirmação, da capacidade de dizer aquilo que a palavra quer dizer sem necessidade de recurso às metáforas e às imagens, que têm a função imagética de ocultar o óbvio para tornar o texto poético mais apetecível, porque alindado e ornamentado pela capacidade que as figuras estilísticas têm, de tornar o texto mais belo ainda, tornando-o, a elas afeito, confuso e preso a um certo grau de dificuldade para o seu entendimento. ¾ E eu falo aqui da poesia que dela conheço por leituras feitas não apenas ao título mas, também, ao que deixa nas redes sociais, porque falar somente do conteúdo da obra, é afirmar por defeito; mas não posso deixar de dizer que À PROCURA DE MIM é, talvez, a melhor obra que eu li até hoje sobre este mistério: O ENIGMA DO SER, onde é presença constante lado a lado com o Sujeito-poético e o Objecto-poético (o Eu e o Outro),  o Silêncio, a Solidão, o Tempo, a Vida, as Palavras, o Sonho e os Medos, e até a voz da Ilusão.

          O enigma do ser repete-se ao longo de "Procuro o Teu Olhar" numa entrega silenciosa ao "outro ser", mas com a voz presente e activa do sujeito-poético que a todo o tempo se dá como se numa vontade de não-ser ¾ «e tu e eu não queremos acordar» ¾ aqui, na terra, mas na eternidade para além do que está além do impossível. Nesta utopia, diz-nos a autora, «somos dois instantes feitos de eternidade / e a essência dos nossos sonhos / não se prende no impossível».   Podemos dizer que em IBN, neste mistério da existência, o sonho existe como uma ânsia de fuga à realidade ¾«não queremos acordar»¾ para o refúgio e abrigo na eternidade, no impalpável, no inconcreto ¾«somos dois instantes»¾, onde o nada-ser sequer é impossível  para a concretização do sonho.

          A poética de IBN não tem sombras transgressoras ornamentadas pelo símbolo a ocultar-nos a luz. A sua poética é luz e é tempo, é paz e silêncio, é sonho, é mistério, é enigma e lugar também. É, afinal, a natureza pura das coisas que os olhos veem e o coração sente (...).
          Nisto, descobri eu IBN nas palavras que nos deixa quer em verso, quer em prosa com sabor a poesia, quando vagueia dentro de si em comunhão com o tempo, com o silêncio,  com a solidão e com o mundo. As palavras de IBN revelam profundidade partindo da superfície das coisas (...)].
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(extractos) - direitos reconhecidos




14/11/18

Notas breves para um conto que não deve ser lido


"espreguiçando à mesa da esplanada"
Escreveu: Alvaro Giesta
(24/Janeiro/2014, para o jornal "Comércio do Seixal")

          No canto mais isolado desta esplanada, sento-me. Nesta mesa encoberta pelo tronco retorcido de centenária tília, poucos me vislumbram, porque nenhum dos frequentes e distraídos clientes dão por mim. Observo - demoradamente observo - os circunstantes deste café. Hoje, não são muitos, mas é como se fossem "nenhum". Os solitários são apenas sombras do real, mergulhados na ausência total de si mesmos, enquanto fitam qualquer ponto no infinito da memória que perderam no tempo sem nunca o terem enxergado. Mesmo aqueles que se sentam aos pares, como se casais ou outros cúmplices da vida fossem, ou mesmo simples amigos de circunstância, não são uma coisa nem outra. Ainda que parecendo ser, ou até mesmo sendo, não são, efectivamente, porque são do momento, sem ao momento pertencerem. Assemelham-se a robôs, a quem a vida é dada através dum botão com corda ou duma pilha de nove volts.
          Há em cada rosto, mesmo naqueles que se sentam aos pares, um pensamento diferente do par que têm à sua frente. Ausentes. Estão ausentes de tudo, abstractos, fingem ouvir o seu acompanhante que na realidade não escutam, porque nesse momento não são. Fingem ser, não sendo. São tudo num corpo presente com o espírito ausente. Os olhares divagam no espaço em lembranças doutros sítios, doutros astros, doutros céus. Não são, apenas, olhares amorfos; porque, ser amorfo é não ter forma determinada, definida, mas é, ainda que informe. Aqui, os olhares, prescrutam o nada,  são eles próprios protótipo de nada. São ausência, e ser ausência é não-ser, é ser um pensar vazio.

