26/07/14
O Retorno ao Princípio
RETORNO?
“Com a razão apareceu, necessariamente entre os homens,
a certeza assustadora da morte”
Arthur
Schopenhauer
"O que extingue a vida e os seus sinais, não é a
morte, mas
o esquecimento. A
diferença entre morte e vida é essa."
José Saramago
Chegamos ao dia da
reconciliação com os nossos enigmas, subimos a bordo e ocupamos o lugar que nos
foi destinado na barca de Caronte, para atravessar “o lago escuro da noite”, onde
“se ergue/a transparência da solidão” e se anuncia um novo dia que se separa do
corpo, sombra da alma – cinza envolta na luz -, “matéria extinta” que nos
redime da descrença e eterniza o silêncio da terra sem tempo, nem êxtase. Almas
que se erguem do silêncio do profano,
sedentas de glória, com a mesma compaixão com que admiramos o sacrifício
daquele que se deixou vilipendiar e
foi, por fim, vencido. Escreveu Franz Kafka que “No cais ninguém prestou atenção
aos recém-chegados (…) ”. Responde-nos Alvaro Giesta: “aqueles que nunca
beijaram” porque o mar emudeceu à sua volta. Também na vida nem sempre dão por
nós, pela nossa passagem de revoltado
animal, decididos a procurar na praia os vestígios de um olhar divino desaparecido
na concavidade azul das areias; olha-se vagamente a sombra do corpo na plenitude da luz que se liberta do
infinito e atravessa aquela nesga
apertada entre dois ponteiros do velho relógio – é a vida! - que assinala a
superfície do tempo estagnado para
evocar a perene ausência, depois de ascendermos até ao alto da colina e
testemunharmos o golpe letal da espada da justiça, despedaçando a nossa carne inocente,
enquanto alguém chora nos braços de uma cruz.
“é o retorno à vida” que
nos impele para fora da penumbra suspensa da árvore que “atravessa/o ciclo da
vida” quando se abre a porta que deixa entrar o vento das montanhas, “o sulco de luz” que arrasta os corpos
nus para um sono, agora sem retorno, devido ao cansaço e à dor, e nos faz
cativos “dos lábios da terra/da espuma branca sem mar/da sede, da fome, do frio”.
Os insensatos dias que sucedem ao despontar da lucidez trazem a descrença e os
caminhos parecem-nos inúteis. O “mundo tornou-se pobre e vazio” (Sigmund Freud). Vagueia-se na noite de amargas melodias para expulsar os pesadelos e recuperar o timbre dos sonhos
por sonhar que tanto pode ser a estrela
fugidia, ou o princípio infinito,
ou o tempo do ser, num mundo injusto,
inefável, agonizando à medida que se aprofunda o afastamento dos fulgores secretos que acendem os
símbolos elementares da vida.
Que sentido ontológico
tem, neste trilho poético, o ser que espreita o abismo dentro de si mesmo, não
por efeito da incandescência da alma ou de um acto repousado da
consciência? A resposta poderá estar na percepção daquele momento decorrido entre
a vigília e o sono, do absoluto vazio, espaço de refúgio “em que coincidem/a
sombra e a luz” e que nos informa que “(…)
o ser é vazio de toda a determinação que não seja a da identidade consigo
mesmo” (in “O Ser e o Nada” Jean Paul Sartre).
“naufraga-se num sono/eterno”
e o corpo “ascende ao princípio”,
escreve indelevelmente o poeta na sombra do abismo, porque a abolição de todas
as fronteiras ente a vida e a morte, porta
aberta ao retorno do ser, projecta o espaço livre que ganha maior nitidez através
do movimento, da incandescência, transmitidos pela alma ao corpo antes deste atingir
o seu estado de maturação. E assim aperfeiçoa o seu tempo do ser, conforme
vimos anteriormente!
Organicamente “o
Retorno ao Princípio”, revela-se ao leitor sob uma dupla face: MORTE e VIDA. Quer a Morte - invisível
lucidez que apaga alguns dos sinais
de uma travessia, repouso fatal, reacendimento das almas, “prenúncio de um novo
dia” -; quer a Vida - sonho por desvendar, beijo de fogo no silêncio, espuma branca, grito na escuridão, medo
da morte disfarçada, entrando em nós como um punhal -, concedem-nos um
sentimento de amor à palavra vertida no sangue que enfrenta mistérios e ritos, e
persistentemente renova o nosso destino, “caminho/à
beira-lágrima/onde um deus se perdeu”, chão pisado de memórias indesejadas.