          Os meus cálculos não se enganam. Aquela mesa ao fundo do café - lado oposto a mim -, tem um casal cansado da vida e do tempo. "Tem", digo bem; aquela mesa "tem" - como se o casal fosse simples adorno da mesa que à mesma, como objecto, faz falta, tal como as cadeiras para se sentarem. A existência que a este casal confere vida a dois, perdeu a conjugação do verbo "ser" e substituiu-se pelas formas do verbo "ter".
          Ela deglute, com avidez, um pastel de nata, aos empurrões, goela abaixo, com curtos goles de um néctar consubstanciado de vitaminas, enquanto uma bola de berlim aguarda a sua vez para a entrada naquela boca voraz, de lábios grossos exageradamente pintados de vermelho sangue, esquecendo-se de que o diâmetro do seu corpo mal suporta o elástico da cinta que teima cingir a si, na esperança que esta lhe conferira um formato mais anatómico. Ele, grisalho, bem parecido, apenas entroncado quanto baste, folheia, distraidamente, um livro que não lê, e simula prestar atenção ao que a companheira lhe diz.
          A vida deles não começa aí. Começa lá mais atrás, há meio século, talvez, e aí estagnou. Como se fosse motor dum carro que se tivesse engasgado por fractura nos cabos de carbono que conduzem a energia do distribuidor à câmara de explosão certa, e deixado a apodrecer debaixo da tão querida e frondosa tília, também ela de tronco encarquilhado e centenário, que se ergue no canteiro, onde apenas se vai, de ora em vez, retirar-lhe as flores secas que sobre o tejadilho vão caindo, aproveitando-as para o tão delicioso chá que à noite, e à lareira, vai dar sabor ao amargo silêncio de ambos que lavra na tão amaríssima solidão das suas vidas. Tal como se faz aos livros de estimação que vão amarelecendo espremidos na estante, sacudindo-lhe o pó com o espanador de plumas para demorarem mais um pouco a amarelecer as cansadas folhas, de tão cansadas estarem por não serem manuseadas. Desse meio século, lá atrás, para a frente, foi apenas vegetar, foi apenas, é apenas deixar passar os dias dando hipótese ao tempo, que não chegou e tarda em chegar. Agora a hipótese de ser passou a mera experiência laboratorial, que nunca produziu resultado capaz de ser solução. Nunca foi antídoto para curar o mal que enferma, há muito, seus corpos: o mal da saturação, o mal da perda de interesse de um pelo outro.

          Noutra mesa sentada, já entrada nos setenta, de cabelos oxigenados penteados em piaçaba sobre a testa em abóbora, uma mulher tenta emprestar beleza ao corpo - neste caso ao rosto - que já não é mais do que uma máscara do amargo tempo, usando um qualquer batom que esfrega teimosamente, com mão trémula, nos lábios ressequidos e profundamente enrugados. Fixa continuamente o espelho que surripiou do fundo da sua avultada mala olhando, sorrateiramente, para todos os lados como se num gesto de cumplicidade com o acto envergonhado e comprometido de, com tal idade, se embelezar. Mala tão avultada que nela poderia trazer - e quem sabe se não traz -, todos os pertences necessários a disfarçar as rugas dum rosto que em tempos, já muito recuados, terá sido belo. A seu lado o companheiro, bem mais novo do que ela e de ar cavalheiresco, ausente do mundo e da mulher que parece não sentir próxima de si há muito tempo, vai-se empanturrando com avultada tosta mista e sumarenta caneta de puro malte. Entre as pernas a bengala, com o punho em castão marfim, desliza sob a mesa até aos pés da companheira que ela se apressa a empurrar para o sítio que lhe é devido.
          Não trocam palavra. O ritual da pintura acaba. Ela levanta-se, diz-lhe algo em voz baixa e, sem o fitar no rosto, sai... ele perscruta um lado e outro, certifica-se que ela lhe deu a segurança necessária e ripa de um telemóvel onde digita breves palavras. Talvez um "olá", um "como estás?", um "posso telefonar?", e liga. A cara dele, sisuda até então, amplia-se num sorriso alargado da boca até quase às orelhas, que lhe são longas, quase abanos. Do lado de lá está a razão de qualquer existência, bem diferente daquela que até ali se compunha ao rigor do espelho e do batom. E esquece, por curtos momentos, a idade, que a prisão dos seus dias de tédio não deve tardar em chegar dos lavabos.

          Portanto, os meus cálculos são estes, os de um observador atento: quando tudo parecer irremediavelmente perdido, quando no último momento sentir que estou a morrer, que está tudo acabado, que a minha vida passou repentinamente entre o ser e o não ser, fecho os olhos e idealizo-me em hipóteses de nada e gravo na consciência de que tudo, sendo apenas relâmpago, pode ser prenúncio de filme à beira dum capítulo por descrever. Tudo desfilará diante dele, até ser certeza absoluta, se em desapontamento se não transformar.

A poesia hoje - a valorização do particular, do circunstancial e do privado


A poesia hoje - a valorização do particular, do circunstancial e do privado [1]

 Assinado: Alvaro Giesta (para a obra, em edição, "quando as palavras são cardos")

«Enquanto a glória de Fernando Pessoa ia subindo todos os degraus, e os seus versos tornados pasto para toda a mediocridade universitária exibir um amor pela poesia que nunca teve, uma discreta aura iluminava a espaços Camilo Pessanha - e isso era um sortilégio suplementar. E havia ainda aquela vida sua vivida (ou antes: não vivida) exemplarmente à margem da impenitente e sentenciosa e sobranceira verborreia nacional, com o poeta apenas empenhado numa crítica da eternidade que era o seu caminhar para o silêncio, mais interessado pelos seus cães que pelos seus contemporâneos.»
Eugénio de Andrade in Os Afluentes do Silêncio (Camilo Pessanha, o Mestre)

À semelhança do interseccionismo, classificado por J(oão) C(orreia) de O(liveira) como «uma intoxicação da artificialidade», a escrita do "não-obvio" de alguns poetas de hoje - o hoje a que me refiro é o tempo dos últimos anos do século XX e primeiros do XXI -, é uma «tentativa» de «emocionalizar uma ideia» na busca de um espaço, não novo mas, que seja seu, só seu, criando artificialismos egocêntricos em que as abstractas ideias e divagações de «palavras carregadas de tanta excepção» se entrecruzam com o vago, a maior parte das vezes com coisa nenhuma, chocando pela falta de sentido estético e pelo repisar constante e monocórdico da mesma ideia que se perde em divagações, naquilo que nem sequer é tema. Falta-lhes o diferente, o tal "novo", ainda que simples, mas que seja arte, para que possa ser, à semelhança do interseccionismo, uma «demonstração brilhante de inteligência estética e de capacidade inovadora» ( Dic. da Lit. Port.). São divagações inócuas que deixam tão embevecidos, quanto perplexos, ao mesmo tempo, pelo não entendimento, os seus leitores e ouvintes que, embora ignorantes na interpretação do texto, que não percebem, porque de labirínticas frases-compostas se compõem tais escritos, envaidecem o(s) seu(s) autor(es) com efusivas palmas de parabéns. Contradição de pasmar... a pretensa sabedoria duns e a ignorância fatal, bem mal disfarçada, de outros!
Este modo de escrever, principalmente em poesia, centrado no ego e implodindo, necessariamente, em temas de circunstância tão mal cantados e repetidos e, pior que isso, mas por isso, também, tão artificialmente vulgarizados, não indicia coisa nenhuma senão ignorante endeusamento dos seus autores que se convencem, convencendo-os ou, pelo menos, fazendo-os crer de que perseguem uma qualquer nova época literária ou pseudoescola que dê cobertura àquela. Nada disso. Nada daqui nasce de novo porque nada, nesta escrita do culto do particular, se faz com sabedoria. Esta tendência não é arte. Para o ser, torna-se necessário desembaraçarem-se, os seus autores, de tudo o que é vago e plasticidade. Nada se faz sem sabedoria! 
Podia aqui citar alguns autores de textos, principalmente poéticos, nascidos e a medrar no alfobre dessa rede social chamada facebook (por onde também eu ando, aspirando a aprender) e publicados por uma teia de prestadores de serviços - ganho fácil para essas autointituladas "editoras"(!) - endeusando o que julgam que estão a endeusar, que delas (das obras) apenas se percebe a artificialidade do conteúdo no aglomerado, muitas vezes, de palavras inventadas colocadas no texto-poema sem qualquer critério e/ou sentido, mas fico-me, apenas, pela generalização do texto, sobre tantos dos que leio e só entendo sempre a mesma coisa - a repetição do mesmo tema particular e circunstancial que se vulgariza de tantas vezes repetido. Perde-se a POESIA: a forma mais nobre da escrita.
Quereria e gostaria, antes, de dizer desses poetas como Eugénio de Andrade escreveu de Teixeira de Pascoaes «magnífico e luminoso: espontâneo e simples como crianças, mas também terrível e acusador como um profeta do Velho Testamento», mas não posso. E não posso porque da maioria dos poetas que ora leio - àquela rede social me refiro e mesmo a muitos que proliferam nos escaparates e que se escapam a essa rede social - nenhuma presença, em seus escritos, inquieta, nada em seus poemas deixa os espíritos sequiosos por algo de novo, inquietos e desassossegados, muito pouco em seus escritos é inquietante, fracturante e incomoda em nome da verdade. Quase nenhum deles incomoda em seus versos, como o moscardo atormenta o asinino em dias de verão abrasador. Nenhum deles inquieta e desperta consciências adormecidas, porque se prefere que as mesmas continuem anestesiadas, entorpecidas com a cadência ritmada e cansativa dos «derrames líricos» ou com as metáforas tantas vezes incompreendidas, porque mal usadas no texto que pretendem complicar, como que a conferir-lhe propriedade exclusiva como se de cunho próprio se tratasse.
Atrevo-me a pensar deles, como Eugénio de Andrade dizia sobre Camilo «Preciso de me livrar de tudo o que nele me repele: o seu ódio ao corpo, os seus derrames líricos (...) a sua ambiguidade (...)» e acrescento eu: "o seu virar a cara aos problemas do mundo que desassossegam, que inquietam, que fazem reflectir e questionar nesta procura de respostas". «Se me livrar disto...», ficam-me tudo, menos escritores/poetas da língua e almas atormentadas capazes de escrever em nome da verdade.  É que, como dizia o grande escritor Eugénio de Andrade «Escrever é desobedecer» e a maioria dos poetas que me entram pelos olhos dentro vindos deste alfobre que o facebook criou, diz como Camilo «Escrever é obedecer».