Partilhamos vida e morte, num só movimento do tempo, vagueando como duas aves na
palma da mão dos infinitos céus, enquanto
a clarividência da palavra dos deuses não é senão uma metáfora sobre o império
da fé que por milénios nos tem servido de guia e nos tem dividido. O nosso
destino é o sol-infinito instalado no
espaço vazio e frio da morte, onde o ser “contradiz-se e faz-se/de novo abismo”.
O acto poético apresenta-se nestes versos de engenhoso compromisso de Alvaro Giesta,
como mediação de sentido do inatingível, voz silenciosa entre dois mundos opacos,
dois lugares tão próximos quão longínquos pontuados de muitas incandescências –
da alma, do sonho, e das ausências do corpo e da divindade!
Escreveu o Prof. Eduardo
Lourenço, no já distante ano de 2000 sobre como falar de poesia: “Vendo bem,
foi para dar voz a um excesso de sentido que a poesia nasceu: excesso de
entusiasmo para nos celebrar como deuses imaginários do nosso destino ou melancolia de não ser
esse mesmo deus que no fundo sabemos ser. É sempre a sós connosco que vivemos
estes abismos que nos medem.
Os deuses são a sombra deles. Mas não conheceríamos essa incandescência de nós mesmos sem os imaginarmos.”
Cada uma das partes, Morte e Vida, de que se compõe a
obra expande-se por “terreno alheio”,
como se de terreno próprio se tratasse. Nisto reside o processo da diálectica
Vida-Morte que cimenta a edificação lírica. Na realidade o que o poeta procura
em cada uma das partes, é a parte
correspondente à outra, enquanto resultado de uma certa complementaridade. Por
isso, Morte e Vida, nem sempre se apresentam como faces antagónicas do ser, a substância
perecível que incorpora o princípio e
precede a ausência do corpo.
“tu e eu somos duas partes
da mesma
parte
deste
ser”
(…)
Alvaro
Giesta
Fazendo, por vezes, uso
de algum mimetismo de valores simbólicos, comumente aceites pela metafísica e
no plano religioso, como se estivesse na iminência de se inclinar “sobre o fim/prestes a ser/princípio”, o
poeta perscruta as entranhas da morte, a matéria diáfana que emana “do âmago
do nada/existente/entre a penumbra e a luz”. Enquanto isto, algures, o
sémen da vida vai transformando o universo desconhecido e intemporal em verbo.
Terá dito, já lá vai
tempo, o escritor Lobo Antunes que ninguém sabe o que é a morte, mas que não
faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.
Como última nota quero deixar-vos,
caros leitores, o meu agradecimento ao poeta Alvaro Giesta por me ter convidado
a integrar esta expedição “Vida-e-Morte”, o que me permitiu entrar na sua
órbita poética, na qualidade de atento satélite errante. Aquele abraço
fraterno!
José Baião Santos Abril 2014
O Retorno ao Princípio (uma dialéctica Vida-Morte), Editora Calçada das Letras, 2014.
Uma opinião da filósofa Zélia Chamusca:
«Estamos perante uma obra poética que só um genial poeta pensador, como Alvaro Giesta, poderia ter criado.
Uma opinião da filósofa Zélia Chamusca:
«Estamos perante uma obra poética que só um genial poeta pensador, como Alvaro Giesta, poderia ter criado.
Trata-se de um ensaio
filosófico apresentado sob a forma poética sobre o tema "O
Retorno ao Princípio numa
Dialética Vida-Morte", em que todo o pensamento desde o princípio ao
fim da obra se desenvolve na mesma linha lógica de raciocínio sem quaisquer
desvios do fio condutor do "retorno ao princípio".»
para destino enigmático,
do âmago do corpo
extenuado,
a alma sedenta de glória
noutro céu.
a barcaça da morte
atravessa
o lago escuro da noite
onde tudo acaba
e tudo começa.
exaurido
todo o tempo anterior,
refulge
prenúncio de novo dia.