E eu sou alérgico aos grossos títulos de poesia, especialmente antologias de temas múltiplos e desordenados,  espelhando excessos de lirismo decorativo e folclorizante, numa profusão obscura de cores semitonadas. Prefiro os livrinhos quase insignificantes, pelo número de páginas, mas com significado pela qualidade do conteúdo, ainda que sejam de uma escrita levada ao osso, «dissecada e dissecante» como em «Manual de Instintos Assassinos» do actual Eduardo Roseira, ou tivessem tido misteriosa e intelectual transparência como «Clepsidra» de Camilo Pessanha. Prefiro-os, assim, de lâmina cortante e afiada, aos namoros exibicionistas das metáforas e imagens para além do útil e que transborda em desnecessário: estes últimos dons de simpatia não me conseguem embruxar!
Devido a estes três sujeitos incómodos e subversivos: a proliferação dos maus poetas, dos maus leitores e dos editores oportunistas - a que eu chamo prestadores de serviços, embora essas editoras de vão-de-escada tal não queiram ser -, a eficácia da poesia, hoje, tornou-se completamente inócua, mesmo sobranceira à verborreia de poemas medíocres. A maioria do que se escreve em verso, hoje, são palavras de água morna sem pretensão a efervescência, sem a capacidade magistral de sugerir, de insinuar, de dizer "não",  incapazes de «coar o sarro» dos «derrames líricos» que, de tão repetidos, tornam banal esta forma mais nobre da escrita: a POESIA.
Os autores de tal poesia repetida, confusa e artificial, que intoxica de tanta artificialidade, em que o repetitivo cansa e causa enjoos com pretensão literária, parecem erguer a bandeira de qualquer coisa próxima dum sensacionalismo já tão longe no tempo! Já tão afastado! E, por isso mesmo, tão gasto. Pretendem criar sensações em quem os escuta e os lê, embevecidos, mesmo não percebendo nada do que está escrito. Nem uns, nem outros. Nem quem escreve, nem quem lê. Porque, se perguntarmos a tais autores de tal poesia de circunstância e sensacional, que se perde em palavras rebuscadas e depois, com recurso ao dicionário, traduzidas noutras de maior dificuldade de entendimento dando ao poema um sabor sem sabor, (des)valorizando-o como coisa sua abstracta e confusa, o que querem dizer com ela, a resposta é simples: a poesia não se explica, explica-se (o que é certo) e, a explicar-se, fica a critério de quem a lê (não menos verdadeiro).
Parece que o meu teorema ficou de pernas partidas pela dificuldade de demonstração para se tornar evidente. Mas não! O predicado da conclusão da premissa diz-me que a «intoxicação da artificialidade» continua válida: ou seja, para esses poetas (nascidos do e com o facebook), à semelhança dos do século passado, o que conta é a sensação. É despertar sensações com recurso à artificialidade. É despertar a mesma sensação que se repete - sempre a mesma sensação(!)- pela (in)sabedoria de despertar outras, ou porque estão socialmente bem colocados na vida e se esquecem dos que vivem no mundo da sombra, e têm medo de escrever outras inquietações pelo receio de perderem audiência, ou, então, desprezam simplesmente o despertar dessas outras inquietações que também merecem a escrita da denúncia, a palavra da recusa, a poesia do medo e da fuga ao medo, a poesia da ausência, a palavra da dificuldade em alcançar algo neste tempo desabitado, a poesia da falta... com palavras cruas e nuas, sem recurso a jogos malabarísticos de palavras de impossível entendimento.
Para esses poetas e escritores o que conta é criar malabaristicamente sensações sem intenção de serem sentidas, fazendo sentir mesmo que eles não sintam coisa nenhuma, mesmo que eles tenham a certeza de que o seu fingido sentir não é criar. Quase me atreveria a afirmar que, o que conta para eles é vender mais uns livritos dos que mandam imprimir por encomenda e não um trabalho sério em prol do social e, até, de uma carreira literária.
Para esses poetas, à semelhança dos intersecionistas «a sensação é a única realidade». Para eles e por eles, despreze-se o real, mesmo sabendo-se da decomposição da sociedade, da destruição dos verdadeiros valores morais e sociais do mundo em desassossego, em inquietação, em revolta pelo que vivemos. Para eles, o importante é não nos preocuparmos com a inquietação da tentativa de resposta nesta ânsia de busca e de procura: isso é um sortilégio suplementar à margem da sensação e do platónico.
O que importa, a esses escritores/poetas, é o choradinho e o chorrilho em trocadilhos de palavras inócuas, ao invés de se debruçarem sobre a inquietude social dramática em que o ser humano vive em interrogações constantes sobre o presente e o devir, porque não é esta inquietação que os faz crescer nos seus círculos de amigos que lhes compram os (maus) livros que mandam editar, mesmo sabendo que jamais alcançarão foros de literariedade!