(para depois no poema seguinte
nos dizer que):
______
a substância
em maturação,
inclina-se
no seu propenso vagar
para a glória da
morte,
e dela
em glória renasce
em novo dia.
do seu fim
acontece todo o
princípio.
deslumbra-se,
do corpo que se
desintegra
agora,
a alma
que se difunde no
abstracto
devir.
"
(...) Um dos "papéis" da arte poética é expressar sentimentos humanos
e transmitir, de forma subjectiva, aspectos da nossa realidade – medos,
angústias, anseios, desgraça, pobreza... tudo quanto seja marginal e que, a
maioria dos nossos poetas de hoje fogem a retratar.
O
novo, o desconhecido, é algo que nos assusta enquanto seres humanos em quem o
receio está presente, em quem a expectativa é uma constante aliada ao medo da
dor e da dor na morte que ela nos possa causar. E como vamos nós pensar nesse
desconhecido que começa onde a vida acaba e a morte começa?
No
fazer poético de alguns poetas, a Morte não é o fim de um ciclo. Ela é
transmutação. É apenas o trânsito, a passagem breve para outra vida, passagem
ainda que fatal, pela fatalidade que o fenómeno Morte encerra, um ponto de
passagem, obrigatório para todos os seres vivos. É apenas a passagem para outra
vida, com princípio no próprio fim. Ela é, não deixando apenas de ser o fim,
também o princípio que começa onde esse fim termina.
Enquanto
poeta Alvaro Giesta, a liberdade da palavra, no uso poético que lhe é dada,
permite-lhe, em O Retorno ao Princípio,
filosofar acerca da morte. A morte, que é a garantia da ordem no mundo dos
homens, que é o que concede o diálogo, pois, no mundo humano adquire-se a vida
através da morte. Só, assim, a vida tem sentido.
O
filósofo Maurice Blanchot dizia que "a morte é a base de todo o alicerce
humano diferentemente do que ocorre no mundo literário". No texto poético
as palavras adquirem uma maior liberdade pela soma inesgotável de temas que se
nos propõem à imaginação trabalhando a matéria desses temas com a arte poética
que eles merecem. Daí que, considere, que não há morte em literatura. A
impossibilidade da morte diz respeito ao não-fim. Ou seja, a finalidade da
morte que nos surge diariamente na linguagem normal das evidências, não existe
na linguagem poética. Mesmo quando poetas como Fernando Echevarría nos dizem
que a morte é o fim e que, para além da morte nada mais há senão o fim; o nada;
o vácuo.
Mas
é exactamente esse fim poético que vai dar origem a novos olhares na poética de
Alvaro Giesta, no tema Vida-Morte, à tal "espuma" de Echevarría que lhe foi princípio. Porque, no seu
entendimento, é no nada e do nada que nasce a linguagem poética; é aí, no
preciso lugar "onde a luz e a obscuridade coincidem e se
transformam", que se dá o acto inaugural da palavra. À semelhança, e
contrariando Echevarría que na sua linguagem mais filosófica que meta-poética
diz que para além da morte nada mais há senão o nada, a morte, em Giesta, é o retorno
ao princípio a partir do nada onde se dá o acto inaugural da vida.
A
linguagem poética, neste caso na enfatização da morte pela palavra, não procura
uma finalidade, uma explicação, não procura atingir algo, atingir um fim -
isto, é para as religiões e seitas. Na linguagem poética a palavra não morre. A
palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque "a palavra é a vida dessa morte",
como nos diz o filósofo Maurice Blanchot e o poeta Alvaro Giesta, num dos
poemas iniciais de O Retorno ao Princípio.
(...)"
do posfácio à obra por
Fernando. AlmeidaReis, ortónimo
Sinopse da obra "O Retorno ao Princípio" de Alvaro Giesta
-Editora Calçada das Letras, 2014
<< (...) O Retorno ao Princípio, “é o retorno à
vida” que nos impele para fora da penumbra suspensa da árvore que “atravessa/o
ciclo da vida” quando se abre a porta que deixa entrar o vento das montanhas, “o sulco de luz” que arrasta os corpos
nus para um sono, agora sem retorno, devido ao cansaço e à dor, e nos faz
cativos “dos lábios da terra/da espuma branca sem mar/da sede, da fome, do
frio”. Os insensatos dias que sucedem ao despontar da lucidez
trazem a descrença e os caminhos parecem-nos inúteis.