[1] artigo publicado na revista BIRD  de 11 de Janeiro de 2016

23/10/18

PREFÁCIO de O SERENO FLUIR DAS COISAS


“Ser uma coisa evidente é ficar reduzido a quase nada”

Esta frase, do poeta dramaturgo Teixeira de Pascoais, explica em poucas palavras os conceitos que Alvaro Giesta aplica na arte da escrita. Nada do que sai de sua pena fica restrito ao evidente. Há, quase sempre, algo mais a ser entendido, para lá da palavra escrita. Há, quase sempre, matéria que, não sendo secundária (bem pelo contrário), merece tanta ou mais atenção. Há, quase sempre, algo que, fazendo sombra à evidência, nos obriga a ver para lá do óbvio e a decifrar entre linhas.
Copyright da imagem Jose Fernando Delgado Mendonça
E o título da obra que temos em mãos é o exemplo perfeito. O SERENO FLUIR DAS COISAS, na sua fórmula evidente, ficaria reduzido ao simples e básico nada. No entanto, o poeta, enquanto mestre conhecedor das ferramentas que depuram a poesia e sabedor daquilo que se auto-exige, usou-as para que o conteúdo contrariasse o título, transformando-o numa ironia: o interior deste livro é tudo menos sereno, direi mesmo inquietante. Em contraponto, porquanto a arte poética não tem linearidade, o título desta obra também pode ser entendido como uma reflexão pela naturalidade com que devemos encarar as coisas que acontecem, seja na concepção da obra, seja naquilo que, afinal, é a vida de todos nós. As coisas acontecem porque tem de ser assim e devem ser entendidas como inevitabilidades da condição humana.
Alvaro Giesta já demonstrou, em diversas ocasiões, o quanto domina a arte do subliminar e essa capacidade é fruto de um trabalho apurado, consciente e, acima de tudo, permanente. Afinal, é esse rigor, no uso da linguagem simples, que se exige ao poeta. Se assim não for sobra apenas o banal. Mas não se confunda o banal com o simples. Existem diferenças abismais entre estes dois conceitos. Entenda-se o banal como algo frívolo, vulgar, o tal nada a que se referia Pascoais. O simples, ou a simplicidade na escrita, é algo bem mais complicado de se atingir mas uma vez alcançado pode ser sublime por não ser evidente.
Disse Herberto Helder:
“Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo”
Alvaro Giesta labora a sua escrita por acreditar que, enquanto escreve, as transformações acontecem. E fá-lo para, no mínimo, transformar o banal em algo formidável, porque a estética também diz muito sobre o trabalho do poeta.
Esta simbiose (trabalho/estética), tão querida ao poeta, acaba por ser a imagem de marca da sua obra mas não explica tudo porquanto a primeira é apenas o meio para alcançar a segunda. E se sobre a estética cada um pode interpretar a seu bel-prazer e entendimento, sobre o trabalho não há margem para duvidar que o poeta se escreve a cada verso.
Neste sentido, e porque não existe uma só forma de dissertar sobre a obra de Alvaro Giesta, não resisto a fazer um paralelismo, já tão gasto como o tempo, entre a escrita poética e a escultura. Ao contrário de muitos contemporâneos que dizem esculpir o poema da matéria bruta, desbastando aqui e limando acolá, Alvaro Giesta usa o texto como matéria prima e, com o cinzel de poeta, vai retirando os excessos que o envolvem, até ficar apenas o que sempre existiu: o poema. Dito isto, é fácil deduzir que a poesia está dentro do poeta e ele limita-se a colocá-la cá fora somente quando entende que o poema atingiu a maturidade necessária para se dar a conhecer – o estado de quase perfeição.
“Os homens são como as obras de arte: é preciso que se não entenda tudo delas duma só vez”
Esta frase de Miguel Torga ajuda-nos a fundir e resumir tudo o que dissertei até aqui. A mestria de Alvaro Giesta no uso da linguagem simples, através do burilamento do poema, e a arte de transformar essa simplicidade em algo formidável mas nada evidente, para que cada leitor, a cada nova leitura, vá descobrindo ou decifrando o poema e o poeta. Neste contexto, faço um parêntesis e ouso escrever que O SERENO FLUIR DAS COISAS é a menos hermética das obras de Alvaro Giesta mas, em contrapartida, talvez seja a que mais nos fala do homem que dá corpo ao poeta e assim o vamos conhecendo pouco a pouco.
Sintetizando, e fazendo uso de uma discussão tão antiga quanto a poesia, creio que a forma mais adequada, para definir a poética deste autor, é considerar que, aquilo que para muitos é inspiração/criatividade, para Alvaro Giesta é transpiração/trabalho, porque o ofício de poeta o exige e a demanda pela perfeição também. Ou como disse Fernando Pessoa: “Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter”.

Emanuel Lomelino

Outubro de 2018



22/10/18

O DESPERTAR DA PALAVRA POÉTICA?