Que sentido ontológico
tem, neste trilho poético, o ser que espreita o abismo dentro de si mesmo, não
por efeito da incandescência da alma ou de um acto repousado da
consciência? A resposta poderá estar na percepção daquele momento decorrido
entre a vigília e o sono, do absoluto vazio, espaço de
refúgio “em que coincidem/a sombra e a luz” e que nos informa que “(…) o ser é vazio de toda a
determinação que não seja a da identidade consigo mesmo” (in “O Ser e o Nada” Jean Paul Sartre).
“naufraga-se num
sono/eterno” e o corpo “ascende ao princípio”,
escreve indelevelmente o poeta na sombra do abismo, porque a abolição de todas
as fronteiras ente a vida e a morte, porta
aberta ao retorno do ser, projecta o espaço livre que ganha maior nitidez
através do movimento, da incandescência, transmitidos pela alma ao corpo antes
deste atingir o seu estado de maturação. E assim aperfeiçoa o seu tempo do ser...
(...)
Organicamente O Retorno ao Princípio, revela-se ao
leitor sob uma dupla face: MORTE e VIDA. Quer a Morte - invisível lucidez que apaga alguns dos sinais de uma travessia, repouso
fatal, reacendimento das almas, “prenúncio de um novo dia” -; quer a Vida -
sonho por desvendar, beijo de fogo no silêncio, espuma branca, grito na escuridão, medo da morte disfarçada,
entrando em nós como um punhal -, concedem-nos um sentimento de amor à palavra
vertida no sangue que enfrenta mistérios e ritos, e persistentemente renova o
nosso destino, “caminho/à
beira-lágrima/onde um deus se perdeu”, chão pisado de memórias indesejadas.
Partilhamos vida e morte, num só movimento do tempo, vagueando como duas aves
na palma da mão dos infinitos céus,
enquanto a clarividência da palavra dos deuses não é senão uma metáfora sobre o
império da fé que por milénios nos tem servido de guia e nos tem dividido. O
nosso destino é o sol-infinito
instalado no espaço vazio e frio da morte, onde o ser “contradiz-se e faz-se/de
novo abismo”. O acto poético apresenta-se nestes versos de engenhoso
compromisso de Alvaro Giesta, como mediação de sentido do inatingível, voz silenciosa
entre dois mundos opacos, dois lugares tão próximos quão longínquos pontuados
de muitas incandescências – da alma, do sonho, e das ausências do corpo e da
divindade!
Cada uma das partes, Morte e Vida, de que se compõe a
obra expande-se por “terreno alheio”,
como se de terreno próprio se tratasse. Nisto reside o processo da diálectica
Vida-Morte que cimenta a edificação lírica. Na realidade o que o poeta procura
em cada uma das partes, é a parte
correspondente à outra, enquanto resultado de uma certa complementaridade. Por
isso, Morte e Vida, nem sempre se apresentam como faces antagónicas do ser, a
substância perecível que incorpora o princípio
e precede a ausência do corpo. “tu e eu somos duas partes / da mesma
parte / deste ser”.
Fazendo, por vezes, uso
de algum mimetismo de valores simbólicos, comumente aceites pela metafísica e
no plano religioso, como se estivesse na iminência de se inclinar “sobre o fim/prestes a ser/princípio”, o
poeta perscruta as entranhas da morte, a matéria diáfana que emana “do âmago
do nada/existente/entre a penumbra e a luz”. Enquanto isto, algures, o
sémen da vida vai transformando o universo desconhecido e intemporal em verbo. (...)>>
do prefácio à obra por Dr. José Baião Santos
25/06/14
O retorno ao Princípio
eis o enigma do ser:
na profundidade enigmática da sombra
o ser
que em incandescência traz a alma
é
e rejubila.
intranquila
a alma,em todos os dias inquieta
se interroga e interroga a fé.
morre na esperança de ser
eterna
sem saber para quê;
sucumbe no silêncio do profano
em busca dos céus
em que já não crê.
neste luto lapidar
digladia-se no ser o seu espaço
interior
e abre em vulcão e sismo;
desavindo
o ser contradiz-se e faz-se
de novo abismo.
Alvaro Giesta, in O Retorno ao Princípio, Editora Calçada das Letras, 2014
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