                             As palavras podem formar uma escrita nativa
                                                           de corpos claros
                                                           ANTÓNIO RAMOS ROSA
                                                                                                         
                                                                       Desta vergonha de existir ouvindo,
                                                                       amordaçado, as vãs palavras belas,
                                                                       por repetidas quanto mais traindo
                                                                       tornadas vácuas da beleza delas;
                                                                       JORGE DE SENA

Copyright da imagem Jose Fernando Delgado Mendonça
No contexto e no desenvolvimento da modernidade e das correntes que lhe estão associadas, e muitas há, algumas até de sinal contrário, a palavra poética ganhou fôlego e autonomia e, ainda hoje, sendo outros os parâmetros e até as ideias expressas pela poesia, que se tem vindo a reconstituir como “um regresso ao sentido”, a palavra e a sua reconfiguração estética se é que não estão propriamente no centro de tão laboriosa construção psicológica, constituem a reserva de energia capaz de emocionar, de questionar, de abrir caminhos, capaz “da força do rasgar / do corpo rumo ao céu”, “corpo do poeta / que espera a voz inicial do tempo (…)” (in “O Sereno Fluir das Coisas” de Alvaro Giesta).
A linguagem ocupou um espaço mais amplo (“consomem o espaço”), sorveu a revolução tecnológica e influiu decisivamente no ritmo do despertar emocional, através do desencadeamento e do encadeamento de um número infinito de imagens e de novos símbolos, até aí improváveis ou proscritos, e que traduzem uma ruptura com processos anteriores e consigo mesma.
Mallarmé o poeta francês nascido em Paris em 1840, que alguns apelidaram de “mestre dos simbolistas”, valorizou o papel da linguagem na poesia, essa forma de expressão humana trazida ao seu ritmo essencial, ao misterioso significado da existência. (Abril de 1866).
Entre nós essa autonomia da linguagem foi valorizada por poetas e críticos literários de várias épocas. Nesse sentido, escreveria Casais Monteiro que a “libertação da palavra é o fenómeno mais marcante da evolução da poesia de há um século para cá”. Já Nuno Judice infere que a conquista da modernidade traz “essa autonomia da linguagem cujo mecanismo, uma vez posto em movimento, dispensa as contingências da comunicação para colocar ao nosso alcance a imagem de um possível diálogo com o absoluto”.
“No texto poético as palavras adquirem uma maior liberdade pela soma inesgotável de temas que (se) nos propõem à imaginação trabalhando a matéria desses temas com a arte poética que eles merecem. Daí que considere que não há morte em literatura.” (in posfácio “Retorno ao Princípio” de AG)
Porque no seu entendimento, é o nada e do nada que nasce a linguagem poética; é aí, no preciso lugar “onde a luz e a obscuridade coincidem e se transformam” que se dá o acto inaugural da palavra. (Idem)
Na linguagem poética a palavra não morre. A palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque “a palavra é a vida dessa morte” como nos diz o filósofo Maurice Blanchot (…).” (Idem).
Esta é afinal a tal dialéctica vida-morte de que AG no “Retorno ao Princípio” em que o processo que leva à morte da palavra para dar a “palavra nova” significa transformação, resultado da ruptura entre as forças antecedentes e subsequentes e assim sucessivamente.
Para o autor de “Um arbusto no olhar” a linguagem de que se serve para elaborar a sua arte poética tem por missão “expressar sentimentos humanos e transmitir, de forma subjectiva, aspectos da nossa realidade – medos, angústias, anseios, desgraça, pobreza… tudo quanto seja marginal (…).
Em “Nota do Autor” do seu segundo livro de poesia “Meditações sobre a palavra”, um tributo ao poeta Ramos Rosa, afirma sem hesitação e fiel à sua devoção literária: “Há que reconhecer que se pode e deve dar novo uso à palavra poética. “a palavra nova agita um tempo novo/harmonizam-se os elementos” escreve . Um uso não-lírico, onde o “artefacto rigoroso da busca” e da construção e emprego da palavra no todo do edifício poético, dê verdadeiro sentido intelectual à obra construída”. Uso não-lírico, entendo eu, devido à quase inexistência da volúpia do corpo - o rosto, as mãos, o beijo, as linhas sinuosas que circundam o sexo -, a imagem perfeita de um destino apaixonado (“noutros tempos eu sabia escrever o amor”). É a palavra, no corpo do poema, raiz, sangue, nascente que encarna a relação afetiva e a exaltação da beleza e do enamoramento. (“ergue-se a palavra//(essa namorada extraviada do silêncio)”).
A palavra é a afirmação da subjectividade em estado de pureza máxima e é simultaneamente o Centro da criação, Terra, Água, Sol, Luz:

Na indefinição do tempo
o corpo todo corre em busca da palavra pura
perdida na imprecisão do gesto
(…)”
Mas o poeta é o artífice ágil que extrai a palavra do húmus da terra e que resgata a essência da escrita na alquimia dos símbolos, dispersos no espaço onde as trevas se fundem com claridade. O poeta caminha entre deuses, entre rios, entre gente cansada e queixosa, entre o sol e os ventos ferozes, como ele próprio nos diz, numa “busca sem princípio e sem fim/à procura do seu céu”. AG é o homem erguido do corpo do poema que:

Como o búzio espera o som
nas areias da praia esquecida
ou a terra espera o fruto para crescer
                        após arada           assim espero a palavra;
                       
depois
como o oleiro ao barro
modelo-a
como o escultor usa o cinzel,
limo-lhe as arestas

como o artesão na forja
uno-lhe os espaços vazios

esculpo-a
amo-a,
e construo dela o meu edifício todo

O universo da linguagem poética de AG baseia-se na função que à palavra cabe de preencher, ou dito de outro modo, de fecundar o vazio, o nada, a sombra, o silêncio, a solidão, o branco da página por escrever e de (re)nascer do abismo do tempo, lugar obliquo onde se esvaem as paixões e os homens enlouquecem despojados da própria alma.
AG é um herdeiro legítimo e ao mesmo tempo um continuador dessa herança da cultura literária ocidental de que temos vimos a falar, o seu labor poético, marcado da maior coerência intelectual, incessantemente criativo, organizador de imagens, recriação de um sonho por sonhar, humanamente intenso e directo, manifestando a crença na religiosidade da palavra, sem destino, interrogativo, (“nela se interrompe e se começa/nela se busca e se encontra,/ela se inventa num sempre novo navegar;”). Navegar é preciso, disse o grande poeta, viver também é preciso. Escreve-se no espaço em branco sem rosto para anunciar o caminho, encontrar o que possa existir do outro lado do corpo enclausurado; deus ignorado, vazio e exangue, longínquo, sentado nas pedras de fogo e sangue da cidade com casas onde falta o pão e debruçado sobre o tempo para assistir para além dos horizontes sagrados àquela que é toda a génese da poesia de AG: o acto inaugural da palavra! Palavra rigorosa, escultural, nua, violenta, alada que mergulha no magma do poema e solta o grito da verdade com a ascensão do sol ao Monte Parnaso.
Num pequeno livro de edição de autor, de Abril de 2016, “O Discurso dos pássaros”, dividido em duas partes, “voo sem asas” e “o poeta em frágeis aspirações”, persuadimo-nos de que o poeta inventa a luz, inventa os mitos, as metáforas de solidão e medo e ganha asas com o gesto da criação, acto de transfiguração do silêncio e do vazio. A sua voz nasce da imensidão do verso por entre as sombras de um tempo inócuo e remoto onde a palavra de deus se tornou inaudível mesmo quando o sonho se disseminou magicamente pela memória.
O poeta não teme arriscar a procura da palavra inicial, a palavra-embrião que encarna o sonho e a angústia, o fogo da inquietação e a liberdade, a indigência e o silêncio da morte. É o tempo do poeta! É o tempo de haver uma efabulação fecunda com palavras que valem mais que as profecias dos deuses ausentes, ou vazios, ou inventados sobre o mistério dos infinitos céus que escondem a vegetação de novos paraísos. Ao poeta só interessa o “ofício” de cavar o chão rochoso e agreste e sentir o sabor que nas mãos fica por dos dedos nascer a poesia. O que há de mais puro no coração ávido que anseia a água da vida e o ser, senão a poesia! O que há de mais humanamente verdadeiro e livre, senão a poesia!
Como escreveu Eduardo Lourenço “O acto que define o homem como criador é o acto poético, a poesia. O que os poetas fazem, fundamentalmente, são variações infinitas sobre esse objecto, o tempo, que é mais esfíngico que todas as esfinges, porque é ele que nos olha no fundo dos olhos sem dar resposta. A resposta somos nós que temos de dar com a nossa vida, com a nossa existência.”
O conjunto da obra poética de AG, com um total de 9 livros - trazidos a este encontro de um modo não sistematizado, a-cronológica, quase-estético e incompleto -, apresenta-se como um repertório de grande riqueza poética e humana, muito multifacetado tanto em relação às opções formais, como no que se refere aos alvos da sua reflexão filosófica, psicológica, social ou apenas no plano literário – sempre numa cadência viva, com pausas respiratórias que nos ajudam a entrar no jogo subtil da luta de contrários e na partitura poética, na qual o “poeta-artesão” inscreve, com incansável rigor, as imagens, as metáforas e a geografia onírica de uma peregrinação, transitando, por vezes, de poema para poema ou de livro para livro. AG conhece e manuseia com mestria as leis de desencadeamento da emocionalidade numa combinação balanceada com o acto racional.
Percorremos a extensa obra de AG que não obstante o conhecimento que da mesma já possuíamos, não deixou de nos impressionar intensamente, sendo surpreendidos a cada nova leitura pelo avistamento de outros horizontes, imprevistos até então, e, claro, pela descoberta do segredo do fogo do seu lirismo racional!
Aquele fraterno abraço, amigo Alvaro Giesta
                                                                                                                      José Baião Santos
Outubro – 2018

O DESTINATÁRIO DO POETA

[foram estas as minhas palavras para os queridos leitores e leitoras presentes nesta assembleia no dia do lançamento de O Sereno Fluir das Coisas (poesia]


          Diz Mário de Carvalho, no seu livro "Quem disser o contrário é porque mente", que "são precisos dois para dançar o tango". Gentil Martins dizia há dias em entrevista à Rádio Renascença que o elemento mais importante da equipe cirúrgica é o anestesista.                

          Ora, aqui tenho duas figuras - o par do tango e o anestesista de que me vou servir como arquétipos para dizer que, mais importante que o escritor, no caso vertente o poeta, é o leitor. De que serve ao poeta escrever versos se não tiver o leitor? Mas, o bom leitor. Este é o destinatário do poeta - aquele que o poeta pretende sujeitar a si sem o  subjugar, sem que seja à medida do leitor impingindo-lhe o produto. 

copyright da imagem Jose Fernando Delgado Mendonça

          O leitor inteligente e criativo, o que não se quer ver diminuído enquanto bom leitor, de imediato rejeita esse poeta, esse escritor que o subjuga, que lhe impinge o produto, porque o bom leitor não se deseja ver desprestigiado enquanto tal. E há tantas maneiras de sujeição - usa-se muito por mensagens particulares no facebook, por exemplo, antes de submeter o poema à leitura pública.
          Esse leitor menos atento ou menos inteligente que não se quer dar ao trabalho de pensar para criticar, "embarca" nesses cantos de sereia, e aplaude porque o vizinho aplaudiu, e "gosta" sem saber se gosta do que lê, quando o lê, porque também "gosta" sem gostar do que lê, simplesmente porque "gosta" da cara daquele que lhe impinge o produto ou porque não quer desagradar, mesmo não gostando.
          O escritor quando escreve, o poeta que faz poesia, não é para si que escreve, que faz versos, mas para o leitor que o deve julgar sem sujeição. O bom leitor, - o bom par de dança que conduz harmoniosamente no tango; o bom e atento anestesista que garante a cirurgia com êxito. O bom leitor é o melhor crítico que o escritor tem. Também o leitor espera do escritor, do poeta, um espírito criativo que o leve a distanciar da falange vulgarizadora que, sem crivo, escreve banalidades do senso comum não confundir "senso comum" com "bom senso".
          Então, o leitor faz assim tanta falta ao poeta, se o acto de escrever é um labor solitário? Será que eu preciso mesmo do leitor (?) para escrever, enquanto me debato, sozinho, com a página em branco num sótão fechado a cheirar a mofo e a mijo de gato? Claro que isto é poético, porque o poeta de hoje já não precisa da solidão irrefragável para escrever. A solidão irrefragabilis de que os poetas necessitam para fazer versos, é falsa. Hoje há poetas que escrevem entre garrafas de cerveja vazias, escrevem entre os comentários que vão deixando, aqui e ali, aos amigos do facebook que vão lendo (e às vezes plagiando), escrevem no meio da refrega de qualquer evento a que assistem, muitas vezes apontando num caderninho restos de versos que apanham no ar para depois os enquadrarem - e mal enquadrados em poemas seus.
          Pois eu preciso, tanto do leitor que me lê e me critica com intenção séria, como do silêncio para escrever. Porque é no silêncio que eu medito enquanto crio, é a voz do silêncio que funciona no meu íntimo criador como motor imóvel, mas que (me) faz mover no tempo de criação. Em mim, o acto de escrever é um labor solitário que exige, enquanto escrevo, que esteja só, ausente do tumulto, do ruído, o estridente que me atropela as ideias por isso escrevo sempre entre as duas e as cinco da manhã. No silêncio me refugio para escrever, mas não vivo em solidão. Esse ruído estentóreo, que retumba e atordoa, nada tem a ver com o som o som é uma percepção sensorial musical que até o silêncio tem; a voz do silêncio tem frequências que se harmonizam e me transportam a estados de alma que me ajudam, enquanto poeta, neste acto de criatividade. Mas não chamo a isso "inspiração".

          Apenas um parentese para fazer notar que eu digo "criatividade" e não "inspiração" porque, não acredito em inspiração; para mim, a inspiração não existe, porque não há musas, nem deuses, nem tágides, nem qualquer outra divindade celestial oculta e estranha a mim, a soprar-me os versos ao ouvido, a ditar-me a força da palavra. Para o que escrevo sirvo-me daquilo que imagino, que idealizo e daquilo que os meus olhos e sentidos veem e sentem. A minha inspiração é a palavra, é o labor "transpirado" com que a ergo nesse silêncio em que medito... e, se há algo a que possa inadequadamente e injustamente chamar "inspiração", quando esse fervor de criar vem do "favor" de outrem, colhido de outrem, sem o plagiar, isso chama-se "influência" - e essa influência também me angustia enquanto aprendiz do Mestre; este, sim, é o criador genuíno que não sofre a angústia da influência de que fala Harold Bloom - mas, criadores genuínos, há poucos.

          Entro em pânico ao enfrentar a página em branco, se não encontro a palavra certa para iniciar a frase, para começar o verso que me servirá de arranque e impulsionará ao longo do papel. É nestas alturas do pânico da página em branco - em que a criatividade me falta, que eu receio defraudar o meu parceiro de escrita, o meu par para dançar o tango: você, caro leitor...

          ...aqui presente, a quem agradeço por ter vindo, por estar aqui, hoje, comigo e com os poemas deste "... Sereno Fluir das Coisas", que afinal, são seus. Obrigado.

Alvaro Giesta
10 de Outubro de 2018

Prolegómenos sobre “Na Teia do Esquecimento” de Antero Jerónimo

Doem-me as mãos com que te escrevo estes versos… É do peso da espingarda, é do canto que se obrigam a escrever ...